Abr 23

De boas intenções, continuamos cheios

Grão a grão, se vai demonstrando como a revolta face ao situacionismo se dilui nas teias do rotativismo devorista, o que abana a árvore do governamentalismo, à espera que ela apodreça, mas para que outro rebento, do mesmo tronco, mantenha o mais do mesmo. Por outras palavras, mesmo na revolta continuamos sem adequada organização do trabalho nacional.

Portugal não continuaria adiado, entre forças vivas e seus feitores, do doméstico e dos supranacionais, se as próximas eleições fossem além do mero reflexo condicionado referendário, provocado pelo habitual monopólio dos perguntadores. Como haveria esperança se elas começassem a dar sinal do golpe de Estado sem efusão de sangue que constitui o mais aliciante das mudanças democráticas.

O homem livre pode, e deve, sujar as mãos no compromisso. Não pode é mudar radicalmente de atitude. Tem de continuar a viver como diz pensar, sem andar sempre a pensar como é que depois vai viver. Não é por se fazer um contrato que ele deixa de ser independente. Corre é o risco de tornar mais evidente a traição da falta de autenticidade. E de, como tal, ser rejeitado por quem nele confiou.

Os maiores exemplos cívicos que conheço são de homens que tomaram partido. Os que, a partir de uma facção, ou de uma perspectiva, conseguiram servir o todo da cidade, sem perderem a alma da convicção. Os que ganharam o respeito dos adversários e a confiança dos cidadãos. Os piores costumam ser os cobardes, desde os indiferentistas aos comodistas. Devemos admirar a coragem de servir.

Os que servem sem servir-se diferem dos serventuários. Tal como os que pensam livremente não podem confundir-se com os intelectuários, a habitual mistura de intelectual e serventuário que procura lentilhas na mesa do orçamento, gerindo a engenharia da cunha, no presente situacionismo, de subsidiocracia e empregomania, onde não faltam manitus, disfarçados de bispos, com o habitual coro de viúvas

Soares entrou em empatia. Menos ideológica. Continua a dizer que um social-democrata é neoliberal. Mas a parte de avô da democracia é ternurenta.

Soares: Passos é “uma pessoa bem-intencionada com quem se pode falar”

Abr 23

O estado febril a que chegámos

Encurrulados pela turbulência, todos confirmámos, a partir do episódio parlamentar de hoje, como o presente modelo de decisões não consegue rimar com a teledemocracia e o videopoder e, muito menos, com o ritmo europeu. Até Sócrates acabou de clarificar o respectivo conceito de diálogo, quando não quis ouvir a oposição na casa da democracia. Preferiu a Razão de Estado, a declaração directa aos portugueses, através do monólogo ou da conversa em família e acabou por aliar-se a todos os que querem que o presente estado febril entre em convulsões verbais. Logo, importa que se elimine a linguagem de guerra que faz da política uma tensão entre o amigo e o inimigo, voltando-se ao consenso mínimo, sem precipitações, isto é, com eleições condicionadas a metas comuns entre os principais partidos do arco constitucional, numa espécie de coligação negativa, não contra Napoleão, Hitler ou outros fantasmas e preconceitos, mas pela boa esperança que dê nova mobilização às tormentas da politiqueirice. O curto-circuito da solidão no poder, de um só lider, de um só órgão de soberania, ou de um só partido chegou ao fim. E o Presidente da República tem um urgente espaço de decisão e de criação de condições para o regresso à confiança pública.  Cabe-lhe um intervencionismo selectivo, mas pode assumir a plenitude da autoridade, pelo menos para evitar que a governabilidade continue reduzida a mera oposição à própria oposição.

Abr 22

A reunião terminou aos berros, entre o chefe do governo e o líder da oposição

Ninguém mobiliza contra o situacionismo, pondo no palco da alternância os causadores do presente situacionismo e que com ele se coligaram, mesmo aqui e agora, a nível do micro-autoritarismo sub-estatal, gerando pequenos blocos centrais, entre socratinhos e cavaquinhos. Esse é o principal problema de Passos Coelho.

