Dez 19

na senda de Kant, de Cristo, dos estóicos ou de Confúcio

Tento juntar-me às vozes dos que, na senda de Kant, de Cristo, dos estóicos ou de Confúcio continuam a clamar por uma paz que não seja a paz dos cemitérios, mas apenas a declaração do fim de guerra de todos contra todos, como é esta falsa ordem internacional ditada pela falsa paz dos vencedores. Porque, se, a nível interno dos Estados de Direito, conseguimos a imperfeita institucionalização dos conflitos, a que damos o nome de democracia pluralista, ainda não demos passos mínimos para acabar com o regime de estado de natureza entre os Estados e as soberanias. Ainda não assumimos o programa de Kant, datado de 1795, lançando as sementes de um verdadeiro direito universal, capaz de dar justiça aos homens de boa vontade. A ditadura dos Estados a que chegámos e as páginas escritas pela história dos vencedores, entre as duas superpotências da guerra fria, esses escorpiões venenosos que se mordiam dentro de uma garrafa,  tal como a presente desordem internacional bem organizada, com uma só república imperial e um clube de vencedores, expresso pelos membros permeanentes do Conselho de Segurança da ONU, constitui a negação da terra dos homens livres. Importa que a história volte a poder ser escrita pelos vencidos e pela esperança dos desesperados. Criemos uma arquitectura institucional universal feita de acordo com os interesses e os valores da maioria da humanidade que ainda faz parte da história dos vencidos. Acarinhemos as liberdades individuais, da sociedade civil internacional e das nações que rimem com libertação e com comunidade de destino no universal. Entendamo-nos à maneira de Fernando Pessoa: o Estado está acima do Cidadão, mas o Homem está acima do Estado. A nação é apenas a forma de passagem para a super-nação futura. Tudo pela Humanidade, nada contra a Nação. O homem internacional ainda continua a ser pior do que o Hobbesiano lobo do homem. Muito lorenzianamente somos, cada vez mais, ratos do próprio homem. Só os valores universais do respeito pela institucionalização dos conflitos e um verdadeiro modelo de Estado de Direito universal nos poderá dar a necessária justiça, com a consequente paz na terra, para os homens de boa vontade.

Dez 19

Ontem reli o Homem Revoltado de Camus

Ontem reli o Homem Revoltado de Camus, justamente publicado no ano do meu nascimento. E passei os olhos pela entrevista de Edgar Morin a “Philosophie Magazine” deste mês. De quem vive entre “a mística do amor” e a “ideia matricial de Terra-Pátria”, para que o “entusiasmo humanista” vença a “negação niilista”. Para que a ideia de complexidade, com o diálogo a substituir a superação dialéctica, nos enriqueça com “mestiçagens culturais” que favoreçam “a abertura do espírito”. Obrigado, Mestre! Porque “o conhecimento total” é impossível, dado que “não podemos eliminar totalmente a incerteza”. E não há que fugir do choque dos contrários. Tal como proclamava Pascal, há que procurar “o acordo entre duas verdades opostas”. Nunca acabaremos e nunca completaremos qualquer conhecimento, pelo que importa retomarmos o humanismo renascentista, nomeadamente pela aliança metodológica, onde a cultura não é um exclusivo das napoleónicas ciências sociais e humanas e o natural, das ciências físicas. Importa voltar a Pascal: “é impossível conhecermos as partes se não conhecermos o todo, tal como não podemos conhecer o todo se não conhecermos as partes”. Isto é, como expressavam os neoKantianos, importa compreender. Passo depois para outro Mestre, Camus, com a sua “passion du relatif”, onde a revolta “é uma das únicas posições filosoficamente coerentes”, até porque a função do intelectual é “esclarecer as definições para que se desintoxiquem os espíritos”, contra todos os fanatismos, incluindo os da contra-corrente. “O que é um homem revoltado? É um homem que diz não. Mas se ele recusa, ele não renuncia: é, assim, um homem que diz sim, desde o seu primeiro movimento”. Continuo muito liberalmente radical à maneira de Alain. Na heresia de Pascal. E reflexionista à europeia. Logo, português, homem do “midi”. Mesmo em dia de chuva como hoje. A ter que aturar neopositivistas de direita e de esquerda e fanatismos de todos os quadrantes. Sobretudo, na Universidade.

