Seis da tarde de Lisboa, dia 8, três da madrugada de Dili, dia 9. Os galos já cantam esparsos. Há internet e aproveito. Perdi o sono, ao ter que estar em contacto com Lisboa, nas tarefas, não de academia, não de cidadania, mas de mera defesa de direitos, liberdades e garantias. Como não me aconteceu em 1975, quando fui um dos estudantes expulsos da Universidade. Como aconteceu noutros combates, incluindo os de sindicalista e de activista de comissões de trabalhadores, contra o situacionismo de um dos governos de um dos partidos do Bloco Central. Hoje, é maior a solidão do indivíduo diante da máquina do Estado, mas um professor de história das ideias, de filosofia do direito e de ciência política tem o dever de praticar aquilo que teoriza sobre o poder e os micropoderes, nomeadamente a hierarquia do direito da razão que põe o regulamento como inferior à lei, a lei, inferior ao direito e o direito, inferior à justiça. Apenas assinalo o que Alçada Baptista escreveu em 1970, numa carta ao então chefe do governo: em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
Monthly Archives: Dezembro 2008
Os galos já cantam esparsos
Seis da tarde de Lisboa, dia 8, três da madrugada de Dili, dia 9. Os galos já cantam esparsos. Há Internet e aproveito. Perdi o sono, ao ter que estar em contacto com Lisboa, nas tarefas, não de academia, não de cidadania, mas de mera defesa de direitos, liberdades e garantias. Como não me aconteceu em 1975, quando fui um dos estudantes expulsos da Universidade. Como aconteceu noutros combates, incluindo os de sindicalista e de activista de comissões de trabalhadores, contra o situacionismo de um dos governos de um dos partidos do Bloco Central. Hoje, é maior a solidão do indivíduo diante da máquina do Estado, mas um professor de história das ideias, de filosofia do direito e de ciência política tem o dever de praticar aquilo que teoriza sobre o poder e os micropoderes, nomeadamente a hierarquia do direito da razão que põe o regulamento como inferior à lei, a lei, inferior ao direito e o direito, inferior à justiça. Apenas assinalo o que Alçada Baptista escreveu em 1970, numa carta ao então chefe do governo: em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
Contra o tédio, continuarei a ler e a viver Camões, Pessoa e Agostinho.
Uma a uma, as raízes da alegria, o entusiasmo que sustentava o pensamento, vão definhando e apetece guardar-me, resguardar-me, resistir, mesmo que sitiado. Porque todo o céu que sonhámos e que ainda há pouco brilhava, de sol e de azul, se desfez em borrasca que agrediu quem, diante dele, se apresentava de mãos livres e corpo sem armadura. Apenas trazia a pena de um sonho já rescrito, muitos papéis de procura, e um pedaço de mar.
Confesso meu atraso, a minha não cedência perante o altar dos chamados estudos pós-coloniais, os tais que consideram que todos os outros que os não seguem, em cartilha, não passam de miserandos neocoloniais que devem imediatamente aceder ao patíbulo de todas as novas inquisições, nestas garras lobísticas de uma canalha doirada, assente numa formidável rede de financiamento e colocação de amigalhaços.
Tédio. Apenas tédio. Porque o subchefe, fingindo que não discursa, apenas tem a caneta afiada para subsidiar os enviados do grande chefe. Porque todos os outros, os da metapolítica, do patriotismo, do nacionalismo, não passam de míseros serviçais do complexo militar-industrial, de busheiros que hão-de ser obameiros, só porque não leram as sagradas escrituras dos gurus de serviço, com que devemos terminar todos os discursos de homenagem aos poderes estabelecidos.
E assim compreendo como, em Timor, se vai seguindo a rede unidimensionalizadora deste gnosticismo, onde se ridicularizam todos os que não usam o pronto-a-vestir do neodogmatismo pretensamente antidogmático, os tais vermes antinacionais que algumas nações subsidiam, para que só elas sejam nação, e que, pouco a pouco, ocuparam algumas das cidadelas fundamentais desta globalização apátrida que nos amargura. Por mim, continuarei a ler e a viver Camões, Pessoa e Agostinho.
