Dez 10

Saudando a Europa, de costas voltadas para a mesma Europa

De repente, esta minha varanda do fim da Junqueira, quase na esquina com a calçada da Ajuda, tornou-se o centro do mundo, tantas são as sirenes que anunciam a passagem de dezenas de chefes políticos de tantas e tão várias gentes desta esfera armilar, ontem e anteontem, das Áfricas, no próximo dia 13, das vinte e sete canetas da Europa, entre os Jerónimos e aqui, o museu dos Coches, numa viagem de eléctrico, talvez para homenagear o primeiro chefe de Estado da I República, o velho republicano federalista, Teófilo, o “guardador de patos”, que assim se fazia transportar para o Palácio de Belém.

Posso assim esquecer a politiqueirice das pretensas estratégias que não passam de tacticismos, das ilusórias políticas onde quase todos os ganhos acabam por rimar com derrotas morais. Apenas apetece largar estas amarras e encontrar um qualquer lugar onde, para que continue a ser possível semear os projectos que resguardo na arca dos escritos inúteis. Longe, bem longe das encruzilhadas com que confundimos a mudança, para que valha a pena dizer que a vida tem sentido.

Apenas chegam os pequenos sinais que voltam a dar sorriso, uma palavra, uma frase que se volve em força interior, um pequeno entusiasmo que nos permite o pensamento. Mesmo aqui, neste sítio de passagem, onde todo o mundo se vai cruzando, entre luzes e luzinhas ditas de Natal, com as musiquetas enlatadas do costume e muita gente engravatada, endinheirada, muitas e muitas peças de outras tantas máquinas do “time is money”, dessa única movimentação que faz, por enquanto, olear a humanidade que se mexe, deste fluido sem alma que nos vai afogando, asfixiando.

Apenas me vou escrevendo e descrevendo, juntando palavras e frases que, pouco a pouco, me vêm, nesta procura que me dispersa. Mesmo quando viajo lá para as bandas do sol posto, por entre ondas do mar que são brancas, mas que por dentro são amarelas, mesmo por entre os agrestes pinhais da nortada.

Apenas olho quem sou neste dezembrino tempo, contando os ninhos de cegonhas nos postes de alta tensão, olhando quem se vai perdendo nas brumas da paisagem. Olho que sou meus olhos, assim de fora para dentro, nesta paisagem que se vai sumindo em sensação do pensamento. Os olhos flectindo para a reflexão a que não chego, no traço das palavras com que procuro imitar o cosmos para onde tendo. Olho quem sou, me redifino, me redivivo e, escrevendo e pensando, me perco por entre as coisas que me circulam e de que sou parte.

Fixo as árvores, os fetos, os silvados, a pedra dos muros, o agreste que vai desarrumando os sinais que o homem plantou, as estradas, as casas, os campos de sementeira. São restos de canaviais, ruínas de fábricas, uma capela, um cemitério, esta vaigem de quem sou, entre as bouças e brumas do saudosismo de Pascoaes e os esteiros e campinas de Soeiro Pereira Gomes.

Sempre esta viagem pela memória rurbana de quem sou, sentindo o sangue da paisagem. Apenas estou chegando à borda d’água, às casas, apartamentos e parcamentos desta geração comprimida entre assoalhadas e o crédito hipotecário, onde metade do tempo-trabalho vai para os juros do “time is money” do Estado-Patrão e da ilusão de uma banca nacionalizada, deles, dos que nos enganaram com bonificações. E lá volto a mim mesmo. Ao simbólico da cimeira das típicas multilaterais em directo. Vou à varanda, olho o Tejo e vou içar a bandeira das doze estrelas, aquela que o Padre António Vieira ousou qualificar como do Quinto Império, antes de resistir aos bombardeamentos da Besta no vitral da catedral de Estrasburgo, assim saudando a Europa, de costas voltadas para a mesma Europa.

