Quem tiver a humildade de reconhecer a turbulência de Atenas, apenas pode prever que, ano a ano, seremos “annus horribilis”, sem o “porreiro, pá” de uma Europa que diziam federal, mas que já nem bandeira azul de doze estrelas serviu como pano de fundo para o anúncio da coligação dos dois membros lusitanos da principal multinacional partidária europeísta. Assim, os velhos criadores de artificiais factos políticos e parangonas não passarão de mera nota pé de página dos restos de “agit-prop” e dos velhos secretariados de propaganda nacional. Hoje é o dia zero de um novo estado de graça, como já se viveu com Sócrates, Barroso ou Guterres. E até os rebeldes, que acham que pensar é dizer não, e tendem a ser do contra, aguardam, com leal expectativa democrática, o anunciado processo que nunca se herda: o da conquista da confiança, tanto dos mercados da geofinança, como dos mercados políticos internos. Por isso é que todos gostámos das palavras de Passos e não desgostámos das de Portas. Esperemos que, na prática, a teoria não seja outra.
Author Archives: jamaltez
Dia zero
Quem tiver a humildade de reconhecer a turbulência de Atenas apenas pode prever que, ano a ano, seremos “annus horribilis”, sem o “porreiro, pá” de uma Europa que diziam federal, mas que já nem bandeira azul de doze estrelas serviu para pano de fundo do anúncio da nova coligação dos dois membros da multinacional do Partido Popular Europeu. Assim, os criadores de artificiais factos políticos, nomeadamente os habituais semeadores de deixas que fazem as parangonas dos semanários de regime, não passarão de mera nota pé-de-página dos restos de “agit-prop” e dos velhos secretariados de propaganda nacional. Hoje é o dia zero de um novo estado de graça, como já se viveu com Sócrates, Barroso ou Guterres. Até os rebeldes, que acham que pensar é dizer não e tendem a ser do contra, aguardam, com leal expectativa democrática, o anunciado processo de conquista da confiança, tanto dos mercados da geofinança, como dos mercados políticos internos. Por isso é que todos gostámos das palavras de Passos e não desgostámos das de Portas. Esperemos que, na prática, a teoria não seja outra.
Farpas
Annus horribilis (2011), Annus horribilis (2012), Annus horribilis (2013), Annus horribilis…horribilis. Não sou eu que o prometo, é o primeiro-ministro indigitado.
A actual república dos portugueses não monopoliza a história dos portugueses. Só no Brasil há mais de cem milhões dos sucessores de D. Afonso Henriques. São, pelo menos, dez vezes mais…
Dia zero. Daquilo que não se herda, mas que se conquista. E tudo sem bandeiras da Europa ao fundo. Eram seis e da república. Fica a leal expectativa de quem tende a ser do contra. Mas gostei das palavras de Passos. E não desgostei das de Portas. Quase digo o mesmo que disse de Sócrates no seu dia zero. O estado de graça é sempre assim.
Pena! Eu gosto muito das doze estrelas…Ao que consta, o Padre António Vieira tinha proposto o símbolo em causa para o respectivo Quinto Império. E a unificação europeia foi buscar o mesmo símbolo a um vitral da catedral de Estrasburgo, sobre a Virgem Maria, conforme também dizia nosso querido padre, português e brasileiro, para ser português inteiro!
Entre as doze estrelas e a armilar, há uma identidade universal, a nossa!
Não há nada mais absurdo do que o totalitarismo doce das “révolution d’en haut” lançadas pelo regulamentarismo estéril de certa burocracia que nos quer engenheirar em normalizações que matam a liberdade individual e a criatividade que não se contém nos descritores. A pior criatura do socratismo foi o exacto contrário do criador…Este regime de sargentos e contínuos, arvorados em catedráticos.