Dez 18

Ousando chegar a Deus só a pensar

Há entre estas três imagens uma data comum. A de hoje, em 1879, 1913 e 1951 e a do eterno sosltício de quem quer viver como pensa. Por isso, agradeço ao Valdemar e a Terpsichore os acasos de uma recordação. E não apetecem mais palavras sobre as presentes circunstâncias do tempo e do lugar.

Eu que tive a ilusão de romper

certas algemas da vida,

pois lera, nos livros sagrados,

os sinais da salvação,

não consigo, agora, dobrar

os ferros da solidão.

Filho de Sócrates e Descartes,

analítico, ousei singrar

nessa ilusão bem humana

de chegar a Deus só a pensar.

E, rendilhando paradigmas,

no pensar do pensamento,

por tanto ousar duvidar,

já não sei rezar sem racionalizar.

Homem crescido,

e como tal reconhecido,

pelo papel selado

das certidões oficiais,

nem sequer posso voltar

às nostálgicas certezas

do colo de minha mãe.

Na escola onde, outrora, fui aluno,

eis-me, agora, professor,

neste meu ter de ensinar,

entre as coisas que aprendi,

tantas coisas que não sei.

Nosce te ipsum!…

Cogito, ergo sum!…

Erudito e letrado, feito doutor,

na própria cátedra já assentado,

confesso ter lido, e relido,

montanhas de papel inanimado,

bibliotecas inteiras

de pensamento pensado.

E, de tanto recolectar

fragmentos, fichas e rodapés,

que, muito hierarquicamente,

fui classificando,

como engenheiro de conceitos,

nas teias sistémicas

de uma qualquer teoria,

foi do próprio espaço vivido

que acabei por me esquecer.

Essa máxima universal

de todos sermos iguais,

de todos podermos ter,

pela simplicidade dos sinais,

um conhecimento modesto

sobre as coisas mais supremas.

Por muito procurar,

fora de mim,

o que, por dentro,

guardava,

fiquei, assim,

encruzilhado.

Mas, de tantos planos inacabados,

aprendi, pelo menos, a duvidar

das próprias regras do método,

daquele pretenso rigor,

muito axiomaticamente dedutivo,

que, por lei, dizem que sei.

