Confesso, em primeiro lugar que não tenho receitas ideológicas ou propostas de alternativa geopolítica para o actual modelo em que este país submergiu. Se messianicamente me sentisse parte de uma qualquer seita com uma alternativa salvacionista, lá iria para o combate. Até já não tenho partido e nem sequer faço parte dos independentes que querem ir para uns quaisquer estados gerais da direita ou da esquerda. Prefiro viver como penso e continuar liberal sem ser neoliberal, tradicionalista sem ser neoconservador e ser fiel ao lema que aqui incluo na coluna À esquerda. Daí que possa dizer que estamos condenados a esta tirania situacionista. Estamos condenados, em virtude de pressões sistémicas do ambiente que nos rodeia como país a esta democracia pluralista gerida por Blocos Centrais. Estamos condenados a continuar a ser uma província do euro. Estamos condenados a ser uma sociedade e uma economia abertas à globalização e ao presente modelo de capitalismo sem ética, onde morrem seiscentos mil iraquianos, para o cumprimento de um qualquer plano estratégico errado. Em segundo lugar, muito domesticamente culpados, temos, para enfrentar tal desafio, um Estado Velho, filho de um pretenso Estado Novo que o PREC e a pós-revolução soarista e cavaquista não souberam agilizar em tempo de oportunidades perdidas. Porque o dito estado a que chegámos tem muita gordura, alguma celulite de brilhantina, mas continua ineficaz, com pouco músculo, nervos mal irrigados pela criatividade e ossos sustentadores descalcificados. Estamos cada vez mais anafadamente envelhecidos, psiquicamente desencantados e com alguns sintomas de depressão. Passámos do velho Estado-Cão da Guarda da Propriedade alimentado a impostos para um Estado Social, quando Salazar traduziu com meio século de atraso os modelos de Napoleão III e de Bismarck, mas esse pretenso segurador do socialismo catedrático e da Escola Social de le Play, segundo as cartilhas de Comte e as lições de doutrina social de Marnoco e Sousa, transformou-se em mera caridadezinha de um banco dos aflitos, entupindo o serviço de urgências, onde infelizmente se passou a ler o lema comunitário de que “o que é comum não é de nenhum” como coisa de que se pode abusar e que se pode estragar. Isto é, o estatismo intervencionista em Portugal destruiu a visão radical democrática segundo a qual o Estado não é um “lui” que nos é estranho e que se pode roubar, mas antes uma exigência do Estado sermos nós todos. O próprio socialismo de consumo agravou essas contradições culturais, porque nos apareceu uma espécie de Estado Ladrão, onde o ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão, como começa a emergir com todas estas denúncias não justiçadas sobre a corrupção. cresce que temos uma cultura especial e uma herança política muito própria e que não podemos aplicar receitas feitas para outras índoles. Não podíamos tentar o modelo neoliberal de Thatcher ou de Blair, porque não temos uma sociedade civil autónoma, feita “establishment”. Nem podemos invocar terceiras-vias nórdicas, à finlandesa, até porque nos falta a tal ética protestante a nível do esforço produtivo. Do capitalismo apenas gostamos do hedonismo do consumo e de alguma sociedade de casino que desperdiçamos na lotaria. Mas porque sabemos que de boas intenções está o inferno cheio, não vale também a pena inventarmos o que já está inventado nem descobrirmos o que já está descoberto. Porque podemos e devemos reconhecer que temos um feitio de sonhadores que gostam de procurar o paraíso e que, de vez em quando, acertamos no princípio do ovo de Colombo e somos capazes de flexibilidade reformista, quando colectivamente assumimos o desafio da mudança. Foi assim que fizemos e desfizemos um império africano em menos de um século, desde a Conferência de Berlim, a partir da qual começámos a subir as ladeiras das serras de Chela e a defender-nos pelo milagre de Tancos. Foi num ápice que passámos para a integração europeia, desde a EFTA e a CEE à presente UE. Tanto nos descolonizámos em 24 horas como até implantámos uma razoável democracia, escapando às garras totalitárias e à hipocrisia dos Kissinger que nos admitiam como a Cuba da Europa para vacinarmos a velha senhora contra o sovietismo. Por outras palavras, ainda podemos continuar este milagre de sermos independentes, mesmo que a independência seja gerirmos dependências, dado que a maioria dos factores de poder já não são nacionais e resta-nos a condição de bons alunos. Não nos espantemos pois com esta teatrocracia manifestativa, como a bem conseguida jornada da CGTP de ontem, feita com jerónima e democratíssima eficácia. A democracia é este modelo de institucionalização dos conflitos, onde o normal é haver destes anormais e onde governar sempre foi o mesmo do que gerir crises. Se é verdade que não temos alternativas a esta tirania dos blocos centrais com os seus centrões sociologicamente moles, onde há dois terços de remediados e apenas um terço de excluídos, apenas temos que submeter-nos para sobreviver e arranjar alternativas de sonhos que nos possam levar a lutar para viver, através de reformas que sejam mais colectivas do que tecnocráticas, mais políticas do que económicas e financeiras, para que o povão a elas possa aderir pela chamada confiança pública. Daí que os governantes precisem urgentemente de estudar a antropologia das nossas virtudes e defeitos. Para que o que resta do Estado de Bem Estar não redunde no “out of control” do Estado de Mal Estar.
