Jan 06

O homem é um ser que nunca se repete…viva a heresia!

Dizem que temos ano novo e vida nova só porque mudaram as marcas que assinalam os dias e os sinais. Só porque os novos sinais nos dão a ilusão de um tempo que julgamos diverso, nessa permanente procura do que não temos. Apenas mudou o sinal, não mudou quem somos, se as janelas permanecerem fechadas, sem um breve intervalo, ou um secreto recanto onde guardemos as sementes que a invernia ameaça destroçar. Apenas porque tememos que o incontrolável da mudança possa desfazer os equilíbrios onde nos acoitamos, em ilusão de bonança, quando, afinal, apetece retomar um qualquer cais que nos dê viagem destemida. Porque há sempre um sinal de mar no ciciar da folhagem, na brisa que nos chega em madrugadas de espera. Acabou mais um ano deste tempo que passa, mas continuam a circular as sementes de sonho e estas mãos que ainda sabem moldar o tempo dito futuro, para que o fruto semeado possa amadurecer, dando tempo ao tempo. Basta aprender com quem mais sabe e que ainda há dias me dizia: nunca há uma verdade verdadeira, a verdade é sempre uma composição. E há sempre um muro intransponível que nos separa do que nunca podemos saber. Não é preciso gritar nem bater para dizermos que temos razão… Vou abrir as janelas e deixar entrar a madrugada. Há um sinal de mar que nos traz a noite. Basta que um qualquer pássaro da manhã nos ajude a capturar o sinal da esperança e que um vento imaginário nos leve para um qualquer cais de partida, onde a espera nos dê além, um tempo de ter tempo onde possamos semear quem sonhamos… Há um Deus que pode nascer todos os dias dentro de quem somos. Porque, às vezes, é na rebeldia que está a lealdade, nessa suprema ortodoxia do heterodoxo, e não na diluição no rebanho seguidista. Deus pode ser o mundo e haver mais mundos, sobretudo aqueles que continuam a criação, dando novos mundos ao mundo. As seitas sempre foram a própria negação da verdade. Não passam de rebanhos de dilectos que apenas reagem aos exoterismos, mesmo que se disfarcem em rituais, sobretudo quando estes perderam o sentido dos gestos. Nas seitas já não há sacerdotes, mas apenas sacristães e sacristas. Até nem há generais, mas apenas sargentos de economato. Não há mestres, mas apenas lentes, repetidores da vulgata. Desses que se extinguem nas eternas sessões de esclarecimento dos sindicatos das citações mútuas, transformados em correias de transmissão da unicidade. Odeio todos os grupos e movimentos que procuram assumir o monopólio da verdade, do espírito, da vida e do próprio bem, só porque alguns exibem uma contrafacção da chave da verdade e dizem ser o caminho. Odeio catecismos e formulários, bem como os seminaristas de cordel que procuram transformar-se nos cardeais da propaganda da falsa fé e nos comandantes de uma nova Inquisição que nos quer a todos relaxar para o braço secular da persiganga. Os que retomam a hermenêutica disciplinada da unicidade preferem a liturgia da subserviência à religiosidade da libertação. Até nem compreendem que só há pátria quando se cultivam as complexas heranças que nos sagraram a terra das árvores, dos rios e dos montes. Eles nunca entenderão que é possível o não através do sim e o sim através do não. A heresia continua a ser a única foram criativa de fecundarmos este caminho repleto de dejectos, ditos os filhos dilectos, mas que sabem que a revolta individual dos que procuram é o que mais se aproxima de sua imagem e semelhança. O homem é um ser que nunca se repete.

Nov 20

Todas as liturgias são ridículas fora dos templos em que se dá a comunhão e a religação

20.11.07
Todas as liturgias são ridículas fora dos templos em que se dá a comunhão e a religação
Os chineses do século XVI diziam que os portugueses eram bárbaros, isto é, diabos vermelhos, porque comiam pedras (pão) e bebiam sangue (vinho), tal como outros povos diziam que os cristãos eram antropófagos porque, em seus cerimoniais, comiam o corpo de um deus feito homem. É o que fazem todos os que são marcados pela incompreensão face aos símbolos decepados da unidade espiritual de que os rituais são simples parcela.

