Os políticos que nos dominam apenas pretendem conquistar o poder, mas esquecem-se que o verdadeiro poder tem que assentar na autoridade. Eles são meros actores que não conseguem ser autores, meras criaturas que não são criadores, onde passam a guionistas os donos dos bastidores. E, como actores que são, pretendem reduzir-nos à unidimensionalidade de auditores de uma cidadania passiva, sujeita ao rolo compressor do respectivo delirium tremens. Mas há certos episódios que revelam pormenores típicos de uma récita de amadores em qualquer festa de bairro suburbano e, com todo o respeito pelos gloriosos actores de comédia, a coisa já atinge os píncaros de uma tragicomédia bufa que copia mal as boas cenas da nossa antiga revista à portuguesa. A verdadeira conquista do poder implica que se conquiste a palavra, que se use a persuasão, em vez da força, para levar o outro a obedecer pelo consentimento. Quando a palavra perde o sentido e o político tende a deixar de ter autenticidade, o dito assume-se como alguém que está por cima, falando para baixo, a partir do pretenso lugar em que se acumula o poder, a fim de gerar uma corrente ascendente de influência. Assim se compreende que os recém-chegados à plataforma directiva de qualquer instituição tratem de legitimar-se invocando os antecessores e até os próprios fundadores da coisa, como acontece com a instrumentalização que os líderes do PSD fazem com a fotografia de Sá Carneiro e os do CDS com a de Adelino Amaro da Costa, dado que os do PS têm o fundador vivo e, ainda por cima, como um activo ausente-presente. Pior do que isso: quando os políticos não conseguem convencer o auditor pela palavra e pela invocação do fundador, logo passam à fase dois do convencimento, pelo recurso aos ideologismos ou pelo manuseamento propagandístico. Aqui, a nossa direita em desespero costuma usar aquilo que se qualificava como o “anticomunismo primário”, o exacto inverso do “antidireitismo” da própria esquerda sem argumentos. E, como dizia Brito Camacho, para argumento fraco, voz forte, que argumento forte pode apenas ciciar-se… De qualquer maneira, a conquista do consentimento pela palavra implica a necessária fidelidade ao sentido grego da política, onde a palavra “razão” (logos) é o mesmo do que “discurso”, porque o animal racional é o animal que discursa e o homem é único animal que fala e que, por isso mesmo, deve ter respeito pela palavra dada e cumprir o sentido do discurso, Ora, todos sabemos que neste tempo de teledemocracia, de videopoder e de mediocracia, se continua a ser verdade que, em política o que parece é, e que só existe politicamente aquilo que se comunica, há que atender à circunstância de não se poder comunicar aquilo que não existe e de poderem cometer o erro de fazerem propaganda de uma marca, ou de uma forma, que não corresponde ao conteúdo, com os riscos de rejeitar-se o propagandeado por falta de autenticidade. Não há dúvida que os grandes líderes políticos têm que ser bons actores. Assim o foi Ronald Reagan no auge da revolução conservadora, onde nunca houve falta de autenticidade. Assim o continua a ser João Paulo II, notável actor que também é um dos mais extraordinários autores do século XX. Assim o fez Mário Soares quando recebeu uma bofetada na Marinha Grande. Assim o tentou Marcelo Rebelo de Sousa, quando pretendeu derrotar Sampaio através de um banho nas águas frias de Tejo quase morto. Assim o praticou Cavaco Silva quando se encenou como o homem de Boliqueime, num guião da autoria de Luiza Manuel de Vilhena.