Hoje, estou farto e apenas me consola o que leio em Combustões: De súbito, a grande banda da marinha executa o hino monárquico e a multidão que até aí estivera em silêncio transforma-se num coro em que cada um tenta sobrepor-se à voz do parceiro. Uma liturgia impressionante. As pessoas cantam e os olhos brilham de orgulho. Cada um acende a sua vela e a noite faz-se dia. Nunca assisti a tal coisa na minha vida. Um alto dignitário escolhido para o efeito lê uma longa declaração em louvor do Rei, posto que pede aos presentes que reiterem um juramento de fidelidade ao Rei. É o velho juramento que vem desde os tempos do Rei Trailok (século XV) e que obriga cada um a purificar o coração, oferecendo-o ao trono através de um comovente movimento de entrega da vida ao interesse colectivo consubstanciado na figura do Rei…
Contra o tédio, continuarei a ler e a viver Camões, Pessoa e Agostinho.
Uma a uma, as raízes da alegria, o entusiasmo que sustentava o pensamento, vão definhando e apetece guardar-me, resguardar-me, resistir, mesmo que sitiado. Porque todo o céu que sonhámos e que ainda há pouco brilhava, de sol e de azul, se desfez em borrasca que agrediu quem, diante dele, se apresentava de mãos livres e corpo sem armadura. Apenas trazia a pena de um sonho já rescrito, muitos papéis de procura, e um pedaço de mar. Confesso meu atraso, a minha não cedência perante o altar dos chamados estudos pós-coloniais, os tais que consideram que todos os outros que os não seguem, em cartilha, não passam de miserandos neocoloniais que devem imediatamente aceder ao patíbulo de todas as novas inquisições, nestas garras lobísticas de uma canalha doirada, assente numa formidável rede de financiamento e colocação de amigalhaços. Tédio. Apenas tédio. Porque o subchefe, fingindo que não discursa, apenas tem a caneta afiada para subsidiar os enviados do grande chefe. Porque todos os outros, os da metapolítica, do patriotismo, do nacionalismo, não passam de míseros serviçais do complexo militar-industrial, de busheiros que hão-de ser obameiros, só porque não leram as sagradas escrituras dos gurus de serviço, com que devemos terminar todos os discursos de homenagem aos poderes estabelecidos. E assim compreendo como, em Timor, se vai seguindo a rede unidimensionalizadora deste gnosticismo, onde se ridicularizam todos os que não usam o pronto-a-vestir do neodogmatismo pretensamente antidogmático, os tais vermes antinacionais que algumas nações subsidiam, para que só elas sejam nação, e que, pouco a pouco, ocuparam algumas das cidadelas fundamentais desta globalização apátrida que nos amargura. Por mim, continuarei a ler e a viver Camões, Pessoa e Agostinho.
Porque a esquerda governante perdeu o lume da profecia, resta-lhe o eucalipto socrático e a teoria neocavaquista dos homens de sucesso
Ainda me pedem, muito de vez em quando, mesmo aqui em Timor, que comente aspectos da vida politiqueira desses descendentes de bonzos, canhotos e endireitas, onde predominam os gerontes embalsamados, os reformados, os aposentados, e todas as correias de transmissão de ocultas manobras de pretensas teorias da conspiração. Com efeito, ninguém que conheça as pessoas e os meandros da luta pelo poder acredita que Manuel Alegre possa ser o chefe da ala esquerda do PS, ou que esteja disponível para a criação de um novo partido. Ele é um pedaço vivo de uma história e faz parte de uma outra dimensão, a da metapolítica, aquela que acredita, como Aristóteles, que a poesia é mais verdadeira do que que a história. Ele, pelo menos, tem consciência que uma esquerda que perca o lume da profecia não mais poderá ter sonho, passando a ser medida pelo ritmo utilitário dos homens de sucesso. Por outras palavras, Alegre compreende que Sócrates pode estar para a esquerda como Cavaco esteve para a direita, assumindo a lógica desertificadora do eucalipto, onde tem razão quem vence, chame-se Dias Loureiro ou Oliveira e Costa.
