Regresso. Não há nota necrológica que possa captar as muitas memórias de um amigo desaparecido. As três frases com que os jornais o descreveram não chegam. Apenas digo que morreu como viveu, na aventura, no risco, na doce procura da insolência. Era um desses portugueses à antiga que nunca venceu e que, por isso mesmo, nunca foi vencido. Sempre se assumiu como o sonho em figura humana, tão gigante de espírito quanto o próprio corpo. Uma lenda que, já em vida, era viva, pelas estórias que os fantasmagóricos inimigos alimentavam, mas que nunca corresponderam a quem, pela bondade natural e educativa, pouca tendência tinha para a vindicta. Apenas se entregava às causas que o mobilizavam com o entusiasmo dos crentes, mas, num tempo de homens lúcidos, sempre teve a lucidez de se assumir como ingénuo. Dele, a lei da morte já há muito que se tinha libertado…
P. S. Tinhas um blogue cujo último postal data de Janeiro de 2006. Deixo nesta recordação a Catrineta de Almada que lá inseriste. Também por estes dias, repetias Pessoa:
O mostrengo que está no fim do mar
Veio das trevas a procurar
A madrugada do novo dia,
Do novo dia sem acabar;
E disse, «Quem é que dorme a lembrar
Que desvendou o Segundo Mundo,
Nem o Terceiro quere desvendar?»
E o som na treva de elle rodar
Faz mau o somno, triste o sonhar,
Rodou e foi-se o mostrengo servo
Que seu senhor veio aqui buscar.
Que veio aqui seu senhor chamar
–Chamar Aquelle que está dormindo
E foi outrora Senhor do Mar.