É por esta e por outras que detesto todo o sectarismo que pretende monopolizar o sagrado para a respectiva liturgia e que, fradescamente, semeia a intolerância, insinuando o ridículo face as alfaias que os outros usam para os mesmos fins. Afinal, todas as liturgias são ridículas fora dos templos em que se dá a comunhão e a religação. Contudo, mais ridículos ainda são os que não têm liturgia sentida por dentro, ou os que se ficam pelos sucedâneos e pelas vulgatas de certo dogmatismo pretensamente antidogmático.

Por mim, que, sobre as verdades eternas, apenas sei que nada sei, resta-me continuar a procura da verdade, pelos variados caminhos que segue aquele que apenas pretende ter a boa vontade daqueles que querem conquistar a glória do homem livre. Porque ninguém pode deter o monopólio do “imprimatur” e do “nihil obstat” para a edição desses manuais de metodologia, com os consequentes livros únicos dos inquisidores, vanguardistas, vigilantes da revolução, ou contínuos e sargentos do senhor director.

Nov 05

Reflexões heréticas em noites de olhar as estrelas com os pés nas pedras do caminho

5.11.07

Todos os anos, sempre o mesmo ritmo dos sinais do tempo, especialmente quando o tempo que vivemos não são os prometidos amanhãs que cantam e que podemos retomar a eterna humildade dos velhos humanistas que nunca foram como aqueles vanguardistas que pensam deter as alavancas daquela inteligência que pretendeu assumir o controlo do processo histórico.

Porque a tal história não é, afinal, o produto das boas ou más intenções de certos homens, mas antes o resultado da acção de todos os homens. Porque não são os abstractos caixilhos teóricos de certa luta de classes na teoria que fazem a história, mas antes os anónimos homens concretos que a fazem e refazem, mesmo saberem que história vão fazendo.

Esta co-criação de homens livres raramente segue os manuais planeamentistas do pensamento único e dos livros únicos do politicamente correcto. O normal é haver anormais, isto é, paradigmas que convergem e divergem, para que o amanhã seja um acaso procurado que nos vai surpreender. Há muitas curvas no caminho, para quem prefere as peregrinações dos carreiros do pé descalço que desde sempre trilhamos.

Mais um dia, mais um regresso, mais um rendilhar no bilro dos conceitos, depois do dia de todos os santos, que é depois do dia das bruxas e antes do dos fiéis defuntos, nesta sequência de festividades e tradições que são católicas quando antes já foram pagãs, mas que os protestantes globalizaram, com jantares de perua ou louvor dos mortos, num sincretismo típico de loja de chinês num bairro alfacinjha. Não tarda que encontremos sinais maçónicos em vestimentas sacerdotais de ortodoxos russos do século XIX, ou louvores ao grande arquitecto do universo numa sacristia jesuíta pré-iluminista, agora que o rosto de Tutankamon foi revelado, neste sincrético que fez da senhora de fátima uma continuidade de velhos cultos mediterrânicos pré-cristãos, antes de os volvermos em iemanjá, numa complexidade crescente de uma eterna procura da religação ao afago do cosmos, contra a frieza e fealdade das eternas angústias do quotidiano.

Apenas concluo que o congreganismo jesuítico gerou a insurgência anticongreganista demoliberal que, por sua vez, provocou a ressurgência antilaicista, com o habitual ciclo de persigangas que não tem permitido que todos os homens de boa vontade possam ser homens livres. E poucos reparam que não é possível inventar o que já está inventado nem descobrir o que já está descoberto.

Por mim, que subscrevo Marco Aurélio, Erasmo, Montaigne e Kant, apenas devo concluir que, por isso mesmo, só sei que nada sei. Porque pensando, apenas continuo a procura do que nunca irei achar, nesta viagem para a raiz do mais além, onde, felizmente, nunca haverá o fim da história. Fica a esperança, porque os homens são seres que nunca se repetem, vivendo acontecimentos que também nunca se repetem.

Cada um de nossos eus, perdido nas suas circunstâncias, apenas pode ligar coisa com coisa, compreendendo o todo pela intuição imediata da essência. Logo, só por dentro das coisas, pela imanência, é que as coisas realmente são a situada transcendência que nos permite a cultura humanista.

Se calhar Deus é o mundo e o cosmos vai além daquilo que solitariamente pensamos, apesar de cada um continuar a ser o único sempre centro do mundo que sempre e para sempre podemos conhecer.