Também disse não acreditar que Sócrates queira calar a ala esquerda do PS. Só manda, ou quer mandar calar, quem tem alguma coisa para dizer e o socratismo é a demonstração exacta das teses de McLuhan sobre importar mais o continente do que o conteúdo, assim se confirmando como, nesta política de “imagem, sondagem e sacanagem”, o que aparece é o que é… E o PS a que eles chegaram é definitivamente um partido “catch all”, “attrappe tout” ou “pigliatuti”, onde todos não são demais para a grande união nacional situacionista, que vai do que representa o ministro Silva Pereira a Sá Fernandes, e assenta na aliança dos grandes escritórios de advogados com os contratadores de “outsourcing”, onde não foi anedota o livro de propaganda do “Menino d’oiro” ter sido apresentado pos Manuel Dias Loureiro. Mesmo um António José Seguro, que eventualmente representa 30% a 40% do aparelho PS, sabe que Sócrates nunca será afrontado por aquela lógica do Bloco Central que vai de vitória em vitória até a uma derrota final, vestida de tabu cavaquense ou de pantanosa disputa autárquica à António Guterres.
É por esta e por muitas outras que Sócrates ainda pode continuar a ser chefe do governo depois das próximas eleições. O povo costuma ter sempre o governo que merece e nem sempre tem razão quem vence. Ora, Sócrates tem um discurso extremamente eficaz e uma máquina de unidimensional porpaganda que até conseguiu que Manuela Ferreira Leite parecesse aquilo que ela nunca foi. Logo, se este governo Valter Lemos fosse a esquerda, eu que sempre fui de direita, teria de me qualificar como um tipo de extrema-esquerda…
Isto não passa de neocabralismo, com umas cerejas neofontistas, e, se outras fossem as circunstâncias já há muito que estaríamos em processo de criação de uma adequada Patuleia. Por mim, alinharei sempre pela Santa Liberdade, mas sem pistola na mão, preferindo a revolta urneira, dado que reconheço a necessidade democrática daquele golpe de Estado sem efusão de sangue, como Karl Popper chamava às eleições do pluralismo democrático. Contudo, como me desinteressei dos ilusionismos de certos sucedâneos da metapolítica, porque muitos dos impulsionadores e gestores de causas caíram na tentação da procura do patrocínio junto dos mecenas que agora estão na pildra ou na falência, resta-me navegar, porque navegar é preciso e sobreviver com tansos não vale a pena. A ministra rodriguinha, que acabou de rebentar com os últimos restos de prestígio da ideia comunitária de professor, em nome de uma qualquer ficha avaliativa, tão estúpida como as da bolonhesa tecnocrática, ainda não percebeu só é vencido aquele que entrou no jogo do dizer em comunicado, nota de imprensa ou direito de resposta que já venceu o opositor, o dissidente ou quem lhe fez o gesto do Zé Povinho. Por mim, apenas continuo a ser daqueles que ficaram desempregados desde que alguns disseram que chegaram à Índia, não percebendo que os sonhadores activos, que são os verdadeiros navegantes, nunca andaram à procura da Índia que vem nos mapas.