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A amargura que invade a nossa democracia
Vivemos em amargura e desencanto face à política. Porque depois da geração revolucionária, plena de entusiasmos ideológicos e de certa qualidade da classe política pós-revolucionária chegou este banho de realidade. Um país de fracos recursos qualitativos, onde a classe política que se mobiliza reflecte a nossa pobreza humana e intelectual. Em segundo lugar, a falta de análise pluralista à nossa classe política. O reconhecimento da existência de grupos de interesse e de grupos de pressão. O não enfrentarmos questões como as da corrupção, ou compra de poder, do financiamento partidário e da “pantoufflage”. O não querermos reconhecer a política como rede, onde manda quem melhor consegue federar a dita. Onde são fundamentais os caciques, entre os quais os herdeiros dos caciques da I República, de José Jacinto Nunes a José Relvas, e do próprio Estado Novo, à semelhança de Bissaya Barreto. A que agora acrescem os tipos da futebolítica, ou os empresários do negocismo ou do investimento estrangeiro. Porque continuamos o regime do neofeudalismo nesta anarquia ordenada. Porque a política, tendo como objectivo levar o outro a obedecer, vive entre os extremos da persuasão e da violência, havendo espaço para a cenoura da recompensa e para o chicote da força, bem como a larga planura da influência. Porque as pressões podem ser abertas e ocultas. Porque há clientelismo, nepotismo e até generosidade. Logo, importa assinalar, como Mancur Olson, que o homem é um indivíduo razoável e calculista que raramente actua pelo bem comum, mas, sobertudo, de forma proporcional à recompensa que espera. Que só nos pequenos grupos, das confrarias às seitas, especialmente nos partidos entendidos como ordens religioso-militares, é que o bem comum domina. No resto é o regime dos vícios privados, virtudes públicas, onde convém, contudo que ninguém use o slogan do “roubo, mas faço”. Continua a faltar-nos uma teoria pluralista da democracia e uma falta de conhecimento da nossa própria história de quase duzentos anos de eleições, desde as listas fabricadas pelo embaixador britânico nos primeiros tempos do liberalismo monárquico às posteriores influências das Maçonarias ou das sacristias. Importa, assim, uma reforma do sistema político que não seja feita de dentro para fora, porque se eu pudesse influenciar reduzia o parlamento nacional à meia centena dos deputados de grande qualidade que costumam ser indicados pelas direcções centrais dos partidos, atirando as segundas e terceiras filas para parlamentos regionais. Até recordei como os partidos têm cumprido aquele preceito original da constituição que determinava a extinção do distrito, impulsionado logo a seguir a 1834 por Rodrigo da Fonseca, o tal raposa. Por outras palavras, como a principal recompensa da participação política é um lugar na lista, todos os grandes partidos se organizam em termos de círculos eleitorais….
Propaganda que não parece propaganda. Campanha
Campanha é slogan, altifalante, comício, palanque de comédia, onde os artistas políticos têm que ser os exagerados publicitários de uma banha cobrada que pinta de esquerda o que é da direita e que põe a direita a piratear a esquerda. Onde, aliás, todos fingem que é verdade a própria mentira em que chafurdam. Apenas desejaria que, em tempo de cegos, tivesse olho, o homem comum, e que o mesmo, através da abstracção chamada povo, se assumisse como o rei de si mesmo, não desperdiçando a plenitude da respectiva soberania na inutilidade do voto dito útil, no comodismo da abstracção, se esta for apenas desleixo, ou na ilusão de escolha pela falsa aposta num desses partidos catch all, nesses omnibus que pilham tudo, estando à direita e à esquerda, conforme os sinais de vento da moda que mexem na madeixa cataventosa dos respectivos líderes. Mas é triste verificarmos como, em plena democracia, se mantêm rituais decadentistas, típicos dos regimes que, antes de deixarem de ser, já o não são, onde emergem os cinzentões serventuários dos crepúsculos e que ainda hoje procuram fazer razias de temor reverencial junto de nova garotagem construída à respectiva imagem e semelhança, a dos mandadores-mandados de novas comitivas e de velhas comendas do mesmo tipo. Esses que nunca ousaram a rebeldia do pensamento livre, só porque também nunca tiveram luz própria, os tais baços espelhos que apenas emitem indirectamente os ténues brilhos dos patrões que os fabricaram pela encomendação. Ei-los, os meros capatazes de uma quinta que sempre foi dos outros, ei-los, os pequenos autoritários do velho autoritarismo, não percebendo que, pura e