Para que a universidade possa dar à luz, sem arder…
A reforma universitária, por exemplo, quase parece que acabou de se concretizar com a cerimónia de assinatura de mais um acordo com o MIT, com duas entrevistas televisivas sobre o futuro com o actual quase pretérito reitor primaz e com o passado candidato ao mesmo cargo, os quais nem sequer sabem dizer que o mais grave problema da actualidade se prende com a universidade está na circunstância de nela se ter imiscuído o vício do Portugalório das minúsculas com a mania das grandezas a que chamam autonomia universitária, esse neocorporativismo de fachada que, em nome de uma falsa gestão democrática das escolas nem sequer repara naquilo que uma qualquer avaliação do bom senso chumbaria. Ninguém faz omoletas sem ovos… Ninguém faz universidades sem aquilo que os gestores qualificam como política de excelência e que os pensadores políticos clássicos inventariaram como a procura do melhor regime. Por outras palavras, sem professores melhores e sem alunos com mais qualidade, não há MIT que nos valha, nem sábio ministro que nos compense. Se eu pudesse ser ditador da coisa durante vinte e quatro horas, aplicaria o processo um dia sonhado por Guerra Junqueiro para aquilo que era a universidade portuguesa do respectivo tempo: incendiá-la para ver se ela poderia dar à luz uma qualquer luz. Isto é, muito metaforicamente, diria que basta usarmos os meios que temos para outros fins, invertendo o presente sentido das políticas suicidárias que nos encarquilham. Em primeiro lugar, assumindo a humildade democrática de reconhecermos a coisa universitária como um efectivo bem público, isto é, como um bem pago pelo contribuinte e que deve estar ao serviço da comunidade, do povo, da república, isto é, do futuro de Portugal, independentemente das instituições parcelares serem públicas, privadas ou concordatárias, porque mesmo as que estão ao serviço de Deus ou do lucro, são publicamente sustentadas. Nas efectivamente públicas, determinaria que se acabasse com a presente fragmentação destruidora, através de concentração de recursos e de efectiva descentralização centralmente controlada, através de duas simples medidas: concursos efectivamente nacionais, libertos da endogamia, e obrigatoriedade de passagem dos professores mais jovens pela periferia, antes de poderem aceder aos locais aparentemente privilegiados das zonas capitaleiras do Porto e de Lisboa. Julgo que a efectiva mobilidade e a real concorrência pelo mérito são o segredo das universidades anglo-americanas que estão nos primeiros lugares do “ranking” mundial. Adoraria que um terço do corpo docente de cada escola pudesse circular, todos os anos, de universidade em universidade, para que a coisa pudesse abrir as janelas e deixasse entrar ar fresco, mesmo que apanhássemos algumas constipações, as quais depressa se curariam se houvesse confiança pública numa lei de oferta e da procura e na verdadeira meritocracia. A presente gestão dita democrática é uma paródia de democracia, porque os reitores nem sequer são eleitos pelo sufrágio universal e directo dos corpos de docentes, de funcionários e de estudantes, mas pelas oligarquias de interesses estabelecidas pelo não mérito, onde as fórmulas de gestão acabam por nem sequer serem profissionalizadas. O país ganharia com a utilização dos métodos usados pelos países onde os resultados são bem melhores que os nossos e que não desperdiçam os recursos públicos pela criação de muitos quintais murados. Não vale a pena inventarmos o que já está inventado, nem descobrirmos o que já está descoberto. Nas minhas áreas científicas, por exemplo, sou francamente adepto da concentração das mesmas, começando por Lisboa, de maneira a que, em vez da vaidade capitaleira, possamos ter uma só capital, bem mais eficaz e bem mais pequena, onde não deixemos que as vaidades e os golpes clientares dos próprios ministros e ministérios criem, para uso dos delfins, escolinhas próprias e golpadas na distribuição dos subsídios, fora do controlo científico. Se me deixassem, delineava desde já um plano de emergência de uma política de Estado, à semelhança do que fazem unidades políticas como os Estados Unidos, o Reino Unido ou até a própria França, unificando esforços das universidades e dos ministérios dos estrangeiros e da defesa, procurando garantir que o interesse nacional deixe de andar a pedir subsídios a potências estranhas, ou a entidades financeiras e económicas estranhas ao interesse público, como presentemente acontece, neste Estado que deixou de, nestas matérias, de ter política de Estado e prefere terceiro-mundizar-se.
