Set 09

Farpas, em dia de Seguro

Nenhum constituinte tinha previsto que um memorando de entendimento com um grupo de trabalho mandatado por organizações internacionais com um governo de Portugal poderia ser efectivamente superior ao texto da constituição, ainda por cima negociado mediante a ameaça, não da ocupação, mas da bancarrota.

Ir além da troika, aqui e agora, deveria ser tanto atacar a causa do endividamento, como evitar que a protecção se transforme de provisória num definitivo ocupante da nossa autonomia, como a invocação exógena de uma qualquer bela ordem que disfarce a impotência interna.

O Portugal de Abril, para cerca de um milhão de eleitores que não é de esquerda nem de direita e, manhosamente, vai votando no PS e no PSD, sempre significou crédito bonificado para a compra de uma casita, permitir que os filhos pudessem ser dôtores, dar uma volta saloia com o carrito, reforma garantida e hospital em condições em caso de azar. O que era bom ameaça acabar e o voto, do mesmo modo.

A vantagem de Abril são os muitos pedaços de que ele foi sendo feito. Foi ir-se fazendo no caminhar por caminhar. E se apenas restar a liberdade já é muito mais do que dantes. Pelo menos, é melhor.

O socialismo abrileiro, ou a social-democracia da mesma família, deu-nos adequados seguros sociais que permitiram democratizar a propriedade, ter seguros sociais que libertaram a pessoa da necessidade, mas também nos transformaram em servos da gleba hipotecária e feudatários dos ministérios da educação.

A incerteza da nova geopolítica do euro mandou extinguir autarquias e o ministro das ditas que, segundo a nova orgânica governamental não coincide com o ministro da administração pública, decidiu acabar com muitos chefes, mas sem dizer que vai fazer dos índios. Uma questão de heteronomia do estadão, onde há quem faça sermões de propaganda e quem ainda não saiba como vai administrar a reserva dos índios. Nem Frei Tomás o poderá pregar aos peixes.

Essa treta da lista de extinção de organismos, empresas estaduais e fundações isentas de imposto, porque obedece ao princípio dos vasos comunicantes, só ilusoriamente comprime o aparelho de poder. Ainda não começaram a discutir o essencial: a efectiva devolução de poderes às comunidades, à semelhança do que começaram a fazer nas zonas das IPSS, das escolas ditas privadas, e das misericórdias…

Para acabar com o monstro estadualista, o tal cão de guarda da propriedade, alimentado a impostos, importa fazer o mais difícil: devolver poderes e propriedades aos indivíduos, às famílias e aos outros grupos que são constituídos de baixo para cima, sem os confundirem com os grupos de pressão que se dizem sociedade civil, partidos ou sindicatos e que dizem representar a sociedade civil.

O actual monstro assenta na pior das opressões: a expropriação da propriedade que resulta do trabalho individual, através do imposto insaciável, estabelecido por uma máquina que não controla a evasão fiscal ou o processo de compra de poder. Tal como Mouzinho da Silveira libertou a terra das rendas feudais, o novo Mouzinho tem que libertar o indivíduo da falsa tutela dos novos contratadores, de empresas de regime às clientelas que apluadem os sucessivos vencedores das puganas eleitorais.

A única reforma que falta cumprir: a da primeira revolução do nosso século XIX, a revolução burguesa ou liberal, a dos direitos humanos. Por isso é que fomos fingindo que a ultrapassávamos, brincando às revoluções revolucionárias e contra-revolucionárias, umas para ir atrás de 1917, outras para a esmagarem, na senda de 1922. E com tretas nos algemámos.

“Português à solta” é a definição dada pelo poeta Manuel Bandeira ao verdadeiro brasileiro. Muitos a têm glosado, quando ela é clara: o português livre, porque longe do Estado Absolutista, como normalmente é o estado a que vamos chegando.

A maior parte dos actuais governantes da Europa é proveniente daqueles grupos que, a partir de meados do século XIX, emergiram como inimigos do demoliberalismo, isto é, ou são do socialismo, maioritariamente marxista, ou do cristianismo social. A paciência tolerante dos modelos resultantes das revoluções inglesa, norte-americana e as várias francesas é como água mole em pedra dura, como se vê com a lenta aglutinação a tal herança dialéctica de ex-comunistas e ex-fascistas.

Continuamos com sede de política, mesmo que alguns, raspado o verniz, mostrem o caceteirismo com que se drogam, entre fantasmas de direita e preconceitos de esquerda. Eu também sei, parafraseando Almada Negreiros, que que as frases que hão-de salvar a humanidade já estão todas escritas, mas como sou dos que sabem que nada sabem, apenas posso concluir que a humanidade continua por salvar.