Dez 18

Há histórias da história que nunca esquecem

Há histórias da história que nunca esquecem se as tivermos vivido como meninos. Foi o que me aconteceu no dia em que fiz dez anos de vida, então moldado pela propaganda salazarenta . Tinha acabado de passar da terceira para a quarta classe do ensino primário, num ano intenso da minha formação pessoal, entre a escola primária do Arco de Almedina em Coimbra e a frequência da Igreja de Santa Justa dos padres capuchinhos, numa cidade que vivia a crise universitária e onde o meu professor até era um estudante de direito que nos levava o “Paris Match” e nos falava da guerra da Argélia. Recordo esses tempos do meu tempo, depois de tomar notas dos incidentes que rodearam o doutoramento “honoris causa” de Cavaco pela universidade de Goa e os artigos com que a imprensa brindou Narana Coissoró. Daí que volte à secura das linhas com que contemplei o dia 18 de Dezembro de 1961 no meu “Tradição e Revolução”: Parlamento da União Indiana declara anexados os enclaves de Dadrá e Nagar-Aveli (11 de Agosto). Nota do Ministério dos Negócios Estrangeiros anuncia que o parlamento de Nova Delhi aprovou a integração dos territórios no território da União Indiana (16 de Agosto). Conferência de imprensa de Franco Nogueira sobre a matéria (6 de Dezembro). Tomás recebe em audiência Salazar (10 de Dezembro). Voltam a reunir-se em 14 de Dezembro. União Indiana invade Goa (8 horas de Lisboa, 0 horas, locais de 18 de Dezembro). Na defesa de Diu, morre em combate o tenente Oliveira e Carmo, que não era salazarista, comandante de uma lancha que, antes do infausto, em reunião com os subordinados, proclama: fazemos parte da defesa de Diu e da Pátria e vamos combater até ao último homem e até à última bala. Nessa noite, cortejo de silêncio em Lisboa. Diz então o cardeal Cerejeira: Portugal não morre, mas a perda da Índia Portuguesa levar- lhe- ia parte da sua alma. Dirá, trinta e três anos depois, Narayane Kaissare: o então ministro da Defesa Krishna Menon ordenou a invasão militar como um acção eleitoralista, poucos dias antes das eleições em Maharashtra. O oposicionista Carlos Sá Cardoso, fundador do MUD, escreve carta para ser publicada no jornal República, onde reconhece: na mais amarga hora de toda a minha vida de português, peço-lhe que permita a um democrata, inteiramente oposicionista e sem responsabilidade nos actuais acontecimentos, que manifeste publicamente, pondo de parte neste momento a discussão das responsabilidades, toda a sua profunda tristeza e o seu veemente repúdio pelo criminoso ataque à nossa Índia com o único e traiçoeiro fim da anexação. A missiva acaba por não ser então publicada, devido às instâncias de Mário Soares e Ramos da Costa.

Dez 15

Europa, Kosovo, Obilic e o confronto das águias

Sábado, chegou a pausa necessária de uma intensa semana, entre um ciclo de conferências sobre Carl Schmitt e a assinatura do Tratado Reformador, com intervenções em directo na RTPN e na SIC Notícias sobre a conjuntura. Ontem foi o último conselho presidido pelos representantes da República Portuguesa, hoje, as primeiras páginas dos semanários políticos pressionando estes últimos para não caírem na tentação referendária. Num, declarações insultuosas de um conselheiro de Sarkosy, qualificando Sócrates como traidor se ceder aos conselhos da JS. Noutro, o anúncio do não ao referendo, depois da quebra de mais um “tabu” da cavaquista gestão dos silêncios. Isto é, tudo aponta para que o povo português não possa beneficiar daquela conquista do tratado reformador chamada democracia participativa.

Aliás, o sistema da eurocracia já começou a procriar mais um comité partidocrático, dito comité de sábios que, lá do alto da barganha entre o PSE e o PPE, vai fazer mais um retiro espiritual de políticos desempregados que, de forma iluminista, assumem a missão de substituir a voz directa dos povos. A personalidade escolhida para nos lavar a cabecinha é o socialista espanhol Felipe González.

Espero que Cavaco não replique com a emergência de uma espécie de Conselho de Senadores, com os habituais Soares, Freitas e Adriano, nessa união nacional de federação da história dos regimes, unificando as comissões de honra das principais candidaturas presidenciais, através de uma nova Câmara dos Pares, vitalícios e quase hereditários pela fidalguia, que assim substituam a democracia. Aliás, até seria interessante que o parlamento largasse o legalíssimo direito de ratificação no próprio Conselho de Estado, onde domina o oligopólio do PPE e do PSE.

Por isso, prefiro assinalar que o nacionalismo sérvio está contra o nacionalismo albanês e que os albaneses do Kosovo fazem desfilar bandeiras norte-americanas em favor de mais uma independência que caiu nas teias dos choques imperialistas, neste caso, do imperialismo russo contra o da superpotência que resta. Eu preferiria que a Europa da União Europeia moderasse tais imperialismos e tais etno-nacionalismos.

Porque os imperialismos sempre instrumentalizaram independentismos separatistas, para dividirem os imperialismos rivais e depois subjugarem os retalhos conseguidos. Lembro-me de Washington contra a Espanha, com as independências de Cuba e das Filipinas, la ma última década do século XIX. Recordo o que fez Moscovo contra os otomanos na independência grega.

