Dez 13

Com muitas saudades de futuro

Hoje é dia dito de festa, pelo Tratado dos Jerónimos, à beira Tejo. E a cidade de Lisboa associou-se ao evento, com transportes gratuitos, bandeirinhas e os museus de porta aberta, sem bilhete de entrada. Sócrates e Amado, cansados, mas felizes, esqueceram a cena de ontem no parlamento europeu, com aquela meia dúzia de membros de um rancho folclórico que, não obedecendo aos ditames das duas principais multinacionais partidárias da Europa, exigiram que os povos referendassem o tratado. O primeiro, até logo os carimbou de “anti-europeus”. E com toda a razão. Pelo menos, o povo português apenas está dividido entre o Senhor Feliz e o Senhor Contente.

Hoje, o dia começou com um belo encontro com uma fiscal da EMEL que me queria multar. Porque ainda não tinha mostrado o papelinho das moedas. Perdoou-me porque o trazia na mão, mas disse que seriam trinta euros, porque ele, que era ela, era mesmo da verde EMEL e, portanto, mais cara do que os multadores concessionados, vestidos de castanho, dado que estes apenas levam cinco euros. Tentei lembrar-me do que diz a constituição e a carta dos direitos fundamentais, mas sorri. Entrei no café e logo a Paula, a dona, nos anunciou que aproveitássemos os dias que restam para fumarmos um cigarrinho, porque até nas celas das prisões vai chegar a higiene. Sentámo-nos e reparei que circulava uma petição contra a ASAE, a partir do texto de um antigo ministro do comércio que chegou a tutelar a polícia económica, o socialista António Barreto. Continuei a sorrir com as maravilhas da nossa idade e, em protesto, decidi não hastear a bandeira das doze estrelas na varanda.

Abri o jornal e reparei que, nesta operação de regulamentarice, os controladores constitucionais vão acabar com mais de duas dezenas de ranchos folclóricos a que dávamos o nome de partidos, isto é, os que, nos próximos noventa dias, não conseguirem obter o comprovativo de mais de cinco mil filiados. Mais sorri com esta operação de limpeza que vai transformar as próximas campanhas eleitorais em intensos combates entre Monsieur Dupont, o tal feliz, e Monsieur Dupond, o tal contente, mesmo que apareçam os habituais “caniches” anti-sistémicos, mordendo nas canelas do folclore, para que o folclore continue. As duas grandes multinacionais partidárias têm assim a porta aberta para que se constituam sucursais, correias de transmissão ou MDPs e Verdes dos quatro grandes. Nunca mais o Boavista poderá ganhar um campeonato, nem o Atlético ir vencer o Porto.

Apesar de tudo, continuo triste. Tive novas de um velho amigo em luta pela vida na cama de um hospital. Ainda há dias trocávamos cartas, onde ele me remetia um seu último escrito e a que logo respondi: Claro que já li o prefácio. Para aprender. E para elogiar. Sobretudo pelas provocações que me gerou. Primeiro, a falta que faz um manual de memória estratégica do Portugal Universal. Sobretudo, para tratar da heterodoxia do abraço armilar. Por isso, recordei o lema que D. João II entregou ao futuro cunhado, quando lhe deu a armilar como símbolo: “spera, sphera, sperança”. Em segundo lugar, também recordar o plano estabelecido logo a seguir a 1640, visando a mudança da capital para o Rio de Janeiro, já programada por D. Pedro II. Em terceiro, para assinalar a jogada dos portugueses da terra de Salvador Correia de Sá para reconquistarem Angola, fundando uma nova São Paulo que agora apenas se conhece pela terminação “de Luanda”. E acima de tudo, a memória do José Bonifácio, o tal agente militar do Conselho Conservador que integrou um batalhão académico que resistiu a Junot. Porque sem a independência de Bonifácio não poderia continuar a América Portuguesa, sob o nome de Brasil. Claro que me apeteceu sonhar. Por exemplo na criação de um Instituto, ou numa Fundação, dita José Bonifácio de Andrade e Silva, visando a memória do abraço armilar e do reino unido que transformou o símbolo em binacional. E também me apeteceu outra provocação: a elaboração de uma história estratégica de Luso-Brasileira, onde se recolhessem estes heterodoxos que nos dão saudades de futuro. Espero que ele me dê resposta ao desafio. É a melhor maneira de comemorarmos o Tratado dos Jerónimos.

Dez 13

Em dia de pátria das pátrias, de novo o Quinto Império

Para que a minha identidade se associe à pompa desta circunstância, aqui deixo algumas sugestões:

- Triunfar ou perecer;

- Revolta sem palavras;

- Presença dos malhados;

- O mesmo em ritmo abrileiro;

- Revisto e actualizado.

Juntemos-lhe dois textos. De Camões:

Eis aqui, quase cume da cabeça

da Europa toda, o Reino Lusitano,

onde a terra se acaba e o Mar começa

Acrescentemos Fernando Pessoa:

A Europa jaz, posta nos cotovellos:

De Oriente a Occidente jaz, fitando,

E toldam-lhe românticos cabellos

Olhos gregos, lembrando.