Dez 09

Esta minha varanda do fim da Junqueira

De repente, esta minha varanda do fim da Junqueira, quase na esquina com a calçada da Ajuda, tornou-se o centro do mundo, tantas são as sirenes que anunciam a passagem de dezenas de chefes políticos de tantas e tão várias gentes desta esfera armilar, ontem e anteontem, das Áfricas, no próximo dia 13, das vinte e sete canetas da Europa, entre os Jerónimos e aqui, o museu dos Coches, numa viagem de eléctrico, talvez para homenagear o primeiro chefe de Estado da I República, o velho republicano federalista, Teófilo, o “guardador de patos”, que assim se fazia transportar para o Palácio de Belém. Posso assim esquecer a politiqueirice das pretensas estratégias que não passam de tacticismos, das ilusórias políticas onde quase todos os ganhos acabam por rimar com derrotas morais. Apenas apetece largar estas amarras e encontrar um qualquer lugar onde, para que continue a ser possível semear os projectos que resguardo na arca dos escritos inúteis. Longe, bem longe das encruzilhadas com que confundimos a mudança, para que valha a pena dizer que a vida tem sentido. Apenas chegam os pequenos sinais que voltam a dar sorriso, uma palavra, uma frase que se volve em força interior, um pequeno entusiasmo que nos permite o pensamento. Mesmo aqui, neste sítio de passagem, onde todo o mundo se vai cruzando, entre luzes e luzinhas ditas de Natal, com as musiquetas enlatadas do costume e muita gente engravatada, endinheirada, muitas e muitas peças de outras tantas máquinas do “time is money”, dessa única movimentação que faz, por enquanto, olear a humanidade que se mexe, deste fluido sem alma que nos vai afogando, asfixiando. Apenas me vou escrevendo e descrevendo, juntando palavras e frases que, pouco a pouco, me vêm, nesta procura que me dispersa. Mesmo quando viajo lá para as bandas do sol posto, por entre ondas do mar que são brancas, mas que por dentro são amarelas, mesmo por entre os agrestes pinhais da nortada. Apenas olho quem sou neste dezembrino tempo, contando os ninhos de cegonhas nos postes de alta tensão, olhando quem se vai perdendo nas brumas da paisagem. Olho que sou meus olhos, assim de fora para dentro, nesta paisagem que se vai sumindo em sensação do pensamento. Os olhos flectindo para a reflexão a que não chego, no traço das palavras com que procuro imitar o cosmos para onde tendo. Olho quem sou, me redifino, me redivivo e, escrevendo e pensando, me perco por entre as coisas que me circulam e de que sou parte. Fixo as árvores, os fetos, os silvados, a pedra dos muros, o agreste que vai desarrumando os sinais que o homem plantou, as estradas, as casas, os campos de sementeira. São restos de canaviais, ruínas de fábricas, uma capela, um cemitério, esta vaigem de quem sou, entre as bouças e brumas do saudosismo de Pascoaes e os esteiros e campinas de Soeiro Pereira Gomes. Sempre esta viagem pela memória rurbana de quem sou, sentindo o sangue da paisagem. Apenas estou chegando à borda d’água, às casas, apartamentos e parcamentos desta geração comprimida entre assoalhadas e o crédito hipotecário, onde metade do tempo-trabalho vai para os juros do “time is money” do Estado-Patrão e da ilusão de uma banca nacionalizada, deles, dos que nos enganaram com bonificações. E lá volto a mim mesmo. Ao simbólico da cimeira das típicas multilaterais em directo. Vou à varanda, olho o Tejo e vou içar a bandeira das doze estrelas, aquela que o Padre António Vieira ousou qualificar como do Quinto Império, antes de resistir aos bombardeamentos da Besta no vitral da catedral de Estrasburgo, assim saudando a Europa, de costas voltadas para a mesma Europa.

