Por uma sonora gargalhada, ao ritmo do manifesto anti-Dantas

Dizem que Vara é o novo nome de Paulo Teixeira Pinto, isto é, que o PS já substituiu o PSD, na função de aliado preferencial da direita dos interesses, isto é, nesse conúbio de oportunismo capitaleiro com o castífero “ver se te avias”. Entretanto, recebo cartas electrónicas, onde um socialista de sempre me descreve o país real: o cenário é desolador. Os cérebros estão atrofiados, a mentira é rainha reconhecida, a mediocridade tomou conta de tudo. A escuridão apoderou-se de tudo. Mesmo os que contém alguma capacidade crítica, rapidamente dela abdicam a troco de uns míseros soldos. Todos estão a funcionar por objectivos, mas são objectivos que se resumem à posse de um automóvel um pouco mais comprido, de uns fatos um pouco mais caros, ou de uma casa com mais uma assoalhada.

No fundo, todos os dominantes procuram o pé de meia, depois de se cansarem das estúpidas utopias que ora nacionalizaram os antigos patrões, ora se tornaram empregados dos novos ricos que os mesmos geraram. Porque, afinal, tudo continua como dantes, isto é, com os eternos donos do poder, dado que apenas variam os feitores, os capatazes, os regedores, os propagandistas e as homilias.

Infelizmente, a classe política a que chegámos satisfaz-se com reformas, aposentadorias e uns lugarzecos na mesa do orçamento ou da fiscalização bancária, assim se tornando patente a impotência de um poder político, fácil presa tanto do neocorporativismo das velhas ordens do partido dos funcionários, como do neofeudalismo do permanecente partido da fidalguia.

E não há pronúncia do Norte, fazedora do “agenda setting” da oposição, que, na sua metralha de criação de factos políticos, consiga disfarçar o óbvio: o triunfo do cepticismo gerado por Fontes Pereira de Melo, de que Cavaco Silva e o respectivo Bloco Central são os legítimos herdeiros, como se demonstra pela discussão sobre a cabeça que vai engalanar a Caixa Geral de Depósitos onde o CDS já colocou a sua ex-ministra da justiça. Porque se a escolha recair entre Miguel Cadilhe e Manuel Dias Loureiro, que venha o Proença de Carvalho desempatá-la, dado que Ângelo Correia tem que continuar a fazer discursos de bota abaixo.

E depois de tudo isto, nem Sócrates pode gozar de umas curtas e retemperadoras férias, sempre com esta sarna, com muitos pés de Berardo e cócegas de Menezes, quando estas coisas sempre foram resolvidas eclesiasticamente, atrás das cortinas, ou por debaixo da mesa, de maneira a que a democracia fosse salvaguardada, isto é, que o povão não percebesse quem efectivamente manda, neste mundo esotérico do grande capital, feito de muitas quintas, quintais e quintarolas, onde todos jogam à bisca lambida da canasta, sem que nos emprenhem de ouvida no telejornal.

Ingratos lusitanos, descendentes do Oliveira de Figueira, que não reparam como já escalámos o promontório dos séculos, conquistando um lugar no céu dos princípios. Hoje não há fome, peste ou injustiça, dado que o presente presépio é esta renascida “belle époque”, onde as criancinhas já não precisam de aprender o abcedário nem a tabuada, bastando-lhe as consolas da nintendo.

Neste Natal, da conspiração de avós e netos, com as televisões em transmissões tipo RTP-Memória, entre José Hermano Saraiva e Mário Soares, com intervalos de Manuel Oliveira e José Saramago, todos somos sepulcros caiados de branco, escrevendo relatos de além túmulo, na eterna conspiração de avós e netos. Por outras palavras, precisamos que um qualquer Almada venha emitir novo manifesto anti-Dantas, porque muitos já estão fartos de casacas acolchoadas, sapatinhos de verniz a ombreiras almofadadas, com o consequente conceito de pátria portuguesa.

O meu feliz Natal existiria se meia dúzia de inconformistas se juntassem, saudando o nascer de novo, nem que fosse para a emissão de uma sonora gargalhada ao ritmo do tal manifesto anti-Dantas:

Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi.

É um coio d’indigentes, d’indignos e de cegos!

É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!

Abaixo a geração!

Morra o Dantas, morra!

PIM!

Uma geração com um Dantas a cavalo é um burro impotente!

Uma geração com um Dantas ao leme é uma canoa em seco!

O Dantas é um cigano!

O Dantas é meio cigano!

O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias para cardeais, saberá tudo menos escrever que é a única coisa que ele faz!

O Dantas pesca tanto de poesia que até faz sonetos com ligas de duquesas!

O Dantas é um habilidoso!

O Dantas veste-se mal!

O Dantas usa ceroulas de malha!

Não é preciso ir pró Rossio para se ser pantomineiro, basta ser-se pantomineiro!

Não é preciso disfarçar-se para se ser salteador, basta escrever como o Dantas!

Basta não ter escrúpulos nem morais, nem artísticos, nem humanos!

Basta andar com as modas, com as políticas e com as opiniões!

Basta usar o tal sorrisinho, basta ser muito delicado, e usar coco e olhos meigos!

O Dantas nasceu para provar que nem todos os que escrevem sabem escrever!

ODantas é um autómato que deita para fora o que a gente já sabe o que vai sair… Mas é preciso deitar dinheiro!

O Dantas é um soneto dele próprio!

O Dantas em génio nem chega a pólvora seca e em talento é pim-pam-pum.

Se o Dantas é português eu quero ser espanhol!

O Dantas é a vergonha da intelectualidade portuguesa!

O Dantas é a meta da decadência mental!

E ainda há quem não core quando diz admirar o Dantas!

E ainda há quem lhe estenda a mão!

E quem lhe lave a roupa!

E quem tenha dó do Dantas!

E ainda há quem duvide que o Dantas não vale nada, e que não sabe nada, e que nem é inteligente, nem decente, nem zero!

E fique sabendo o Dantas que se um dia houver justiça em Portugal todo o mundo saberá que o autor de Os Lusíadas é o Dantas que num rasgo memorável de modéstia só consentiu a glória do seu pseudónimo Camões.

E fique sabendo o Dantas que se todos fossem como eu, haveria tais munições de manguitos que levariam dois séculos a gastar.

Mas julgais que nisto se resume literatura portuguesa?

Não Mil vezes não!

Portugal que com todos estes senhores conseguiu a classificação do país mais atrasado da Europa e de todo o Mundo!

O país mais selvagem de todas as Áfricas!

O exílio dos degradados e dos indiferentes!

A África reclusa dos europeus!

O entulho das desvantagens e dos sobejos!

Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia – se é que a sua cegueira não é incurável e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado!

Morra o Dantas, morra! PIM!

José de Almada Negreiros

Poeta d’Orpheu

Futurista

E Tudo

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