Jun 08

Nenhuma força espiritual pode ter o monopólio da honra, da inteligência, do caminho e da verdade, até para o transcendente

Leio, numas páginas emitidas por um eclesiástico retirado do activo, e tão paralelamente difundidas por dilectos seguidores do protocolo dos sábios do Sião e das técnicas de Barruel, que José Agostinho de Macedo e a “Besta Esfolada” ainda continuam no activo: porque não sabemos as relações existentes, quem são e quem deixam de ser e as razões porque estão, e de repente aparece mais um aqui ou ali, verificando-se que estão sempre colocados em lugares especiais do poder. Por outras palavras, para o retirado, não deve haver nenhum, nem aqui nem ali, e, muito menos, num qualquer lugar especial de poder, ao contrário de algumas excepções ministeriais que Salazar tolerou. Talvez porque não devesse existir um Winston Churchill, um D. Pedro IV, um duque de Loulé, um Fontes Pereira de Melo, um Alexandre Herculano, um Egas Moniz, mais de metade dos chefes de governo da monarquia liberal e outros tantos da Primeira República, bastando o deputado José dos Santos Cabral e a primeira lei com que o regime do Estado Novo nos resolveu brindar. Se calhar o resignatário eclesiástico julga que a liberdade e a democracia apenas surgiram em 1891, graças aos esforços de uma coisa chamada “Syllabus”, bem como de séculos de relaxação para o braço secular do santificado ofício. Certa pré-leonina mentalidade que remeteria Trumann para a fogueira, odeia a Revolução Inglesa e a Revolução Norte-Americana e certamente detesta 24 de Agosto de 1820 ou 9 de Setembro de 1836. Isto é, ela não vive cá, isto é, no Portugal liberal, na Europa democrática e no Ocidente das liberdades e da separação do poder civil do poder religioso, há mais de dois séculos. E mente declaradamente em seu obcecado revisionismo histórico, à boa maneira estalinista e demonizante. Um belo discípulo de tão luminosos princípios, que nem o CADC subscreveu, chegou a declarar numa abrilada, quando era um jovem instrumentalizado por potências estrangeiras, que pretendia esmagar duma vez a pestilenta cáfila … ou acabar na gloriosa luta em que estamos empenhados, ou cortar pela raiz o mal que nos afronta, acabando de uma vez com a infernal raça …, antes que ela acabe connosco. Seis anos depois, com cacetes, forças e alçadas, deixou de haver um aqui e outro ali e regressaram as gloriosas páginas das detenções na Relação para os que não foram para o exílio. Os requintes de malvadez nem exluíram o macabro espectáculo de frades loios e oratorianos se regalarem com doces e vinhos finos, repetindo cenas dos autos de fé. Vale-nos que os posteriores papas são da estirpe de um Leão XIII, de um Pio XI, de um João XXIII, de um Paulo VI ou de um João Paulo II, e que a esmagadora maioria do povo que os segue faz parte dos homens e mulheres de boa vontade, como os meus avós, os meus pais, os meus vizinhos e os meus compatriotas. Estivemos quase todos num certo comício de Aveiro do ano de 1975, a defender a liberdade da Igreja, em nome de José Estevão, o pai do Luís de Magalhães, ministro progressista e combatente da Traulitânia. Depois, com católicos, andaram também todos a defender o jornal “República”, tal como foram a Braga e à Alameda, aguentaram o emissor da Rádio Renascença na Lousã e defenderam o Patriarcado de Lisboa, sempre com a cobertura operacional do Edmundo Pedro e o conselho do Padre Manuel Antunes, quando meninos do Bispo do Porto, como Francisco Sá Carneiro, militavam no partido de Emídio Guerreiro, José Augusto Seabra ou Nuno Rodrigues dos Santos, enquanto outros chegaram a eleger um menino do cardeal para secretário-geral do partido de Raul Rego. E todos se comprometerem a não “fechar a Igreja na sacristia”, a não “ignorar os valores cristãos”, a não “fazer tábua rasa de uma cultura milenária, negar a história pátria e secar as suas raízes vitais, mudar o sentido das instituições que dão consistência à sociedade, fechar o homem, por via da educação nas escolas e meios de comunicação social, à dimensão do transcendente”. Não deixemos que certas irritações de propagandismos fundamentalistas, vindas de congreganistas e anticongreganistas, fechem os outros, que eles desconhecem, nos templos, ignorem os valores da liberdade, da justiça, da igualdade, da solidariedade e da fraternidade, não façam tábua rasa de culturas mais do que milenares, neguem a história pátria e sequem as suas raízes vitais, mudem o sentido das instituições que dão consistência à sociedade, fechem o homem, por via da educação nas escolas e meios de comunicação social, à dimensão do transcendente. Todos têm direito às mesmas universidades, às mesmas rádios e aos mesmos jornais, porque nenhuma força espiritual pode ter o monopólio da honra, da inteligência, do caminho e da verdade, até para o transcendente. Por mim, continuo a querer militar, muito azul e branco, no partido do Conselho Conservador, do Sinédrio, de Manuel Fernandes Tomás, de Passos Manuel, de D. António Alves Martins (bispo de Viseu) e de Alexandre Herculano, mesmo que seja contra os bobos da Corte que preferem a República de Saló… Até julgo que a Carbonária foi refundada em Portugal para que se combatessem esses horrendos cabrais, que eram maçons e tudo… A história nunca se deu bem com o preto e branco maniqueísta de certos persas, pintados de propagandistas e vanguardistas, mesmo quando benzidamente missionários. Prefiro a tradição dos homens livres! E ando aqui e ali, em lugares de não poder. Prefiro o poder dos sem poder, Locke, Montesquieu, Burke e o ritmo liberdadeiro de Fernando Pessoa e Agostinho da Silva. Sempre detestei a reacção que pretende mandar para a fogueira três quatros dos conservadores e tradicionalistas europeus que não aceitam o preceito monopolista do resignatário, especialista em nihil obstat. Vale mais, ir além do pré-capto e aceder ao cum-capto do conceito. Compreende-se melhor a realidade. P.S. Não quis confundir, nem cometi, pela natureza das crenças pessoais, nenhum pecado grave de conspiração. Para ser exacto, todos os que aqui cito, à excepção dos papas, dos padres Manuel Antunes, Barruel e José Agostinho de Macedo, bem como de Francisco Sá Carneiro, violariam o cânone 1374, se fizessem parte de uma certa organização religiosa que não pratica a reciprocidade para quem não tem cânones proibitivos desse tipo (não repeti o nome de Santos Cabral que, além de ter sido o autor da lei que deu roubada sede à Legião latrocínia, até propôs a restauração da pena de morte, quando a campanha situacionista chamava poeta menor a um bebedor de absinto, empregado numa agência de publicidade e tinha a mania do milenarismo…). Apenas quis demonstrar como ainda domina um silabismo, onde muitos não fazem aos outros o que não querem que lhes façam a eles, mesmo quando todos somos um nós. As brasas da pouca boa vontade apenas estão cobertas daquelas cinzas que podem ser afastadas pela levíssima brisa de um artigo de jornal. Que as fogueiras dos autos não se levantem, mais uma vez!

