Dez 20

Entre os berardos e os jardins da nossa aldeia

Em tempo de festas, boas festas e fim de festa, pediram-me da TSF que elencasse o acontecimento e a personalidade do ano de 2007. Escolhi, como acontecimento, a crise do BCP, e como personalidade do ano, o madeirense Berardo. Porque o Tejo é o rio que passa na minha aldeia e continuamos o Portugal de sempre, um país castífero e capitaleiro, onde os provincianos da capital acusam os restantes de mais provincianos, neste jogo de castas, onde continuamos o tradicional ciclo de um estadão que nos quer revolucionar ou reformar, mas, onde, passada a euforia do gigante de pés de barro, fica a pós-revolução das viradeiras, onde o Portugal Velho resiste de forma neocorporativa e neofeudal ao sonho do Portugal Novo.

De vez em quando há um Marquês de Pombal, uns vintistas, uns republicanos do 5 de Outubro, uns revolucionários do PREC, mas, logo a seguir, seguem-se as festas de família, dos “gentleman’s agreement”, do “porreiro, pá”, onde continua a ilusão do condicionamento industrial e do proteccionismo. Daí a escolha da crise do BCP e do anti-herói Berardo. Para não contar a história do velho, do rapaz e do burro.

O BCP, no modelo Jardim Gonçalves, é a ordem da sacristia, dos sucessores com aquele ar de meninos bem comportados, de bons alunos, antigos governantes de Cavaco, com ar de sócios do Sporting Clube de Portugal. Berardo é o irmão-inimigo que gosta de estragar a festa no adro da Igreja, só porque não foi convidado para o recato da sacristia. E no ano de 2007, assumindo a postura de Zé do telhado e de banqueiro anarquista, tanto atacou o modelo CCB dos intelectuais à Mega Ferreira, como foi saudado pelos trabalhadores da CGTP na assembleia-geral da PT, antes de querer comprar o Sport Lisboa e Benfica e de apresentar uma denúncia contra os donos do poder do BCP na Procuradoria-Geral da República.

Assim continuamos, entre a direita e a esquerda, entre o Sporting e o Benfica, com muito Fado, Futebol e alguma Fátima. E assim chegamos a Lisboa, onde Lisboa é Portugal e o resto da província é paisagem. E de Lisboa nos vêm os banqueiros, os magistrados, os ministros, os partidos, a revolução, as reformas e a própria proibição dos referendos, porque é preciso pôr a Europa a funcionar e o povo nos carris. Mesmo quando vivemos um ano de madeirenses, entre Alberto João e Berardo, entre Ronaldo e Jardim Gonçalves. Julgo que este gigante com pés de barro apenas precisa da funda de um qualquer David que venha continuar a dizer que o rei vai nu.

Dez 20

Vou fingir que não sou professor catedrático de uma universidade pública

Vou fingir que não sou professor catedrático de uma universidade pública lusitana e clamar por uma política de transparência que nenhum governo será capaz de pôr em prática: dêem-nos a lista dos consultores escolhidos, com nome posto no “Diário da República”. Mais: entreguem imediatamente todos esses pareceres a todos os restantes órgãos de soberania e aos partidos institucionalizados da oposição, como se faz em muitos países democráticos, a começar por Espanha.
Julgo que deste modo todo o povo entenderia melhor o crescente neocorporativismo e neofeudalismo. Haveria um mínimo de “glasnot” e poderíamos pensar na “prestroika”. Até seria interessante, para se detectarem as variações de humor de alguns desses avençados que também são “opinion makers”. E o silêncio dos que são à segunda-feira são professores universitários, à terça-feira consultores de privados, à quarta de clubes desportivos, à quinta de partidos e à sexta de si mesmos. Qualquer politólogo sabe de ciência certa, sem qualquer poder absoluto, que tal tipo de actividade é eventualmente parcela de um conceito de pressão, bem próxima daquilo que outros indicam como compra de poder. Se a actividade de professor público e de exercício de saber fosse mesmo poder.
Claro que, apesar de se controlarem as acumulações de professores públicos em instituições privadas, estas formas de actividade privada nunca foram controladas nem no âmbito dos registos obrigatórios de interesses. Manda quem pode, obedece quem deve. As muitas outras consultas que tenho dado, ou são públicas, nomeadamente para a comunicação social, ou são institucionais e gratuitas, no âmbito institucional. Julgo que tal exercício intelectual, numa “res publica”, deveriam ser incluídas no âmbito da prestação de serviços à comunidade, a cargo das universidades e não sei se foram incluídas no parecer da OCDE sobre a coisa, ou objecto de uma recomendação do Conselho de Reitores. Por isso é que gostaria mesmo de ser funcionário público ou de ser trabalhador de uma fundação que transformasse essa nobre actividade numa receita própria das universidades. Aprendi isso com o meu mestre Guilherme Braga da Cruz que até o trabalho como jurisconsulto do Estado Português no Tribunal da Haia foi considerado serviço do bem comum e da função. E assim me liberto de futuros convites para membro de júris em determinadas escolas…  