Dez 08

Cimeira euro-africana

Neste dia da Senhora da Conceição, rainha de Portugal, e de cimeira euro-africana, a maior das cumeadas políticas até hoje realizada em Portugal, apenas se confirma que a falta de justiça na distribuição da riqueza é directamente proporcional às degenerescências da política, como são, e sempre foram, as tiranias, as oligarquias e as ditaduras das maiorias, para não falarmos nas variantes da cleptocracia, do nacionalitário, do tribalismo, dos senhores da guerra e do fundamentalismo. Por isso, começo por encimar este postal com a Acta Final da Conferência de Berlim sobre a partilha de África, de 1885, onde não faltou o próprio imperador dos otomanos. Não nos incomodemos com as polémicas mugabianas ou com o espectáculo de Kadafi, com as suas tendas, amazonas e tiradas, onde não faltou conferência universitária, mas sem que um reitor lhe dissesse, olhos nos olhos, o que um reitor norte-americano disse ao presidente do Irão, em situação paralela. Ficou o pedido líbio sobre a urgente necessidade de os europeus indemnizarem os africanos por causa da colonização. Tal como os descendentes do Império Romano e dos reinos bárbaros poderiam solicitar idêntica indemnização aos invasores árabes. Ou um lusitano reclamar coisa parecida à República Italiana pela morte de Viriato. Para não falarmos nos bantos que se estabeleceram em Angola depois da chegada de Diogo Cão à foz do Congo. Por mais cuidada que tenha sida a preparação desta cimeira, não é desta que podemos assinar um projecto de reconstrução de uma comunidade de destino no universal, capaz de ultrapassar as vergonhas naturais geradas pela Conferência de Berlim, em nome de Deus todo poderoso. Apesar de nem todos lermos a cartilha de Frantz Fanon, ainda não é possível apagarmos as memórias da escravatura e o travo amargo da revolta, do sangue e da derrota, nesse África, Adeus, com muitos fantasmas e preconceitos, tanto da guerra como do ódio racial. Basta notar as muitas pequenas histórias que todos vão recontando, sobre os processos do colonialismo e da descolonização, entre as guerras coloniais e as guerras civis que todos fomos semeando. E não há missões civilizadoras, laicas ou cristãs, bem como cooperações, negócios, ONGs, acordos culturais, ou parcerias para investimentos que sejam suficientes para podermos olhar o sol de frente. Isto é, a reconstrução da necessária comunidade de significações partilhadas que faça, do Mediterrâneo e do Atlântico, os mares interiores de uma construção conjunta. Por outras palavras, há sempre consequências domésticas dos grandes actos internacionais. E nada pior do que os essencialismos, tipo homem africano ou homem europeu. Como se eu fosse otomano, ou o líbio fingir-se de bosquímano. O que não subscrevo é o recente discurso de Sarkozy em Dakar: le drame de l’Afrique, c’est que l’homme africain n’est pas assez entré dans l’histoire…jamais il ne lui vient à l’idée de sortir de la répétition pour s’inventer un destin… (26 de Julho). Em vez do hegelianismo de direita, prefiro o teilhardiano Senghor e não quero reclamar a Paris indemnizações por ter napoleónicas intervenções armadas, com provados roubos e violações. Prefiro a Europa unida e a cooperação euro-africana, mesmo que haja brumas na memória.

Dez 07

Neste pobre aquém-mar, onde navegar deixou de ser preciso e o viver passou a ser sobreviver

Saiu mais um barómetro da ONG “Transparency International” sobre sinais da chamada compra de poder, ou corrupção. Continuamos a não perceber que os países onde há menos corrupção são, precisamente, os mais liberais e os mais capitalistas do mundo. Isto é, os que melhor casam a ética social da honradez com as regras do jogo do capitalismo global, onde, ao lado dos velhos protestantes, já aparecem católicos e alguns orientais. Por outras palavras, os que deram ao individualismo e ao personalismo a autonomia das morais tradicionais e que, a partir deste humanismo, enquadraram a economia de mercado com estaduais normas, mantendo as portas e as janelas abertas, sem medo dos resfriados, porque apostaram nos anticorpos identitários. Por cá, temos a corrupção que merecemos, coisa que disfarçamos com o presente “voyeurismo” mediático sobre as pontas visíveis de tal “iceberg”, as que as polícias e os magistrados conseguem processar, entre “furacões” e “apitos dourados”. Se calhar, o principal culpado pela corrupção é o próprio sistema educativo, das famílias e das escolas, quando não consegue dar formação de autonomia aos indivíduos, quando desnormativiza aquilo que deveria ser o não mal-educado. Porque não queremos assumir aquela cultura demoliberal, segundo a qual o Estado está acima do cidadão, mas o homem, acima do Estado. Porque se a política é a ciência dos actos do homem enquanto cidadão, enquanto membro da república, da “polis”, ou do Estado, e a economia, a ciência dos actos do homem enquanto membro de uma entidade económica (“oikos” em grego, “domus”, em latim), já a moral é a ciência dos actos do homem enquanto “indiviso”. Por nós, entre o beatério hipócrita e o revolucionarismo frustrado, entre a saudade passadista e a utopia dos “amanhãs que cantam”, pouco valor damos à moral do pensarmos pela nossa própria cabeça, para vivermos como pensamos, sem pensarmos, depois, como, com coerência, iremos viver. Ao enredar-nos em colectivismos de seita, entre as memórias inquisitoriais e as ilusões comunistas, não conseguimos passar das regras individuais à urgente subversão pela justiça. E desprezamos a educação pelos exemplos de vida, o respeito pela palavra dada e o tribunal do remorso. Ainda não actualizámos a velha tríade liberdadeira do liberalismo político, do liberalismo moral e do liberalismo económico. Se tivemos, outrora e agora, algum liberalismo democrático, bem como o lastro da evangélica democracia da sociedade civil, ainda não nos libertámos do absolutismo, ainda não admitimos que inventámos a política para deixarmos de ter um dono (de “dominus”, chefe da “domus”, de “despote”, chefe da “oikos”). O Estado ainda são os eles, os donos do poder e os ministros que querem tê-lo sido, bem como os outros partidocratas, dos eurocratas aos autarcas. O Estado ainda não é “polis”, ainda não é “respublica”… Falta também um núcleo duro de liberalismo moral, apenas resistente no arquipélago dos círculos do humanismo cristão e do humanismo laico, nomeadamente nas memórias maçónicas. Logo, a eficácia do liberalismo económico é quase mesa pé de galo, pois ele foi importado a retalho, continuando economia privada sem economia de mercado, com muito devorismo e feudais “gentlemen’s agreements”, para a conquista do proteccionismo do estadão, mas sem concorrência salutar e efectiva entre os agentes económicos. E o lastro de colectivismo de seita, bem demonstrado pela aliança entre os ditos progressitas cristãos e os ditos comunistas, gerou aquele vanguardismo dos que procuram monopolizar o caminho e a verdade para o além, ou assumir-se como o sol da terra deste pobre aquém-mar, onde navegar deixou de ser preciso e o viver passou a ser sobreviver.