Quando António Costa fez aquilo que foi qualificado como um corajoso ataque a Teixeira dos Santos, estava a desenhar uma táctica que era das próprias cúpulas do PS. Exactamente igual às lamentações de Edite Estrela hoje. O que vem à rede é peixe, neste jogo politiqueiro do vale tudo.

A reunião terminou aos berros, entre o chefe do governo e o líder da oposição. Porque o chefe começou a elevar a voz para que o outro dançasse o tango. Pena que o Pedro não colocasse a voz, com o tom lírico para que tem vocação. Que, da concórdia dos cânones discordantes, bem poderia nascer a harmonia…

Afinal, o partido concorrente às eleições com mais cabeças de lista que fazem parte da coluna dos amigos aqui na coluna da esquerda é o Partido da Terra. O meu antigo aluno e ex-deputado, Pedro Quartin Graça, mandou-me a lista.

“Um partido faz sempre opções. São convidadas umas centenas de pessoas e muitos milhares não são convidadas…As coisas começam e acabam. É um acto normal ter acabado”. Não, não foi Maquiavel que o escreveu, foi um actual ministro, convidado, sobre outro ministro mais alto, não convidado.

 

 

Abr 21

Otelo recorda Salazar, com precisão

Numa recolha de opinião da Eurosondagem para o “Expresso”, SIC e Rádio Renascença, o PSD soma agora 36,3%, contra 32,7% dos socialistas.

Otelo Saraiva de Carvalho afirma, ao “Jornal de Negócios”, que o país precisava hoje de um homem com a inteligência e a honestidade de Salazar. Apenas me recordo da justeza de Vera Lagoa, quando fazia o perfil do antigo herói da esquerda revolucionária. Confirma-se apenas que algum “élan” do 25 de Abril conservou muito do mito do 28 de Maio.

Abr 20

Depoimento à Rádio Renascença

“Uma folha A4 resolvia isto para não nos mentirem, porque eles sabem perfeitamente que grande parte do programa de Governo está a ser escrito nas nossas costas, pelos nossos próprios erros”. Parte das minhas declarações à Rádio Renascença, hoje.

Abr 20

A presente decadência do dependencismo

Gota a gota, se vai espremendo o programa do futuro governo de coligação do FMI/FEEF/BCE com os futuros feitores e capatazes da nossa partidocracia, onde terão a benção daqueles que os portugueses consideram os principais culpados da crise.

Os políticos comentam, mas dizem que não são comentadores. Infelizmente, alguns comentadores, como eu, gostavam de não ser independentes. Gostavam mais de um Portugal que tivesse a vontade de ser independente. Com direito às escolhas que podem fazer os holandeses, os dinamarqueses, os suecos, os finlandeses ou os helvéticos.

A presente decadência do dependencismo não vai durar duas décadas. Porque já não podemos salvar o daquém com o além das guerras ou das colónias. Por outras palavras, o próximo governo ou refunda Portugal, ou vai ser o coveiro do regime. E é pena: este foi o melhor regime que até hoje tivemos, depois da monarquia liberal, no período regenerador, entre 1851 e 1891.

Aqui ninguém poderia escolher um Obama, um Churchill ou um Charles de Gaulle. O primeiro por ser neoliberal. O segundo por ser neoconservador. O terceiro por ser tropa e patriota. Aqui, só pronto a vestir da loja dos chinocas, num cabide da Rua dos Fanqueiros e muitos milagres anunciados na habitual Feira da Ladra.

O Estado reuniu hoje nos mercados os mil milhões de euros que pretendia obter em leilões de Títulos do Tesouro a três e seis meses, mas com os juros a subiram em ambos os prazos. O cruzamento de dados continua no mais do mesmo.