simplesmente, nunca existiram como seres autónomos. Que descansem em paz, que nos deixem em paz. Há muita coisa nova debaixo do sol. Sobretudo uma pequena semente chamada liberdade. Nem por isso deixo de notar como vai emergindo a fúria puritana que marca o princípio do fim de qualquer situacionismo. E sei reconhecer os habituais reflexos condicionados das nossas uniões de interesses fácticos, de carácter neo-corporativo, sobretudo quando se manifesta a procura de proteccionismo que marca os intelectuais e universitários subsidio-dependentes ou em gestão de carreirismo. Sempre houve desses pretensos Pilatos que, depois de deixarem matar, ou até de mandarem matar, procuram, diante da praça pública, obter a imagem do hipócrita abstencionista. Uma circunstância que, apesar de já ter sido denunciada há mais de dois mil anos, continua a ter alguma eficácia propagandística, sobretudo entre aqueles que continuam a não perceber que a verdadeira propaganda é aquela que não parece propaganda ou até se decreta como anti-propaganda. Nós conhecemos, infelizmente, de muita experiência sofrida, alguns desses nossos pedestais de tal suprema mestria ilusionista. Os tais construtivistas de uma imagem de austeridade, cujo conteúdo real é o exacto contrário daquilo que proclamam. E reconhecemos que um dos males do nosso tempo passa pelos muitos tolinhos que continuam a prestar menagem a esses ídolos com pés de lama. Porque muitos acreditam nesses seres de mentira que parecem a sabedoria, a verdade e a honestidade personificadas, só porque se envolvem no diáfano das serôdias e beatíficas rugas da austeridade. Ora, muitas dessas aparências de angústia apenas resultam dos maus fígados do violentismo e dos péssimos tratos de conduta, sobretudo nos que disfarçam a efectiva biografia em celestiais romances de cordel com que vão enganando Papalvos. Porque em cada encruzilhada e em cada esquina, sempre o respectivo faro de oportunistas videirinhos, marcado pela frieza lógica da vontade de poder, os levou à traição e a não servirem o bem comum, apesar das muitos neologismos vocabulares e dos ilógicos conceitos que gastaram pelo uso e prostituíram pelo abuso.
Nesta democratura controlada pela partidocracia…
Temo que nos transformemos num Portugal quase serventuário, dependente do despacho de um qualquer Sua Excelência, com muitos cartazes de boas festas da autarquia numa evidente manobra de propaganda pré-eleitoral, paga pelo bolso dos contribuintes que não fugiram aos impostos. Temo que acabem por triunfar os biscateiros da política e da economia, aliados dos patrões-comerciantes dos grandes grupos económicos, com os seus caixeiros viajantes feitos deputados e membros do Governo e uma fauna de parasitas e patos-bravos das muitas feiras de coiratos de pedra caiada de branco. Mais uma vez reparei que este começa a não ser o meu país. E, nostalgicamente, mas com muitas saudades de futuro, sinto pertencer a um mundo antigo que será amanhã, quando as unidades político-culturais voltarem a ser feitas de muitas diferenças, quando as pátrias tornarem a ser constituídas por muitas pequenas pátrias, as patrias chicas do castelhano que, entre nós, eram poeticamente qualificadas como santa terrinha. Reparo que, neste primeiro dia do fim do proteccionismo, torna-se cada vez mais evidente o fracasso do rolo compressor de abstractos sistemas que se escondem por trás de certas tretas, ditas inevitáveis. Em nome do europeísmo usurpado pelos eurocratas. Em nome da tal globalização, assaltada pelas sucursais chinesas das multinacionais que aqui se expandem pelas lojas que eram ditas dos trezentos. Nesta democratura controlada pela partidocracia, as ditas elites não passam de corporativismos de casta, onde a retórica e a capacidade mediática apenas ocultam a verdade de vivermos sob uma ditadura da incompetência. Continuamos presos a uma mentalidade tacanha produzida por uma sociedade efectivamente fechada, onde os reais donos do poder precisam de continuar a ocultar-se atrás dos feitores de uma politiqueirice profissional e tachenta, onde há mais actores do que autores, esses autómatos do Estado-Espectáculo que vão mudando o discurso conforme os guionistas que os investidores nesta Papalvice contrataram. Dói, sobretudo, sentir como a nossa comunicação cultural e a nossa universidade foram assaltadas por esses intelectuais tradutores em calão de vulgatas exógenas, que o nosso provincianismo mental continua a saudar como as maravilhas fatais da nossa idade. Daí que a universidade seja feita à imagem e semelhança desta classe fechada, onde a chamada autonomia foi usurpada pela federação situacionista dos amigalhaços da rede instalada.
