Dez 22

O picareta falante, o grão-mestre da conversa e o ‘soufflé’

Maria Henrique Espada, no “Diário de Notícias” de hoje transcreve declarações que lhe prestei sobre os dez debates presidenciais. Apontei um perdedor claro “Quem mais perdeu foi Manuel Alegre, deixando transparecer uma imagem de soufflé, como lhe chamou Sérgio Sousa Pinto.” Quanto a “não derrotas” e a vitórias “Soares não perdeu. Quem ultrapassou as expectativas foi Jerónimo de Sousa, e também Cavaco, que não se limitou a ser apenas um bom aluno, e esteve melhor precisamente nos momentos em que se soltou da lição estudada com os assessores.” Quanto a Louçã, prefere não se pronunciar, porque “é impossível diferenciar entre o candidato presidencial que anda em pré-campanha e o líder do Bloco de Esquerda que esteve terça-feira no debate parlamentar face ao primeiro-ministro”. Louçã vende, na pré-campanha presidencial como no plano partidário, o “mesmo programa”.

 

Os debates serviram “para precisar, junto dos eleitores, o estilo de cada um dos candidatos”, diz ainda José Adelino Maltez. Precisemos então “Alegre teve entradas de leão e, se não teve saídas de sendeiro, mostrou que tinha pés de barro; Cavaco tentou mostrar que o carro blindado também tinha afectos; Jerónimo debitou uma cassete, mas uma cassete animada; Louçã foi repetitivo; Soares foi o grão-mestre da conversa, mas um pouco irritado”, diz Maltez.

 

Maltez diz que “Cavaco foi uma picareta falante”, cognome outrora atribuído a António Guterres por Vasco Pulido Valente. Mas, mesmo picareta, no debate com Soares “não houve nenhum particular derrotado nem nenhum vencedor”.

 

José Adelino Maltez é o mais crítico às escolhas das televisões “Há uma ditadura sistémica que escolheu apenas cinco pré-candidatos para os debates. E se houver outros candidatos a entregar as assinaturas? A escolha das televisões reflecte uma aristocracia de instalados e distorce a igualdade de oportunidades”. Assim “não há eleições justas e leais”.

Dez 21

a repetição do duelo presidencialicida

E lá vamos tendo que ouvir a repetição do duelo presidencialicida entre aqueles que sobre nós exerceram, durante uma década, o supremo poder da coabitação, esse espectacular confronto entre os dois irmãos-inimigos, representantes, em Portugal, das duas principais forças partidárias multinacionais da Europa e que geraram e alimentaram o presente situacionismo. Porque foi de tal coabitação que nasceram as grandezas e misérias do presente sistema. Ambos estão a disputar o grande oceano daquele milhão de eleitores flutuantes desse totalitarismo doce do centrão sociológico e do consequente Bloco Central de interesses que, estando a ganhar ou a não perder, nunca admitiu o risco da mudança, nomeadamente daquelas reformas estruturais que nos poderiam reconduzir à aventura de um caminho feito à imagem e semelhança do português à solta. Ambos são mais passado social-democrata e estatista do que de um necessário futuro liberal e comunitário. Ambos são uma espécie de garantia da continuidade partidocrática e banco-burocrática, constituindo um adequado seguro de vida para a direita dos interesses e a esquerda do cultural e politicamente correcto. Nenhum deles poderá assumir a bandeira do humanismo libertacionista ou do ardor vanguardista da revolução, dado que apenas nos oferecem o mais do mesmo, com dois estilos que são dois homens e, consequentemente, duas personalizações do poder. Dois feitios diferentes para a mesma moeda gasta pela usura do tempo. De um lado, uma saudável Salazar ização democrática. Do outro, o revigoramento de um republicanismo laicíssimo, mas tolerante. Ambos do agradável daquela grande casta burguesa, sempre moldável aos sinais da moda, para que tudo continue como dantes, com o quartel-general longe de Abrantes. É entre os dois passados que, infelizmente, estamos obrigados a escolher, para que se mantenha a lei do rotativismo do presente situacionismo sistémico, para que o eleitorado finja diversidade só porque não põe os ovos no mesmo cesto. Venha o povo e escolha as respostas que a ditadura dos perguntadores lhe oferece.

