Ontem reli o Homem Revoltado de Camus, justamente publicado no ano do meu nascimento. E passei os olhos pela entrevista de Edgar Morin a “Philosophie Magazine” deste mês. De quem vive entre “a mística do amor” e a “ideia matricial de Terra-Pátria”, para que o “entusiasmo humanista” vença a “negação niilista”. Para que a ideia de complexidade, com o diálogo a substituir a superação dialéctica, nos enriqueça com “mestiçagens culturais” que favoreçam “a abertura do espírito”. Obrigado, Mestre! Porque “o conhecimento total” é impossível, dado que “não podemos eliminar totalmente a incerteza”. E não há que fugir do choque dos contrários. Tal como proclamava Pascal, há que procurar “o acordo entre duas verdades opostas”. Nunca acabaremos e nunca completaremos qualquer conhecimento, pelo que importa retomarmos o humanismo renascentista, nomeadamente pela aliança metodológica, onde a cultura não é um exclusivo das napoleónicas ciências sociais e humanas e o natural, das ciências físicas. Importa voltar a Pascal: “é impossível conhecermos as partes se não conhecermos o todo, tal como não podemos conhecer o todo se não conhecermos as partes”. Isto é, como expressavam os neoKantianos, importa compreender. Passo depois para outro Mestre, Camus, com a sua “passion du relatif”, onde a revolta “é uma das únicas posições filosoficamente coerentes”, até porque a função do intelectual é “esclarecer as definições para que se desintoxiquem os espíritos”, contra todos os fanatismos, incluindo os da contra-corrente. “O que é um homem revoltado? É um homem que diz não. Mas se ele recusa, ele não renuncia: é, assim, um homem que diz sim, desde o seu primeiro movimento”. Continuo muito liberalmente radical à maneira de Alain. Na heresia de Pascal. E reflexionista à europeia. Logo, português, homem do “midi”. Mesmo em dia de chuva como hoje. A ter que aturar neopositivistas de direita e de esquerda e fanatismos de todos os quadrantes. Sobretudo, na Universidade.