Alguém pode ter vergonha de ter algum outro como compatriota. E até aceitar que, a coberto da liberdade de expressão, se emitam palavras que a mesma liberdade de expressão permite qualificar como imbecilidades e impropérios. Mas nunca um excelente eurodeputado sobre outro cidadão europeu, por acaso, um dos nossos mais excelentes escritores, que até vai ser imortalizado na Casa dos Bicos. Uma das consequências da liberdade religiosa é o direito à manifestação do ateísmo. Isto é, não deve ser proíbido, ou condicionado, o discutir Deus, tal como deve haver estímulo à procura do infinito e logo de Deus e dos deuses. O progresso é crescer para cima e para dentro. O homem é o único animal que sabe que vai morrer e que pode escolher entre Deus e o Diabo… Há uma pequena bíblia da religião secular de Portugal emitida no século XX, a “Mensagem” de Fernando Pessoa. Tal como os outros livros sagrados, há que ter altura simbólica para a interpretar. Desmistificar nunca foi de-mitificar. Até Saramago não consegue ser interpretado por ele próprio. É a outra face da moeda do segredo da irmã Lúcia. E estão os dois na mesma altura do metafísico… Diabo, do grego diabolos, isto é, aquele que separa. Etimologicamente, aquele que separa um homem face a outro homem e aquele que o separa de Deus. Não é o diabo-papão dos catecismos, mas aquela escolha que a nossa liberdade permite fazer, ao contrário do que acontece aos restantes animais. Só os homens têm Deus e o Diabo. E às vezes, quem quer ser anjo é que mais depressa se torna diabo, porque escolhe organizadamente o mal pelo mal, através de uma decisão moral. Pobre Lobo, nunca praticou genocídio e democídio…
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