Dez 21

Os velhos irmãos-inimigos e o totalitarismo doce do centrão

E lá vamos tendo que ouvir a repetição do duelo presidencialicida entre aqueles que sobre nós exerceram, durante uma década, o supremo poder da coabitação, esse espectacular confronto entre os dois irmãos-inimigos, representantes, em Portugal, das duas principais forças partidárias multinacionais da Europa e que geraram e alimentaram o presente situacionismo. Porque foi de tal coabitação que nasceram as grandezas e misérias do presente sistema.

 

Ambos estão a disputar o grande oceano daquele milhão de eleitores flutuantes desse totalitarismo doce do centrão sociológico e do consequente Bloco Central de interesses que, estando a ganhar ou a não perder, nunca admitiu o risco da mudança, nomeadamente daquelas reformas estruturais que nos poderiam reconduzir à aventura de um caminho feito à imagem e semelhança do português à solta.

 

 

 

Ambos são mais passado social-democrata e estatista do que de um necessário futuro liberal e comunitário. Ambos são uma espécie de garantia da continuidade partidocrática e banco-burocrática, constituindo um adequado seguro de vida para a direita dos interesses e a esquerda do cultural e politicamente correcto.

 

 

 

Nenhum deles poderá assumir a bandeira do humanismo libertacionista ou do ardor vanguardista da revolução, dado que apenas nos oferecem o mais do mesmo, com dois estilos que são dois homens e, consequentemente, duas personalizações do poder. Dois feitios diferentes para a mesma moeda gasta pela usura do tempo.

 

 

 

De um lado, uma saudável salazarização democrática. Do outro, o revigoramento de um republicanismo laicíssimo, mas tolerante. Ambos do agradável daquela grande casta burguesa, sempre moldável aos sinais da moda, para que tudo continue como dantes, com o quartel-general longe de Abrantes.

 

É entre os dois passados que, infelizmente, estamos obrigados a escolher, para que se mantenha a lei do rotativismo do presente situacionismo sistémico, para que o eleitorado finja diversidade só porque não põe os ovos no mesmo cesto.

 

 

 

Afinal, depois de uma década de interregno entre o filho soarista, chamado Guterres, e os filhos cavaquistas, chamados Barroso e Santana, retomamos a década de 1985-1995, mas já sem Delors, com Guterres na ONU, Barroso na UE e Santana a andar por aí, arrependido de ter largado os paços do concelho de Lisboa, sem antes se candidatar a Belém. Venha o povo e escolha as respostas que a ditadura dos perguntadores lhe oferece.

Dez 21

Quem quer que viesse à rede tinha que ser “fish”…

Mais uma vez me pediram, do semanário “O Independente” que comentasse o debate entre Soares e Cavaco:

 

O grande confronto histórico entre o “acho que não” e o “acho que sim”, onde Soares não perdeu na economia e Cavaco não perdeu na macropolítica, visava a conquista do tal um milhão de flutuantes que ora votam no PS, ora optam pelo PSD, dando lastro àquilo a que chamam estabilidade, a âncora social deste centrão mole e difuse que nos faz um país de reformados e de aposentadorias, marcado por regras do jogo de que se aproveita o grupo que parte e reparte, ficando sempre com a melhor parte .

 

De um lado a austeridade discursiva do mito da mercearia ordenadamente salvífica, dita social-democracia, filiada nos conservadores europeus, e, do outro, o avozinho porreiraço que clamando por socialismo não incomoda os donos do poder, dado que tanto vai a Porto Alegre como a Davos.

 

 

 

Porque, entre os dois passados, quem quer que venha à rede será sempre “fish”, apesar de um ameaçar com uma década de presença tutelar e outro, com um mero interregno de um lustro, enquanto capítulo final de umas gloriosas memórias. Em qualquer dos casos, os dois são os irmãos-inimigos que coabitaram nesta casa comum entre 1985 e 1995, num país que passou, de cabeça de um império colonial uno, indivisível, mas com pés de barro, a simples potência secundária da balança da Europa.