Dez 06

Só a moral é alternativa ao Estado a que chegámos

Reparo que o star system da Europa em movimento está bipolarizado entre o jogging de Sócrates, a tenda do líbio que vai conferenciar ao salão nobre da Clássica de Lisboa, depois de um anúncio de página inteira que comprou ao jornais mais intelectual de Lisboa, as brilhantes palavras do petroleiro revolucionário reduzindo a oposição ao substantivo com que ele encheu a boca e, acima de tudo, a grande frase daquele que hoje mais intusiasma os conservadores e socialistas da Europa, Sarkozy: Je ne suis pas un théoricien, je ne suis pas un idéologue, je ne suis pas un intellectuel: je suis quelqu’un de concret. Por mim, homem comum, pouco me entusiasmo com esta concretude. Não quero ter que escolher entre o Chávez, o Líbio e os camelos, neste deserto de ideias. Prefiro reparar que continuo a ser liberal. Daqueles que ainda compreendem Espinosa, Adam Smith, Adam Ferguson, Montesquieu ou Fernando Pessoa. Por isso, gostaria de poder alinhar num movimento que recuse, do presente capitalismo global, a máxima, segundo a qual importa é o “tudo para nós e nada para os outros”. Para mim, “o sistema moral engloba o sistema económico, gerando as sábias virtudes do esforço, da honestidade e da habilidade, e os laços sólidos pelos quais aceitamos as nossas responsabilidades uns para com os outros, os hábitos de cooperação, o sentido moral de que depende o mercado”. Citei Smith, citado por um político actual da Europa, um professor de história, antigo reitor de uma velha universidade. Porque importa “o aperfeiçoamento da sociedade civil e o sentido moral como necessário ao progresso”. Porque “a moral é alternativa ao Welfare State”. Para que a mão invisível se case com uma mão segura. Por outras palavras, as frases são de um tal Gordon Brown. Reparo também que noutras águas da dita esquerda, para os lados de França, surgiu o movimento de “Les Gracques”, contra “os reflexos neomarxizantes” e as “bricolagens ideológicas” que enredam o PS francês. São eles que invocam Espinosa e Montesquieu, pretendendo assumir o liberalismo político. Por estas e muitas outras é que continuo liberal. Do liberalismo moral, do liberalismo político e do liberalismo económico. Se a direita a que chegámos mistura os “slogans” do liberalismo económico com o “jogging” e a “concretude”, continuarei a defender a trindade e penderei para o lado dos que invocam as duas primeiras pessoas da revolução atlântica, iniciada em 1640 e que passou pela revolução inglesa, pela revolução norte-americana e pelos demoliberalismos. A que invoca Locke, Montesquieu e Burke e que agora invoca o quadro da mão segura e da mão invisível, com pensamento e entusiasmo.