Espreme, gota a gota, o resto de escravo que guardas dentro de ti
Regresso. Àquilo que eu digo ser a minha terra. Como se a pátria tivesse que ter uma terra, como se a pátria, minha, não fosse, desde sempre, a pátria prometida, a onda peregrina do navegar é preciso, viver não é preciso, como se navegar não fosse imaginar. Regresso e confirmo: ainda sou, como muitos outros, desses portugueses antigos da velha cepa, desse povão silencioso que não precisa de adornar-se com as penas do estadão ou dos aristocretinos. Ainda quero ser de antes quebrar que torcer, desses que, desde sempre, trazem consigo a missão da procura do paraíso. Regresso. Português antigo a quem continua apetecer voltar a ser um português à solta. Desses a quem apetecia ficar para sempre nessa ternura de todos os dias ter de escrever seu escrever-se. Porque em qualquer lugar pode haver calor da tarde a despedir-se do sol, até que uma lua de prata lhe volte a dar a lua cheia que o vento amaine. Se ainda houver um qualquer mar que nos dê viagem. Mesmo que seja essa de apetecer continuar menino, brincando nos rochedos da baixa-mar, onde, nas breves piscinas, pode haver caranguejos, estrelas do mar e peixes de várias cores imaginadas. Para que chegue a praia-mar, a força que vem do princípio do tempo, o corpo em sal diante do sol, o prazer da sombra em horas de meio-dia. Para voltar a ser quem sempre fui, resto de sol, semente de luz, diante do mar, olhando a brevidade de quem sou corpo. Sabe tão bem saber que de onde o sol nos vem está o próprio mar feito viagem, o oceano que será sempre poder-ser. Porque atravessando quem sou, feito de histórias que reconto, vou dizendo em mim a força de quem sonho. Para poder esquecer que apenas sou intervalo de uma viagem maior que desde sempre trago comigo. Sou de uma pátria maior do que as andanças das cidadanias pequeninas. Dessas que se vingam nas dívidas de uma região autónoma, ou que se vão ornando com discursos de um procurador ou de um presidente. Prefiro as muitas gentes de uma gente armilar, bem mais imensa, bem mais diversa. Sou do tamanho do que ainda posso sonhar de Portugal. Do que foi e do que há-de ser. Não quero volta ao linguajar de comadres num quintal estendendo a roupa suja, branqueada com amaciador do mais do mesmo. Prefiro o tamanho universal dos que procuram, embora não consigam, o mundo inteiro abraçar. E continua a apetecer largar de mim estes lastros de um passado agrilhoado, agora perdido nos muitos micro-autoritarismos subestatais e comunicacionais. Onde muitas estrelas cadentes reflectem um brilho que lhes vem do longe, mas sem serem sequer iguais aos astros sem luz que causam as marés. Nos outros prefiro continuar a achar estes restos se uma saudade de futuro, estes restos de procura que me fazem pedaço de um novo tempo por cumprir. Porque ontem foi segunda-feira mesquinha, neste ouvir as novas de uns pequeninos que se pensam Portugal só porque são ministros, ou líderes de uma oposição que já foi ministra, e que brincam aos discursos de reforma, como se as causas da tirania situacionista pudessem mudar as condições que lhes permitiram mandar em nós. Porque ontem passeei por entre um povo que continua a ser encarneirado para cumprir horários ou preencher formulários e a quem proíbem a esperança de procurar. Vale-me que dei aulas. Umas horas de aulas. E senti que do outro lado estava gente que senti do mesmo lado. Olhos de esperança. Vontade de cumprir uma missão. De peregrinar o mundo inteiro. De largar desta prisão murada pelos mandadores de sempre. E voltei citar o velho lema de Sá de Miranda. E a dizer o que aprendi em Soljenitsine e Tchekov: espreme, gota a gota, o resto de escravo que guardas dentro de ti.