Vida nova era PS, PSD e CDS fazerem uma conferência de imprensa conjunta com autocríticas, manifestando sincero arrependimento pelos erros de endividamento cometidos e dizendo, numa folha de Excel, quais eram efectivamente as respectivas divergências no pequeno espaço de autonomia que resta à república dos portugueses.

Continuamos a confundir as árvores com a floresta. Tanto não temos o “esprit geométrique” da dedução, como nos falta o “esprit de finesse” da intuição da essência. Isto é, não admitimos a geometria espiritual, do cartesianismo e da fenomenologia, é só contabilidade de merceeiro e caldos de galinha.

Começo a perceber a razão da ascensão de Salazar à ditadura. É que ninguém foi capaz de assumir as críticas democráticas da Seara Nova à democracia situacionista da decadência. Até há alguns palermas que acreditam na acalmação e dizem que o Palácio de Belém pode ouvir os conselhos das forças vivas e compromissiar num qualquer dos controladores que não controlou nada. Irra!

Ouço o debate da comissão permanente da Assembleia da República. Não há um só discurso que esteja à altura das circunstâncias. Dissolvem-se em passa-culpas, num exercício verboso de campanha eleitoral. Com esta atitude de xico-espertismo, vamos mesmo ao fundo.

Quando o destino dos portugueses está na mão de tecnocratas apátridas, mesmo que sejam excelentes técnicos, não vejo nenhum deputado, salvo o discurso silogístico dos comunistas, que revele a fibra multissecular que nos deu pátria. Eu quero continuar a autonomia política, mas muitos ainda não assumiram que isso passa por refundarmos Portugal através de um novo pacto de união.

A pátria, a liberdade e a justiça não são de esquerda nem de direita. Deviam ser lugares comuns no diálogo entre adversários que constitui a essência da democracia. Se, de dentro ou de fora, puserem em causa os três em conjunto, ou qualquer um deles em particular, há que entrar em resistência. Aí não me importo de fazer alianças com adversários. Até no voto. Não trairei.

Algumas novidades nas listas do PS. Lacão faz as viagens na minha terra ao contrário, caminhando para o Bugio. Gostei particularmente da ascensão da Isabel Moreira, a quem desejo força e boa missão. Por acaso, foram os dois meus alunos.

Por acaso, salário vem do sal que a tropa romana recebia, em troca dos serviços prestados. Os atrasos, hoje confirmados, apenas confirmam a etimologia. Hoje é o primeiro dia do resto das nossas vidas. Muito simbolicamente falando, em termos de hierarquia de valores.

O secretário-geral do PS comunicou ao presidente do Movimento Humanismo e Democracia (MHD), Rui Pena, o fim do acordo político, que tem como consequência a saída das deputadas independentes Teresa Venda e Maria do Rosário Carneiro. Pedro Passos Coelho não foi informado com a devida antecedência.

Abr 19

Entalados entre notáveis

Mário Soares volta a criticar… Basílio Horta. Não consta que participe na campanha do PS em Leiria. Prefere naturalmente o Algarve.

Estava para entregar um para entregar um projecto à rede nacional de subsidiocracia sobre “pantouflage”: basta uma sugestão jornalística. Investiguem o emprego já garantido pelos actuais ministros que não vão para deputados. Em empresas de regime e em negócios universitários. Alguns deles até foram contratados em pleno exercício de funções, face ao incremento extraordinário de currículo por causa da pasta.

Ao Compromisso Nacional, responde agora a Convergência Nacional. É o chamado golpe e contragolpe do abaixo-assinado. O mais do mesmo, até pela coincidência de, pelo menos, um ilustre “guru”, talvez arrependido de ter sido confundido com os donos dos hipermercados.

Entalados entre notáveis, os homens comuns podem ter uma certeza: o justo vai pagar pelo pecador.

Basta uma mera contabilidade de cruzamento de dados para compreendermos o bem pregas, frei Tomás. Grande parte dos notáveis coincidem com as comissões de honra dos candidatos Cavaco e Alegre, há poucos meses. Os comprimissiais com Boliqueime, os convergentistas com Águeda. Como nenhum dos candidatos falou destas verdades, desconfio dos presentes profetas.