Esta mistura salazarenta de maoísta e hierarca gerou um mostrengo que vai perdurar em burrocracias, sobretudo no sistema dito de ensino, esses repetidores cronológicos e analíticos que nunca compreenderão os liberdadeiros do pragmatismo clássico nem a aventura da insolência. Dão sempre nota dez, mesmo a um eventual prémio Nobel…
Li, com cuidado, os dez objectivos do próximo governo. Julgo que, à excepção de uma ou outra frase, susceptível de ser entendida como crítica ao socratismo, não haverá nenhum militante do Partido Socialista que não subscreva essas cláusulas gerais. Há apenas mera renovação na continuidade, do mesmo situacionismo. Renova-se mais o estilo do que o texto. Até a gente nova pode ser a velha.
Se juntarmos, sem numeração, estes pedaços do decálogo da nova governança, poderemos ler um dos belos discursos analíticos do presidente Cavaco. Por outras palavras, há coerência programática de uma linha miscigenada entre a social-democracia e o social-cristianismo. É o que observo, de fora. Sem surpresa.
Há quem num só esguicho se insurja, e bem, contra o racismo germânicos dos pepinos, para logo invocar a tradição otomana do Estado grego. Prefiro Lord Byron e não sou viking!
Os candidatos a magistrados não são magistrados, como titulam as notícias. E o clamor levantado demonstra que a magistratura é uma coisa séria demais para ficar circunscrita aos magistrados e aos corporativismos que os circundam. Ainda bem! Começamos a ter consciência da importância do tradicional terceiro poder da coisa pública! Não queremos que eles seja meras bocas que pronunciam as palavras da lei.
Infelizmente, parece que é mesmo assim. As direcções de uma prestigiada instituição não repararam como o tratamento burocrático de uma questiúncula normal nos anormais dos sistemas de classificação teria tanta repercussão, contribuindo assim para o desprestígio de uma categoria necessária à regeneração nacional da confiança pública. E como se confunde a floresta com umas árvores, os danos são imensos…
Os testes de cruzinhas, hoje, podem ser notáveis de precisão. Quem os inventou, os américas, até fazem hoje isso “on line” com uma objectividade incrível. Basta usar uns “magalhães” em rede e marcar ritmo de precisão simultânea e tempos impossíveis de copianço. Repetir modices de há mais de meio século pode redundar em desastre!
Essa coisa de ser professor tem a ver com profissionalismo… essa coisa de ser escola também tem a ver com certa ideia de instituição..
Como sou um velho reaccionário, bem gostava de voltar a ver magistrados presidindo a júris de todas as cadeirinhas das faculdades publicamente avaliadas, como acontecia ainda no meu tempo. Até um valor simbólico tinha. E poderia levar o CEJ a ser mais intimamente participado pelas grandes escolas de direito, num vice-versa integrativo e sem os gurus reformadores do costume, bem subsidiados como vacas sagradas.
Farpas
Comemorando mais um fim de ciclo. Ou o registo da minha participação no Encontro dos Liberais Ibéricos no passado dia dez.
Porque Passos Coelho volta a dizer que é um homem de palavra, não comento indícios. Nisso, prefiro ser como o S. Tomé. Mesmo que não haja chagas. Basta a lista das escolhas dos ministeriais.
Quem vê em directo a turbulência de Atenas e de Barcelona, pode confirmar a areia movediça em que se movem os pequenos e médios Estados de uma Europa que diziam federal. Espero que o nosso próximo governo tenha a humildade de o reconhecer e que, depois desta agregação, se prepare um consenso bem maior, antes de um indesejável estado de necessidade.
A geo-estratégia é mera ciência auxiliar da política…. acerta tanto como as sondagens e a teologia
Por isso é que o João Paulo II e um electricista de Gdansk derrotaram a herança de Estaline…
Tal como um fabricante de champanhe imaginou a União Europeia..
E um imperador do Brasil desembarcou no Mindelo…
Costuma haver conversões na estrada de Damasco…
“Face a indícios de que 137 auditores que estão no Centro de Estudos Judiciários a formarem-se para serem magistrados copiaram num teste, a instituição atribuiu dez a todos”. Por mim, chumbava é este modelo de grelha, bem como os seus autores e executores…
Habemus gobernum!