Agora, a minha Europa não deveria esquecer que o presente nacionalismo de Belgrado não é o de Milosevic, mas dos resistentes demoliberais que o afastaram do e que estão a construir o Estado de Direito e o pluralismo democrático na Sérvia. E também não deveria agravar o confronto entre europeus islâmicos e europeus da cristandade ortodoxa, ao estilo do que aconteceu na Guerra da Crimeia.

Devemos recordar que os albaneses, apesar de islâmicos, são dos mais antigos povos da Europa. E que os sérvios foram os primeiros que se independentizaram dos otomanos pelos seus próprios meios. Seria bom ouvirmos os conselhos de Atenas, Sofia e Bucareste e atendermos à prudência de Madrid e Londres. Porque uma independência não tem sentido se a identidade que a sustenta tem a ver com os interesses expansionistas de um vizinho. O que seria se os bascos franceses proclamassem a independência de um novo País Basco, no caso do vizinho se ter desintegrado do Estado Espanhol? Ou de coisa semelhante acontecer com a Irlanda do Norte?

Dez 15

As frases que nos hão-de salvar já estão todas escritas, falta apenas salvar-nos

Depois de breve incursão naquele Portugal profundo que é a barresiana pátria, a terra sagrada pelos meus mortos, volto ao circuito capitaleiro, das grandes novas do Estado a que chegámos e do universo televisivo, feito à imagem e semelhança de um país bem pequenino: o dos valores dos colégios pretensamente finos do capitaleirismo que formaram esta geração que pretende controlar a nossa opinião pública, onde os heróis cívicos têm que ser ex-MRPPs como foi a mamã, nos velhos tempos do PREC, quando falava em libertação, só porque tinha no quarto um poster do “make love, not war”. Reparo que os discursos dos políticos continuam perdidos no inferno das boas intenções, onde continua a ter razão quem vence e onde, há muito, não vence quem tem razão. Reparo que continuamos a ter medo de sermos quem devemos ser, esta mistura de pragmatismo e aventura que nos levou a dar novos mundos ao mundo, mas que hoje se vai diluindo nesta mesquinha procura do antes torcer que quebrar, com cedência aos neofeudalismos e neocorporativismos, especialmente quando a cidadania se esgota no indiferentismo. Porque continuamos dominados por aquela falta de organização do trabalho nacional que raramente consegue praticar a urgente avaliação do mérito.
Temo que continue esta falta de autenticidade dos políticos profissionais que tivemos de eleger e que se acentue o fosso entre as expectativas geradas e a constante falta de respeito pela palavra dada, levando a que se torne regra este processo segundo o qual, na prática, a teoria é outra. Bem gostaria que a honra voltasse a casar-se com a inteligência, que a moral voltasse a guiar os homens livres e que a economia não subvertesse a política.
Ouço que Saddam vai ser enforcado nos próximos trinta dias, temo que a guerra internacional contra o terrorismo assente na falsa ideia do conflito de civilizações e que a república imperial que resta não volta a ser luzeiro das liberdades e da justiça.
Reparo que quem hoje nos governamentaliza corre o risco de nos continuar a Salazar izar, em nome de uma Europa de merceiros e contabilistas, enquanto a sociedade civil continua a rimar com a futebolítica e certos partidos que na sacristia dos mecenas bancários. Bem apetecia que a União Europeia caminhasse do Atlântico para os Urais e integrasse Bizâncio, para que a igrejinha de Mértola voltasse a ser templo, sinagoga, mesquita e capela do monte. Para que os socialistas fossem mais liberais por dentro, para que os comunistas se convertessem ao pluralismo e os direitistas se tornassem menos reacionários. Para que também desaparecesse este refúgio de um centro mole e difuso e surgisse o necessário centro excêntrico, onde muitos pudessem radicalmente militar, sem necessidade de serem queimados como extravagantes, só porque não querem descobrir o que já está descoberto, nem inventar o que já está inventado.