Se eu tivesse uma solução para Portugal, fundava um partido, um movimento ou uma candidatura. Como não tenho, vou plantando árvores e escrevendo livros. Nos intervalos, vou dizendo o que penso e tentando viver conforme penso. Isto é, cumprindo uma missão que vai além de mim.

Há muita gente que de diz maltratada pelo tempo em que vai vivendo. Eu não tenho essa frustração. Só com divergências e convergências é que pode haver emergências, se, dos maus tratos, tivermos a superior raiva de não nos enraivecermos e soubermos crescer por dentro e para cima.

Estou a ver e a ouvir Seguro. É socialista e de esquerda e quer mais aparelho de Estado. Sou liberal e não sou de esquerda. Até quero mais comunidade, mesmo que seja com caridade e misericórdia. Admiro a autenticidade da esquerda, ainda que um pedacinho retro. Detesto a hipocrisia da pretensa esquerda-menos que nos quer enrolar. Mas não divido o mundo entre o Estado e o mercado. A liberdade pode rimar com igualdade, através da fraternidade.

“O aparelho de poder atingiu níveis de uma insuportável ocupação da democracia por forças políticas que não cumprem aquilo que prometem e que se sucedem sem respeito pela palavra dada” (parte de um texto que subscrevi com alguns amigos, liberais e socialistas, para um encontro de reflexão política).

“O crescente nível de incompetência, sem adequada responsabilização dos episódicos gestores políticos está a contribuir para um definhamento da própria comunidade política, porque sem indivíduos responsavelmente sustentáveis pela propriedade do trabalho, apenas se agravará a lei pré-política da submissão dos mais fracos por autocráticos e burocratizados agentes. As forças vivas não tardarão a ocupar o presente vazio da república pela ameaça ao mínimo existencial”.

Os dois pedaços de texto que aqui publiquei resultam de uma reflexão que faço com alguns amigos, mas que decidimos, de cada vez, passar a escrito. Se muitos começarem a dar voz a esta revolta, mesmo sem leninismo organizacional, a onda pode propagar-se através do adequado gesto do Zé Povinho, pilotando o seu próprio futuro. Já chega de falarem por nós. O pior das crises é sempre a indiferença. E basta fazer clique aqui no FB.

Espreitei o debate sobre a Madeira na SICN. Foi ruído a mais. Para chegar à conclusão que o mais bem educado foi o António Filipe do PCP. Logo, foi o mais ouvido.

O acordo, mesmo com desacordos, agora anunciado sobre a avaliação de docentes é uma boa notícia. O ministro e os sindicatos desempenharam bem suas missões. Hoje estamos melhor do que estávamos ontem.

 

Set 09

Farpas

Nenhum constituinte tinha previsto que um memorando de entendimento com um grupo de trabalho mandatado por organizações internacionais com um governo de Portugal poderia ser efectivamente superior ao texto da constituição, ainda por cima negociado mediante a ameaça, não da ocupação, mas da bancarrota.

 

Ir além da troika, aqui e agora, deveria ser tanto atacar a causa do endividamento, como evitar que a protecção se transforme de provisória num definitivo ocupante da nossa autonomia, como a invocação exógena de uma qualquer bela ordem que disfarce a impotência interna.

O Portugal de Abril, para cerca de um milhão de eleitores que não é de esquerda nem de direita e, manhosamente, vai votando no PS e no PSD, sempre significou crédito bonificado para a compra de uma casita, permitir que os filhos pudessem ser dôtores, dar uma volta saloia com o carrito, reforma garantida e hospital em condições em caso de azar. O que era bom ameaça acabar e o voto, do mesmo modo.

 

A vantagem de Abril são os muitos pedaços de que ele foi sendo feito. Foi ir-se fazendo no caminhar por caminhar. E se apenas restar a liberdade já é muito mais do que dantes. Pelo menos, é melhor.

O socialismo abrileiro, ou a social-democracia da mesma família, deu-nos adequados seguros sociais que permitiram democratizar a propriedade, ter seguros sociais que libertaram a pessoa da necessidade, mas também nos transformaram em servos da gleba hipotecária e feudatários dos ministérios da educação.

A incerteza da nova geopolítica do euro mandou extinguir autarquias e o ministro das ditas que, segundo a nova orgânica governamental não coincide com o ministro da administração pública, decidiu acabar com muitos chefes, mas sem dizer que vai fazer dos índios. Uma questão de heteronomia do estadão, onde há quem faça sermões de propaganda e quem ainda não saiba como vai administrar a reserva dos índios. Nem Frei Tomás o poderá pregar aos peixes.