O ritmo do Brasil
Leio num jornal de Lisboa que, aqui, no Brasil, a democracia está em perigo, ao glosar-se a intervenção opinativa de alguns importantes militares que, desafectos a Lula, decidiram fazer como os senhores bispos e denunciar a corrupção que estendido as suas teias à turminha do presidente. E reparo como alguns confundem as árvores com a floresta, porque o próprio Lula chamou bandidos aos seus colaboradores, apanhados com a gestão de quase dois milhões de reais para a compra de um dossier que iria implicar os chefes da oposição. A questão é grave, mas tão grave quanto outros processos do género que estão em investigação, e a rede dos meandros escabrosos atinge tanto o PT como o próprio PSDB. Aliás, por aqui, em qualquer lugar e em todas as forças políticas, a invocação da ética constitui um lugar comum que se vai gastando pelo uso e até prostituindo pelo abuso. Só que o povão conhece todos os pormenores destes casos, as denúncias têm resultado, as demissões sucedem-se e vai manter-se o situacionismo, porque, do mal, o menos…. Talvez fosse melhor alguma serenidade analítica e repararmos como por cá as coisas são bem mais transparentes do que as peripécias da mesma dimensão que afectaram a nossa democracia pós-revolucionária em matéria de financiamento de partidos e de campanhas eleitorais, onde os episódios de Macau continuam em nebulosa de monçaõ, com muitos olhos em bico. Apenas direi que também por cá todo o Bloco Central tem as mãos pouco limpas e quem tem telhados de vidro pode atirar pedradas, mas pode também concluir que as suas também ficaram quebradas. O Brasil não é só presidente, mas uma realidade federal, onde tanto contam os Estados como os cinco mil municípios que, numa originalidade constitucional face ao modelo norte-americano, fazem parte da própria federação. E nesta mistura entre federalismo municipalista com poder moderador, surge um oceano político federalista, onde a imaginação continua a ser um elemento que aqui faz alguma diferença. Até o presidencialismo tem muito a ver com a velha herança imperial, da democracia coroada ou da monarquia republicana, onde os presidentes tentam reassumir esse sentido de pai dos pobres, à imagem e semelhança do Senhor D. Pedro II. Não se estranhe, pois, que para além do prestígio histórico do Império, ainda haja militantes da causa, como deparei no Senado, onde dois ilustres assessores constitucionalistas se assumem ainda como monarquistas. Isto é, neste lado do Atlântico ainda sobrevivem fiéis da antiquíssima legitimidade liberal, mantendo-se viva a memória dos pais-fundadores. E também não é por acaso que o culto da tradição maçónica é enraizado, invocando-se as patriarcais figuras de Cayru ou de José Bonifácio. Não faltam até os que, em nome da Inconfidência Mineira, recordam Tomás António Gonzaga, o da Marília de Dirceu e de um Tratado de Direito Natural, com textos que ficarão para sempre ligados ao relançamento que deles fez o nosso Manuel Rodrigues Lapa. Isto é, para chegar à alma do Brasil, mesmo um português tem que fazer um esforço de conversão interior que o tente compreender, não como terra estranha e estrangeira, mas como algo que, provindo da mesma raiz se reproduziu noutras direcções e com outras gentes, mas a que nos continua a prender uma irmandade de afectos que gera esta profunda comunidade de significações partilhadas que, em paralelo, nos pode permitir caminhar, de nação em nação, para a super-nação futura. Senhores observadores lisboetas, isto é bem mais complexo do que a geurra de vencedores e vencidos de uma campanha eleitoral, onde se perdem cerca de três dezenas de partidos. Isto é bam maior do que alguns quintais. Mesmo com as vitórias do PT e o carisma encenado de Lula, que se comparou a Cristo, para Fernando Henrique Cardoso logo lhe camar diabo, o Brasil não está lulizado. Tem horizonte demais para cair nas teias de uma mudança revolucionária ou contra-revolucionária.
A lulização em curso, com memórias da democracia coroada e dos fundadores maçónicos, nos momentos finais desta campanha
Leio num jornal de Lisboa que, aqui, no Brasil, a democracia está em perigo, ao glosar-se a intervenção opinativa de alguns importantes militares que, desafectos a Lula, decidiram fazer como os senhores bispos e denunciar a corrupção que estendido as suas teias à turminha do presidente. E reparo como alguns confundem as árvores com a floresta, porque o próprio Lula chamou bandidos aos seus colaboradores, apanhados com a gestão de quase dois milhões de reais para a compra de um dossier que iria implicar os chefes da oposição.