Jan 03

Porque vivo num país livre

Porque vivo num país livre, feito por esquerdas e direitas que não padeciam do neodogmatismo dito antidogmático, posso confirmar que, de acordo com a teologia católica oficial, tanto não sou um fiel do Vaticano, como também não sou um gnóstico ou um agnóstico, da frente antiteísta e do eixo do mal. Apenas reclamo o direito de expressar a liberdade do meu pensamento nos domínios da heresia, podendo exprimir as angústias de navegar naquela zona de fronteira do transcendente situado, como acontece a muitos que tentam as suas confissões de homem religioso. Por outras palavras, de Nietzsche, não tenho nada, dado que muito agradeço o complexo herdado deste diálogo da liberdade ocidental, entre o humanismo maçónico e o humanismo cristão, sem o qual seremos decepados por aqueles fundamentalismos que costumam transformar-se em caricaturas e que se arregimentam em carneirada nos dois lados da mesma aventura do espírito. Continuo a não ser “de esquerda”, nem socialista, nem republicano do 5 de Outubro, ou do 28 de Maio. Não passo de um velho liberal, bem azul e branco, mesmo que esteja contra certos bobos da Corte que não sabem conjugar a antiga, mas não antiquada, fibra do senão, não. Tão liberal quanto a maioria dos governos e parlamentos europeus, incluindo todos os reinos vigentes, que permitiram os resultados legislativos que o próximo “sim” poderá promover em Portugal. A minha pluralidade de pertenças tem uma irmandade profunda com um Edmund Burke ou um Winston Churchill, o tal humanismo activista de um conservador tradicionalista e liberdadeiro que, sendo da direita universal e europeia, começa não poder conviver em harmonia com os letreiros da direita lusitana, só porque provoca urticária argumentativa em todos os que só prezam a liberdade de consciência quando com eles concordamos. E assim se confirma como continuamos a ter uma direita que convém à esquerda. Como se toda a esquerda fosse pelo sim e toda a direita, pelo não, como parece ser o desígnio de certos refundadores dos endireitas e de alguns continuadores do bonzismo canhoto.