PS: Peço desculpa pelo tédio que aqui manifesto. Mas ontem, ao fim da tarde de Dili, tive que honrosamente participar numa recepção que um senhor Secretário de Estado ofereceu à colónia docente lusitana, sita em Timor. O senhor foi simpatiquíssimo, sempre rodeado de adidos e longe dessa manifestação de massa das elites, mas não houve diálogo nenhum, nem estava programado que houvesse. Aliás, como a maioria esmagadora dos docentes era do ensino pré-universitário, quase todos se lamentavam por não terem sido grevistas lá no reino. Tenho a impressão que ele discursou, porque ouvi tudo, porque concordei com tudo, mas não me lembro agora de nada, de tão diplomático que teve de ser. Logo, decidi andar sempre pelas margens da manif e nunca me aproximei do palanque, nem sequer tendo a honra de lhe estender um cumprimento. Continuo a preferir a verdadeira metapolítica, que, afinal, é a verdade da política, e estou mais interessado em rever trabalhos sobre “topasses” e “larantuqueiros”…
Porque a esquerda governante perdeu o lume da profecia, resta-lhe o eucalipto socrático e a teoria neocavaquista dos homens de sucesso
Isto não passa de neocabralismo, com umas cerejas neofontistas, e, se outras fossem as circunstâncias já há muito que estaríamos em processo de criação de uma adequada Patuleia. Por mim, alinharei sempre pela Santa Liberdade, mas sem pistola na mão, preferindo a revolta urneira, dado que reconheço a necessidade democrática daquele golpe de Estado sem efusão de sangue, como Karl Popper chamava às eleições do pluralismo democrático. Contudo, como me desinteressei dos ilusionismos de certos sucedâneos da metapolítica, porque muitos dos impulsionadores e gestores de causas caíram na tentação da procura do patrocínio junto dos mecenas que agora estão na pildra ou na falência, resta-me navegar, porque navegar é preciso e sobreviver com tansos não vale a pena. A ministra rodriguinha, que acabou de rebentar com os últimos restos de prestígio da ideia comunitária de professor, em nome de uma qualquer ficha avaliativa, tão estúpida como as da bolonhesa tecnocrática, ainda não percebeu só é vencido aquele que entrou no jogo do dizer em comunicado, nota de imprensa ou direito de resposta que já venceu o opositor, o dissidente ou quem lhe fez o gesto do Zé Povinho. Por mim, apenas continuo a ser daqueles que ficaram desempregados desde que alguns disseram que chegaram à Índia, não percebendo que os sonhadores activos, que são os verdadeiros navegantes, nunca andaram à procura da Índia que vem nos mapas.
Recordando os gloriosos tempos dos tribunais plenários e daqueles ilustres servidores magistrais do marquês, das alçadas antipedristas e da lei nº1/35
Longe de poder avaliar no terreno, os efeitos da grande greve dos professores pré-universitários reinóis, quanto ao esclarecimento reformista de sua excelência ministerial, instrumentalizando a eventual ira anticorporativa da populaça, contra uns profissionais desautorizados pela aliança dos manufactureiros com o novoriquismo, por cá vou notando a chegada das ordenações lisbonenses sobre as aparências das massas bolonhesas temperadas com molho de avaliacionice, apesar de estar, hoje, marcado por uma enorme satisfação motivacional, face à visita de sua excelência ministerial o Professor Doutor Cravinho Jr., que a todos os membros da colónia lusitana convidou para uma dessas habituais sessões de diplomacia de croquete e à qual, naturalmente, corresponderei, para poder cumprir, aqui, sem greve de zelo, a ordem do “mail” convocatório.
Nada tenho que saber dos altos desígnios negociais da visita, embora tenha lido todos os telegramas emitidos sobre a matéria e que os blogues lisboeteiros pró-fretilin se encarregaram de divulgar, antes de os jornais lhes darem guarida. Mas não sei se alguém teve a delicadeza de sugerir ao Professor Doutor uma visitinha de cortesia a um dos nomes sagrados desta terra, o Manel Carrascalão, que continua a sofrer no Hospital Guido Valadares. Timor e Portugal talvez exigissem este pequeno grande gesto de respeito pelo sagrado. Quanto ao fundo da questão, não posso, nem devo, pronunciar-me, porque as notícias que, por cá, e para cá, nos filtram, são equivalentes às que tinham os antigos funcionários coloniais, sujeitos aos ritmos de pastilha e “briefing”, que, para eles, eram remetidos, em cifra, pelas excelências directoriais e sargentais que estavam sentadas nos gabinetes do ministério do arranha-céus da avenida não sei quê lá do restelo, onde ainda hoje se senta sua excelência o ministro da defesa e do pagamento dos soldos aos militares no activo e aos antigos combatentes. Como português de segunda, me assumo, reverente e obrigado, para receber o cheque e ir para a fila do BNU.
