Dez 06

Só a moral é alternativa ao Estado a que chegámos

Reparo que o star system da Europa em movimento está bipolarizado entre o jogging de Sócrates, a tenda do líbio que vai conferenciar ao salão nobre da Clássica de Lisboa, depois de um anúncio de página inteira que comprou ao jornais mais intelectual de Lisboa, as brilhantes palavras do petroleiro revolucionário reduzindo a oposição ao substantivo com que ele encheu a boca e, acima de tudo, a grande frase daquele que hoje mais intusiasma os conservadores e socialistas da Europa, Sarkozy: Je ne suis pas un théoricien, je ne suis pas un idéologue, je ne suis pas un intellectuel: je suis quelqu’un de concret. Por mim, homem comum, pouco me entusiasmo com esta concretude. Não quero ter que escolher entre o Chávez, o Líbio e os camelos, neste deserto de ideias. Prefiro reparar que continuo a ser liberal. Daqueles que ainda compreendem Espinosa, Adam Smith, Adam Ferguson, Montesquieu ou Fernando Pessoa. Por isso, gostaria de poder alinhar num movimento que recuse, do presente capitalismo global, a máxima, segundo a qual importa é o “tudo para nós e nada para os outros”. Para mim, “o sistema moral engloba o sistema económico, gerando as sábias virtudes do esforço, da honestidade e da habilidade, e os laços sólidos pelos quais aceitamos as nossas responsabilidades uns para com os outros, os hábitos de cooperação, o sentido moral de que depende o mercado”. Citei Smith, citado por um político actual da Europa, um professor de história, antigo reitor de uma velha universidade. Porque importa “o aperfeiçoamento da sociedade civil e o sentido moral como necessário ao progresso”. Porque “a moral é alternativa ao Welfare State”. Para que a mão invisível se case com uma mão segura. Por outras palavras, as frases são de um tal Gordon Brown. Reparo também que noutras águas da dita esquerda, para os lados de França, surgiu o movimento de “Les Gracques”, contra “os reflexos neomarxizantes” e as “bricolagens ideológicas” que enredam o PS francês. São eles que invocam Espinosa e Montesquieu, pretendendo assumir o liberalismo político. Por estas e muitas outras é que continuo liberal. Do liberalismo moral, do liberalismo político e do liberalismo económico. Se a direita a que chegámos mistura os “slogans” do liberalismo económico com o “jogging” e a “concretude”, continuarei a defender a trindade e penderei para o lado dos que invocam as duas primeiras pessoas da revolução atlântica, iniciada em 1640 e que passou pela revolução inglesa, pela revolução norte-americana e pelos demoliberalismos. A que invoca Locke, Montesquieu e Burke e que agora invoca o quadro da mão segura e da mão invisível, com pensamento e entusiasmo.