Dez 20

Com saudades do “conventus publicus vicinorum”

É tempo de sol e de frio, nesta bela chegada da invernia lusitana, aqui, na esquina da cidade que ainda conserva o sentido público da vizinhança, mesmo quando rareiam os homens bons da mais recente pequeno-burguesia de rurícolas origens e quando as instituições autárquicas se vão esquecendo das suas raízes no “conventus publicus vicinorum”. Porque os conselhos são cada vez mais municípios estipendiários do império e, de tanta barganha capitaleira, acabam por perder-se nas teias da futebolíticas e da patobravice, deixando-se enredar nos meandros difusos da compra e venda do poder, com os seus avençados intelectuários e os seus sargentos verbeteiros da micropolítica partidocrática.
A própria democracia, que devia assentar na federação das nossas comunas sem carta, perdida em indiferentismo e corrupção, ameaça tornar-se num normal anormal de sucessivos indiferentismos, transformada em mero objecto do “agenda setting” de governos e oposições, perdendo o sentido dos gestos, onde o verso épico da martirologia antifascista soa a falsete, porque o principal perigo vem de termos crescido por fora sem crescermos por dentro, em civismo e autonomia individual, como sempre se exigiu a gente democraticamente bem educada.
Assim, perdidos no rolo unidimensionalizador desta apagada e vil tristeza, preferimos a mão estendida da cunha  e do subsídio ao antes quebrar que torcer dos velhos repúblicos e daaquilo que era a tradicional fibra do português de antanho, desse homem livre da finança e dos partidos que tinha vergonha de andar de mão estendida para encontrar um lugar na fila do neofeudalismo e do neocorporativismo.
E não me venham com a lenga lenga da fatalidade globalizadora, porque é um crime cedermos aos processos colonizadores das repúblicas imperiais alienígenas, negando a biodiversidade cultural. De outro modo, apenas semearemos futuras revoltas fundamentalistas dos oprimidos pela cultura plastificada, onde o “medium” substitui a “mensagem” e a forma elimina o conteúdo. Prefiro manter o nosso tradicional olhar antropológico, essa velha mas não antiquada disponibilidade para o abraço armilar.

Dez 20

Porque o Tejo é o rio que passa na minha aldeia

Porque o Tejo é o rio que passa na minha aldeia e continuamos o Portugal de sempre, um país castífero e capitaleiro, onde os provincianos da capital acusam os restantes, de mais provincianos, neste jogo de castas, onde continuamos o tradicional ciclo de um estadão que nos quer revolucionar ou reformar, mas, onde, passada a euforia do gigante com pés de barro, fica a pós-revolução das Viradeiras, onde o Portugal Velho resiste de forma neocorporativa e neofeudal ao sonho do Portugal Novo. De vez em quando há um Marquês de Pombal, uns vintistas, uns republicanos do 5 de Outubro, uns revolucionários do PREC, mas, logo a seguir, seguem-se as festas de família, dos “gentleman’s agreement”, do “porreiro, pá”, onde continua a ilusão do condicionamento industrial e do proteccionismo. De um lado, a ordem da sacristia, dos sucessores com aquele ar de meninos bem comportados, de bons alunos, com meneios de antigos governantes salazarentos. Do outro, o irmão-inimigo que gosta de estragar a festa no adro da Igreja, só porque não foi convidado para o recato da sacristia.  Assim continuamos, entre a direita e a esquerda, entre o Sporting e o Benfica, com muito Fado, Futebol e alguma Fátima. E assim chegamos a Lisboa, onde Lisboa é Portugal e o resto da província é paisagem. E da reciclagem de Lisboa nos vêm os banqueiros, os magistrados, os ministros, os partidos, a revolução, as reformas e a própria proibição dos referendos, porque é preciso pôr a Europa a funcionar e o povo nos carris. Julgo que este gigante com pés de barro apenas precisa da funda de um qualquer David que venha continuar a dizer que o rei vai nu.