Mai 05

subempreiteiros de um sistema abstracto e exógeno

O próximo parlamento e o próximo governo vão ser apenas subempreiteiros de um sistema abstracto e exógeno que trimestralmente vão medir, linha a linha, a execução da obra. E tudo num esquema de inicial custo sem dor para o pagante. Ai de quem subir ao poder. Logo, têm que ser todos.

Hoje, o grau zero de política, enquanto cidadania e participação. Um Filipe II financeiro acabou de ser aclamado nas Cortes de Tomar. Foram os nossos erros que o chamaram.

Os problemas económicos apenas se resolvem com medidas económicas. Mas não apenas com medidas económicas. Se assim fosse, Portugal deveria ser apenas mero centro de imputação de receitas e despesas e a troika poderia substituir toda a nossa governança. Incluindo a presidência.

Perante a conferência de imprensa da troika, confirma-se a existência de uma alternativa entre a mentira compulsiva e a fraude obsessiva. Pelo menos sou totalmente favorável a movimentos de liberalização, dos que nos tornem livres. Até sou mais radical: além de liberalizar, sou pela libertação.

Lendo e ouvindo o nacional-conformismo face ao programa troikiano, quem sou eu para não o considerar como superior aos decretos de Mouzinho da Silveira e ao programa do MFA? Por momentos até parece que valeu a pena o regabofe de incompetência e propagandismo que nos levou ao endividamento…porque para termos o pastelão que vai fundir tudo, tudo valeu a pena, mesmo a alma pequena!

O troikiano programa não passa de mais uma ditadura das finanças. Este vem de fora para dentro, só porque, por dentro, falta o mínimo de organização do trabalho nacional e a própria vontade de sermos independentes. Somos, definitivamente, mero quintal de provincianos que já não sabem pensar-se pelas próprias cabeças…

 

 

Mai 04

Quem efectivamente manda em Portugal

Quem efectivamente manda em Portugal não é o PS, o PSD ou o CDS. Foram os sistemas de decisão simbolizados por Vítor Constâncio, Durão Barroso e Aníbal Cavaco Silva, bem como as forças vivas que se federaram de forma satélite em torno desses pólos, com a posterior literatura de justificação, sobretudo dos terinadores de bancada, depois do apito final da troika. O resto é campanha para papalvo.

Se eu pudesse engenheirar um qualquer esquema partidário no espaço não comunista, diria que precisávamos urgentemente de um partido republicano, à esquerda, de um partido liberal, ao centro, e de um partido conservador, à direita, bem como de um efectivo partido de extrema-direita, para que tudo ficasse clarificado. O resto dos existentes, depois de saldadas as dívidas, iria para o museu da pós-revolução.

Mai 03

O anúncio do acordo com a troika

O Primeiro ministro anuncia às 20h30 em comunicação ao país o acordo a que Portugal chegou com a delegação da Troika (FMI, BCE e UE) para concessão de um apoio ao país. Amanhã delegação da Troika comunicará pormenores do acordo.

 

Os comentadores do jogo Barcelona-Real anunciam: “a não perder, ao intervalo, a comunicação do Senhor Primeiro Ministro sobre a ajuda”. Entretanto, o árbitro não marca grande penalidade. O treinador recebeu cartão vermelho e não pode orientar a equipa. A de futebol. Aqui só o Teixeira dos bancos…

 

Teixeira dos Santos foi autorizado pelo arbitroika a assistir à conferência de imprensa que anuncia a nossa eliminação da eliminatória. Ainda pensavam que isto era só bolas. Usem a relva!

 

“O governo conseguiu um bom acordo…”

 

“O meu primeiro dever é tranquilizar os portugueses”

 

“Não vai haver revisão constitucional”

 

“Não vai haver privatização da Caixa”

 

Por outras palavras, “não posso entrar em muitos detalhes” (ele apenas quer dizer que a troika subscreveu o programa de governo do PS, mas fingiu que o não disse)

 

Só falta dizer que o FMI, o BCE e a UE vão votar no PS, mesmo sem Teixeira dos Santos a candidato.

 

“Nenhuma nação vence sem confiança em si própria”.

 

“Nós vamos vencer esta crise”. Pum!

Só um português minoritário. Não acredito em Sócrates e não subscrevo Catroga. Nem com Blackberry.

Mai 02

Portas e Relvas, a propaganda pura

Quem assistiu pela televisão, em directo, ao concentrado de Portas no sábado, repara como ele é mestre em demagogia, dizendo agora o mesmo em coloquial de entrevista, sem responder a nenhuma das questões que lhe apresentam, um pouco à maneira de Sócrates. Pura propaganda, mas bem engravatada. O PSD deixa esse esquema para Miguel Relvas.

Mai 02

Morte de Bin Laden

 

Ontem foi beatificado João Paulo II, um dos melhores do meu tempo. Hoje foi morto em acto de guerra, à velha maneira da vindicta, Bin Laden. Gostei mais de ontem. Pelo menos, houve um pedacinho de além e conjugámos paz com coragem.