A questão é grave, mas tão grave quanto outros processos do género que estão em investigação, e a rede dos meandros escabrosos atinge tanto o PT como o próprio PSDB. Aliás, por aqui, em qualquer lugar e em todas as forças políticas, a invocação da ética constitui um lugar comum que se vai gastando pelo uso e até prostituindo pelo abuso. Só que o povão conhece todos os pormenores destes casos, as denúncias têm resultado, as demissões sucedem-se e vai manter-se o situacionismo, porque, do mal, o menos…. Talvez fosse melhor alguma serenidade analítica e repararmos como por cá as coisas são bem mais transparentes do que as peripécias da mesma dimensão que afectaram a nossa democracia pós-revolucionária em matéria de financiamento de partidos e de campanhas eleitorais, onde os episódios de Macau continuam em nebulosa de monçaõ, com muitos olhos em bico. Apenas direi que também por cá todo o Bloco Central tem as mãos pouco limpas e quem tem telhados de vidro pode atirar pedradas, mas pode também concluir que as suas também ficaram quebradas.
Curiosamente, entre o PSDB-PFL e o PT, continua com vigor o PMDB de Sarney, com os seus governadores da velha guarda, marcados por uma espécie de terno neo-coronelismo, como o foi Roriz aqui no distrito federal, um animal político devorador de sucessivas vitórias eleitorais que não consegue mais uma, porque já não pode recandidatar-se e decidiu correr para o Senado, não sem antes pedir votos para os da sua linhagem biológica e política.
O Brasil não é só presidente, mas uma realidade federal, onde tanto contam os Estados como os cinco mil municípios que, numa originalidade constitucional face ao modelo norte-americano, fazem parte da própria federação. E nesta mistura entre federalismo municipalista com poder moderador, surge um oceano político federalista, onde a imaginação continua a ser um elemento que aqui faz alguma diferença. Até o presidencialismo tem muito a ver com a velha herança imperial, da democracia coroada ou da monarquia republicana, onde os presidentes tentam reassumir esse sentido de pai dos pobres, à imagem e semelhança do Senhor D. Pedro II.
Não se estranhe, pois, que para além do prestígio histórico do Império, ainda haja militantes da causa, como deparei no Senado, onde dois ilustres assessores constitucionalistas se assumem ainda como monarquistas. Isto é, neste lado do Atlântico ainda sobrevivem fiéis da antiquíssima legitimidade liberal, mantendo-se viva a memória dos pais-fundadores. E também não é por acaso que o culto da tradição maçónica é enraizado, invocando-se as patriarcais figuras de Cayru ou de José Bonifácio. Não faltam até os que, em nome da Inconfidência Mineira, recordam Tomás António Gonzaga, o da Marília de Dirceu e de um Tratado de Direito Natural, com textos que ficarão para sempre ligados ao relançamento que deles fez o nosso Manuel Rodrigues Lapa.
Isto é, para chegar à alma do Brasil, mesmo um português tem que fazer um esforço de conversão interior que o tente compreender, não como terra estranha e estrangeira, mas como algo que, provindo da mesma raiz se reproduziu noutras direcções e com outras gentes, mas a que nos continua a prender uma irmandade de afectos que gera esta profunda comunidade de significações partilhadas que, em paralelo, nos pode permitir caminhar, de nação em nação, para a super-nação futura.
Senhores observadores lisboetas, isto é bem mais complexo do que a geurra de vencedores e vencidos de uma campanha eleitoral, onde se perdem cerca de três dezenas de partidos. Isto é bam maior do que alguns quintais. Mesmo com as vitórias do PT e o carisma encenado de Lula, que se comparou a Cristo, para Fernando Henrique Cardoso logo lhe camar diabo, o Brasil não está lulizado. Tem horizonte demais para cair nas teias de uma mudança revolucionária ou contra-revolucionária.