Dez 24

Instaurar a república, para restaurar o reino e sonhar o V Império

Bom Natal neste Solstício, à esquerda e à direita, na cidade e nas serras, na terra, no mar e no ar, para católicos e maçons. Para católicos que não são maçons e para maçons que não são católicos, para que a religião não seja Maçonaria e para que a Maçonaria não seja religião. Para que a direita e a esquerda sejam direitas e esquerdas, para que as cidades não sejam capitaleiras e as aldeias, vilas e lugares se não desertifiquem. Para que no princípio volte a ser o verbo e mais um deus seja o deus menino. Sobretudo para que, depois de lerem este extracto de um “logos” maior, não me venham alguns irracionais, que se dizem ortodoxos, mesmo do centro, em nome do dogma e do falso catecismo das vulgatas, considerá-lo uma heresia, só porque embrulham a tolerância com o antiquado verniz do inquisitorialismo sebenteiro e caceteiro. Porque até os monárquicos têm que ser republicanos, dado que, para vivermos em melhor regime, onde as nações têm de ser semente do Estado de Direito universal, só poderemos restaurar o reino e sonhar com o Quinto Império do poder dos sem poder, se antes instaurarmos a república, se antes recuperarmos a autenticidade dos sucessivos círculos instauradores da polis.
Primeiro, a dignidade da pessoa humana e, consequentemente, a moral, a ciência da autonomia, que guia os actos do homem como indivíduo. Em segundo lugar, a autonomia da casa e da ciência dos actos do homem enquanto membro de uma “oikos”, a economia. Só depois vem a “polis”, quando saímos dos sucessivos espaços imperfeitos da sociabilidade que nos podem dar as ordens normativas da moral, da religião, dos costumes e da economia, entrando na cidadania da democracia, onde, para além da racionalidade técnica do bem estar e da segurança, acedemos, através de uma conversão interior, à racionalidade ética, que sempre foi sintetizada no valor justiça. E tudo isto num tempo em que passámos de urbe para orbe e a polis já pode assumir-se como cosmopolis. Com os pés na terra dos homens de boa vontade, mas olhando as estrelas do deus menino e de outros deus maiores e menores. Com paz na terra e paz pelo direito.