Cosmopolis
Falta ainda muita viagem por cumprir para que os homens de boa vontade possam passar as tormentas a alcançar a boa esperança de um caminho para a humanidade, quando o ser vencer o ter, quando o amor vencer a guerra. Quando tratarmos o outro como o próximo, o vizinho, o conterrâneo, o compatriota, o nosso irmão. Quando, sem negarmos as pequenas pátrias e as grandes pátrias, soubermos ascender à terra dos homens, à cosmopolis e pudermos dizer, como Pessoa, “tudo pela humanidade, nada contra a nação”, mas desde que cada nação seja entendida como caminho para “uma super-nação futura”. Quando vencermos os impérios que nos invadem, de forma visível e invisível, pelo mercado ou pela colonização cultural. Quando, de mãos livres, pudermos ter fé no homem, no seu destino ou no seu transcendente. Quando o abraço armilar nos voltar a aquecer. Não, ainda vivemos nas guerras civis ideológicas, nas guerras frias culturais, nas guerrazinhas de homenzinhos, desses que são marcados pela vontade de poder, nesta anarquia mansa que, subterraneamente, nos amarfanha pelas longas teias da cobardia, gerando as sucessivas ditaduras do situacionismo e da incompetência. Insurge-te contra este mais do mesmo, desobedece aos compadres e comadres desta sociedade de Corte, não admitas que, no espaço público, em nomes das razões de Estado, se pratique aquilo que não admites em tua casa, na tua família, na tua rua, na tua terra. Volta a ser um homem livre, não tenhas medo!
Cosmopolis
Falta ainda muita viagem por cumprir para que os homens de boa vontade possam passar as tormentas a alcançar a boa esperança de um caminho para a humanidade, quando o ser vencer o ter, quando o amor vencer a guerra. Quando tratarmos o outro como o próximo, o vizinho, o conterrâneo, o compatriota, o nosso irmão. Quando, sem negarmos as pequenas pátrias e as grandes pátrias, soubermos ascender à terra dos homens, à cosmopolis e pudermos dizer, como Pessoa, “tudo pela humanidade, nada contra a nação”, mas desde que cada nação seja entendida como caminho para “uma super-nação futura”. Quando vencermos os impérios que nos invadem, de forma visível e invisível, pelo mercado ou pela colonização cultural. Quando, de mãos livres, pudermos ter fé no homem, no seu destino ou no seu transcendente. Quando o abraço armilar nos voltar a aquecer. Não, ainda vivemos nas guerras civis ideológicas, nas guerras frias culturais, nas guerrazinhas de homenzinhos, desses que são marcados pela vontade de poder, nesta anarquia mansa que, subterraneamente, nos amarfanha pelas longas teias da cobardia, gerando as sucessivas ditaduras do situacionismo e da incompetência. Insurge-te contra este mais do mesmo, desobedece aos compadres e comadres desta sociedade de Corte, não admitas que, no espaço público, em nomes das razões de Estado, se pratique aquilo que não admites em tua casa, na tua família, na tua rua, na tua terra. Volta a ser um homem livre, não tenhas medo!