 

Convinha dizer que só depois de Abril passámos a ter autarcas mais directamente eleitos do que os senhores ministros que são sempre ajudantes dos primeiros-ministros, indirectamente eleitos.

 

Essa treta da lista de extinção de organismos, empresas estaduais e fundações isentas de imposto, porque obedece ao princípio dos vasos comunicantes, só ilusoriamente comprime o aparelho de poder. Ainda não começaram a discutir o essencial: a efectiva devolução de poderes às comunidades, à semelhança do que começaram a fazer nas zonas das IPSS, das escolas ditas privadas, e das misericórdias…

 

Para acabar com o monstro estadualista, o tal cão de guarda da propriedade, alimentado a impostos, importa fazer o mais difícil: devolver poderes e propriedades aos indivíduos, às famílias e aos outros grupos que são constituídos de baixo para cima, sem os confundirem com os grupos de pressão que se dizem sociedade civil, partidos ou sindicatos e que dizem representar a sociedade civil.

Set 09

Dos chefes e dos índios

A incerteza da nova geopolítica do euro mandou extinguir autarquias e o ministro das ditas que, segundo a nova orgânica governamental não coincide com o ministro da administração pública, decidiu acabar com muitos chefes, mas sem dizer que vai fazer dos índios. Uma questão de heteronomia do estadão, onde há quem faça sermões de propaganda e quem ainda não saiba como vai administrar a reserva dos índios. Nem Frei Tomás o poderá pregar aos peixes.

 

Convinha dizer que só depois de Abril passámos a ter autarcas mais directamente eleitos do que os senhores ministros que são sempre ajudantes dos primeiros-ministros, indirectamente eleitos.

 

Essa treta da lista de extinção de organismos, empresas estaduais e fundações isentas de imposto, porque obedece ao princípio dos vasos comunicantes, só ilusoriamente comprime o aparelho de poder. Ainda não começaram a discutir o essencial: a efectiva devolução de poderes às comunidades, à semelhança do que começaram a fazer nas zonas das IPSS, das escolas ditas privadas, e das misericórdias…

 

Para acabar com o monstro estadualista, o tal cão de guarda da propriedade, alimentado a impostos, importa fazer o mais difícil: devolver poderes e propriedades aos indivíduos, às famílias e aos outros grupos que são constituídos de baixo para cima, sem os confundirem com os grupos de pressão que se dizem sociedade civil, partidos ou sindicatos e que dizem representar a sociedade civil.

Set 08

Farpas

Quando um parlamento deixa escapar que a principal notícia do dia é a recepção de um envelope com documentos explosivos, recebidos de um qualquer anónimo, mas com relevância para o segredo de Estado, resta esperar pela próxima casca de banana, sob a forma de parangona, que as mesmas fontes suscitarão, neste país de inconfidências, conspirações e amiguismos. Gastam-se pelo mau uso e correm o risco de implodir.

Os nossos políticos deveriam imediatamente estudar as biografias e memórias de António Teixeira de Sousa, Júlio de Vilhena, António Maria da Silva, Francisco da Cunha Leal e Marcello Caetano, os tais que eram notáveis especialistas em ramos de árvore, estrume e poda, mas que nunca comprenderam os movimentos globais da floresta. Ainda disputam, entre eles, o título de coveiro máximo.

 

Em 1910 e 1926 estávamos em formal resgate da bancarrota. Em 1974, já havia consciência de uma inevitável derrota num guerra onde éramos simples peões de um xadrez mais amplo: uma guerra por procuração da guerra fria. Agora a guerra é outra e continuamos a dourar a pílula.

Enfurece-me, de vez em quando, a estupidez de certos argumentos vingativos da direita, mas logo se manifesta a estupidez de certos argumentos vingativos da esquerda. O que me enfurece efectivamente é a estupidez que não é de direita nem de esquerda, mesmo quando se diz do centro. A política, por vezes, é mesmo estúpida.

Set 08

Do PS pós-socrático ao acordo de regime

Se os nossos políticos meditassem nas memórias de António Teixeira de Sousa, António Maria da Silva e Marcello Caetano poderiam concluir que, às vezes, notáveis especialistas em ramos de árvore, poda e estrume, correm o risco de não prender coisa com coisa, não compreendendo o sentido geral da floresta e acabando arrastados pela força daquelas circunstâncias que os podem transformar em coveiros de regimes.

 

Pelo menos, importa reconhecer que os problemas económicos e financeiros, como os desta encruzilhada, só se resolvem com medidas económicas e financeiras, mas não apenas com as medidas económicas e financeiras.

