Dez 01

De como me sobe o coração à cabeça… Timor cresce como um grito ecoando em todos nós…

Sou  mesmo um romântico, um daqueles que, como Hernâni Cidade disse, lhe sobe o coração à cabeça. Por isso, vou dar uma aula sobre teoria da lei e interpretação do direito, assim com Savigny pelos começos, sem seguir as preferências marxianas do Professor Barata Moura sobre a matéria. Como lhe confessei um dia, na barra do Kwanza, ainda acredito que, no mundo afro-asiático, o direito pode ser expressão directa da consciência jurídica popular, uma produção instintiva e quase inconsciente, onde há um espírito particular, e o mesmo é gerador da poesia, dos costumes, da língua e de outros segregados da história. Por isso, levei para as aulas Ruy Cinatti e Luís de Camões, que hoje é o primeiro de Dezembro e aqui não é feriado, porque o foi na passada sexta-feira, dia da declaração unilateral da independência pela Fretilin, em 1975, coisa parecida ao que tentou D. António, o Prior do Crato, em 1580, antes da chegada do invasor que também herdou, comprou e ocupou…

Mas os sessenta anos de “integração” no império dos habsburgos de Madrid, fizeram com que se gerasse uma literatura autonomista que também criou essa comunidade imaginária que é a nação portuguesa, este fingir que é verdade aquilo que na verdade sentimos, pese embora os muitos da elite que continuam a preferir um qualquer Filipe II, em nome da  racionalidade importada e da possibilidade de ascensão ao tacho internacional, com que os multinacionais costumam premiar Cristóvão de Moura e Miguel de Vasconcelos. Timor Lorosae ainda tem muita poesia por cumprir, muitas Actas das Cortes de Lamego para falsificar, muito sebastianismo para subverter os instalados. Aqui ficam os últimos versos do Cancioneiro de Cinatti

Praia presa, adiantada

no mar, no longe, no círculo

de coral que o mar represa.

Praia futura invocada.

Timor ressurge das águas,

praia futura invocada.

Molho o meu sangue na alma

da bandeira que mais prezo,

porque tenho nela a voz

da minha candeia acesa.

Sou transparente ao luar

da minha candeia acesa.

Senhor da terra, das águas,

do ar e dos milheirais.

Senhor Mãe e Senhor Pai,

dai-me um desejo profundo.

Que eu seja senhor de mim!

Dai-me um desejo profundo.

De monte a monte, o meu grito

soa, soa, como voz

de um eco infinito

ecoando em todos nós.

Timor cresce como um grito

ecoando em todos nós.

“A boca emudece, a voz apaga-se”

Dez 01

Estive ontem aqui, Lifao, Oe-Cusse

Estive ontem aqui, Lifao, Oe-Cusse, também dito Ambeno, o mais longe e o mais só dos sítios que foram do fim de Portugal. Levei, no meu bornal, um livro de rimas e cartas de Camões, Paris, Pedro Gendron, III volume, assim portátil, e em edição de 1759. Fui ao monumento de Lifao, onde os portugueses contemporâneos de Camões terão desembarcado na ilha, pela primeira vez. O autor de “Os Lusíadas”, o amigo dos Jaus, estava processado e não terá seguido viagem. Eu fui, mas por terra, três dias, quatro paragens de longas horas em fronteiras, sempre em duplicado, ora em Timorense, ora em indonésio (Batugadé, Oesili, Wili, Batugadé), mas valeu a pena.  E li: despois que dessa terra parti, como quem o fazia para o outro mundo, mandei enforcar a quantas esperanças dèra de comer atá então, com pregão publico, por falsificadoras de moeda. E desenganei esses pensamentos, que por casa trazia, porque em mim nam ficasse pedra sobre pedra. E assi posto em estado, que me nam via, se nam por entre lusco &  fusco, as derradeiras palavras, que na Nao disse, forão as de Scipião Africano, “Ingrata patria, non possidebis ossa mea” (pp. 45.46). Aliás, amanhã é o 1º de Dezembro. Aqui deixo o meu depoimento, a publicar em Lisboa, em O Diabo:  O 1º de Dezembro é sério demais para poder ser utilizado como pretexto de análise de um governo que tem figuras de estadão como estas e que não divulgo, para não poder cumprir o dito segundo o qual em política o que  aparece é que é. Como dizia mestre Alexandre Herculano, Portugal só é independente quando tem a vontade de ser independente, mesmo que, na prática, o sermos independentes signifique gerirmos dependências e navegarmos nas interdependências.  1640 não foi feito contra a Espanha nem sequer num só dia, mas preparado com um investimento de décadas e décadas. E, como dizia outro dos meus mestres Agostinho da Silva, a principal consequência de 1640 chamou-se Brasil. Aliás, o plano vinha de longe e não é por acaso que um D. Luís da Cunha , pouco tempo depois da restauração, advogava a mudança da capital para o Rio de Janeiro, dando como exemplo um seu avô, implicado no partido de D. António Prior do Crato, com quem entrou em desavença porque este quando foi obrigado a abandonar o  reino, optou por refugiar-se na Europa e não no Brasil. Repetindo Herculano e Agostinho, digo que Portugal corre o risco de perder a independência se os portugueses perderem a vontade que os levou a refundar Portugal várias vezes, nomeadamente nos últimos trinta anos, quando muitos disseram Europa como em 1640 dissemos viva D. João IV. Pouco me interessa este governo, porque sei que nele há ministros tão patriotas como os melhores patriotas, bem como outros tão alheios à emoção nacional quanto muitos outros que também tivemos em todos os regimes. Por estes meses, estou na República do Sol Nascente, como  professor na Universidade Nacional de Lorosae, enquanto agente de  cooperação da universidade pública portuguesa e sinto que a comemoração do 1º de Dezembro deveria ser o reconhecermos que, graças a ele, esta língua de Camões, de Cecília Meireles e de Rui Cinatti é a língua mais falada no Hemisfério Sul, deste lado de baixo do Equador. Infelizmente, os instrumentos que dispomos para a defender são parcos demais e aqui, não tanto pelas culpas dos governos portugueses, quanto por não conseguirmos fazer da CPLP uma comunhão entre as coisas que se amam. Por isso, vou comemorar o 1º de Dezembro, sonhando que, dentro de anos, esta semente de república universal falada em português, em tétum, ou nos muitos crioulos seus heterónimos, pode assumir em termos de poder político internacional o necessário abraço armilar. Pode ser que um dos próximos Papas seja angolano ou que o Brasil, além do G20, se torne membro  permanente do Conselho de Segurança da ONU. O que falta ao Portugal do quintal europeu é que os portugueses à solta não tenham que continuar a procurar Portugal fora de Portugal, por causa dos “ministros do reino por vontade estranha” que chamam doido ao Manuelinho. Como sou do partido de Mateus Álvares, de São Julião da Ericeira, continuo à procura da República Maior, como o jurista da restauração João Pinto Ribeiro, chamou à nossa comunidade política.