 

Paradoxalmente, era o primeiro confronto directo entre duas personalidades que só se tinham defrontado através de procuradores, em eleições legislativas e presidenciais, com Soares no seu último combate histórico, depois de uma sucessão de derrotas políticas próprias e da família, desde que Mário não ascendeu a presidente do Parlamento Europeu e o filho João perdeu em Lisboa, Sintra e na liderança do PS, sempre em regime de bela solidariedade de clã.

 

 

 

Ficará para sempre a simpatia demonstrada pelo velho combatente, sempre em activo revisionismo histórico, contra a agilidade narcísica de um menos velho, que não mais novo, também em regime de autobiografia, à procura do carimbo de humanista, mas com os dois a confundirem as meras escolhas eleitorais de uma conjuntura com um “julgamento” moral e da história, face a um povão talvez pouco preocupado em que eles explicassem as respectivas ideias e descrevessem as histórias de vida. Porque todos conhecem os detalhes das respectivas telenovelas, desde o tempo da televisão a preto e branco.

 

 

 

Pontos Positivos:

 

Aníbal Cavaco Silva

 

Táctica flexível, usada por certas artes marciais que, aproveitando a inércia das circunstâncias favoráveis, deixa o adversário desferir uma avalanche de ataques, aguentando os golpes, apenas para o contendor perder as forças e assim ser reconhecido como um superior, nesse “tenho de me conter para não ser deselegante”.

 

Conseguiu mostrar emoção e revelou alguma humildade quando não disse que podia saber mais do que Soares, dando assim a entender que este era um “fala-barato”, mas abusando da retórica dos “slogans” propagandísticos, do tipo “sou um social-democrata preocupado com os desfavorecidos”

 

Mário Soares:

 

Estratégia firme, embora com alguma petulância, visando fazer uma adequada teoria geral do poder do Presidente, baseada na experiência e no bom senso e visando aquilo que definiu como a concórdia nacional e a não divisão dos portugueses, em momentos de anteriores crises financeiras, sociais e políticas.

 

Conseguiu ser sublime na arte da memória e das grandes sínteses históricas do nosso passado recente, demonstrando, pela recuperação dos afectos conseguida, candidatou-se a arquivista-mor do reino, tanto por ser o grão-mestre dos pacholas conversadores, como o grande lutador que tem a coragem de, perante a ameaça de naufrágio, fazer, das fraquezas, forças

 

 

 

 

Pontos Negativos

 

Aníbal Cavaco Silva:

 

Continuou a ter alguma confusão quanto ao perfil dos poderes presidenciais, nomeadamente quanto a políticas económicas e de concertação social, tentando mostrar que era bom aluno de direito constitucional, com a constante citação de mestres da arte, apoiantes do soarismo.

 

A agilidade mental demonstrada não conseguiu disfarçar o narcisismo e o exagero de “marketing” quanto à preparação do debate, onde, em vários momentos se assumiu como uma espécie de “action man” em ritmo de “picareta falante”, na linha de Guterres e de Sócrates.

 

Mário Soares:

 

Foi longe demais na tentativa de caracterização caracteriológica do adversário, assumindo o debate como uma espécie de passagem do Rubicão, depois da qual declararia o “vi, vim e venci”, mas onde poderá ter apenas deambulado por uma espécie de ponte do tédio, sobre as águas do Lethes.

 

Na segunda parte do debate, perdeu o controlo do meio campo e continuou agarrado à grande área do adversário, ficando várias vezes em “off side”, com algum mau-gosto em certas piruetas violadoras das regras do jogo.

Dez 20

Ninguém como tu será transmitido depois do debate Soares/ Cavaco

A Comissão Nacional de Telenovelas Eleitorais acaba de emitir um comunicado que garante aos portugueses que a RTP e TVI chegaram a um acordo histórico. O final da fita mais famosa dos últimos meses será conhecido depois do debate presidencialeiro. Com efeito, Ninguém Como Tu revela, na forma mais pura, dinâmica e cativante, a procura pela felicidade e pelo amor que guia a vida. Enquadrada nas vinte e quatro horas diárias de correria frenética entre Almada e Lisboa, é um retrato fiel da permanente luta pela conquista dos sonhos que dão sentido à existência humana. Urbana e contemporânea, faz uma feliz caracterização da realidade, permitindo que todos se identifiquem com as situações que são apresentadas. Ninguém Como Tu é, mais que um conjunto de pequenas histórias, uma grande história de pessoas, de experiências e vivências, como a que todos vamos escrevendo no nosso dia-a-dia.