 

Contra a força normativa dos factos, isto é, do memorando negociado por Sócrates, a actual maioria da aritmética parlamentar faz bem em procurar ir além da troika.

 

Só que, para vencermos o Adamastor, sem morrermos da cura, é inevitável navegarmos na geometria política e social de um acordo de regime.

 

Por outras palavras, o novo mapa deste fim-de-semana, para quem não quer ser grego, impõe a conjugação com um PS pós-socrático, que tem a favor dele o médio prazo de uma eventual derrota eleitoral de Merkel, Sarkozy e Berlusconi. Por outras palavras, antes de chegar o tempo do eventual princípio do fim, seria mais prudente consensualizarmos o fim do princípio, voltando a princípios que sejam os verdadeiros fins!

Set 08

DO PS PÓS-SOCRÁTICO AO ACORDO DE REGIME

DO PS PÓS-SOCRÁTICO AO ACORDO DE REGIME

 

Por José Adelino Maltez

 

Se os nossos políticos meditassem nas memórias de António Teixeira de Sousa, António Maria da Silva e Marcello Caetano poderiam concluir que, às vezes, notáveis especialistas em ramos de árvore, poda e estrume, correm o risco de não prender coisa com coisa, não compreendendo o sentido geral da floresta e acabando arrastados pela força daquelas circunstâncias que os podem transformar em coveiros de regimes. Pelo menos, importa reconhecer que os problemas económicos e financeiros, como os desta encruzilhada, só se resolvem com medidas económicas e financeiras, mas não apenas com as medidas económicas e financeiras. Contra a força normativa dos factos, isto é, do memorando negociado por Sócrates, a actual maioria da aritmética parlamentar faz bem em procurar ir além da troika. Só que, para vencermos o Adamastor, sem morrermos da cura, é inevitável navegarmos na geometria política e social de um acordo de regime. Por outras palavras, o novo mapa deste fim-de-semana, para quem não quer ser grego, impõe a conjugação com um PS pós-socrático, que tem a favor dele o médio prazo de uma eventual derrota eleitoral de Merkel, Sarkozy e Berlusconi. Por outras palavras, antes de chegar o tempo do eventual princípio do fim, seria mais prudente consensualizarmos o fim do princípio, voltando a princípios que sejam os verdadeiros fins!

 

 

 

Set 07

Contra os comentadores, marchar!

Depois do ataque de Jerónimo de Sousa aos comentadores na Festa do Avante, reparo que hoje foi a vez de um ilustre deputado do PSD, e do Algarve, denunciar a opinião crítica face aos ilustres governantes que nos regem, acusando quem não os aplaude de usar da tolerância zero. Para mim, o que tem havido é falta de uma mais viva oposição, para que ela não caia na rua.

Set 07

Discutir os novos deuses, as velhas pátrias, as antigas constituições

Para os devidos efeitos, confesso que, por não poder ter partido, estou condenado a ser comentador político e que não divido o mundo entre os que são adeptos de Mendes Bota e os que foram à Festa do Avante, porque tanto não tenho tolerância zero face ao presente governamentalismo, como também não divido o mundo entre amigos e inimigos.

 

Prefiro continuar a discutir os novos deuses, as velhas pátrias, as antigas constituições e os eternos impostos contra a família e os indivíduos. Se reconheço como excelentes os economistas que nos presidencializam, primo-ministerializam e ministerializam, tenho dúvidas e até me costumo enganar. Daí que não goste de ser enrolado pelos que fingem que há previsões e cenários sobre o princípio do fim, quando ainda estamos no mero fim do princípio e continua a faltar que, nos princípios, estejam os verdadeiros fins!

 

Problemas económicos e financeiros como os desta encruzilhada só se resolvem com medidas económicas e financeiras. Mas não apenas com as medidas económicas e financeiras de um memorando negociado por Sócrates, face à coacção das circunstâncias e a reserva mental dos que assinaram o texto. Tenho a ilusão de acreditar que, a partir de segunda-feira, o novo líder do PS pós-socrático poderá ter várias reuniões com o chefe do governo sem exigir a presença de testemunhas, para que não se reduza o consenso dos tais 85%, que são qualitativamente melhores que o absolutismo curto da mera aritmética parlamentar.

 

Daí detestar que alguns activistas da teatrocracia exagerem nos argumentos de rábula, os tais que podem gastar-se pelo mau uso e transformar-se em caricatura, quando for inevitável uma adequada maioria constitucional. Já conheci muitos desses excelentes que, depois de desusados, passam a prostituir-se pelo abuso do espectáculo.