1 de Dezembro, a comemoração inconveniente
Amanhã, vai acontecer mais um 1º de Dezembro da história de Portugal, pouco tempo depois de Felipe Gonzalez e Cavaco Silva terem concertado em Lisboa a necessidade de instauração de um Mercado Único Ibérico, para ensaiarmos 1992, e numa altura em que grandes figuras das letras portuguesas contemporâneas, como Natália Correia e José Saramago, vivem em pleno idílio “iberista”, sem Fernando Reino em Madrid e já esquecidos das profecias do Embaixador Franco Nogueira. Dizia o meu livro de história da instrução primária que no primeiro dia de Dezembro de l640 um grupo de conjurados tratou de restaurar a independência nacional, expulsando os Filipes do trono de Portugal. Mas, cerca de três séculos e meios volvidos, eis que a República Portuguesa e o Estado Espanhol acabam de aderir à U. E. O., depois de , nestes últimos anos, se terem também irmanado nas Comunidades Europeias e na Organização do Tratado do Atlântico Norte. Não há dúvida que comemorarmos o 1º de Dezembro com a lógica da padeira de Aljubarrota constituiria uma clara afronta aos sinais dos tempos. Seria recordarmos o nosso provérbio que diz que de Espanha, nem bom vento nem bom casamento e até certo slogan castelhano que proclama uma Espanha una e grande, de mar a mar, sem Portugal nem Gibraltar. Seria continuarmos a viver de costas uns para os outros, recordando a entrevista concedida por Alfonso XIII ao nosso Diário de Notícias, onde o monarca espanhol considerava Lisboa como o porto natural de Madrid, ou a exortação aos portugueses de José António Primo de Rivera, onde nos incitava a seguir o exemplo de Fernão de Magalhães. Acontece que Portugal e o Estado Espanhol podem orgulhar-se do facto de serem os únicos vizinhos europeus que há mais de cento e oitenta anos não têm entre si qualquer conflito armado – desde a chamada Guerra das Laranjas, quando perdemos Olivença. Sucede também que , pela primeira vez, desde a dinastia filipina, as duas entidades estaduais são parceiras das mesmas estruturas supranacionais militares e económicas. Comemorar o 1º de Dezembro, neste contexto, pode, portanto, constituir um atentado contra o espírito dito de 1992 e contra os nossos recentes defensores tardios dos Estados-Unidos da Europa. Talvez fosse muito mais conforme aos “ventos da história” recordarmos que os Filipes foram uma espécie de precursores da CEE e que só não conseguiram atingir o alvo por causa da derrota da Invencível Armada. De qualquer modo é forçoso reconhecermos que só distorcendo a realidade histórica poderemos dizer que durante os sessenta anos de reinados filipinos Portugal perdeu a respectiva independência. Durante esse período, conforme as linhas constitucionais delineadas nas portuguesíssimas Cortes de Tomar, sempre mantivemos órgãos de governo próprios, o que foi sufragado pelo melhor da inteligência portuguesa da época, com destaque para Frei Bartolomeu dos Mártires ou D. Jerónimo Osório. Também poucas vezes se salienta o reverso da medalha, ou seja, a influência portuguesa na “eurocracia” da época , bem como o facto de terem vindo para Portugal eminentes vultos da cultura espanhola, com destaque para Francisco Suarez, o Doctor Eximius, que, entre nós, publicou as suas principais obras e cujos restos mortais permanecem em Lisboa. Só que os enviados culturais dos Filipes a Portugal, nomeadamente os homens da escolástica peninsular e a própria Companhia de Jesus, vieram semear a revolta e voltar o feitiço contra o feiticeiro. Os jesuítas estão por detrás de todos os Manuelinhos de Évora e os suarezistas estruturam toda a teoria da soberania popular que vai servir de argumento a João Pinto Ribeiro, Francisco Velasco Gouveia e demais juristas da Restauração, que levam à prática grande parte das teses que estiveram na base da Revolução Francesa, com século e meio de antecedência. São estas mesmas teorias que ainda justificam o nosso Estado-Nação e que não impedem uma integração no grande espaço europeu. Ai da Europa democrática se confudir o nacionalismo da “mais antiga nacionalidade da Europa” com os nacionalismos dos impérios frustrados, estes, sim, os reais inimigos da restauração da unidade espiritual da Europa. No nosso 1º de Dezembro a Espanha só entra por acaso. Calá-lo é trair o cerne da democracia portuguesa em nome do “departamento de secos e molhados da Europa” e não percebermos que, neste ponto, não é Portugal que se deve integrar na CEE, mas sim a CEE que se deve integrar nele, como diria o mestre Agostinho da Silva. Os mais desleixadamente “ceeistas” que leiam por exemplo uma pequena obra intitulada A Justificação Jurídica da Restauração e a Teoria da Origem Popular do Poder Político, Lisboa, 1964. O respectivo autor chama-se Mário Soares
A POLÍTICA PÓS-SOCRÁTICA
Chegou Sócrates e o tempo mudou, mas a esperança ainda não voltou. Ferro foi-se, Carvalhas anunciou o abandono, Barroso mudou-se e, pasme-se, Portas assumiu o decanato da liderança partidária e até da governação. Eis a nova era, a vida nova, a direita mexida, a esquerda moderna, tudo pós-moderno, com teleponto, elixir da juventude eterna, quotas, cotas, tias, lambada e “barbies”.