 

O sistema norte-americano de justiça ainda é marcado pelos modelos da vindicta privada, especialmente quando o processo da guerra não é controlado pelo direito da guerra. O critério do sucesso é o grande soberano, embora venham à memória outros assassinatos políticos ordenados pelo Estado. Dos falhados (Fidel de Castro) aos concretizados (Trotski). A Rambo, prefiro a paz pelo direito…

 

Um kantiano, como eu, rejeita todos os processos de Razão de Estado, dos vitoriosos, que todos aplaudem, aos derrotados, que logo teriam adequadas críticas dos treinadores de bancada, incluindo os nossos comentadores da luta contra o terrorismo. Devemos ser o país do mundo com maiores letrados “per capita” na matéria, num espaço inversamente proporcional ao nosso poderio.

Mai 01

O bloco central mental

Ontem o “Mais Sociedade”, procurando mobilizar os pensadores da economia, da política, da história e da literatura, que são do agrado do situacionismo das nossas forças vivas, mostrou-se disponível para um reformismo que mova o presente movediço. Temeram ser e parecer liberais, chamando-lhe pré-vitorianos, e mantiveram-se no mais do mesmo, do consenso social-democrata.

 

O militante número um do PSD, Balsemão, na linha dos discursos do Pátio dos Bichos, confirma o “nihil obstat” desta sucessão de situacionismos em que se tornou o regime, contra a esquerda irresponsável que não quer negociar e os liberais assumidos que poderiam pôr em causa o equilíbrio pós-vitoriano, isto é, pós-salazarista.

 

Confirma-se que há um bloco central mental, entre a direita dos interesses e a esquerda que se vai dizendo moderna. Outrora invocavam Bernstein (como o fez Balsemão, Cavaco e Sócrates). Agora dizem que são pelo regresso de Keynes, conforme Obama. Desde que se respeitem os preceitos da doutrina social da Igreja. É a cartilha do pensamento único dos que dizem ser o caminho, nesta encruzilhada provocada pelos próprios.

 

O bloco central mental, este centrão mole e difuso, já chegou a invocar Marx, o do revisionismo social-democrata, tal como agora gosta de clamar que, do liberalismo, só o político e, eventualmente, o dos costumes. Eis a fronteira: eu sou mesmo liberal, o do político a mandar no liberalismo económico e no liberalismo social.

Mai 01

Os protectores e o tratamento de choque

Tal como no dito pós-comunismo, dos países da Europa Central e do Leste, depois da queda do Muro, vêm aí os especialistas em tratamento de choque, os que aqui vão aplicar a bela ordem exógena. Não virão como invasores, à maneira de el-rei Junot, mas como amigos e protectores, como o Marechal Beresford. Está na hora de refundarmos o Sinédrio!

 

Ser liberal em Portugal começa pela fidelidade aos Mártires da Pátria. Pela adequada resistência organizativa e pelo posterior grito no 24 de Agosto de 1820, a libertação contra os protectores! Mesmo que eles depois se encostem à Santa Aliança!

 

Há pretensos liberais ditos decepados, coxos e de cabeça arrancada, pelo que põem os pés no sítio do coração ou do cérebro. Porque no princípio deve estar o fim e a experimentação. Ora, ninguém pode negar que foram, até agora, os países de mais continuidade e crença liberais que nos deram melhores Estados, mais autonomia das sociedades e mais liberdade às pessoas concretas, de carne, sangue e sonhos.

 

Contra as crenças bem práticas, sempre se insurgiram os cultores do sem lugar (utopistas), os tecnocratas e os negoceiros. Especialmente em coisas mentais como a nossa, cercadas de fantasmas de direita (sobretudo do socialismo de direita salazarento, defensor de uma economia privada que seja economia de mercado) e preconceitos de esquerda (o Estado Social foi nome inventado por Marcello Caetano).

 

Devemos é voltar ao velho conceito de serviço público de marca liberal, à Mouzinho da Silveira. Aventura de carácter ideológico foi pôr “boys” para defenderem a ideologia como directores-gerais, sem carreira e sem educação de serviço públic…

 

O consenso situacionista é juntar a direita dos interesses à dita esquerda moderna. E eu, que não sou de esquerda, que sou liberal, até me sinto bem à esquerda dessa hipócrita esquerda. Basta ser liberal à europeia, à americana, ou à oitocentista, que é como mais sou.

 

Até a nossa direita mais à direita, faz parte do socialismo de direita, como dela diria Hayek. Eu chamo-lhe mais salazarenta, de acordo com as linhas gerais do catecismo da OPAN, que bem me tentaram enfiar no sexto e no sétimo ano de liceu, no manual do Martins Afonso, que era livro único…

 

Marcello Caetano, o efectivo criador do Estado Social, se estivesse vivo e ouvisse os discursos do 1º de Maio da CGTP, diria: como eles me repetem! Qualquer ministro das corporações diria: dizem o mesmo, pena não festejarem o São José Operário! Veiga Simão, Silva Pinto e Basílio Horta, os que andaram pelo Congresso de Tomar, devriam ensinar tal coisa aos discípulos do PS.