Por mim, enquanto for funcionário, cumprirei com lealdade e mérito, as funções que me foram confiadas, de acordo com os princípios constitucionais, mas também com toda a constitucionalíssima falta de respeito, a do direito de resistência, do direito originário, natural e racional, registado num artigo da nossa constituição, diante das distorções do politicamente correcto, com que certos altos serviçais do Estadão me querem condicionar, nomeadamente alguns desses militantes do partido dos becas que parece ter saudades da fórmula de aceitação das funções públicas que ornava tomada de posse dos tempos do salazarismo. Onde também éramos obrigados a ser servos voluntários dos valores da Constituição de 1933 e a comprometer-nos a não participarmos em associações secretas que a quisessem derrubar. Coisa que o meu mestre Agostinho gostava de contar, sobre o quando se recusou a assumir o juramento, por não conseguir poder limitar o respectivo futuro, dado não saber se poderia optar por essa “capitis deminutio”.
Se o socratismo cair na esparrela de atingir o nível da lei salazarenta de 1935, a de Alberto dos Reis, mesmo que um Fernando Pessoa não seja capaz de escrever um desses eternos manifestos contra a intolerância, o fanatismo e a ignorância, o Portugal do século XXI cumprirá a sua função adequadamente torquemada, e poderá até pedir à Sá Couto que inclua, no “Magalhães”, uma espécie de tecla de controlo parental para a detecção das viroses de associativismo que marquem um qualquer funcionário, nomeadamente as preferências pelo clubismo futebolístico, as crendices religiosas ou as opções sexuais.
Como cidadão e homem livre, habitual vítima deste tipo de controlo policiesco e de persiganga, visualizo a onda de redes e redes de informadores e denunciantes, bem como as resmas de apreensões de discos duros com que esta utópica republiqueta de becas se transformaria em retroactivo “tsunami”, porque os candidatos a caceteiros já os vejo prevenidos e acicatados por muitos e venerandos sermões, nomeadamente aqui na blogosfera. Ainda ontem, nuns comentarismos anónimos, o novo presidente do intervencionado BPP, meu antigo camarada de combates liberais no Grupo de Ofir de Francisco Lucas Pires, e devotíssimo e dilecto filho da universidade concordatária, era por aí acusado de pertencer à esotérica seita de Kant e Montesquieu, apesar de não se lhe terem visto as marcas simbólicas nas fraldas da camisa. Será que queremos dar emprego aos vinte mil informadores e denunciantes da velha PIDE-DGS que por aí ainda vão desempregados?
Apenas me tenho que recordar dos gloriosos tempos dos tribunais plenários e daqueles ilustres servidores magistrais do marquês e das alçadas antipedristas, para quase lhes sugerir que retomem antiquíssima legislação que transformou o conceito legal de aparência de limpeza de sangue numa estrela amarela, distintiva, com que deveriam ser ornados, nas suas aparições públicas, todos os politicamente incorrectos que vivem noutra dimensão de metapolítica. Já agora, seria interessante que exportassem essa luminosa ideia de repressão interior para tudo o que é república ainda livre, dos Estados Unidos ao Brasil, da França à Bélgica, etc. , e que por todo o mundo livre se abatesse a habitual escuridão que levou à tortura de Jacques Mollay e à própria entrada nos processo inquisitorial de Francisco Velasco Gouveia e do Padre António Vieira. Odeia essa república de becas. E não tenho medo de requerer o usso imediato do símbolo público da não limpeza de sangue. Obrigado, Manuel Alegre, por ainda resistires, isto é, por considerares que a metapolítica é bem superior à pulhítica da imagem, sondagem e sacanagem!