Onde a chegada da andorinha pode fazer a Primavera no sertão
Aquilo que aqui, no hemisfério do cruzeiro do Sul, é o fim do Inverno e a chegada da primavera corresponde na metade do mundo que vive sob a estrela do norte, ao fim do Verão e à entrada no Outono, assim se confirmando como tudo é relativo nesta esfera da Terra, onde um papa já não pode fazer nota de pé de página sobre um imperador bizantino que não gostava de ser invadido. Mas aquilo que vem em todos os manuais da geografia e do pensamento, quando sentido no próprio sítio, em dia de eclipse solar, permite que todos possamos confirmar a teoria perspectivista do conhecimento, segundo a qual não há factos, mas apenas um eu, o pensante, diante das circunstâncias, do movente, pelo que apenas temos interpretações dos factos que pensamos ver, sentir e ouvir. Que aqui, com pancadas de chuva no cerrado, anunciam-se vagas de calor provocadas por El Nino, que é coisa que vem do Pacífico. De qualquer maneira, com as pancadas se lavou a poeira e reverdeceram as ervas e as árvores, voltando a emergir as flores da secura do sertão. É por isso que desliguei dos relatórios que recebo de Lisboa dos ilustres especialistas em engenharias curriculares, sistemas de avaliação e manuais de planejamento estratégico, com muitas traduções em calão de fotocópias importadas, ou de copy and paste pirateados da Net. Reparo que ser professor em plenitude implica esquecermos tudo o que analisamos e sintetizamos em relatórios metodológicos e palhas curriculares, feitas para se garantir o cursus honorum, quando, esquecidos dos concursos e das obediências do temor reverencial, já conseguimos comunicar à comunidade científica algo do nosso acrescentamento criativo, alguma coisa da nossa emergência inventiva que vá além do baralhar e dar de novo, do sistema sebenteiro sintético-compendiária. Esse algo a que chamamos cultura, porque cultivamos sobre aquilo que herdámos. Tal acontece sempre que ao darmos uma aula ultrapassamos o sumário ou programa e sentimos que naquela fecundação do eu professoral com a circunstância dos aluno passamos a vibrar criativamente, chegando, de novo, ao sétimo dia da criação, como na plenitude dos próprios actos de amor. Como quando a imaginação nos mobiliza e o sonho já marca o ritmo do discurso, desse logos, a que demos o infeliz nome de raisonner, quando conseguimos acalentar a frieza bibliotecária quase cadaverosa, transformando-nos nas pedras vivas do tempo que passa. E tudo aqui reflicto para agradecer à meia centena de inscritos no curso de extensão que aqui comecei em dia de chagada da primavera, na sala B-132 do complexo João calmon desta cidade universitária, quando pensava que a propaganda de um cartaz de papel que a Net reproduziu, dois dias antes, não trazia tantos vibrantes auditores, com alguns mobilizados pelo próprio boca a boca. Porque, para professor, primeiro está a aula e depois o capítulo, como ensinava Mestre Hernâni Cidade, decidi abster-me das questiúnculas decadentistas que, por mail e telemóvel, me chagavam de Lisboa. Até porque também assinalava a chegada de uma andorinha que breve me trazia sinais de um sonho que posso viver. A universidade lusitana,apesar de marianamente gaga, continua muita confusão de carreirismos, dependentes de sucessivas maiorias conjunturais, nessas associações de egoístas chamadas conselhos científicos, onde não se faz ciência, mas fingimento de democracia num sistema que tanto é corporativista como hierarquista. A minha análise sobre a campanha eleitoral brasileira vai continuar. Peço desculpa por esta interrupção. O programa segue dentro de momentos.
Dos “jobs for the boys” aos “jobs for the profs”
Indigna-se o Professor Doutor Vital Moreira com os meandros da acumulação de professores do ensino superior, onde dois dos casos paradigmáticos são excelsos coimbrões. Revolta-se também com os negócios da Católica na zona Centro e manifesta-o com justa analítica. Registo a ocorrência. Registarei como Pôncio Pilatos lavará as mãos, com a lei a ser mais do que o direito e a meter a justiça na gaveta. Como sempre. Nunca gostei de turbo-professores. Já fui professor acumulador e deixei de o ser quando verifiquei que, estando em exclusividade, passei a ganhar mais trabalhando bem menos. Verifico agora que todos podemos espiolhar, pela Internet, quem dá aulas onde, mas fiquei ainda sem saber como se processam as acumulações ocultas, resultantes das actividades liberais dos funcionários públicos que são professores públicos. Sugiro que, na Internet, se discriminem as actividades de consultadoria, avença e advocacia de tais agentes comunitários, bem como os proventos extraordinários que auferem de actividades prestação de serviço empresarial e político. Proponho que todos tornem disponíveis as respectivas declarações de IRS, para podermos comparar os acumuladores do “turbismo” com os acumuladores do “avencismo” e da “consultadoria”, especialmente nas zonas que são enquadráveis no conceito de “jobs for the boys”. Tanto as do Estado-Laranja, como as do presente estado a que chegámos. Tanto é criticável o professor que diz dar aulas em cinco ou seis universidades como o que faz parte de não sei quantos conselhos fiscais ou emite pareceres para não sei quantos ministros, porque às segundas, quartas e sextas é funcionário público e às terças, quintas e sábados é liberal que faz discursos contra os neoliberais e a favor dos socialistas. Por mim, posso indicar as tarefas que recusei em regime de parecerística a ex-ministros do PS e do PSD, para poder continuar a criticar o PS e o PSD. Posso também indicar as que recusei a autarcas do PP, PS e PSD, bem como os ilustres professores não acumuladores que me substituíram e os que me indicaram para a tarefa. Alguns são, ou foram, os excelsos discursadores contra