Os compromissiais e os convergentistas, nas suas coincidências, apenas confirmam que estão unidos no essencial: deram cobertura ao situacionismo que nos conduziu ao desastre do dependencismo!

O nosso drama pode resolver-se à maneira de um jogo de torneio medieval. Pomos onze notáveis de um lado e outros tantos do outro. As lanças são fornecidas pelo FMI, FEEF e BCE para uso dos bestiais. Só as bestas são as do costume, as do trabalho sem dignidade e dos impostos roubalheiros.

Confesso que começo a estar farto destes jogos florais dos abaixo-assinados e das mensagens partidocráticas da pré-campanha eleitoral, quando estamos à beira de nova questão das subsistências. Vou ter de responder em conformidade, sem seguir o conselho do Marinho e Pinto. Se querem fiado, toma!

Futuro capítulo da história de Portugal: De Cavaco a Sócrates. Entre a ilusão desenvolvimentista e o dependencismo, ou o eterno devorismo, nas teias do socialismo de consumo.

 

Abr 19

Entrevista a O Diabo

DIABO

Adelino Maltez: “Estamos entre socratinhos e cavaquinhos”

por João Vasco Almeida a 19-04-2011

JOÃO VASCO ALMEIDA E JOÃO FILIPE PEREIRA (TEXTO) E ANTÓNIO LUÍS COELHO (FOTOS) Adelino Maltez: “Estamos entre socratinhos e cavaquinhos” Adelino Maltez, professor universitário, é arrasador: ou há uma revolução liberar, uma refundação, ou não vamos sair da cepa torta. “O povo adora estar entre medos”, diz. Mas apresenta uma solução… O Diabo – Há massa crítica no País para sairmos do sítio onde nos puseram? Adelino Maltez – Há gente, há território e há história, claro que há. Nós não somos um Estado exíguo. Mesmo em termos europeus, colocamos-nos na situação de médio Estado. O que há é que, em termos organizativos, quer políticos, quer da própria sociedade civil, nós vivemos numa ditadura de incompetência. Ficamos sempre muito entretidos porque há um bloco central de bonzos, como se dizia na I República, que não são nem carne nem peixe e depois, acompanhando o Bloco Central dos bonzos. Há os bobos da corte há Esquerda e há Direita. Por isso é que Portugal é o País mais conservador do sistema partidário de toda a Europa. Nós estamos praticamente incólumes, à excepção daquela extrema Esquerda que deixou de ser mobilizada pelo Mário Soares para dentro do PS e que constituiu o Bloco de Esquerda. Isto é um sistema mais estático, mais reaccionário e mais situacionista de todos os nossos companheiros da Europa. Portanto, naturalmente conduz a uma ditadura sistémica. Uma espécie de partidos, sistema, que vivem num sistema de autoclausura reprodutiva. O Diabo – Perante isso, a massa crítica de que lhe falava resultou em decisões neste sistema? R: Essa massa crítica parece-me paleio de uma das coisas que nestes últimos anos mais contribuiu para a desgraça nacional que são os escultores das estratégias. São uma espécie de espiões desempregados lendo livros de há 50 anos. De vez em quando há uma minoria de portugueses com generais… O Diabo – Isso toca em quem? Adelino Maltez – Isso toca aos chamados estrategistas. Generais desempregados e aos senhores que andam pelas universidades a dizer que inventaram a ciência da estratégia. Eles é que inventaram uma terminologia tão mortífera que destruiu completamente as nossas Forças Armadas e transformou os nossos espiões em novas PIDE’s em auto-gestão de espiões. Os factores humanos e a própria terra que temos está completamente paralisada por meia dúzia de preconceitos ideológicos. Porque é que Portugal é o único país da Europa onde ninguém pode ser Liberal? O Diabo – Porquê? Adelino Maltez – Eu não sei porquê. É a terceira força no Parlamento Europeu e em Portugal há uma coisa que une Cavaco Silva, Paulo Portas, Passos Coelho, José Sócrates, Louçã e Jerónimo de Sousa: nenhum deles é liberal. E há outra coisa que também é verdade. Se formos aos países que estão no topo dos países com maior desenvolvimento humano do mundo, são todos produtos da civilização Liberal. Se formos a todo o sistema Europeu, mesmo este da União Europeia, Portugal e Espanha são os únicos socialistas. Portugal nem é tão Liberal como o socialismo espanhol. Porque é que nós gostamos de estar em contra ciclo? Porque é que até em termos de coragem, raros são os intelectuais que não têm medo de dizer: “Eu sou mesmo Liberal”? O Diabo – Mas houve liberais a construir o Estado que