a metapolítica é bem superior à pulhítica da imagem, sondagem e sacanagem
Por mim, enquanto for funcionário, cumprirei com lealdade e mérito, as funções que me foram confiadas, de acordo com os princípios constitucionais, mas também com toda a constitucionalíssima falta de respeito, a do direito de resistência, do direito originário, natural e racional, registado num artigo da nossa constituição, diante das distorções do politicamente correcto, com que certos altos serviçais do Estadão me querem condicionar, nomeadamente alguns desses militantes do partido dos becas que parece ter saudades da fórmula de aceitação das funções públicas que ornava tomada de posse dos tempos do salazarismo. Onde também éramos obrigados a ser servos voluntários dos valores da Constituição de 1933 e a comprometer-nos a não participarmos em associações secretas que a quisessem derrubar. Coisa que o meu mestre Agostinho gostava de contar, sobre o quando se recusou a assumir o juramento, por não conseguir poder limitar o respectivo futuro, dado não saber se poderia optar por essa “capitis deminutio”. Se o socratismo cair na esparrela de atingir o nível da lei salazarenta de 1935, a de Alberto dos Reis, mesmo que um Fernando Pessoa não seja capaz de escrever um desses eternos manifestos contra a intolerância, o fanatismo e a ignorância, o Portugal do século XXI cumprirá a sua função adequadamente torquemada, e poderá até pedir à Sá Couto que inclua, no “Magalhães”, uma espécie de tecla de controlo parental para a detecção das viroses de associativismo que marquem um qualquer funcionário, nomeadamente as preferências pelo clubismo futebolístico, as crendices religiosas ou as opções sexuais. Como cidadão e homem livre, habitual vítima deste tipo de controlo policiesco e de persiganga, visualizo a onda de redes e redes de informadores e denunciantes, bem como as resmas de apreensões de discos duros com que esta utópica republiqueta de becas se transformaria em retroactivo “tsunami”, porque os candidatos a caceteiros já os vejo prevenidos e acicatados por muitos e venerandos sermões, nomeadamente aqui na blogosfera. Apenas me tenho que recordar dos gloriosos tempos dos tribunais plenários e daqueles ilustres servidores magistrais do marquês e das alçadas antipedristas, para quase lhes sugerir que retomem antiquíssima legislação que transformou o conceito legal de aparência de limpeza de sangue numa estrela amarela, distintiva, com que deveriam ser ornados, nas suas aparições públicas, todos os politicamente incorrectos que vivem noutra dimensão de metapolítica. Já agora, seria interessante que exportassem essa luminosa ideia de repressão interior para tudo o que é república ainda livre, dos Estados Unidos ao Brasil, da França à Bélgica, etc. , e que por todo o mundo livre se abatesse a habitual escuridão que levou à tortura de Jacques Mollay e à própria entrada nos processo inquisitorial de Francisco Velasco Gouveia e do Padre António Vieira. Odeia essa república de becas. E não tenho medo de requerer o uso imediato do símbolo público da não limpeza de sangue. Obrigado, Manuel Alegre, por ainda resistires, isto é, por considerares que a metapolítica é bem superior à pulhítica da imagem, sondagem e sacanagem!
Quando descer sobre a luz que me faz falta, num ir além do poente, noite dentro, até sempre
Perguntam-me, lá de longe, lá dos dezoito mil quilómetros que ficam nos antípodas, mas sempre aqui tão perto, perguntam-me, se voltei a ter planos para o depois daquilo a que chamam voltar. Prosaicamente, digo que não sei. Porque haverá reuniões e fichas, despedidas do senhor embaixador, recepção do senhor secretário de estado, muitos empregados limpando o pó, cortando a relva, podando as árvores, muitos chefes de empregados preenchendo requestações, cruzinhas no excel, no word, no pdf, no fdp, ou lá no que é, só porque o que tem de ser tem muita força.