Eis o “pedregulho” que caiu em cheio neste charco… (Emídio Guerreiro dixit). Porque cita modernizadamente Kennedy, o John de quase há meio século, o tal que se foi em Dallas, depois ter ido com a Mafia e as Monroes, e de nos ter mandado p´rós Vietnames e a dos Porcos. Só que, entre Sócrates e Lopes, dois géneros zoológicos para o mesmo Louçã, há o idêntico perfume “hollywoodesco”, entre o cineclubismo de esquerda e o gosto pela cóboiada da brilhantina, como o exige a salsicharia teledemocrática.
Logo, acabamos por ter que chafurdar nestas águas chocas das direitas que convêm à esquerda situacionista e das esquerdas que são subsidiadas pela direita dos interesses, onde continua a punição por delito de crença. Como aconteceu ao indigitado Rocco Buttiglione para comissário europeu, esse destacado professor e filósofo político, um dos mais marcantes nomes do jusnaturalismo neo-tomista, centrista de sempre, bem próximo do pensamento de João Paulo II, o que revela um dos mais graves vícios da nova Europa, o da censura implícita do novo politicamente correcto que prefere frades vindos do MES e do governo de Vasco Gonçalves.
Confesso que, apesar de não ser um praticante do catolaicismo e não nutrir qualquer simpatia pelo modelo berlusconiano, tenho de reconhecer que, com este neo-dogmatismo dito anti-dogmático, um tal Karol Wojtyla nunca poderia ter sido eleito e transformar-se na personalidade mais marcante da segunda metade do século XX.
Quem quiser ser alguém neste mercado intelectualês e politiqueiro não convém que se mostre um fervoroso católico, republicano, comunista, monárquico ou maçon, pois logo passa a ser integrista, histórico e fundamentalista, só porque tem espinha. Do mesmo modo, se manifestar as suas convicções heterossexuais, corre o risco de ser perseguido pelos trejeitos inquisitoriais dos inúmeros “lobbies” de “gays” que estão no poder mediático, político, diplomático e editorial, para gáudio das alqueidas e alqueidões.
Aqueles que têm crenças já não as podem exercitar na esfera pública. Ficam-se pela solidão dos lares, pelas pequenas catacumbas das redes de amigos e até pelos blogues que não são abruptos. Porque de quase de nada valem os signos institucionais de outras procuras, dado que a república caiu na ambiguidade discursiva de Sampaio, nesse texto sem palavra que apenas serve para interpretações da racionalidade importada, nesse discurso onde há apenas entrelinhas tortas e insinuações curvas, onde nem Deus escreveria direito nem o Diabo marraria. E, quanto menos a ideia e a emoção de nação nos mobilizarem, mais seremos estadualizados de forma alienígena. E com a política reduzida à heteronomia, a cidadania pode reduzir-se à fragmentação contestatária e ao protesto faccioso, como recentemente aconteceu em Coimbra, com o regresso da Falange Demagógica de 1910 à Sala dos Capelos.