Dez 13

Com muitas saudades de futuro

Hoje é dia dito de festa, pelo Tratado dos Jerónimos, à beira Tejo. E a cidade de Lisboa associou-se ao evento, com transportes gratuitos, bandeirinhas e os museus de porta aberta, sem bilhete de entrada. Sócrates e Amado, cansados, mas felizes, esqueceram a cena de ontem no parlamento europeu, com aquela meia dúzia de membros de um rancho folclórico que, não obedecendo aos ditames das duas principais multinacionais partidárias da Europa, exigiram que os povos referendassem o tratado. O primeiro, até logo os carimbou de “anti-europeus”. E com toda a razão. Pelo menos, o povo português apenas está dividido entre o Senhor Feliz e o Senhor Contente.

Hoje, o dia começou com um belo encontro com uma fiscal da EMEL que me queria multar. Porque ainda não tinha mostrado o papelinho das moedas. Perdoou-me porque o trazia na mão, mas disse que seriam trinta euros, porque ele, que era ela, era mesmo da verde EMEL e, portanto, mais cara do que os multadores concessionados, vestidos de castanho, dado que estes apenas levam cinco euros. Tentei lembrar-me do que diz a constituição e a carta dos direitos fundamentais, mas sorri. Entrei no café e logo a Paula, a dona, nos anunciou que aproveitássemos os dias que restam para fumarmos um cigarrinho, porque até nas celas das prisões vai chegar a higiene. Sentámo-nos e reparei que circulava uma petição contra a ASAE, a partir do texto de um antigo ministro do comércio que chegou a tutelar a polícia económica, o socialista António Barreto. Continuei a sorrir com as maravilhas da nossa idade e, em protesto, decidi não hastear a bandeira das doze estrelas na varanda.

Abri o jornal e reparei que, nesta operação de regulamentarice, os controladores constitucionais vão acabar com mais de duas dezenas de ranchos folclóricos a que dávamos o nome de partidos, isto é, os que, nos próximos noventa dias, não conseguirem obter o comprovativo de mais de cinco mil filiados. Mais sorri com esta operação de limpeza que vai transformar as próximas campanhas eleitorais em intensos combates entre Monsieur Dupont, o tal feliz, e Monsieur Dupond, o tal contente, mesmo que apareçam os habituais “caniches” anti-sistémicos, mordendo nas canelas do folclore, para que o folclore continue. As duas grandes multinacionais partidárias têm assim a porta aberta para que se constituam sucursais, correias de transmissão ou MDPs e Verdes dos quatro grandes. Nunca mais o Boavista poderá ganhar um campeonato, nem o Atlético ir vencer o Porto.

Apesar de tudo, continuo triste. Tive novas de um velho amigo em luta pela vida na cama de um hospital. Ainda há dias trocávamos cartas, onde ele me remetia um seu último escrito e a que logo respondi: Claro que já li o prefácio. Para aprender. E para elogiar. Sobretudo pelas provocações que me gerou. Primeiro, a falta que faz um manual de memória estratégica do Portugal Universal. Sobretudo, para tratar da heterodoxia do abraço armilar. Por isso, recordei o lema que D. João II entregou ao futuro cunhado, quando lhe deu a armilar como símbolo: “spera, sphera, sperança”. Em segundo lugar, também recordar o plano estabelecido logo a seguir a 1640, visando a mudança da capital para o Rio de Janeiro, já programada por D. Pedro II. Em terceiro, para assinalar a jogada dos portugueses da terra de Salvador Correia de Sá para reconquistarem Angola, fundando uma nova São Paulo que agora apenas se conhece pela terminação “de Luanda”. E acima de tudo, a memória do José Bonifácio, o tal agente militar do Conselho Conservador que integrou um batalhão académico que resistiu a Junot. Porque sem a independência de Bonifácio não poderia continuar a América Portuguesa, sob o nome de Brasil. Claro que me apeteceu sonhar. Por exemplo na criação de um Instituto, ou numa Fundação, dita José Bonifácio de Andrade e Silva, visando a memória do abraço armilar e do reino unido que transformou o símbolo em binacional. E também me apeteceu outra provocação: a elaboração de uma história estratégica de Luso-Brasileira, onde se recolhessem estes heterodoxos que nos dão saudades de futuro. Espero que ele me dê resposta ao desafio. É a melhor maneira de comemorarmos o Tratado dos Jerónimos.