Confesso que não vim aqui procurar a pátria que já não há, a revolução que sempre foi perdida, quando apenas devia ter sido evitada, o falso homem do leme ou uma qualquer nau de fantasia que, envolta no mistério do exótico, seja capaz de me dar porto seguro ou refúgio face a ameaça dos piratas. Por mim, porque navegar é preciso, continuo sem contabilizar o ir não sei para onde, dos que apenas se submetem para o sobreviver e se esquecem que importa lutar, para que continuemos a viver.
Parece que não conseguirei um conveniente heterónimo me dê refúgio e talvez chegue mesmo à conclusão que tenho definitivamente de mudar para outra ilha qualquer, onde saiba mesmo que não haverá lugar, tanto do onde como do porquê. Mas sempre era capaz de dizer que quando descer sobre a luz que me faz falta, quando estiver no regressar, poderei, talvez, continuar a viver assim, sem agenda, para poder ter sempre um intervalo que me dê tempo e me dê sítio. De um estar que seja ser e de um ser que não dependa do ter. Num aqui e agora, que seja sempre acaso procurado, sem horários, sem relatórios, sem reuniões, avaliações, manual de procedimentos, num ir além do poente, até sempre, ao nascer de novo, de um dia mais dia que me dê força, para que o amanhã seja o que Deus quer e o que homem sonha, para que volte a dizer pedra e a dizer praia, a praia de partida que o sonho todos os dias desenha no mapa da procura de quem continua a procurar.
Há muitas pontes levadiças, muitas pedras que escorregam das escarpas, muitas íngremes ladeiras, alguns fossos e outros tantos fossados
Entre Timor Lorosae e a parte ocidental da ilha que fez parte das Índias Orientais Holandesas, há muitas pontes levadiças, muitas pedras que escorregam das escarpas, muitas íngremes ladeiras, alguns fossos e outros tantos fossados. Mas há também as mesmas bibis que não conhecem fronteiras, as mesmas casas, os mesmos pátios, os mesmos muros feitos com pedaços de palmeiras, bem como porcos negros, galos e galinhas que se passeiam diante dos poços onde as mulheres lavam a roupa e as raparigas se penteiam, ao lado dos túmulos dos antepassados. Quis fingir que não vi o ex-miliciano que me abordou na loja, a loja ao lado do malai que faz contrabando dos restos sandalosos e explora o “karaoke” noite dentro. Porque mais além há também Oecussi/ Ambeno, quinze mil pessoas que não falam tétum e meia dúzia de sucos que não quiseram a integração e liurais que morreram honrados sem verem a pátria libertada. Há Pante Makassar, onde o “Nakroma” vem, de vez em quando, trazer abastecimentos, demorando seis horas amarrado na praia. Por mim, malai demais, que não sei desenhar as palmeiras como elas na verdade são, também não posso deixar de testemunhar os dias que passei para lá da fronteira, onde não são raros os cartazes de Eurico Guterres como candidato a governador de Kupang. Apenas acrescento que tais dias apenas serviram para confirmar as muitas cenas de todos os dias, com que se vai fazendo a eternidade das nossas vidas.
Não tive suficiente tempo para comparar desenvolvimentos e atrasos, ou até memórias coloniais, mas tornou-se evidente o peso de dezenas de milhares de refugiados desta RDTL, que alteraram a paisagem, sobretudo, de Atamboa. Também não tive tempo para ir além das aparências e até não me chegaram as informações que fui obtendo através dos excelentes guias que me acompanharam. Apenas confirmei que, por esta linha de ilhas que fazem a fronteira entre a Ásia e a Oceania, já correu sangue demais entre irmãos, feitos pedras de xadrez do grande jogo das guerras por procuração. E continuo a desejar que elas não sejam apenas uma espécie de seguro de defesa das grandes potências que por aqui temem o terrorismo, a bandocracia e o narco-tráfico.