Dez 05

Paroquialismos, vacas sagradas e dilúvios que o não são

Todos temos uma pequena pátria, incluindo os que foram obrigados a migrar para esta cidade feita por subscrição nacional, a que chamamos Lisboa. A minha pátria é a casa onde nasci, a que está à esquerda da Sé, a encerrada maternidade Bissaya Barreto que servia de plataforma entre a cidade dos futricas e a dos doutores. Paroquialismo, por paroquialismo, prefiro as serenatas da Sé Velha. Os senhores burocratas e partidocratas, sejam chefes de segunda ordem, directores, autarcas, ministros ou eurocratas, são especialistas em eternos erros de cálculo. Porque não conseguem adaptar a prospectiva à conjuntura e vão dando, a esta, o nome de estrutura. A única certeza que podemos ter não está na futurologia das circunstâncias, mas antes em procurarmos o eixo de eternidade em torno do qual vai circular a roda da história. Porque não é a história que faz o homem, mas antes o homem que faz a história, mesmo sem saber que história vai fazendo. E não há nada de mais historicamente comprovado do que o falhanço das sucessivas “révolutions d’en haut”, programadas pelos errados “catecismos dos industriais” com que nos querem escrever antecipadamente as novas religiões da humanidade, em nome da “ordem e do progresso”. Porque a história não é o produto das boas, ou más, intenções de um, ou de alguns dos homens, mas antes o resultado da efectiva acção de todos os homens. Logo, torna-se urgente uma nova engenharia de desconstrução dos gnosticismos que nos enredam, principalmente dos neodogmatismos, ditos antidogmáticos, que ocuparam os livros de estilo do pensamento único que nos continua a adiar, embora vá engordando em aparelhismo. Quando precisávamos de mais calcificada estrutura óssea, de mais agilidade muscular, de mais flexibilidade cerebral. Para podermos regressar à razão inteira, àquela razão complexa que nunca decepou o lume da profecia.

Dez 04

À procura do ovo de Colombo

Infelizmente, em termos globais e de comparações europeias, as universidades portuguesas não passam de uma federação de unidades fragmentadas que não respeitam a missão que o povo lhe confiou. Seria melhor que Cristóvão Colombo trouxesse o seu ovo e o conseguisse pôr de pé através de um simples furo. Porque, entre muitos e doutos especialistas em troncos, ramos e folhas de árvore, há raros que façam a avaliação global da floresta. Prenhes de hiperinformação e metodologismos de super-especialistas, transformámos os vários ramos científicos numa renda de bilros da micro-engenharia dos conceitos, sem tronco, raiz ou cabecinha. E, na barafunda ramalhal, acabam por se reproduzir em epidemia os teólogos e cogumelos do educacionês, bem como os burocratas do sobe e desce regulamentar. Seria melhor chamarmos o elefante branco pelo próprio nome, neste cumular de reformismos sem estratégia. Antes que o dono do sistema educativo, o senhor povo que o paga, trate de se revoltar contra o misticismo dos politiqueiros disfarçados de tecnocratas e dos tecnocratas disfarçados de politiqueiros. Seria melhor ouvir os professores que professam e os alunos que querem aprender. Porque o dito cujo, de tão autofagicamente endogâmico, ao cortar as pontes que o ligavam à comunidade que devia servir, perdeu até aquele bom senso que deriva do conhecimento modesto acerca de coisas supremas. Daí que se mostre difícil dar simples cura a esta complexidade, porque, de pretensa profiláctica, está a epidemia cheia. Por outras palavras, se mantivermos as presentes regras do jogo, pedindo à caixa negra sistémica e sistemista que produza auto-reformas apenas agravaremos as degenerescências corporativas e feudalizantes de tal círculo viciosamente endogâmico.