Dez 13

Em dia de pátria das pátrias, de novo o Quinto Império

Para que a minha identidade se associe à pompa desta circunstância, aqui deixo algumas sugestões:

- Triunfar ou perecer;

- Revolta sem palavras;

- Presença dos malhados;

- O mesmo em ritmo abrileiro;

- Revisto e actualizado.

Juntemos-lhe dois textos. De Camões:

Eis aqui, quase cume da cabeça

da Europa toda, o Reino Lusitano,

onde a terra se acaba e o Mar começa

Acrescentemos Fernando Pessoa:

A Europa jaz, posta nos cotovellos:

De Oriente a Occidente jaz, fitando,

E toldam-lhe românticos cabellos

Olhos gregos, lembrando.

O cotovello esquerdo é recuado;

O direito é em ângulo disposto.

Aquelle diz Itália onde é pousado;

Este diz Inglaterra onde, afastado,

A mão sustenta, em que se appoia o rosto.

Fita, com olhar sphyngico e fatal,

O Occidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

Porque:

A civilização a que todos pertencemos — entendendo por “todos” todo o mundo — assenta em três fundamentos, que a precederam. Esses fundamentos são a Cultura Grega, a Ordem Romana, e a Moral Cristã. Da Grécia nos vem o espírito e a forma da nossa cultura. De Roma nos vem o espírito e a forma da nossa política. Da religião de Cristo nos vem o espírito e a forma da nossa vida interior.

A estes três fundamentos originais da civilização, primeiro da Europa, depois do mundo inteiro, se ajuntou, desde o fim da Idade Média e princípio da Renascença, um quarto fundamento. É difícil de lhe dar um só nome, mas esse nome poderá ser a Liberdade Europeia, porque os três movimentos criadores que o formaram tendem todos, ainda que diversamente, para uma libertação do homem.

O primeiro movimento começou na Itália e constituiu, através da renovação do espírito grego, na destruição da fraternidade humana, quer pela formação de nacionalidades, quer pelo movimento anti-romano que, por um lado progressivamente destituiu a língua latina de língua da humanidade civilizada, e, por outro lado, preparou a reforma, que haveria de destruir a fraternidade católica da Europa. Assim a Europa se libertou do excesso de Roma e da Humanidade. É contra a humanidade que se faz todo o progresso; por isso é reaccionário todo o movimento, como o bolchevista, em que se pretenda introduzir a ideia fruste de humanidade.

O segundo movimento começou em Portugal, e foi o dos Descobrimentos. Pouco importa discutir se tal ou outro ponto da terra era ou não conhecido antes de o descobrirem os Portugueses. Os descobrimentos dos Portugueses não valem como descoberta, mas como sistema. Foi Portugal que primeiro sistematizou a descoberta e revelação do mundo. Sociologicamente, pois, os descobrimentos (sejam os de espanhóis, de franceses, de ingleses, ou de quem quer que seja) são todos portugueses. Historicamente, serão o que forem; a história porém não é nada, senão (não é mais que) o armazém de factos ou pseudofactos sobre os quais trabalhe a sociologia .

Repito o que, sobre a matéria, já editei:

Hoje a Europa tem uma bandeira azul, com uma coroa de doze estrelas, não uma estrela por Estado, mas o emblemático número doze, considerado símbolo da plenitude e da perfeição, como doze eram os filhos de Jacob, os trabalhos de Hércules, os signos do zodíaco, os meses do ano, os apóstolos ou a romana lei das doze tábuas.