hoje conhecemos! Adelino Maltez – Quem construiu este Estado, da parte moderna que ele tem, foi um homem chamado Mouzinho da Silveira. Ele, pela primeira vez, fez impostos directos para o Estado. Em segundo lugar, aquilo que temos hoje de Estado Social, não nasceu da Revolução Soviética, nem da Revolução Fascista. Nasceu do Beveridge Report, em 1942, feito por um Liberal – chamado William Beveridge. Quando eu vejo trotskistas, estalinistas, pinsilguistas, a dizer “temos que salvar o Estado Social”… Mas eles não o fizeram, eles destruíramno. Portanto, alguma coisa está mal neste processo. O Diabo – Neste cenário de eleições que se avizinha, não há nenhuma proposta Liberal em cima da mesa. Ou há? Adelino Maltez – Nem a de Passos Coelho. O Diabo – Ele dizia que era liberal… Adelino Maltez – Ele liberalizava. Andava à procura de um novo programa Social Democrata. Paulo Portas faz parte de um partido do qual fiz parte em quanto existiram liberais. Hoje o seu discurso é o choradinho do Papa Leão X, porque isso dá votos. Está no centro católico português do tempo de Salazar. Não passa disso. Assumiu não ser Liberal e até critica o PSD por não se preocupar com a questão social do século XIX. O Diabo – Se a situação é esta nos grandes partidos, nos pequenos partidos – e o senhor passou por um com Manuel Monteiro… Adelino Maltez – Eu passei por duas experiências partidárias no pós 25 de Abril. Uma com Lucas Pires outra com o PND quando ainda foi à Internacional Liberal. Mas também o PND abandonou e foi para o choradinho democrata cristão. O Diabo – Porque é que não funciona, então, o discurso liberal? Adelino Maltez – Não funciona porque não há coragem e qualquer palerma sabe que isto não dá votos. Portanto, não dando votos eles partem para a ideologia que dá votos. O Diabo – A lógica eleitoral em Portugal é uma lógica de mercado? Adelino Maltez – É uma lógica de mercado sem concorrência. É como as empresas de regime, não é uma lógica de liberdade. É uma lógica repleta de preconceitos e de fantasmas. O problema está em percebermos que as eleições estão fortemente condicionadas pelos aparelhos. E há logo uma ideia em Portugal que ser Liberal é estar a favor dos banqueiros. Porque é que eu não hei-de criticar os banqueiros? Os únicos países onde se prendem banqueiros é em países liberais. Ser Liberal é ser pelo Carrapatoso e pelas empresas onde não há concorrência. Mas porque é que eu não hei-de criticar a falta de concorrência nos sectores onde os empresários vão à televisão e andam a fazer programas para partidos políticos? Porque é que o Liberal é aquele que necessariamente não critica os corruptos? Tem graça, eu já fundei duas vezes a organização de luta contra a corrupção, em Portugal. Todas as estatísticas desmentem os preconceitos, e, portanto, nós estamos com um pezinho no Norte de África. Mas enganámos-nos, porque isto agora faz parte da jangada de pedra que saiu de Espanha que arrisca naufragar no Atlântico, a caminho dessas ilusões. Há aqui um grande preconceito. O Diabo – Portugal não acompanhou a Europa? Adelino Maltez – Portugal saiu completamente fora do modelo Europeu, no plano das atitudes da cultura política. Nós estamos em contra ciclo. Estamos a pedir dinheiro a quem tem uma perspectiva completamente diferente da nossa. Até porque os resultados dessa perspectiva tiveram frutos. Mesmo em países de leste Europeu. Portugal é o único país da União Europeia que está a ir ao fundo. Porque adoramos música celestial e comícios à maneira de Matosinhos. Faz-me lembrar o Marcelo Caetano, uma semana antes do 25 de Abril, a ser aplaudido de pé no Estádio José de Alvalade. O Diabo – Ao recordar D. João III, ele também titularizou dívida… Adelino Maltez Nós não estamos como nesse tempo. Porque de vez em quando refundamos-nos. Ao longo da história fomos-nos refundando… A última vez foi em 1974. Portugal só existe porque foi sendo refundado. E é chegado o tempo de nos refundarmos. O Diabo – Como? Adelino Maltez – Isso cada um tem a sua proposta. Temos dois caminhos. Ou regeneramos estes partidos por dentro e os partidos, eles próprios, são parte da mudança ou eles vão continuar no desastre e depois chegamos a uma incógnita. Eu sou de uma geração onde não nos mexíamos por causa de dois medos. O medo dos comunistas, por um lado, e o da tropa que fez um golpe