 

 

 

A candidatura de Conceição Costa, apoiada pelo filho Alexandre Costa, já se congratulou com o pluralismo demonstrado pelos donos das televisões, decidindo encerrar a greve da fome encetada pelos dois, depois de uma entrevista que será emitida pela RTP/Memória, onde todos poderemos congratular-nos com a emissão do manifesto “todos diferentes, todos à bruxa”.

 

 

 

Também o candidato António Paiva Calado, que todos julgavam falecido e assassinado, acabou de emitir um comunicado, depois de acordo feito com o ministro da justiça lusitano e o procurador-geral das Berlengas, onde estava detido por tráfico de coca, mas donde acabou por ser libertado depois da intercessão executada pelo candidato presidencial boliviano, Morales qualquer coisa. Deverá chegar ao Cais das Colunas logo a seguir ao encerramento do telejornal das oito, onde será recebido pela reconciliada esposa, Luiza Albuquerque.

Dez 20

Alguns culinários conselhos a Soares e Cavaco, para o “soufflé” de logo à noite. Receita caseira…

Derreta o candidato com conselhos dos assessores, polvilhe com algum socialismo democrático e deixe cozer sem ganhar cor de muito à esquerda ou muito à direita.

 

Regue com contributos em dinheiro fresco e mexa com uma vara de arames comunicacional, de modo a obter um preparado heterogéneo que não saiba a carne nem a peixe.

 

Deixe ferver um pouco com o calor dos debates e das visitas ao país profundo e muitas memórias da prévia saltada ao Brasil.

 

Retire do calor, tempere com republicanismo, laicismo e visitas ao cardeal, bem como com uma pitada de apoio político-militar.

 

Junte os caça-assinaturas partidários e os notáveis das comissões de honra, principalmente catedráticos grosseiramente picados, alguns artistas sem discos pedidos e meia dúzia de velhas glórias futebolíticas que só jogam nas almoçaradas.

 

Bata o preparado em castelo bem firme e junte-o a histórias de muitas glórias políticas passadas, uma porção de cada vez, e em movimentos envolventes sem bater em más recordações, tipo luta contra as portagens ou salários em atraso, tudo no distrito de Setúbal.

 

Deite o preparado numa forma de soufflé muito bem untada e leve-a cozer em televisão quente (pense em mais de 50%, nas sondagens à boca das urnas) durante cerca de dois meses, com 5 minutos diários por telejornal.

 

Tome posse imediatamente, antes que lhe suceda o que levou Tancredo Neves a libertar-se da lei da morte. Mas não tente comer o resultado. Cheira a esturro e a cadáver adiado que procria imbecilidades.

Dez 20

Da “cassette” animada ao “soufflé” sem palanque

Era uma vez um operário de Pirescouxe que tinha um ideal típico dos comunistas suburbanos e percorreu o “cursus honorum” do PCP à luz do dia, mantendo a cartilha, mas animando a célebre “cassette” segundo o ritmo do viver como pensa. Um dia, teve que enfrentar, num debate televisivo, um dos monumentos do nosso antifascismo histórico, líder da revolta estudantil dos anos sessenta, opositor consequente da guerra colonial, que foi de Angola para Argel, onde deu voz à resistência anti-salazarista, para, já depois de Abril, aderir ao PS e ser um dos símbolos do anti-totalitarismo e da liberdade.

 

 

 

Ontem, ao acabar o debate, reparei como Alegre que, nesta campanha, teve entradas de leão, declarou ter como objectivo obter mais de 5% dos votos, para poder pagar o empréstimo de campanha.

