Dez 08

Cimeira euro-africana

Neste dia da Senhora da Conceição, rainha de Portugal, e de cimeira euro-africana, a maior das cumeadas políticas até hoje realizada em Portugal, apenas se confirma que a falta de justiça na distribuição da riqueza é directamente proporcional às degenerescências da política, como são, e sempre foram, as tiranias, as oligarquias e as ditaduras das maiorias, para não falarmos nas variantes da cleptocracia, do nacionalitário, do tribalismo, dos senhores da guerra e do fundamentalismo. Por isso, começo por encimar este postal com a Acta Final da Conferência de Berlim sobre a partilha de África, de 1885, onde não faltou o próprio imperador dos otomanos. Não nos incomodemos com as polémicas mugabianas ou com o espectáculo de Kadafi, com as suas tendas, amazonas e tiradas, onde não faltou conferência universitária, mas sem que um reitor lhe dissesse, olhos nos olhos, o que um reitor norte-americano disse ao presidente do Irão, em situação paralela. Ficou o pedido líbio sobre a urgente necessidade de os europeus indemnizarem os africanos por causa da colonização. Tal como os descendentes do Império Romano e dos reinos bárbaros poderiam solicitar idêntica indemnização aos invasores árabes. Ou um lusitano reclamar coisa parecida à República Italiana pela morte de Viriato. Para não falarmos nos bantos que se estabeleceram em Angola depois da chegada de Diogo Cão à foz do Congo. Por mais cuidada que tenha sida a preparação desta cimeira, não é desta que podemos assinar um projecto de reconstrução de uma comunidade de destino no universal, capaz de ultrapassar as vergonhas naturais geradas pela Conferência de Berlim, em nome de Deus todo poderoso. Apesar de nem todos lermos a cartilha de Frantz Fanon, ainda não é possível apagarmos as memórias da escravatura e o travo amargo da revolta, do sangue e da derrota, nesse África, Adeus, com muitos fantasmas e preconceitos, tanto da guerra como do ódio racial. Basta notar as muitas pequenas histórias que todos vão recontando, sobre os processos do colonialismo e da descolonização, entre as guerras coloniais e as guerras civis que todos fomos semeando. E não há missões civilizadoras, laicas ou cristãs, bem como cooperações, negócios, ONGs, acordos culturais, ou parcerias para investimentos que sejam suficientes para podermos olhar o sol de frente. Isto é, a reconstrução da necessária comunidade de significações partilhadas que faça, do Mediterrâneo e do Atlântico, os mares interiores de uma construção conjunta. Por outras palavras, há sempre consequências domésticas dos grandes actos internacionais. E nada pior do que os essencialismos, tipo homem africano ou homem europeu. Como se eu fosse otomano, ou o líbio fingir-se de bosquímano. O que não subscrevo é o recente discurso de Sarkozy em Dakar: le drame de l’Afrique, c’est que l’homme africain n’est pas assez entré dans l’histoire…jamais il ne lui vient à l’idée de sortir de la répétition pour s’inventer un destin… (26 de Julho). Em vez do hegelianismo de direita, prefiro o teilhardiano Senghor e não quero reclamar a Paris indemnizações por ter napoleónicas intervenções armadas, com provados roubos e violações. Prefiro a Europa unida e a cooperação euro-africana, mesmo que haja brumas na memória.