de Estado. Estes dois medos faziam com que a sociedade portuguesa não entrasse neste egoísmo. Desaparecidos estes dois medos só resta, hoje, um: ter medo de mim próprio e da minha atitude. E isso é muito difícil de educar. Nós ainda não nos reeducámos o suficiente para funcionar sem estes dois controlos. Mantemos do anterior sistema uma coisa que Orwell chamava de colectivismo de seita. E isso tinha dois nomes: católicos e comunistas. Não tenho nada contra os comunistas ou os católicos. Muitos patifes na sociedade portuguesa vão à missa ou ao comício do PCP. São tipos que não tem o mínimo de ética comunista ou moralidade cristã e que não ama o próximo como a si mesmo, e fazem aos outros o que não gostariam que fizessem a si, mas que vão à missinha. O que é que nós fazemos? Isto é um centro de lavagem pior que a do dinheiro. Eu até já vi Sócrates a benzer-se. Este colectivismo moral de seita, num país como o nosso que tem quatro séculos de meio de inquisição, 50 anos de ditadura, não repara que vivemos numa sociedade pós totalitária ou pós autoritária. Eliminados os mecanismos exteriores de repressão, permanece o subsistema de medo. O Diabo – Mas os países ex-União Soviética passaram pelo mesmo e conseguiram regenerar-se. Adelino Maltez – Através dos checos. Nomeadamente aquele ambiente de vigésima quinta hora. Nunca houve tanta paz como no tempo de Salazar. Já não havia a PIDE todos os dias a prender e a bater. Mas havia medinho. A malta não se manifestava porque tinha medo. Neste momento não há PIDE. Há uns espiões que tentam copiar isso mas não chega. Mas, pior que isso, há um micro-autoritarismo. Não há Sócrates mas há socratinhos. Tal como não havia Cavacos mas havia cavaquinhos. Aliás, agora esses cavaquinhos e socratinhos, em muitos micro subsistemas estatais – como nas escolas – têm esse poder. E o que é que eles fazem? “Ah o menino porta-se mal? Não tem subsídio”. Têm que perceber que se têm de calar a boca porque quem manda é o chefe e o chefe é o único que lhes garante uma carreirinha sem sobressaltos e umas viagenzinhas ao estrangeiro. O Diabo -Tem respeito por algum dos candidatos deste momento, dos conhecidos à Assembleia da República? Adelino Maltez – Por acaso tenho. Alguns até são meus amigos. O Diabo – E o que é que lhes diz? Adelino Maltez – Digo-lhes isto e eles ouvem. Não me queixo, sou o tipo que sou ouvido, e durante muito tempo fui considerado maluco, mas como tenho acertado. O meu conceito liberal é a coisa mais simples do mundo, é igual à terceira força do parlamento europeu. Tem à direita o PPE, à esquerda o Partido Socialista. Mas não é o centrão, é o centro excêntrico, radical. E em Portugal não há. As regras de liberais que não param a actual globalização permitiram que grande parte do mundo fosse cada vez mais rico, a China, o Brasil… E nós não estamos a perceber que hoje o jogo é um jogo global. O Diabo – É por isso que estamos em crise? Adelino Maltez – Nós estamos em crise porque o euro está em confronto com uma coligação negativa dos chineses e do dólar. Há placas onde isto toca, e nós fomos mais uma vez a vacina. Como foi no tempo em que o comunismo estava a brincar com os Estados Unidos para “papar” Angola e Moçambique. E os grandes deste mundo ocidental disseram: “Deixa estar que os rapazes são insignificantes, se fosse a Espanha era grande demais, vamos espetar a vacina no dorso deles”. O Diabo – Quem são esses “grandes”? Os mercados? Adelino Maltez – Também. Por exemplo, todas as agências de rating e todo este sistema puniram mais do que aquilo que merecia, porque sabem perfeitamente que o sistema partidário português não tem agilidade. E que o Presidente é o Senhor Professor Aníbal Cavaco Silva, que é um homem muito previsível, depois dá sempre tanto a prever que nunca actua. Porquê? Porque não é capaz de dizer a verdade, porque Cavaco Silva, quando foi Primeiro Ministro de Portugal, quis ser bom aluno daquele desenvolvimentismo europeu. Desmantelou a agricultura, desmantelou as pescas, e disse que o nosso futuro agora era uma autoestrada de betão a caminho dos subsídios comunitários. Entrou na monocultura. Naquela altura ele tinha que fazer aquilo, não estou a criticá-lo. Mas nunca num regime de monocultura. Deveria ter manha suficiente para fingir a eles que fazia, mas manter uma reserva estratégica.