as acumulações, quando devíamos apenas registar os contornos dos grupos de pressão e dos grupos de interesse nas suas ramificações universitárias e putrefacções partidocráticas, ministeriais, autárquicas, empresariais, tribunalícias, cardinalícias e mediáticas . Em Portugal, o silêncio é comprado a cheques, com cobertura pública. Como dizia o outro, sempre que me falam de inteligência puxo logo… do livro dos ditos. Pistolas já não são precisas! Muitas têm sido as boas almas que se mostraram indignadas com aquilo a chamaram denúncia, quando eu apenas disse o que posso perspectivar da minha postura. As chamadas proibições das acumulações, se apanharam alguns abusos, deixaram de lado inúmeras situações de “out of control”, nomeadamente de jubilados, aposentados, eméritos e reformados que passaram a monopolizar os lugares acumulativos, em boa aliança com políticos de todos os partidos, nomeadamente deputados que fazem as leis contra as acumulações. Sugiro também que percorram a lista dos chamados avaliadores e que se consulte a respectiva biografia acumuladora, para entendermos como a barganha pode ser a tal peneira que oculta o sol da verdade. Que se faça um adequado organograma da rede das influências de partidos, ordens maçonicas e ordens catolaicas no complexo intelectual-universitário e que se junte o picante das empresas de construção civil que são sócias, clientes ou gestoras de projectos das várias universidades públicas, concordatárias e privadas, para chegarmos à conclusão como entre os mundos da política, da pulhítica, do auatarquismo e do universitarismo há muitas coincidências. A chamada autonomia universitária entrou em degenerescência devido ao chamado método democrático de gestão das escolas. O poder resultante das eleições corporativas não consegue ter uma relação saudável com a autoridade típica daquilo que as leis democráticas reconhecem como instituição corporativa e meritocrática. Apesar de continuar um liberal pouco jacobino e nada estadualista, reconheço que importa que a lei geral e abstracta limpe estas cumplicidades endogâmicas. Importa pois que surja um ambiente de menos Estado e de melhor Estado, com efectivos concursos públicos e nacionais para professores, sem a prévia fotografia; incentivos de carreira à mobilidade; e uma urgente política nacional de apoio à periferia e de luta contra a desertificação do país interior. Continuamos a gastar demais por falta de organização do trabalho nacional. Uma boa reforma, copiando os modelos dos nossos parceiros irlandeses, espanhóis, franceses e italianos, sempre nos pode livrar da mentalidade terceiromundista e de alguns tumores…
Brasil, onde o pensamento consegue lançar raízes
Aqui, Silvestre Pinheiro Ferreira é mestre, José Bonifácio, um estandarte e até se conta a história de Avelar Brotero, o jurista, não o botânico, o tal que para aqui veio em 1825, depois de uma actividade de magistrado na pátria de origem, e que se transforma no primeiro lente da Faculdade de Direito de São Paulo, onde foi secretário durante quatro décadas.Será que nos esquecemos dele, só porque pediu a nacionalidade brasileira em 1833.Mas mestre Agostinho da Silva sempre exibiu, até morrer, o seu passaporte da terra de Vera Cruz… Deparo-me com a reedição da antologia do pensamento político de Walter Porto, dita “Conselhos aos Governantes”, onde alguns portugueses têm as suas obras, como Sebastião César Meneses, D. Luís da Cunha ou Sebastião José de Carvalho e Melo, ao lado dos gigantes como Platão, Maquiavel ou Frederico II, num universo de apenas uma dezena de autores, coisa que espantaria muitos dos nossos tradutores em calão da “political ttheory”. Felizmente que nestas bandas o pensamento consegue lançar raízes. Que consigamos retomar as saudades de futuro.
Retalhos da vida quotidiana deste Brasil democrático
Tenho passado grande parte dos meus dias de trabalho na biblioteca do Senado brasileiro, para completar meu trabalho sobre a cronografia do pensamento político, que penso editar até ao fim deste ano. Não tenho qualquer cunha ou recomendação que me permitam aceder a este templo da democracia brasileira. Pego o táxi, desço, entro na recepção, digo que quero entrar, pedem-me o bilhete de identidade português, passam a maleta pelo raio X, dão-me um autocolante de visitante, dizem-me boa estadia e é entrar e circular por todo o lado das duas câmaras, sem qualquer desse sentido de “bunker” securitário que se respira noutras paragens. Viva a democracia. Reparo como é francamente interessante o balanço das publicações parlamentares, com inúmeros estudos plurais sobre a realidade política brasileira, com particular destaque para as origens do pensamento político, onde os grandes nomes lusitanos, com coincidência de labor com os inícios deste Estado, são talvez mais bem tratados do que na pátria madrasta. Aqui, Silvestre Pinheiro Ferreira é mestre, José Bonifácio, um estandarte e até se conta a história de Avelar Brotero, o jurista, não o botânico, o tal que para aqui veio em 1825, depois de uma actividade de magistrado na pátria de origem, e que se transforma no primeiro lente da Faculdade de Direito de São Paulo, onde foi secretário durante quatro décadas.Será que nos esquecemos dele, só porque pediu a nacionalidade brasileira em 1833.Mas mestre Agostinho da Silva sempre exibiu, até morrer, o seu passaporte da terra de Vera Cruz…
Deparo-me com a reedição da antologia do pensamento político de Walter Porto, dita “Conselhos aos Governantes”, onde alguns portugueses têm as suas obras, como Sebastião César Meneses, D. Luís da Cunha ou Sebastião José de Carvalho e Melo, ao lado dos gigantes como Platão, Maquiavel ou Frederico II, num universo de apenas uma dezena de autores, coisa que espantaria muitos dos nossos tradutores em calão da “political ttheory”.
