A razão de Estado da teledemocracia não permite que desviemos as atenções de um ritual político, onde não há factos mas apenas interpretação de factos, dado que, muitas vezes, o que parece, e o que aparece, é o que efectivamente passa a sê-lo. As cenas do teatro de Estado valm mais pelo todo do que pelo texto das palavras expressas, sempre inseríveis noutro contexto. Valem, sobretudo, pelo rito facial de dramatismo. Ora, como salienta Lévi-Strauss, “os factos sociais são, ao mesmo tempo, coisas e representações” e é o pensamento simbólico que “torna a vida social ao mesmo tempo possível e necessária”, dado que “os símbolos são mais reais do que aquilo que simbolizam”, até porque “o significante precede e determina o significado”. Só os manuais dessa claríssima geometria das angulosidades rectas nos permitem concluir que o quadrado da hipotenusa do paralelograma de forças pode ser igual ao quadrado dos catetos que a provocaram, coisa que tanto pode ir do “gato escondido com o rabo de fora” à falta de respeito que as fontes geralmente bem informadas manifestaram pelo actual Estado em figura humana. Logo, muito atenciosamente, não comentaremos o comentário.