Abr 12

A lista dos 3 600 bufos, segredos de Estado e sigilo bancário

Os estudiosos das elites ficaram surpresos anteontem, quando o grão-mestre do GOL, o meu amigo António Arnaut, anunciou a existência de um “grande livro dactilografado em formato A4″ que contém informações detalhadas e discriminadas por distritos sobre 3.600 agentes e informadores da antiga polícia política do Estado Novo PIDE/DGS. Segundo o mesmo, “este livro é uma espécie de dinamite porque há muitos agentes e informadores da PIDE que ainda estão vivos. Se fosse divulgado, poderia pôr em risco a paz social e causar uma enorme instabilidade e mal-estar”. O livro foi encontrado nas instalações do Grémio Lusitano e lá foi deixado pelo usurpador das mesmas, o velho salazarismo, através desse seu instrumento para o jogo sujo chamado Legião Portuguesa. Mantido sob o regime de segredo maçónico, não foi, felizmente, remetido, na altura do PREC, para essa entidade estadual chamada comissão de extinção da PIDE-DGS, quando a mesma tinha algumas cumplicidades dominantes com um grupo que tinha fortes ligações de íntima solidariedade internacionalista com o KGB, por considerar Moscovo como “o sol da terra”. O Estado, esse molusco que inventou a PIDE e permitiu que parte dos arquivos da mesma fossem remetidos para a capital da URSS, não é, nestes domínios, uma pessoa de bem. Enquanto não houver um efectivo Estado de Direito, eu, pelo menos, confio mais na Maçonaria e na honradez das pessoas que a têm gerido. Não quero o modelo deste “regime de liberdade” onde ” as corporações ganham muito peso (…), depois têm tanto peso que não se submetem à lei, fazem eles próprios a lei, percebes? Portanto, é o que se passa com a Judiciária, com o Ministério Público, com os juízes, enfim, são os interesses corporativos metidos e portanto isto não decorre de acordo com a legalidade e portanto sabemos disso”, para usar das palavras de um juiz conselheiro, em conversa com uma mediática autarca, em fuga, do partido que está no actual governo. Imagino o que o dr. António Arnaut qualifica como “dinamite”. Não apenas o picante de distintos democratas e altos quadros do actual regime poderem ter o nome impresso no livreco, como também a pouca credibilidade da mesma listagem, cheia de jagunços e contínuos, feitos “olhos e ouvidos” do Senhor Estado, a troco de uma nota de vinte paus ou de uma oleada cunha  do senhor comendador ou do senhor director, onde alguns deles ainda continuam comendadores e directores, por causa da música celestial da demagogia pulhitiqueira e do modelo de governo dos espertos do princípio da legalidade, com que alguns identificam o nome “Estado de Direito”. De qualquer maneira, demonstrar-se-ia como o partido dos bufos era bem maior do que qualquer outro partido português, mantendo a horrorosa tradição inquisitorial. Aliás, considero que a bufaria constitui o pior escarro que nos foi legado pelo salazarismo, a mais requintada forma de repressão existente em Portugal, porque, mesmo depois de eliminados os aspectos exteriores da brutalidade estadual, ela permanece como subsistema de medo. Até se conhecem distintos gestores ministeriais dos bufos de antigamente que continuam no poder, hoje, assentes no mesmo método que até penetrou nalguns segmentos de gestão democrática, principalmente nas zonas corporativas onde os eleitores dependem da nomeação do director e estão profissionalmente dependentes do mesmo director, tanto para a renovação do contrato como para a progressão na carreira. E não faltam os que continuam a ser condecorados pela mesma porcaria, sempre em nome dessa abstracta entidade, chamada Estado, sempre com os mesmos contínuos e os mesmos salamaleques, onde o crime continua a compensar. As garras aduncas das maravilhas e velharias do salazarismo, pintadas de protecção feudal pelos grandes democratas que lhe sucederam em absolutismo, continuam cravadas nalguns dos nossos dorsos, graças a retóricas de mentira e a troca de favores. Porque tanto é bufo o sub-bedel da faculdade que tinha contrato com os pides, como o corrupto mental de hoje que fornece informação à besta reciclada de antigamente que, perfumada com outros títulos e guruzices, vai espalhando o veneno inquisitorial nos passos perdidos dos grandes salões de Estado, de forma cardinalícia. Se a Maçonaria tivesse aberto o livro e o utilizasse como forma de pressão, a ordem mataria com o mesmo ferro com que foi injustamente perseguida. Tenho a certeza que não o fez e a melhor prova disso está na forma publicitada como o grão-mestre denunciou a incómoda situação. Julgo que a coisa deve ser guardada a recato e não me parece que os actuais meandros da fuga ao segredo de justiça por parte das estruturas de apoio do sistema judicial tenham condições para cumprir o respectivo dever. A solução de recurso aos cofres do sistema de sigilo bancário talvez seja o menos mau. Porque o melhor teria sido a loja continuar a guardar a coisa em regime de segredo maçónico, ou até entrar num pacto de dupla vigilância com a Igreja Católica que, ao menos, conseguiu legar ao Estado os processos da Inquisição, com menos danos do que aqueles que afectaram os arquivos da PIDE/DGS. Estes dois seculares representantes de tradicionais valores da nossa sociedade civil, que ainda sabem conjugar a honra com a inteligência, bem poderiam protagonizar o necessário movimento de limpeza moral que tanto urge, dado que ambos já se arrependeram de inquisições e formigas brancas e já nacionalizaram as tendências estrangeiradas que ainda permanecem nalgumas seitas lusitanas dos dias que correm, mesmo entre os banqueiros e bancários.