Sem uma comunidade afectiva que nos dê justiça e bem comum, apenas reclamaremos direitos e nunca daremos ao todo a necessária justiça e o indispensável amor. Contestar, protestar, exigir podem ser fracturantes se não assumirem a dimensão militante da resistência. E caso não haja alma que nos identifique, não passaremos de mera sociedade anónima gestionária. Só com uma necessária tensão espiritual, poderemos vencer as teias da demagogia, da incompetência e do negocismo.
Discutir a educação não-universitária é sofrermos o “ranking” e o drama da colocação dos professores. É sabermos que os primeiros são os que podem pagar 330 euros por mês e que graças ao poder de compra serão abençoados pelo privilégio catolaico da igualdade cristã. Quem não paga e vai à missa é do interior, sítio dos parolos, provincianos, feios, porcos e sujos, desses que tem de pagar impostos para este socialismo da treta, feito em nome da liberdade, igualdade e fraternidade, com muita ética republicana à mistura.”Ranking” é esta nossa querida pouca-vergonha que transformou a educação num campeonato de futebolícia, com árbitros corruptos pelo sistema, freirinhas postas ao serviço de novos-ricaços que, em vez de educação, fazem investimento educacional nos rebentos dos IRSs de sucesso, assim continuando a copiar o capitalismo de faca na Liga e na quinta das celebridades. E eu a recordar como era bela a igualdade evangélica, ou maçónica, da velha escola pública, onde efectivamente eram iguais em oportunidades o filho do contínuo e o filho do milionário…
O que mais me incomoda nas recentes movimentações das marceladas e pedralhadas é que tenho de chegar à conclusão que o velho Estado moderno se deixou enredar nas teias dos especialistas na conquista e manutenção no poder no âmbito do clubismo, do facciosismo e do campanário. Competentíssimos nesses domínios da fulanização, da galopinagem e do caciqueirismo, grande parte dos figurões que nos regem não percebem que atingiram, há muito, as raias do princípio de Peter, a partir das quais estão condenados a pisar os terrenos da incompetência.
ESTA DITADURA DA INCOMPETÊNCIA…
Depois de tantos educacionólogos, reformólogos e avaliólogos, a pátria está definitivamente murcha em sua criatividade explosiva, face a esta claustrofobia de quintal feito com cimento armado e ar condicionado. Assim, afogados nesta modorra decadentista para que fomos conduzidos pela ambição de dois ou três demagogos feitos ministros, ou de quatro ou cinco agenciadores de cunhas e subsídios feitos deputados, começamos a perceber que os nossos donos do poder são bonzos demais para domarem a inevitável fúria dos mansos que se avizinha. Até começa a ser difícil continuar a tapar o sol da verdade com a peneira comunicacional, porque tanto há mais delegados de propaganda médica do que médicos, como são mais assessores delegados da propaganda ministerial do que as direcções-gerais.
Se continuar esta ditadura da incompetência, até poderá acontecer que a nossa criatividade constitucional resolva o problema do presidente Sampaio, dado que tudo aponta para a emergência de uma auto-dissolução do sistema, sem necessidade dos discursos de Sócrates, Louçã e Carvalhas. Basta assinalarmos como se vai assistindo impassivelmente à destruição das nossas escolas superiores públicas de filosofia, história e literatura, só porque alguns as reduziram a meras fábricas de professores.
Não tardará em que sejamos mais uma das repartições de reparadores de “hardware” importado, onde apenas haverá repetidores e pirateadores de “software” alheio, perdendo a capacidade de criação de um pensamento enraizado nas circunstâncias, com instituições ditas universidades que não passarão de federações de centros de mera formação profissional, onde dominarão notáveis papagaios que vão monitorizando manuais de programação de outras ecologias.
De facto, até há pouco, a politologia contemporânea dizia que o “spoil system“, o sistema dos troféus, correspondia ao sistema norte-americano de nomeação de novas equipas, depois da eleição de um presidente. Dizia-se também que o modelo fora instituído por Andrew Jackson no primeiro quartel do século XIX.
E Max Weber definia-o como a atribuição de todos os postos da administração federal ao séquito do candidato presidencial vitorioso e que, a partir de então, surgiu um novo modelo de partido, entendido como simples organização de caçadores de cargos, sem convicção alguma.
