Dez 07

Neste pobre aquém-mar, onde navegar deixou de ser preciso e o viver passou a ser sobreviver

Saiu mais um barómetro da ONG “Transparency International” sobre sinais da chamada compra de poder, ou corrupção. Continuamos a não perceber que os países onde há menos corrupção são, precisamente, os mais liberais e os mais capitalistas do mundo. Isto é, os que melhor casam a ética social da honradez com as regras do jogo do capitalismo global, onde, ao lado dos velhos protestantes, já aparecem católicos e alguns orientais. Por outras palavras, os que deram ao individualismo e ao personalismo a autonomia das morais tradicionais e que, a partir deste humanismo, enquadraram a economia de mercado com estaduais normas, mantendo as portas e as janelas abertas, sem medo dos resfriados, porque apostaram nos anticorpos identitários. Por cá, temos a corrupção que merecemos, coisa que disfarçamos com o presente “voyeurismo” mediático sobre as pontas visíveis de tal “iceberg”, as que as polícias e os magistrados conseguem processar, entre “furacões” e “apitos dourados”. Se calhar, o principal culpado pela corrupção é o próprio sistema educativo, das famílias e das escolas, quando não consegue dar formação de autonomia aos indivíduos, quando desnormativiza aquilo que deveria ser o não mal-educado. Porque não queremos assumir aquela cultura demoliberal, segundo a qual o Estado está acima do cidadão, mas o homem, acima do Estado. Porque se a política é a ciência dos actos do homem enquanto cidadão, enquanto membro da república, da “polis”, ou do Estado, e a economia, a ciência dos actos do homem enquanto membro de uma entidade económica (“oikos” em grego, “domus”, em latim), já a moral é a ciência dos actos do homem enquanto “indiviso”. Por nós, entre o beatério hipócrita e o revolucionarismo frustrado, entre a saudade passadista e a utopia dos “amanhãs que cantam”, pouco valor damos à moral do pensarmos pela nossa própria cabeça, para vivermos como pensamos, sem pensarmos, depois, como, com coerência, iremos viver. Ao enredar-nos em colectivismos de seita, entre as memórias inquisitoriais e as ilusões comunistas, não conseguimos passar das regras individuais à urgente subversão pela justiça. E desprezamos a educação pelos exemplos de vida, o respeito pela palavra dada e o tribunal do remorso. Ainda não actualizámos a velha tríade liberdadeira do liberalismo político, do liberalismo moral e do liberalismo económico. Se tivemos, outrora e agora, algum liberalismo democrático, bem como o lastro da evangélica democracia da sociedade civil, ainda não nos libertámos do absolutismo, ainda não admitimos que inventámos a política para deixarmos de ter um dono (de “dominus”, chefe da “domus”, de “despote”, chefe da “oikos”). O Estado ainda são os eles, os donos do poder e os ministros que querem tê-lo sido, bem como os outros partidocratas, dos eurocratas aos autarcas. O Estado ainda não é “polis”, ainda não é “respublica”… Falta também um núcleo duro de liberalismo moral, apenas resistente no arquipélago dos círculos do humanismo cristão e do humanismo laico, nomeadamente nas memórias maçónicas. Logo, a eficácia do liberalismo económico é quase mesa pé de galo, pois ele foi importado a retalho, continuando economia privada sem economia de mercado, com muito devorismo e feudais “gentlemen’s agreements”, para a conquista do proteccionismo do estadão, mas sem concorrência salutar e efectiva entre os agentes económicos. E o lastro de colectivismo de seita, bem demonstrado pela aliança entre os ditos progressitas cristãos e os ditos comunistas, gerou aquele vanguardismo dos que procuram monopolizar o caminho e a verdade para o além, ou assumir-se como o sol da terra deste pobre aquém-mar, onde navegar deixou de ser preciso e o viver passou a ser sobreviver.