Dez 15

Europa, Kosovo, Obilic e o confronto das águias

Sábado, chegou a pausa necessária de uma intensa semana, entre um ciclo de conferências sobre Carl Schmitt e a assinatura do Tratado Reformador, com intervenções em directo na RTPN e na SIC Notícias sobre a conjuntura. Ontem foi o último conselho presidido pelos representantes da República Portuguesa, hoje, as primeiras páginas dos semanários políticos pressionando estes últimos para não caírem na tentação referendária. Num, declarações insultuosas de um conselheiro de Sarkosy, qualificando Sócrates como traidor se ceder aos conselhos da JS. Noutro, o anúncio do não ao referendo, depois da quebra de mais um “tabu” da cavaquista gestão dos silêncios. Isto é, tudo aponta para que o povo português não possa beneficiar daquela conquista do tratado reformador chamada democracia participativa.

Aliás, o sistema da eurocracia já começou a procriar mais um comité partidocrático, dito comité de sábios que, lá do alto da barganha entre o PSE e o PPE, vai fazer mais um retiro espiritual de políticos desempregados que, de forma iluminista, assumem a missão de substituir a voz directa dos povos. A personalidade escolhida para nos lavar a cabecinha é o socialista espanhol Felipe González.

Espero que Cavaco não replique com a emergência de uma espécie de Conselho de Senadores, com os habituais Soares, Freitas e Adriano, nessa união nacional de federação da história dos regimes, unificando as comissões de honra das principais candidaturas presidenciais, através de uma nova Câmara dos Pares, vitalícios e quase hereditários pela fidalguia, que assim substituam a democracia. Aliás, até seria interessante que o parlamento largasse o legalíssimo direito de ratificação no próprio Conselho de Estado, onde domina o oligopólio do PPE e do PSE.

Por isso, prefiro assinalar que o nacionalismo sérvio está contra o nacionalismo albanês e que os albaneses do Kosovo fazem desfilar bandeiras norte-americanas em favor de mais uma independência que caiu nas teias dos choques imperialistas, neste caso, do imperialismo russo contra o da superpotência que resta. Eu preferiria que a Europa da União Europeia moderasse tais imperialismos e tais etno-nacionalismos.

Porque os imperialismos sempre instrumentalizaram independentismos separatistas, para dividirem os imperialismos rivais e depois subjugarem os retalhos conseguidos. Lembro-me de Washington contra a Espanha, com as independências de Cuba e das Filipinas, la ma última década do século XIX. Recordo o que fez Moscovo contra os otomanos na independência grega.

Agora, a minha Europa não deveria esquecer que o presente nacionalismo de Belgrado não é o de Milosevic, mas dos resistentes demoliberais que o afastaram do e que estão a construir o Estado de Direito e o pluralismo democrático na Sérvia. E também não deveria agravar o confronto entre europeus islâmicos e europeus da cristandade ortodoxa, ao estilo do que aconteceu na Guerra da Crimeia.

Devemos recordar que os albaneses, apesar de islâmicos, são dos mais antigos povos da Europa. E que os sérvios foram os primeiros que se independentizaram dos otomanos pelos seus próprios meios. Seria bom ouvirmos os conselhos de Atenas, Sofia e Bucareste e atendermos à prudência de Madrid e Londres. Porque uma independência não tem sentido se a identidade que a sustenta tem a ver com os interesses expansionistas de um vizinho. O que seria se os bascos franceses proclamassem a independência de um novo País Basco, no caso do vizinho se ter desintegrado do Estado Espanhol? Ou de coisa semelhante acontecer com a Irlanda do Norte?

Dez 15

As frases que nos hão-de salvar já estão todas escritas, falta apenas salvar-nos

Depois de breve incursão naquele Portugal profundo que é a barresiana pátria, a terra sagrada pelos meus mortos, volto ao circuito capitaleiro, das grandes novas do Estado a que chegámos e do universo televisivo, feito à imagem e semelhança de um país bem pequenino: o dos valores dos colégios pretensamente finos do capitaleirismo que formaram esta geração que pretende controlar a nossa opinião pública, onde os heróis cívicos têm que ser ex-MRPPs como foi a mamã, nos velhos tempos do PREC, quando falava em libertação, só porque tinha no quarto um poster do “make love, not war”. Reparo que os discursos dos políticos continuam perdidos no inferno das boas intenções, onde continua a ter razão quem vence e onde, há muito, não vence quem tem razão. Reparo que continuamos a ter medo de sermos quem devemos ser, esta mistura de pragmatismo e aventura que nos levou a dar novos mundos ao mundo, mas que hoje se vai diluindo nesta mesquinha procura do antes torcer que quebrar, com cedência aos neofeudalismos e neocorporativismos, especialmente quando a cidadania se esgota no indiferentismo. Porque continuamos dominados por aquela falta de organização do trabalho nacional que raramente consegue praticar a urgente avaliação do mérito.
Temo que continue esta falta de autenticidade dos políticos profissionais que tivemos de eleger e que se acentue o fosso entre as expectativas geradas e a constante falta de respeito pela palavra dada, levando a que se torne regra este processo segundo o qual, na prática, a teoria é outra. Bem gostaria que a honra voltasse a casar-se com a inteligência, que a moral voltasse a guiar os homens livres e que a economia não subvertesse a política.
Ouço que Saddam vai ser enforcado nos próximos trinta dias, temo que a guerra internacional contra o terrorismo assente na falsa ideia do conflito de civilizações e que a república imperial que resta não volta a ser luzeiro das liberdades e da justiça.
Reparo que quem hoje nos governamentaliza corre o risco de nos continuar a Salazar izar, em nome de uma Europa de merceiros e contabilistas, enquanto a sociedade civil continua a rimar com a futebolítica e certos partidos que na sacristia dos mecenas bancários. Bem apetecia que a União Europeia caminhasse do Atlântico para os Urais e integrasse Bizâncio, para que a igrejinha de Mértola voltasse a ser templo, sinagoga, mesquita e capela do monte. Para que os socialistas fossem mais liberais por dentro, para que os comunistas se convertessem ao pluralismo e os direitistas se tornassem menos reacionários. Para que também desaparecesse este refúgio de um centro mole e difuso e surgisse o necessário centro excêntrico, onde muitos pudessem radicalmente militar, sem necessidade de serem queimados como extravagantes, só porque não querem descobrir o que já está descoberto, nem inventar o que já está inventado.