Não consegui espreitar o fumo na chaminé de Belém. Na Bélgica, há ano e dia que andam à procura de acordo…
Só é novo aquilo que se esqueceu. Só é moda o que passa de moda. Mas a malta gosta de rodas o mesmo filme. Adoramos retomar a bebedeira, para escaparmos à ditadura da realidade. Nem reparamos que o nosso destino está a ser decidido entre Bruxelas e Atenas…
Enquanto um tradicional correspondente televisivo junto a UE ia dedilhando as bocas do corredor dessas instâncias bruxeleiras, na praça dita de Schuman, ao fundo, iam passando, apressados, os eurocratas do costume, empurrando pastas e malinhas de rodas. Porque quem nos governa é o senhor ninguém que os comanda e nos entala…
Essa do governo de guerra, lembra-me a união sagrada, de democráticos e evolucionistas. Mesmo esta, tanto não foi de concentração republicana como não chegou governo nacional, como foram os governos verdadeiramente de guerra que ganharam a guerra, como o de Londres…
País
É preciso que o país da realidade, o país dos casais, das aldeias, das vilas, das cidades, das províncias, acabe com o país nominal, inventado nas secretarias, nos quartéis, nos clubes, nos jornais, e constituído pelas diversas camadas do funcionalismo que, e do funcionalismo que quer e há-de ser (Alexandre Herculano, na Carta aos Eleitores do Concelho de Sintra, de 1858)
Um bom governo de Portugal
Um bom governo de Portugal será aquele que conseguir conquistar a confiança dos que não votaram PSD ou CDS, tendo suficiente flexibilidade para navegar numa alteração anormal das circunstâncias que os acasos da geofinança gerarem, nomeadamente quando o directório europeu atirar o acordo com a troika para o caixote de lixo da história…
É previsível que o normal consista numa sucessão de acontecimentos anormais, dado que a maior parte dos factores de poder já não são intranacionais nem são controlados pelas próprias instituições europeias. O poder informal da geofinança desfez todos os velhos quadros formais.
Vivemos sempre à beira daquele perigoso conceito das forças vivas em movimento, para as quais o soberano é apenas aquele decide em estados excepcionais. Por outras palavras, a excepção já não confirma a regra. E quem não estiver preparado para a mudança pode arriscar, mas não petisca.
Ninguém come ideologias, mas até os pepinos podem ser objecto do regresso do racismo do pequeno confronto de civilizações intra-europeu. A malta das brumas e da meia-noite pensa que os tipos do meio-dia, da bacia do velho mar interior, aguentam as abstracções e os conceitos dos respectivos sistemismos. O marxismo branco continua…
O marxismo branco pode ser o direitismo actual que não consegue compreender como é que um velho liberal pode estar mais próximo de um libertário anarquista que de um futuro ministro pretensamente bem-comportado que quer passar no exame analítico do bom aluno, perante um desses contínuos eurocratas que nos reduzem a simples folhas de “Excel” vistas com “ad usum catrogae”.
Há muita gente que não percebe que quem mais ganha com a guerra entre os canhotos de ontem e os endireitas de hoje são sempre os bonzos que nos instrumentalizam…
Comemorando mais um fim de ciclo
Comemorando mais um fim de ciclo. Ou o registo da minha participação no Encontro dos Liberais Ibéricos no passado dia dez.
Porque Passos Coelho volta a dizer que é um homem de palavra, não comento indícios. Nisso, prefiro ser como o S. Tomé. Mesmo que não haja chagas. Basta a lista das escolhas dos ministeriais.
Quem vê em directo a turbulência de Atenas e de Barcelona, pode confirmar a areia movediça em que se movem os pequenos e médios Estados de uma Europa que diziam federal. Espero que o nosso próximo governo tenha a humildade de o reconhecer e que, depois desta agregação, se prepare um consenso bem maior, antes de um indesejável estado de necessidade.
A geo-estratégia é mera ciência auxiliar da política…. acerta tanto como as sondagens e a teologia
Por isso é que o João Paulo II e um electricista de Gdansk derrotaram a herança de Estaline…
Tal como um fabricante de champanhe imaginou a União Europeia..