Doze estrelas, como as da auréola de uma Virgem que aparece no vitral da catedral de Estrasburgo, uma mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos pés, tendo uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça (et in capite eius corona stellarum duodecim)…

Tudo muito conforme, aliás, com o capítulo XII do Apocalipse de S. João.

Compare-se o que a respeito escreve o nosso Padre António Vieira, onde se fala numa Mulher em dores de parto, dando à luz um Filho varão que, no entanto, há-de reinar sobre todas as nações do mundo com ceptro de ferro. Se um Dragão tenta tragá-lo, eis que ele acaba por ser arrebatado ao céu, onde acabará por assentar-se no trono de Deus. À Mulher se darão duas grandes asas de águia com que fugirá do Dragão. Virá depois um Cavaleiro, montado num cavalo branco, trazendo, na orla do vestido, a divisa rex regum et dominus dominantium, comandando um exército, também montado em cavalos brancos, que acabará por vencer o Mal, isto é, a bestialidade do Dragão e os falsos profetas que o seguem (Apologia das Coisas Profetizadas, organização e fixação do texto por Adma Fadul Muhana, Lisboa, Cotovia, 1994)

Interpretando tal passagem, o Padre António Vieira considera que se trata de um relato da emergência da Igreja do Quinto Império, onde se descreve a maneira da Igreja se coroar, e alcançar o Reino e império universal, onde a Lua é o Império Turco (ou o império dos que apenas têm poder temporal) e o ferro, a inteireza e constância da justiça e igualdade com que o mundo há-de ser governado.

Tratar-se-ia da procura de um poder que não está sujeito às inconstâncias do tempo, nem às mudanças da fortuna e que se há-de estender até ao fim do mundo. Porque só então chegará o corpo místico de que fala São Paulo, com Cristo a nascer de novo. O tal Filho, que tem o trono no Céu, tal como a Igreja tem uma coroa na terra.

Como Jean- Pierre Faye termina a sua antologia L’Europe Une. Les Philosophes et l’Europe, de 1992, também nos apetece citar a mesma passagem de Fernando Pessoa:

Grécia, Roma, Cristandade

Europa – os quatro se vão

Para onde vai toda a idade.

Quem vem viver a verdade

Que morreu D. Sebastião?

Dez 11

Entre um “action man” da esquerda menos e um “jogger” da direita envergonhada, há sempre o mesmo petrolíbio

Poucas são as novas da rotina da politiqueirice que merecem, hoje, registo crítico. Vi, ouvi e li os discursos dos líderes da oposição sobre mais um assassinato da noite tripeira, nada retive. Reparei na formal pronúncia de Isaltino, não me emocionei. Porque tudo quanto nestes dois epifenómenos aconteceu, antes de o ser já o era. O resto é reconhecermos que os tempos continuam de feição para a ilusão de movimento do poder pelo poder, dos que pretendem pôr os sistemas a funcionar, mesmo que não saibam para onde vai o próprio mundo de que são consequência.

Aliás, julgo fecunda a notícia de primeira página do JN de hoje: afinal a melhor universidade portuguesa não é a de Coimbra, mas a do Porto, agora no lugar 459 entre as 500 melhores do mundo, segundo Taiwan. Usando palavras do propagandista de serviço: “Trata-se de um ranking mais sério do que Times Higher Education Supplement, uma vez que mede a produção científica efectiva e não recorre a inquéritos, como acontece no caso da seriação internacional feita pelos ingleses”. Ficámos encantados com este desabrochar da guerra de “rankings” entre o Norte e o Centro. Apenas deixo uma sugestão aos lisboetas, pela criação de um novo clube de arromba, juntando o Sporting Clube da Clássica e o Sport Lisboa e Técnica, a que poderemos agregar os clubes politécnicos e os clubes de província do Sul como sucursais, de Évora ao Algarve. O novo estádio, que deverá ter o nome de Professor Mariano Gago, pode ocupar o espaço deixado vago pelos terrenos da Ota, se o grande timoneiro do IPRI da Nova e actual ministro da defesa nos permitir ocupar o andar vago desse distrito de recrutamento militar..