Felizmente que nestas bandas o pensamento consegue lançar raízes. Que consigamos retomar as saudades de futuro. Mas outras imagens me são transmitidas com a força da verdade, como a impressionante reportagem que vi na televisão sobre os catadores de carangujos dos mangues do Nordeste, assim se confirmando como continuam válidas as observações de Josué de Castro sobre “Homens e Caranguejos”. Continuo também a devorar os debates políticos, achando curiosamente arqueológica a intervenção de um representante da frente de esquerda de Heloísa Helena, com esquerda revolucionária, folclórica e comunista, ainda invocando o legado de Caio Prado Júnior, Celso Furtado e Florestan Fernandes. O que leva o próprio Partido dos Trabalhadores a se assemelhar cada vez mais ao nosso PS dos primeiros tempos da pós-revolução, coinfundindo-se com o grande Bloco Central, dito social-democrata.
Contudo, mais de metade do tempo dos noticiários, impressos, radiofónicos e televisivos, passam-se com a denúncia do mais recente escândalo que envolveu a classe política, neste caso do PT, com declarações sucessivas que esperam a salvação vinda dos operadores judiciários e policiais, num modelo que ameaça transformar este país numa espécie de Estado de magistrados e investigadores policiais, enquanto os tradicionais tutores da moralidade e do bem comum, como os militares ou os eclesiásticos se ficam por declarações tipo música celestial.
Imaginativos são alguns segmentos da campanha, como a utilização daquilo que aí, no Porto, chamavam cabeçudos e gigantones, com os bonecos dos candidatos, os quais se vão passeando aos saltitos pelo centro da cidade. Entretanto, o líder do Movimento dos Sem Terra trata de proferir uma conferência na Escola Superior de Guerra, onde foi aplaudido por grande parte da elite militar. O resto são sucessivas declarações daquilo a que chamam justiça trabalhista, uma invenção de Getúlio, que não anda à cata das tradicionais vigilâncias sobre as justas causas para os despedimentos, que aqui a legislação é bem mais liberal, mas antes do renascimento da escravidão e da chaga do trabalho infantil. Vale-nos que em Alagoas, as eleições costumam ser violentas e já se despachou para o território tropa federal, num sítio onde o coronelismo ainda usa arma e não aprece haver bala perdida, porque todas elas costumam ser eficazes na eliminação do adversário…
Depois do mensalão e das sanguessugas, agora é Freud…
Em plena quentura da campanha eleitoral, rebentou aqui mais um escândalo que levou à demissão de mais um assessor do presidente Lula, eventualmente implicado na tentativa de compra de um dossier que visava comprometer gente do PSDB, o principal partido da oposição, na questiúncula dos sanguessugas, isto é, da rede de compra de ambulâncias. Ao mesmo tempo, foram descobertos grampos (escutas) nos telefones de ministros do Supremo Tribunal Eleitoral. O povão, conforme a reportagem de rua que fui fazendo, está informado do processo, não gosta, mas mesmo assim vai votar no Lula, que lhe matou a fome à família que deixou no Nordeste, embora não tenha ensinado o povo a pescar, através do sonhado desenvolvimento. Até a Heloísa, essa versão tropical do Louçã, insinua que a rede destes corruptos e corruptores, com o mundo do crime infiltrado nos traseiros da classe política, pode estar ligada a coisas tão horríveis como o narcotráfico. Isto é, nada de novo nesta terra do verde-oliva, um pouco amarelada, onde o mulhor que a política tem diz respeito ao imediatismo das denúncias e à sua ntensa publicitação, embora os mecanismos do Estado de Direito levem a inevitáveis atrasos. Pelo menos, por cá, existem efeicazes comissões parlamentares de inquérito que não decidem conforme as maiorias vigentes, transformando o corpo dos deputados num efectivo conselho de fiscalização do executivo….