Dez 03

Chávez, Putine, Marinho e o banqueiro anarquista

O dezembrismo, a nível da política global, parece enredado na antiquíssima degenerescência da democracia, o cesarismo. Se na Rússia, que vai até a Vladivostoque (em russo, a dominadora do Oriente), Putine deixará a presidência, mas com uma esmagadora maioria parlamentar que o fará aceder a primeiro-ministro, já nos calores do Petro-Estado venezuelano deu-se mal com os referendos e não conseguiu, pela via do voto, entrar no vitalício dos césares de multidões. Por cá, com águias e leões sem muita tranquilidade, por causa das ressacas tripeiras e leirienses, apenas nos orgulha mais uma sessão de “jogging” do nosso primeiro, agora interrompendo a principal rua da capital da Índia. A única novidade está em quase três quartos de hora de entrevista em directo de um banqueiro anarquista, onde, sem Papas na língua e sem pesar as palavras, se emitiram palavras como roubo, garotada e pouca vergonha, relatando coisas que nem em África já existiriam. A vítima foi gente do Opus Dei e de uma ilustre e cimeira instituição do capitalismo financeiro do Portugal que resta. Tal como um elefante num armazém de porcelana, a imagem de banqueiros e de políticos, que estes recrutam para a fiscalização e a assessoria, ficou sujeita aos vicentinos plebeísmos. O situacionismo, entre as águas chocas e o pantanal, já não pode tapar com a habitual peneira da retórica oficiosa este foco de instabilidade. Já não há discursos de música celestial que aguentem este ensurdecedor ruído que tratou de chamar os bois pelos nomes. Por outras palavras, chegou o neopopulismo entre as manifestações para as massas do capitalismo financeiro. Resta saber se estes movimentos de mudança retórica pretendem mudar alguma coisa para que fique tudo na mesma. Com efeito, os dados que se vão conhecendo sobre os meandros banqueirais, se não têm o picante das velhas histórias de Alves dos Reis, apenas mostram a urgência de um qualquer novo romance de costumes que retrate este ambiente de apodrecimento do Bloco Central de interesses, onde os apadrinhamentos não têm o dramatismo mafioso, mas os brandos costumes do amiguismo, à empregomania e ao salve-se quem puder da moral do sapateiro de Braga. Por outras palavras, apenas confirmam a velha lei do  Portugalório das minúsculas com a mania das grandezas, onde o importante não é ser ministro, mas tê-lo sido. Os banqueiros e gestores de conta, em cumplicidade com a classe partidocrática, costumam sempre compensar os bons alunos do sistema, ao mesmo tempo que vão semeando influências e patrocínios junto dos jornais e dos intelectuais. A engenharia de influências, neocorporativa e neofeudal, conseguiu transformar aquilo que eram os tradicionais conceitos de serviço público, resistência cultural e independência académica numa massa invertebrada, sem princípios, crenças e valores. Apenas domina o clássico utilitarismo do homem de sucesso, segundo o qual o que importa é o máximo de prazer com um mínimo de dor, onde sempre tem razão quem vence. Assim, segundo este pensamento único, a moral deixou de ter a ver com a autonomia dos indivíduos e já não consegue identificar-se com concepções do mundo e da vida daquela moral social a que alguns chamam ética republicana. Refiro-me à de Kant e do Estado de Direito e não à de Afonso Costa e de Mário Soares, dado que esta padece de alguns desvios bolivarianos. Por outras palavras, abrimos as portas a certas interpretações que levam alguns a convencer-se que não há moral cívica terrena, permitindo que seitas, religiosas, ideológicas ou fundamentalistas, a pretendam assumir como monopólio do além. E, raspado o verniz, tornam-se patentes os mecanismos de subterrâneo controlo do poder infra-estrutural do situacionismo: o neocorporativismo que o não parecia; o neofeudalismo que se ocultava. A estátua da hipocrisia social parece ceder pelos respectivos pés de barro. Um quarto de hora antes de morrer o situacionismo pós-revolucionário continua a conjugar a velha esquerda politiqueira com a mais velha direita dos interesses, onde líderes socialistas, sociais-democratas e democratas-cristãos disputam o pódio dos feitores dos ricos. Resta saber se resistem à destruição criadora desta revolução sem PREC que passa pelo mercado ibérico, pela integração europeia e pela globalização, realidades que estilhaçaram as antiquadas políticas proteccionistas do nacionalismo económico e do condicionamento industrial. Isto é, o nosso velho capitalismo pouco liberal, ao deixar de ser doméstico, não parece aguentar o anterior quadrado banco-burocrático do rotativismo. As velhas costuras que resguardavam esta estufa das ventanias da liberdade de circulação de pessoas, bens e capitais ameçam rebentar, assim se demonstrando como a nossa economia privada, bem longe de ser uma economia de mercado, foi afinal feita sem as burguesas virtudes burguesas dos míticos cavalheiros da indústria, antes de haver financiamento partidário. Nasceram daquelas pós-revoluções situacionistas que sempre praticaram a privatização dos lucros e a nacionalização dos prejuízos.