Lá do outro lado de Batugadé, a República Indonésia, de Suharto a Sukarno, que pediu, e bem, o estatuto de observador da CPLP, constitui ainda uma versão asiática do modelo clássico de construção da nação a partir da construção de um Estado, dominado por aparelhos de poder, como destaque para o militar, não faltando sequer uma espécie de cartilha de um mínimo de razão de Estado, a que chamam ética da reponsabilidade. Aliás, as semelhanças com o processo histórico francês, tanto do despotismo esclarecido como do estatismo pós-revolucionário, revelam uma espécie de neo-feudalismo numa anarquia ordenada, onde a pluralidade das forças vivas conseguiu ser mobilizada pelo autoritarismo modernizante do chamado Estado de Segurança Nacional.
Visitar Timor Ocidental e confirmar as causas geopolíticas da invasão, obriga-nos também a sublinhar que, mesmo em plena “integração”, nunca deixaram de existir fronteiras formais entre as duas partes da mesma ilha. Porque a remota parcela do extinto Império Colonial Português sempre se assumiu como “província” do aparelho militar de Jakarta, entendido como uma espécie de Estado dentro do Estado e dotado das suas próprias razões de Estado, até para financiamento privado desse serviço público. Por outras palavras, Timor Leste sempre foi para os militares indonésios uma província em sentido etimologicamente romano, isto é, uma terra objecto de um pro vincere.
Volto a Dili. A estes grandes contentores importados pelo “state building” da governação global, com milhares de peritos, consultores, magistrados e professores, todos empacotadamente especialistas, como eu, na escrituração de frases que hão-de salvar a humanidade, mas aos quais falta, simplesmente, a humildade de procurarem descobrir a razão pela qual esta parcela da humanidade não foi, ou não quer, ser salva por muitos “papers” apátridas. Por mim, confesso que só sei que nada sei.
Sobretudo, quando em Dili não falta nação, isto é, uma ideia de obra, mobilizadora do bem comum. Como não são raros os políticos experimentados em tacticismos, nomeadamente da guerrilha política. Aliás, também por cá não deixa de notar-se o lado negro da portugalidade, esta hiper-identidade, este excesso messiânico que leva a um exagero de frustração e até de depressão, sobretudo quando as expectativas da teoria se distanciam da prática das realizações. Também por cá ficou esta doença que levou Almada Negreiros a dizer qualquer coisa como a de sermos, nós, Portugal, um desgraçado país onde ninguém a ninguém admira e todos a determinados idolatram.
Se as elites da RDTL me permitissem um conselho, diria que importa moderar os ímpetos do tacticismo e passar para a estratégia, para um adequado inventário das reais potencialidades e das efectivas vulnerabilidades, a fim de evitarem que as primeiras não passem para o segundo termo, e, pelo contrário, para permitirem que as segundas se elevem a potencialidades, mas sem o jogo apaixonado dos poderes erráticos do tempo da resistência e da guerrilha e, sobretudo, o desperdício dos mesmos em partidocracia. Os portugueses pós-revolucionários, copiando os brasileiros, inventaram para o efeito o IDN e até chegou a esboçar-se uma listagem das potencialidades e vulnerabilidades do país que éramos. É o que sinto faltar aqui, bem longe da lógica autoritária modernizante dos estúpidos Estados de Segurança Nacional…
PS: A primeira imagem data de 1973, oriunda deste blogue de antigos soldados, que parece inactivo, mas onde até não falta o esboço de um dicionário de baikeno. A segunda é da minha autoria, de anteontem. O bronze que está na base do monumento não tem o nome de qualquer venerando figurão visitador de antes de 1975, mas o de António Guterres, do ano 2000. Muito justamente. Já agora, um grande abraço ao meu vizinho asiático Combustões, que resiste no Sião, testemunhando, como português antigo e português de sempre, que vale mais experimentá-lo do que julgá-lo.