Com António Guterres, o spoil system passou a ser traduzido em português por “jobs for the boys”, antes de Durão Barroso o volver em “boys for the jobs”. Terá sido com base nesta experiência que Bailey considerou a política como um jogo onde os competidores actuam numa arena visando a conquista de troféus.
O que levou ao aparecimento, no modelo norte-americano, do “boss”, do empresário político capitalista que procura votos em benefício próprio, sem ter uma doutrina e sem professar qualquer espécie de princípios. Um político profissional típico que trata de atacar os outsiders que lhe podem ameaçar os futuros rendimentos, isto é o futuro poder.
Em nome de Deus nos deram a Santa Inquisição. Em nome da Santa Razão nos deram a Junta da Providência Literarária e a Dedução Cronológico-Analítica. Vieram depois a Junta Expurgatória dos Estudos, a Junta Nacional de Educação, os grupos de trabalho, os PRECs e os recentes distribuidores de subsídios estatais, nomeados por favoritismo partidário. Todos esses paralelogramas de forças de que as presentes ministras apenas são a manifestação.
O mal, afinal, está no princípio, quando, no princípio, não há princípios. O problema não são os justinos, os abílios, as comptas ou o espírito de Bolonha. Com esta mentalidade gestionária dos merceeiros orçamentais, refazer o patriotismo científico, sem cedermos aos exercícios da manipulação emotiva, implica sementeira de razão, de vontade e de imaginação. Implica darmos nação ao Estado, darmos povo à nação e darmos homens ao povo. Foi por isso que pouco depois de termos o povo em Cortes, em 1254, fundámos a universidade, em 1290.
Julgo que, ainda hoje, as universidades europeias, mais ou menos companheiras da nossa, de Paris a Oxford, de Cambridge a Heidelberg, não estão dependentes das traduções em calão que por aí pululam muito decretinamente, em nome do absurdo centralismo concentracionário do ministerialismo e dos seus serôdios conselheiros, esses que há três ou quatro décadas continuam a pensar que são as únicas pessoas que pensam, arrogando-se no monopólio do reformismo. O marquês para Pombal, já!
Spoil system
Até há pouco, a politologia contemporânea dizia que o spoil system, o sistema dos troféus, correspondia ao sistema norte-americano de nomeação de novas equipas, depois da eleição de um presidente. Dizia-se também que o modelo fora instituído por Andrew Jackson no primeiro quartel do século XIX. E Max Weber definia-o como a atribuição de todos os postos da administração federal ao séquito do candidato presidencial vitorioso e que, a partir de então, surgiu um novo modelo de partido, entendido como simples organização de caçadores de cargos, sem convicção alguma. Com António Guterres, o spoil system passou a ser traduzido em português por jobs for the boys, antes de Durão Barroso o volver em boys for the jobs. Terá sido com base nesta experiência que Bailey considerou a política como um jogo onde os competidores actuam numa arena visando a conquista de troféus. O que levou ao aparecimento, no modelo norte-americano, do boss, do empresário político capitalista que procura votos em benefício próprio, sem ter uma doutrina e sem professar qualquer espécie de princípios. Um político profissional típico que trata de atacar os outsiders que lhe podem ameaçar os futuros rendimentos, isto é o futuro poder. Somos totalmente favoráveis à boa intenção manifestada, começando evidentemente pelos que estão ao serviço das nossas forças armadas. Sugerimos que tão patriótico desiderato seja acompanhado por uma ampla distribuição de cadeiras de realizador, modelo 1968, dado que não é possível transformar os ditos fortes em jangadas de pedra… O discurso é de 1832, mas de um senador nova-ioquino. Cá no reino, na mesma época, eram conhecidos como os devoristas. Eis o texto e o contexto: When they are contending for victory, they avow the intention of enjoying the fruits of it. If they are defeated, they expect to retire from office. If they are sucessful, they claim, as a matter of right the advantages of sucess.They see nothing wron in the rule, that to the victor belongs the spoils of the enemy.