 

Abr 18

Das listas de deputados

Afinal os partidos que apoiavam o governo da Finlândia não eram da extrema-direita. E até apoiavam o governo socialista português. Quem estava contra a ajuda era mesmo o extrema-direita que subiu muito e o partido-irmão dos socialistas portugueses que ficou em segundo. Mesmo velhos camaradas deveriam ter a humildade de ver as coisas como elas são, caso do Dr. Soares que aqui denunciei, em tempo real.

Convém notarmos que, em certa Mitteleuropa e por entre os nórdicos, está a surgir um nacional-sindicalismo xenófobo, dito de esquerda, conforme as belas tradições anti-semitas que marcaram personalidades como Karl Marx, Louis Blanc, Proudhon e Blanqui e alguns dos partidos de massas socialistas. A intolerância e o etnocentrismo afectam todas as famílias políticas.

Convém repararmos que um dos partidos mais da extrema-esquerda da Europa ocidental, os etarras, assenta numa concepção ultra-racista de nação, de mero cariz zoológico, sendo o principal embaraço à paz nesta nossa Península. Foi dessa mistura de racismo e socialismo que nasceu Adolfo Hitler. Até os sociais-democratas suecos, nos anos trinta, caíram nas teias da doença.

Dedilhando a lista dos candidatos em lugares elegíveis, confirmo que tenho lá uma turma de cerca de vinte e cinco ex-alunos, alguns deles bem queridos, de comunistas a direitistas. A única coisa que lhes ensinei é que eles aprendessem sempre. E desejo que com eles eu próprio possa aprender. Temos de continuar a fazer corrente. Estou mesmo condenado a não poder tomar partido, cá por dentro.

