Dez 05

Paroquialismos, vacas sagradas e dilúvios que o não são

Todos temos uma pequena pátria, incluindo os que foram obrigados a migrar para esta cidade feita por subscrição nacional, a que chamamos Lisboa. A minha pátria é a casa onde nasci, a que está à esquerda da Sé, a encerrada maternidade Bissaya Barreto que servia de plataforma entre a cidade dos futricas e a dos doutores. Paroquialismo, por paroquialismo, prefiro as serenatas da Sé Velha. Os senhores burocratas e partidocratas, sejam chefes de segunda ordem, directores, autarcas, ministros ou eurocratas, são especialistas em eternos erros de cálculo. Porque não conseguem adaptar a prospectiva à conjuntura e vão dando, a esta, o nome de estrutura. A única certeza que podemos ter não está na futurologia das circunstâncias, mas antes em procurarmos o eixo de eternidade em torno do qual vai circular a roda da história. Porque não é a história que faz o homem, mas antes o homem que faz a história, mesmo sem saber que história vai fazendo. E não há nada de mais historicamente comprovado do que o falhanço das sucessivas “révolutions d’en haut”, programadas pelos errados “catecismos dos industriais” com que nos querem escrever antecipadamente as novas religiões da humanidade, em nome da “ordem e do progresso”. Porque a história não é o produto das boas, ou más, intenções de um, ou de alguns dos homens, mas antes o resultado da efectiva acção de todos os homens. Logo, torna-se urgente uma nova engenharia de desconstrução dos gnosticismos que nos enredam, principalmente dos neodogmatismos, ditos antidogmáticos, que ocuparam os livros de estilo do pensamento único que nos continua a adiar, embora vá engordando em aparelhismo. Quando precisávamos de mais calcificada estrutura óssea, de mais agilidade muscular, de mais flexibilidade cerebral. Para podermos regressar à razão inteira, àquela razão complexa que nunca decepou o lume da profecia.