Entre um “action man” da esquerda menos e um “jogger” da direita envergonhada, neste nosso querido império do vazio ou do efémero, há o mesmo Kadhafy a vender petróleo e investimentos em dinheiro fresco e branqueado. No mesmo cenário de canetas e papéis, o nada é um traço comum, um nada que já não é poder ser, mas o vazio de niilismo daquele pretenso pós-moderno que apenas nos diz que nos vai modernizar.

Os líderes que temos são os líderes que merecemos, plastificadas sínteses de homens de sucesso, onde tem razão quem vence e ninguém se preocupa em duvidar sobre se quem venceu, ou vai vencer, tem um mínimo de razão, enquanto “logos”, isto é, discurso, palavra posta em comunicação. Deixá-los ter o monopólio desta imagem sem discurso, em sentido etimológico, a que damos o nome de gestão dos silêncios.

Eles até ameaçam voltar a vencer, a recandidatar-se a reeleger-se, à boa maneira da madailização que nos enreda. Seguem os ditames daquele livro de estilo dos que escapam de todas as gotas de chuva da crise. E só não se molham porque vão fugindo, pinga a pinga, do emeranhado que a todos nós nos vai secando.

Esqueço as pequenas banalidades que nos amarguram em ninharias. Apenas reparo que esteve um ar lavado de Outono, um céu azul e um sol ainda vigoroso. A cidade ganhou novas cores e o Tejo continuou a semear Europa além da Europa, saudando abstractamente o infinito, para que seja possível singrar mar dentro, pelo prazer de procurar a racionalidade complexa de sermos o único animal que sabe que vai morrer e que por isso mesmo tenta captar a eternidade.

Dez 11

Poucas são as novas da rotina da politiqueirice

Poucas são as novas da rotina da politiqueirice que merecem, hoje, registo crítico. Porque quase tudo quanto nestes epifenómenos aconteceu, antes de o ser já o era. O resto é reconhecermos que os tempos continuam de feição para a ilusão de movimento do poder pelo poder, dos que pretendem pôr os sistemas a funcionar, mesmo que não saibam para onde vai o próprio mundo de que são consequência. Entre um “action man” da esquerda menos e um “jogger” da direita envergonhada, neste nosso querido império do vazio ou do efémero, há o mesmo Kadafi a vender petróleo e investimentos em dinheiro fresco e branqueado. No mesmo cenário de canetas e papéis, o nada é um traço comum, um nada que já não é poder ser, mas o vazio de niilismo daquele pretenso pós-moderno que apenas nos diz que nos vai modernizar. Os líderes que temos são os líderes que merecemos, plastificadas sínteses de homens de sucesso, onde tem razão quem vence e ninguém se preocupa em duvidar sobre se quem venceu, ou vai vencer, tem um mínimo de razão, enquanto “logos”, isto é, discurso, palavra posta em comunicação. Deixá-los ter o monopólio desta imagem sem discurso, em sentido etimológico, a que damos o nome de gestão dos silêncios. Eles até ameaçam voltar a vencer, a recandidatar-se a reeleger-se. Seguem os ditames daquele livro de estilo dos que escapam de todas as gotas de chuva da crise. E só não se molham porque vão fugindo, pinga a pinga, do emeranhado que a todos nós nos vai secando. Esqueço as pequenas banalidades que nos amarguram em ninharias. Apenas reparo que esteve um ar lavado de Outono, um céu azul e um sol ainda vigoroso. A cidade ganhou novas cores e o Tejo continuou a semear Europa além da Europa, saudando abstractamente o infinito, para que seja possível singrar mar dentro, pelo prazer de procurar a racionalidade complexa de sermos o único animal que sabe que vai morrer e que por isso mesmo tenta captar a eternidade.