Já lá vão uns anos, talvez quatro, que me demiti do último cargo académico que exerci. E na carta ao Reitor, enumerava um caso de atropelamento da meritocracia, com nome e tudo. Fiquei a saber que esse caso acaba de dar entrada por concurso público num dos principais centros universitários do mundo. Aqui sofremos muito de miopia, sobretudo os universitários da politiqueirice e os políticos do negócio universitário.

Agências de “rating” ameaçam baixar a classificação dos próprios Estados Unidos. Logo se segue uma espécie de pequeno “crash” nas bolsas europeias, incluindo na de Lisboa. Malhas que a geofinança tece, neste confronto mundial de moedas que nos vai tramando.

Quando ouço algumas vozes partidárias dizerem que uma delas vai vencer as eleições fico em revolta, contra esta perspectiva de jogo de soma zero, onde o que um ganha perde o outro. Neste caso, perdemos todos, se a política não voltar a ser um mobilizador para o jogo de soma variável, onde, da competição, devem ganhar todos.

Quando vou sendo informado das negociatas de almoçarada com que os mandarins vão lançando pontes para a continuidade do bloqueio do centrão alargado, apenas prometo que não cederei a tal neofeudalismo dos conservadores do que está. Pior do que Sócrates são os socratinhos, mesmo que no Cavaquistão tenham sido cavaquinhos!

A velha rede das castas dos mandarins, onde ainda prosperam salazarentos e marceleiros, continua a tratar muitos politiquinhos como simples feitores e capatazes. Se o abuso preponderar, não julguem alguns que lhes passarei um cheque em branco, em nome da velha tese, segundo a qual o inimigo do inimigo comum é meu amigo.

Freitas do Amaral adora Sócrates 1, mas detesta Sócrates 2, continuando a preferir Teixeira 3 a dos Santos 4. Detesto esta mistura de literatura de justificação com construção do epitáfio. O ex-presidente da União Europeia das Democracias Cristãs é o pretérito em música celestial. Não aquenta nem arrefenta, sobretudo em dia de trovoada.

João Soares é um tipo porreiro. Lá disse que a extrema-direita finlandesa estava contra a ajuda a Portugal, sem dizer que os socialistas, seus camaradas, também estavam na mesma. Infelizmente não disse a verdade sobre os liberais (ditos centristas) e os chamados conservadores (ditos da coligação nacional) de Helsínquia, sempre confundidos com os “verdadeiros finlandeses”.

Carlos Abreu Amorim, segundo João Soares é de extrema-direita. Será por ter sido do CDS? Por se assumir como dissidente do PND, quase ao mesmo tempo que outros que foram para o PS? Por se dizer liberal ou regionalista? Ou simplesmente por ser dragão? Meu amigo João, convém não brincarmos com coisas sérias, roçando o insulto. Ainda hei-de ver os dois votando em conjunto, lá por São Bento.

O Presidente da República disse hoje estar a acompanhar a situação portuguesa depois do pedido de ajuda externa, mas escusou-se a fazer comentários, alegando que há alturas em que “o protagonismo mediático é contra a defesa do interesse nacional”. “Eu sei muito bem quando é que devo falar em público… (Leiam o Facebok).

Abr 18

Finlandeses

Afinal os partidos que apoiavam o governo da Finlândia não eram da extrema-direita. E até apoiavam o governo socialista português. Quem estava contra a ajuda era mesmo o extrema-direita que subiu muito e o partido-irmão dos socialistas portugueses que ficou em segundo. Mesmo velhos camaradas deveriam ter a humildade de ver as coisas como elas são, caso do Dr. Soares que aqui denunciei, em tempo real.

Convém notarmos que, em certa Mitteleuropa e por entre os nórdicos, está a surgir um nacional-sindicalismo xenófobo, dito de esquerda, conforme as belas tradições anti-semitas que marcaram personalidades como Karl Marx, Louis Blanc, Proudhon e Blanqui e alguns dos partidos de massas socialistas. A intolerância e o etnocentrismo afectam todas as famílias políticas.