 

Como sempre fui céptico face aos programas que estão na base deste governo, continuo entusiasta face aos velhos princípios liberais, que estão à esquerda do PPE e à direita do socialismo europeu. Prefiro recordar que, para vencermos o Adamastor, sem morrermos na volta, é inevitável a geometria política e social de um acordo de regime, para que nenhum piloto do futuro tenha a amargura de poder ser o coveiro do regime.

Set 07

Farpas

Para os devidos efeitos, confesso que, por não poder ter partido, estou condenado a ser comentador político e que não divido o mundo entre os que são adeptos de Mendes Bota e os que foram à Festa do Avante, porque tanto não tenho tolerância zero face ao presente governamentalismo, como também não divido o mundo entre amigos e inimigos.

 

Prefiro continuar a discutir os novos deuses, as velhas pátrias, as antigas constituições e os eternos impostos contra a família e os indivíduos. Se reconheço como excelentes os economistas que nos presidencializam, primo-ministerializam e ministerializam, tenho dúvidas e até me costumo enganar. Daí que não goste de ser enrolado pelos que fingem que há previsões e cenários sobre o princípio do fim, quando ainda estamos no mero fim do princípio e continua a faltar que, nos princípios, estejam os verdadeiros fins!

 

Problemas económicos e financeiros como os desta encruzilhada só se resolvem com medidas económicas e financeiras. Mas não apenas com as medidas económicas e financeiras de um memorando negociado por Sócrates, face à coacção das circunstâncias e a reserva mental dos que assinaram o texto. Tenho a ilusão de acreditar que, a partir de segunda-feira, o novo líder do PS pós-socrático poderá ter várias reuniões com o chefe do governo sem exigir a presença de testemunhas, para que não se reduza o consenso dos tais 85%, que são qualitativamente melhores que o absolutismo curto da mera aritmética parlamentar.

 

Daí detestar que alguns activistas da teatrocracia exagerem nos argumentos de rábula, os tais que podem gastar-se pelo mau uso e transformar-se em caricatura, quando for inevitável uma adequaada maioria constitucional. Já conheci muitos desses excelentes que, depois de desusados, passam a prostituir-se pelo abuso do espectáculo.

 

Como sempre fui céptico face aos programas que estão na base deste governo, continuo entusiasta face aos velhos princípios liberais, que estão à esquerda do PPE e à direita do socialismo europeu. Prefiro recordar que, para vencermos o Adamastor, sem morrermos na volta, é inevitável a geometria política e social de um acordo de regime, para que nenhum piloto do futuro tenha a amargura de poder ser o coveiro do regime.

 

Set 06

O catavento não é bom paradigma

Com tão excelentes economistas que nos presidencializam, primo-ministerializam e ministerialmente nos financializam, ninguém pode duvidar que teremos economia, empresas, contas, bancos e financiamento. Nem que seja pelo enrolar das conferências, audições e entrevistas, onde, pela palavra deslumbrada, pode o anzol entrar. Com tantas previsões e cenários, não pode haver macro-incertezas! Quem tiver dúvidas e se enganar, vá para Vilar das Perdizes!

 

Se entrarmos em insustentatibilidade, logo mandaremos carta pré-datada, pedindo plano de resgate…

 

E a qualquer outra questão que me coloquem, sempre poderei dizer que é uma questão prematura, isto é, está em imaturação antes da mutaronotoriedade do prematuro. Por outras palavras, o aborto já não é crime!

 

Se eu fosse mau e não tivesse medo da trovoada, mandava-os, para o raio que os partam. Mas como também me lixava, prefiro pagar as quotas à associação dos bombeiros voluntários aqui do bairro, mesmo que não haja bombeiros, nem quartel!

 

Mas quem sou eu, para tanto. Ainda tive Finanças Públicas com o Professor José Joaquim Teixeira Ribeiro. É das melhores notas que tive no curso, mas confesso que, sem ser por culpa do professor, não sei mesmo nada de finanças destas. Fiquei troikado de todo, com a súbita alteração das circunstâncias…

 

E não haverá ninguém que avise alguns activistas do situacionismo, e do oposicionismo, que o exagero nos argumentos e nos holofotes pode gastá-los pelo mau uso e transformá-los numa caricatura? Já conheci muitos desses excelentes que, depois de desusados, passam a poder prostituir-se pelo abuso.

 

Quando certos abrem o livro da faladura, a malta já sabe o que eles vão dizer, porque dizem o tudo e o seu nada, o próprio e o respectivo contrário, como todos se esquecessem do ontem e do anteontem…

 

Isto de alguém ser especialista em assuntos gerais exige uma grande especialidade…a dos princípios, crenças e valores de um eu que permaneça para além das circunstâncias. O catavento não é bom paradigma.