Dez 19

É tempo de Natal

É tempo de Natal, quando a chegada do solstício nos dá sinal da mudança do tempo, do novo ano que nos poderá trazer viragens de esperança na procura do tempo que apetece, quando efectivamente apetece olhar dentro de mim e continuar a viver assim, na felicidade de viver, diante de um tempo que devo sentir e aprisionar sem que as teias da devassa me sufoquem e angustiem. Porque sabe tão bem sentir o silêncio de estar vivo, sabe tão bem suster a respiração e viver o estar feliz, com tanta gente à minha beira. Assim, olhando os olhos do sol e sentindo o azul da distância, para me poder navegar em verso. Que os outros dias e outros anos possam chegar assim dentro de mim. Porque há períodos em que devo fazer uma pausa na análise comportamental da politiqueirice lusitana, quando, cumprindo o ritual de começar a escrever, de escrever por ter mesmo de escrever, por ter o prazer de escrever-me, sentir a maneira como a caneta vai levando letras ao papel, comparando-as com outras letras da mesma caneta, noutros dias sentidas e desenhadas. Que assim compreendeo porque, sendo o mesmo, através das mesmas mãos, vou variando dentro de mim, perante novas circunstâncias. Porque todos os dias procuro na palavra aquela voz interior que preciso para poder expressar quem sempre fui, diante das novas circunstâncias que os novos tempos me trazem. Porque todos os dias também os dias variam de nuvens, de sol, de calor e frio. Porque a mesma janela aberta para a mesma rua me vai trazendos momentos diferentes da mesma cidade, pedaços de um movimento que, dia a dia, se não repete. Na gente que passa, no miúdo que grita sua alegria, na música que se vai ouvindo na vizinhança, nas novas flores que a gente que passa vai trazendo em suas roupas. Até voltei a sentir o prazer de voltar a olhar, do miradouro, o rio que nos dá mar, o sabor da raia redonda, do gelado de azeite, da sopa de abóbora, da sala de almoçar no alto da colina. Sobretudo, uma cidade a que posso chamar nossa, plena de um sol seco de inverno, e de um frio que dá às casas as dimensões da imaginação vivida. Sobretudo, nesta Lisboa inteira, descendo para a distância, nesta cidade plena de calor e luz, ao fim da tarde.

Dez 19

Hoje, não, amanhã será!

As notícias que fazem as primeiras páginas de Moscovo, Nova Iorque, Londres, São Paulo ou Buenos Aires pouco têm a ver com os desabafos serôdios dos nossos pretensos pais da pátria à procura do trono presidencial, como se isso fosse uma medalha de honra por feitos de um passado que já não há, nessa ilusão de medirmos a eficácia de uma pretérita governança pelas fitas cortadas nas inaugurações do estilo. Aliás, os dados que marcam o ritmo das nossas presidenciais já foram quase todos lançados e grande parte do eleitorado parece reconhecer como inutilidade essa escolha do futuro inquilino do Paço de Belém. Porque qualquer um dos principais presidenciáveis não passa de simples bissectriz do mesmo paralelograma de forças que nos ultrapassa. É por isso que os nossos candidatos não perdem tempo em discussões bizantinas sobre as banalidades da actual encruzilhada europeia, ou sobre os dramas da política atlântica ou da globalização, reconhecendo o nefelibatismo de qualquer atitude portuguesa face aos destinos do mundo. Todos aceitam que fomos condenados a uma escolha que nos transformou em simples acompanhante do pelotão das potências secundárias, onde o máximo de independência a que temos direito é a de sermos bons alunos na gestão das nossas dependências. Dependemos de algum jeito sindicalista no tabuleiro negocial da grande barganha das cimeiras europeias e, quando muito, podemos dar alguns pezinhos de dança com a superpotência que nos resta, junto da qual sempre podemos reivindicar alguma especificidade, invocando certas páginas originais da nossa história, nomeadamente as relações que pudermos manter com o Brasil e Angola. Porque o sonho de uma CPLP, como espaço transversal de diálogo no contexto do multilateralismo depende fundamentalmente da evolução que venham a ter espaços de integração regional, como a União Europeia ou o Mercosul. A política internacional está cada vez mais neofeudalizada e pouco tem a ver com ilusão dos campeonatos mundiais de futebol. É por isso que os grandes semanários de psicanálise da nossa classe política preferem falar de coisas bem menos nefelibatas, como o processo de fusão de dois grandes escritórios de advocacia, onde se recrutam consultores das principais empresas nacionais e distintos fazedores de opinião. Aliás, é destes donos do poder que vêm o próprio culturalmente correcto dos pretensos Nobel cá da parvónia, a que dão o nome de um escritor que nunca teve grandes prémios em vida nem a própria obra publicada, mas que agora tem casa-museu e director da dita, com acesso ao júri que se orna com o nome de quem era marginal quando estava vivo. O problema nunca esteve nos nomes nomeados e premiados ou nos próprios jurados, mas naqueles que escolhem, ou podem escolher, estes últimos, sem os quais ninguém pode situar-se adequadamente na rede de controlo do processo de troca de bens, serviços, protecções e elogios. A liberdade não é uma abstracção geométrica, mas a mera consequência de uma pluralidade de indivíduos autónomos. É uma vivência feita comunidade que só existe quando os homens livres são autores e não meros auditores, quando estes preferem a servidão à imprevisível revolta dos escravos. Hoje, não, amanhã será!