E um imperador do Brasil desembarcou no Mindelo…
Costuma haver conversões na estrada de Damasco…
“Face a indícios de que 137 auditores que estão no Centro de Estudos Judiciários a formarem-se para serem magistrados copiaram num teste, a instituição atribuiu dez a todos”. Por mim, chumbava é este modelo de grelha, bem como os seus autores e executores…
Dez de Junho
Dia de Portugal. Corria o ano de 1880, quando Teófilo Braga e Ramalho Ortigão promoveram o Centenário de Camões. A rainha participa nas cerimónias de 10 de Junho, em carruagem descoberta. A comissão organizadora, presidida pelo visconde da Juromenha, mobiliza Eduardo Coelho, Sebastião de Magalhães Lima e Manuel Pinheiro Chagas, havendo grande apoio da maçonaria. Foi dez anos antes do Ultimatum…
Dia de Portugal. Em 1890: a estátua de Camões em Lisboa aparece rodeada de crepes negros, por iniciativa do deputado Eduardo Abreu e “a multidão vai enfim modelar-se em povo em torno da figura lendária do grande épico, e uma pátria surgir onde até aí se revolvia surdamente uma colmeia” (Basílio Teles). Compõe-se A Portuguesa. Miguel Ângelo Pereira compõe A Marcha do Ódio, musicando poema de Guerra Junqueiro.
Dia de Portugal: ano de 1825. Garrett publica em Paris “Camões”. Aí se canta: “Saudade! Gosto amargo de infelizes! Delicioso pungir de acerbo espinho!”. A pátria que hoje se comemora é uma invenção dos românticos liberais do século XIX. Os tecnocratas nunca o entenderão. E os funcionários públicos sem espinha, também não.
Farpas
Às vezes, apetece cometer o pecado de tanto rejeitar o politicamente correcto da esquerda cultural como de não alinhar com a direita louvaminheira que ingressou na fileira do situacionismo.
Daquele situacionismo, onde o máximo denominador comum é pensarmos que um bom pai de família deste alargado Bloco Central que nos vai decadentizando tem de ser alguém com o chamado coração à esquerda, mas com a razão à direita, de maneira que possa pontificar a vontade de poder do aparelhismo partidocrático.
Talvez não seja por acaso que, muitas vezes, ao levantarmos a bandeira liberal, a fazemos rimar com o Porto, num país onde quase todos esquecem que a expressão liberal, apesar das inequívocas origens doutrinárias anglo-americanas e setecentistas, teve um baptismo hispânico.
Começando pelo liberal Benjamin Constant, importa recordar que o patriotismo só existe pela afeição cheia de raízes que prende o povo às localidades e constitui o exacto contrário daquela ideia dominante de Estado transformada numa abstracção, numa ideia indefinida e inconsciente geradora de um patriotismo vago e infecundo. Porque, como repetia Eça de Queiroz, importa superar essa ideia de centralização onde se destrói a vida parcial e onde se forma no centro outro pequeno Estado que é a concentração das forças, das actividades, das concorrências, onde o governo é um grupo exclusivo de homens que parecem ter a virtude oculta, o segredo, a ciência misteriosa de governar; é uma magistratura suprema enfeudada numa certa família de chefes, que a ninguém deixam as insígnias sagradas e a púrpura distintiva. Só eles são os que concebem e os que pensam, os que dão a força e a luz.
Porque, conforme o mesmo Constant, a variedade é a organização, a uniformidade é o mecanismo; a variedade é a vida; a uniformidade é a morte.
Aliás, foi só depois da célebre Revolução de Cádis de 1811, a principal matriz emocional dos nossos vintistas, que, em Inglaterra, começou a aparecer a designação de british liberales que, pouco a pouco, foi denominando o velho partido wigh, o qual, a partir de 1840, passa a considerar-se como Liberal Party.
