Dez 18

Ousando chegar a Deus só a pensar

Há entre estas três imagens uma data comum. A de hoje, em 1879, 1913 e 1951 e a do eterno sosltício de quem quer viver como pensa. Por isso, agradeço ao Valdemar e a Terpsichore os acasos de uma recordação. E não apetecem mais palavras sobre as presentes circunstâncias do tempo e do lugar.

Eu que tive a ilusão de romper

certas algemas da vida,

pois lera, nos livros sagrados,

os sinais da salvação,

não consigo, agora, dobrar

os ferros da solidão.

Filho de Sócrates e Descartes,

analítico, ousei singrar

nessa ilusão bem humana

de chegar a Deus só a pensar.

E, rendilhando paradigmas,

no pensar do pensamento,

por tanto ousar duvidar,

já não sei rezar sem racionalizar.

Homem crescido,

e como tal reconhecido,

pelo papel selado

das certidões oficiais,

nem sequer posso voltar

às nostálgicas certezas

do colo de minha mãe.

Na escola onde, outrora, fui aluno,

eis-me, agora, professor,

neste meu ter de ensinar,

entre as coisas que aprendi,

tantas coisas que não sei.

Nosce te ipsum!…

Cogito, ergo sum!…

Erudito e letrado, feito doutor,

na própria cátedra já assentado,

confesso ter lido, e relido,

montanhas de papel inanimado,

bibliotecas inteiras

de pensamento pensado.

E, de tanto recolectar

fragmentos, fichas e rodapés,

que, muito hierarquicamente,

fui classificando,

como engenheiro de conceitos,

nas teias sistémicas

de uma qualquer teoria,

foi do próprio espaço vivido

que acabei por me esquecer.

Essa máxima universal

de todos sermos iguais,

de todos podermos ter,

pela simplicidade dos sinais,

um conhecimento modesto

sobre as coisas mais supremas.

Por muito procurar,

fora de mim,

o que, por dentro,

guardava,

fiquei, assim,

encruzilhado.

Mas, de tantos planos inacabados,

aprendi, pelo menos, a duvidar

das próprias regras do método,

daquele pretenso rigor,

muito axiomaticamente dedutivo,

que, por lei, dizem que sei.

Dez 18

Há histórias da história que nunca esquecem

Há histórias da história que nunca esquecem se as tivermos vivido como meninos. Foi o que me aconteceu no dia em que fiz dez anos de vida, então moldado pela propaganda salazarenta . Tinha acabado de passar da terceira para a quarta classe do ensino primário, num ano intenso da minha formação pessoal, entre a escola primária do Arco de Almedina em Coimbra e a frequência da Igreja de Santa Justa dos padres capuchinhos, numa cidade que vivia a crise universitária e onde o meu professor até era um estudante de direito que nos levava o “Paris Match” e nos falava da guerra da Argélia. Recordo esses tempos do meu tempo, depois de tomar notas dos incidentes que rodearam o doutoramento “honoris causa” de Cavaco pela universidade de Goa e os artigos com que a imprensa brindou Narana Coissoró. Daí que volte à secura das linhas com que contemplei o dia 18 de Dezembro de 1961 no meu “Tradição e Revolução”: Parlamento da União Indiana declara anexados os enclaves de Dadrá e Nagar-Aveli (11 de Agosto). Nota do Ministério dos Negócios Estrangeiros anuncia que o parlamento de Nova Delhi aprovou a integração dos territórios no território da União Indiana (16 de Agosto). Conferência de imprensa de Franco Nogueira sobre a matéria (6 de Dezembro). Tomás recebe em audiência Salazar (10 de Dezembro). Voltam a reunir-se em 14 de Dezembro. União Indiana invade Goa (8 horas de Lisboa, 0 horas, locais de 18 de Dezembro). Na defesa de Diu, morre em combate o tenente Oliveira e Carmo, que não era salazarista, comandante de uma lancha que, antes do infausto, em reunião com os subordinados, proclama: fazemos parte da defesa de Diu e da Pátria e vamos combater até ao último homem e até à última bala. Nessa noite, cortejo de silêncio em Lisboa. Diz então o cardeal Cerejeira: Portugal não morre, mas a perda da Índia Portuguesa levar- lhe- ia parte da sua alma. Dirá, trinta e três anos depois, Narayane Kaissare: o então ministro da Defesa Krishna Menon ordenou a invasão militar como um acção eleitoralista, poucos dias antes das eleições em Maharashtra. O oposicionista Carlos Sá Cardoso, fundador do MUD, escreve carta para ser publicada no jornal República, onde reconhece: na mais amarga hora de toda a minha vida de português, peço-lhe que permita a um democrata, inteiramente oposicionista e sem responsabilidade nos actuais acontecimentos, que manifeste publicamente, pondo de parte neste momento a discussão das responsabilidades, toda a sua profunda tristeza e o seu veemente repúdio pelo criminoso ataque à nossa Índia com o único e traiçoeiro fim da anexação. A missiva acaba por não ser então publicada, devido às instâncias de Mário Soares e Ramos da Costa.