O cotovello esquerdo é recuado;

O direito é em ângulo disposto.

Aquelle diz Itália onde é pousado;

Este diz Inglaterra onde, afastado,

A mão sustenta, em que se appoia o rosto.

Fita, com olhar sphyngico e fatal,

O Occidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

Porque:

A civilização a que todos pertencemos — entendendo por “todos” todo o mundo — assenta em três fundamentos, que a precederam. Esses fundamentos são a Cultura Grega, a Ordem Romana, e a Moral Cristã. Da Grécia nos vem o espírito e a forma da nossa cultura. De Roma nos vem o espírito e a forma da nossa política. Da religião de Cristo nos vem o espírito e a forma da nossa vida interior.

A estes três fundamentos originais da civilização, primeiro da Europa, depois do mundo inteiro, se ajuntou, desde o fim da Idade Média e princípio da Renascença, um quarto fundamento. É difícil de lhe dar um só nome, mas esse nome poderá ser a Liberdade Europeia, porque os três movimentos criadores que o formaram tendem todos, ainda que diversamente, para uma libertação do homem.

O primeiro movimento começou na Itália e constituiu, através da renovação do espírito grego, na destruição da fraternidade humana, quer pela formação de nacionalidades, quer pelo movimento anti-romano que, por um lado progressivamente destituiu a língua latina de língua da humanidade civilizada, e, por outro lado, preparou a reforma, que haveria de destruir a fraternidade católica da Europa. Assim a Europa se libertou do excesso de Roma e da Humanidade. É contra a humanidade que se faz todo o progresso; por isso é reaccionário todo o movimento, como o bolchevista, em que se pretenda introduzir a ideia fruste de humanidade.

O segundo movimento começou em Portugal, e foi o dos Descobrimentos. Pouco importa discutir se tal ou outro ponto da terra era ou não conhecido antes de o descobrirem os Portugueses. Os descobrimentos dos Portugueses não valem como descoberta, mas como sistema. Foi Portugal que primeiro sistematizou a descoberta e revelação do mundo. Sociologicamente, pois, os descobrimentos (sejam os de espanhóis, de franceses, de ingleses, ou de quem quer que seja) são todos portugueses. Historicamente, serão o que forem; a história porém não é nada, senão (não é mais que) o armazém de factos ou pseudofactos sobre os quais trabalhe a sociologia .

Repito o que, sobre a matéria, já editei:

Hoje a Europa tem uma bandeira azul, com uma coroa de doze estrelas, não uma estrela por Estado, mas o emblemático número doze, considerado símbolo da plenitude e da perfeição, como doze eram os filhos de Jacob, os trabalhos de Hércules, os signos do zodíaco, os meses do ano, os apóstolos ou a romana lei das doze tábuas.

Doze estrelas, como as da auréola de uma Virgem que aparece no vitral da catedral de Estrasburgo, uma mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos pés, tendo uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça (et in capite eius corona stellarum duodecim)…

Tudo muito conforme, aliás, com o capítulo XII do Apocalipse de S. João.

Compare-se o que a respeito escreve o nosso Padre António Vieira, onde se fala numa Mulher em dores de parto, dando à luz um Filho varão que, no entanto, há-de reinar sobre todas as nações do mundo com ceptro de ferro. Se um Dragão tenta tragá-lo, eis que ele acaba por ser arrebatado ao céu, onde acabará por assentar-se no trono de Deus. À Mulher se darão duas grandes asas de águia com que fugirá do Dragão. Virá depois um Cavaleiro, montado num cavalo branco, trazendo, na orla do vestido, a divisa rex regum et dominus dominantium, comandando um exército, também montado em cavalos brancos, que acabará por vencer o Mal, isto é, a bestialidade do Dragão e os falsos profetas que o seguem (Apologia das Coisas Profetizadas, organização e fixação do texto por Adma Fadul Muhana, Lisboa, Cotovia, 1994)

Interpretando tal passagem, o Padre António Vieira considera que se trata de um relato da emergência da Igreja do Quinto Império, onde se descreve a maneira da Igreja se coroar, e alcançar o Reino e império universal, onde a Lua é o Império Turco (ou o império dos que apenas têm poder temporal) e o ferro, a inteireza e constância da justiça e igualdade com que o mundo há-de ser governado.

Tratar-se-ia da procura de um poder que não está sujeito às inconstâncias do tempo, nem às mudanças da fortuna e que se há-de estender até ao fim do mundo. Porque só então chegará o corpo místico de que fala São Paulo, com Cristo a nascer de novo. O tal Filho, que tem o trono no Céu, tal como a Igreja tem uma coroa na terra.

Como Jean- Pierre Faye termina a sua antologia L’Europe Une. Les Philosophes et l’Europe, de 1992, também nos apetece citar a mesma passagem de Fernando Pessoa:

Grécia, Roma, Cristandade

Europa – os quatro se vão

Para onde vai toda a idade.

Quem vem viver a verdade

Que morreu D. Sebastião?