Dez 19

Servidão, bons alunos, gestores da dependência, escritórios de advogados e prémios ditos Pessoa

As notícias que fazem as primeiras páginas de Moscovo, Nova Iorque, Londres, São Paulo ou Buenos Aires pouco têm a ver com os desabafos serôdios dos nossos pretensos pais da pátria à procura do trono presidencial, como se isso fosse uma medalha de honra por feitos de um passado que já não há, nessa ilusão de medirmos a eficácia de uma pretérita governança pelas fitas cortadas nas inaugurações do estilo.

 

Aliás, os dados que marcam o ritmo das nossas presidenciais já foram quase todos lançados e grande parte do eleitorado parece reconhecer como inutilidade essa escolha do futuro inquilino do Paço de Belém. Porque qualquer um dos principais presidenciáveis não passa de simples bissectriz do mesmo paralelograma de forças que nos ultrapassa.

 

 

 

É por isso que os nossos candidatos não perdem tempo em discussões bizantinas sobre as banalidades da actual encruzilhada europeia, ou sobre os dramas da política atlântica ou da globalização, reconhecendo o nefelibatismo de qualquer atitude portuguesa face aos destinos do mundo.

 

Todos aceitam que fomos condenados a uma escolha que nos transformou em simples acompanhante do pelotão das potências secundárias, onde o máximo de independência a que temos direito é a de sermos bons alunos na gestão das nossas dependências.

 

 

 

Dependemos de algum jeito sindicalista no tabuleiro negocial da grande barganha das cimeiras europeias e, quando muito, podemos dar alguns pezinhos de dança com a superpotência que nos resta, junto da qual sempre podemos reivindicar alguma especificidade, invocando certas páginas originais da nossa história, nomeadamente as relações que pudermos manter com o Brasil e Angola.

 

Porque o sonho de uma CPLP, como espaço transversal de diálogo no contexto do multilateralismo depende fundamentalmente da evolução que venham a ter espaços de integração regional, como a União Europeia ou o Mercosul. A política internacional está cada vez mais neofeudalizada e pouco tem a ver com ilusão dos campeonatos mundiais de futebol.

 

 

 

É por isso que os grandes semanários de psicanálise da nossa classe política preferem falar de coisas bem menos nefelibatas, como o processo de fusão de dois grandes escritórios de advocacia, onde se recrutam consultores das principais empresas nacionais e distintos fazedores de opinião. Aliás, é destes donos do poder que vêm o próprio culturalmente correcto dos pretensos Nobel cá da parvónia, a que dão o nome de um escritor que nunca teve grandes prémios em vida nem a própria obra publicada, mas que agora tem casa-museu e director da dita, com acesso ao júri que se orna com o nome de quem era marginal quando estava vivo.

 

O problema nunca esteve nos nomes nomeados e premiados ou nos próprios jurados, mas naqueles que escolhem, ou podem escolher, estes últimos, sem os quais ninguém pode situar-se adequadamente na rede de controlo do processo de troca de bens, serviços, protecções e elogios.

 

 

 

A liberdade não é uma abstracção geométrica, mas a mera consequência de uma pluralidade de indivíduos autónomos. É uma vivência feita comunidade que só existe quando os homens livres são autores e não meros auditores, quando estes preferem a servidão à imprevisível revolta dos escravos. Hoje, não, amanhã será!