Seis da tarde de Lisboa, dia 8, três da madrugada de Dili, dia 9. Os galos já cantam esparsos. Há internet e aproveito. Perdi o sono, ao ter que estar em contacto com Lisboa, nas tarefas, não de academia, não de cidadania, mas de mera defesa de direitos, liberdades e garantias. Como não me aconteceu em 1975, quando fui um dos estudantes expulsos da Universidade. Como aconteceu noutros combates, incluindo os de sindicalista e de activista de comissões de trabalhadores, contra o situacionismo de um dos governos de um dos partidos do Bloco Central. Hoje, é maior a solidão do indivíduo diante da máquina do Estado, mas um professor de história das ideias, de filosofia do direito e de ciência política tem o dever de praticar aquilo que teoriza sobre o poder e os micropoderes, nomeadamente a hierarquia do direito da razão que põe o regulamento como inferior à lei, a lei, inferior ao direito e o direito, inferior à justiça. Apenas assinalo o que Alçada Baptista escreveu em 1970, numa carta ao então chefe do governo: em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.