Poucas são as novas da rotina da politiqueirice

Poucas são as novas da rotina da politiqueirice que merecem, hoje, registo crítico. Porque quase tudo quanto nestes epifenómenos aconteceu, antes de o ser já o era. O resto é reconhecermos que os tempos continuam de feição para a ilusão de movimento do poder pelo poder, dos que pretendem pôr os sistemas a funcionar, mesmo que não saibam para onde vai o próprio mundo de que são consequência. Entre um “action man” da esquerda menos e um “jogger” da direita envergonhada, neste nosso querido império do vazio ou do efémero, há o mesmo Kadafi a vender petróleo e investimentos em dinheiro fresco e branqueado. No mesmo cenário de canetas e papéis, o nada é um traço comum, um nada que já não é poder ser, mas o vazio de niilismo daquele pretenso pós-moderno que apenas nos diz que nos vai modernizar. Os líderes que temos são os líderes que merecemos, plastificadas sínteses de homens de sucesso, onde tem razão quem vence e ninguém se preocupa em duvidar sobre se quem venceu, ou vai vencer, tem um mínimo de razão, enquanto “logos”, isto é, discurso, palavra posta em comunicação. Deixá-los ter o monopólio desta imagem sem discurso, em sentido etimológico, a que damos o nome de gestão dos silêncios. Eles até ameaçam voltar a vencer, a recandidatar-se a reeleger-se. Seguem os ditames daquele livro de estilo dos que escapam de todas as gotas de chuva da crise. E só não se molham porque vão fugindo, pinga a pinga, do emeranhado que a todos nós nos vai secando. Esqueço as pequenas banalidades que nos amarguram em ninharias. Apenas reparo que esteve um ar lavado de Outono, um céu azul e um sol ainda vigoroso. A cidade ganhou novas cores e o Tejo continuou a semear Europa além da Europa, saudando abstractamente o infinito, para que seja possível singrar mar dentro, pelo prazer de procurar a racionalidade complexa de sermos o único animal que sabe que vai morrer e que por isso mesmo tenta captar a eternidade.

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