Abr 30

Farpas troikadas

O líder do partido Verdadeiros Finlandeses concordou que uma ajuda a Portugal pode ser do interesse da Finlândia. O homem até é católico, apesar de protestar num país protestante. E se for para o governo até deixa de ser da extrema-direita. O cepticismo passou a ser coisa dos europeístas. É o que dá traduzir finlandês em calão de Oli Rehn, só porque este é doutorado em Oxford.

Troika reestrutura Portugal de alto a baixo. É a “perestroika” importada. Com a “glasnot” do costume: “O PSD impede que o país fale a uma só voz. Chega de jogar às cartas” (negociador C). “O Governo de José Sócrates devia ir a tribunal. O fartar vilanagem foi uma tragédia nacional” (negociador B). Ou as parangonas do semanário do regime.

Hoje não há jogos da bola na televisão. Há directos da propaganda dos partidos, entre o Porto e Lisboa. Um apresenta voluntários que não são militantes. Outro, em encontros imediatos de primeiro grau com a chamada sociedade civil. Ambos em banha da cobra.

Abr 29

Com o GPS avariado, lá vamos à bolina

Governar deveria ser executar um programa, numa espécie de pilotagem do futuro, equivalente à condução de um navio, para o cumprimento de uma rota e medição da viagem realizada.

 

Aqui e agora, com o GPS avariado e dependendo totalmente do rebocador de credores que nos levem a porto seguro, ao abrigo da tempestade, os candidatos à eleição não têm autonomia para uma adequada de oferta de bens e viagens, embora o eleitor se mantenha racional e compreenda que acabou a era dos governos minoritários ou monopartidários, restando-nos as coligações tipo jangada

 

Daí que não passe de manobra de propaganda o regresso a programas omnibus, que oferecem soluções que nunca se vão realizar. Porque ameaça continuar o rotativismo e o devorismo, onde qualquer situacionismo se caracteriza por ser oposição à oposição, onde o primeiro se diz verdadeiramente socialista, na esquerda desta direita, e a segunda aparenta ser socialista menos, na direita desta esquerda.

 

Aqui e agora, como diria Ortega y Gasset, “ser da esquerda é, como ser da direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser imbecil: ambas, com efeito, são formas da hemiplegia moral” (depoimento que prestei ao DE de hoje sobre programa de governo do PS).

 

Garanto aos meus amigos que continuo desiludido com a esquerda desta direita e a direita desta esquerda (isto é, os três partidos que têm um enganador “S” na própria sigla). Não me apetece comprar bilhetes para a segunda parte deste mau bailado, para azar do dia.

Abr 29

Farpas de troika

O fim da era dos governos minoritários também deve ser o fim do ciclo dos governos monopartidários. Mas pode não ser o fim do rotativismo. E muito menos do devorismo. Pode até nem ser efectiva mudança. Por isso é que as escolhas eleitorais devem traduzir-se numa espécie de golpe de Estado sem efusão de sangue.

No processo de “agenda setting” de hoje, na véspera da chegada de mais um dos submarinos a Portugal, Paulo Portas assume a candidatura a Primeiro-Ministro, no habitual teatro de estadão das candidaturas a deputados. Mais um normal anormal das pré-campanhas eleitorais.

Com Sócrates a inaugurar a estação de tratamento de esgotos que promete tirar mau cheiro à capital e Teixeira dos Santos já esquecido da proposta que fez para Cavaco negociar com a “troika”, continua a troca de cartas entre Catroga e o governo, com o PSD a prometer dançar o tango directamente com os representantes dos credores. Encenações continuam…

Governar deveria ser executar um programa, numa espécie de pilotagem do futuro, equivalente à condução de um navio, para o cumprimento de uma rota e medição da viagem realizada (cont.)Aqui e agora, como diria Ortega y Gasset, “ser da esquerda é, como ser da direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser imbecil: ambas, com efeito, são formas da hemiplegia moral” (depoimento que prestei ao DE de hoje sobre programa de governo do PS).

Garanto aos meus amigos que continuo desiludido com a esquerda desta direita e a direita desta esquerda (isto é, os três partidos que têm um enganador “S” na própria sigla). Não me apetece comprar bilhetes para a segunda parte deste mau bailado, para azar do dia.

Hoje vou fazer greve de cidadania, depois de ter andado a submeter-me à declaração electrónica do IRS, num ano horrível que não quero recordar. Foi um terror ter que fotografar 2010 para o fisco. Não me deixaram declarar os pedaços de vida que perdi. O Estado está acima do cidadão, mas o homem está acima do Estado. Boa tarde a todos!