Importa assinalar este pequeno pormenor histórico para lembrar a todos os que continuam embalados na vaga de um doutrinarismo liberalista, por vezes demasiadamente estrangeirado, que há também, entre nós, enraizadas tradições liberais. Referimo-nos não apenas ao liberalismo institucional que vigorou em Portugal de 1834 a 1926, mas também ao fundo liberal dos factores democráticos da formação de Portugal que marcavam a nossa Constituição histórica anterior ao absolutismo, bem como aos próprios rastos liberais que permaneceram no regime do Estado Novo e que o desirmanaram dos totalitarismos fascista e nazi, dado que não foi possível comprimir a plurissecular democracia da sociedade civil.
Aliás, talvez caiba a Fernando Pessoa uma das mais modelares definições de liberalismo: a doutrina que mantém que o indivíduo tem o direito de pensar o que quiser, de exprimir o que pensa como quiser, e de pôr em prática o que pensa como quiser, desde que essa expressão ou essa prática não infrinja directamente a igual liberdade de qualquer outro indivíduo.
Julgo que quem é liberal com raízes tem que ser, quase por conclusão, em virtude da mentalidade suicida de certa esquerda deste “reino cadaveroso”, excentricamente, de direita, para poder dizer, como Montaigne, que quem tem a ilusão de nos comandar intelectualmente, pode obrigar muitos à disciplina e à obediência, mas não à estima e ao afecto, que só reconhecemos a quem o merece.
Quem não gosta da servitude volontaire dos aduladores de príncipes, nem do falso consenso onde navegam muitos dos nossos cadáveres adiados que procriam epitáfios, memórias, discursos que fazem chorar as pedras da calçada e outra literatura de justificação, prefere, naturalmente, por exigência da própria procura da perfeição, os perturbadores do mundo que se angustiam com o futuro.
Voltando a Montaigne, sempre direi que a confusão das ideias humanas fez que os múltiplos costumes e crenças opostos aos meus, mais me instruíssem e contrariassem. Percebam, pois, os gestores do actual situacionismo que o dogmatismo não deixa de o ser só porque se pinta de antidogmático e que a inquisição não deixa de continuar, mesmo quando passa a juntas pombalistas de reforma de estudos ou à formiga branca, essa forma de policiamento político-cultural, herdeira dos el-rei Junots que nos continuam a invadir.
Percebam que, em liberdade, as esquerdas serão feitas com o que muitas direitas semearam e vice-versa. Não se fiem nesses que, mal chegaram às delícias do poder, logo puseram na gaveta as ideologias que os levaram ao tal lugar de distribuição autoritária de valores.
Foi a direita liberal que historicamente eliminou a possibilidade dos genocídios das Vendeias, como foi a esquerda republicana que gerou os mitos racistas do colonialismo. Os campeões do sufrágio universal entre nós não foram os democratistas de Afonso Costa, mas as direitas monárquicas regeneradoras e o sidonismo, tal como o Welfare State foi obra do salazarismo que também institui o sufrágio feminino. Da mesma forma os precursores do ecologismo não foram os verdes comunistas, mas os fundadores do partido popular monárquico.
Quem solidificou a democracia da sociedade civil em Portugal foi a carta constitucional de 1826, não foi a Carbonária. Quem aboliu a pena de morte e enraizou as liberdades foi o regime dos descendentes do senhor D. Pedro IV e não os racha-sindicalistas.
Os que, no fim, voltam ao princípio, querendo apagar o que, pelo meio, praticaram, apenas continuarão a semear a incoerência dos que concluem que, na prática, a teoria é outra.
Voltando a Montaigne, importa reconhecer que o mundo não é senão variedade e dissemelhança. E que somos todos constituídos de peças e pedaços juntados de maneira casual e diversa, e cada peça funciona independentemente das demais. Até porque lamento encontrar em meus compatriotas essa inconsequência que faz com que se deixem tão cegamente influenciar e iludir pela moda do momento, que são capazes de mudar de opinião tantas vezes que ela própria muda…
Porque as pessoas dotadas de finura observam melhor e com mais cuidado as coisas, mas comentam o que vêem e, a fim de valorizar a sua interpretação e persuadir, não podem deixar de alterar um pouco a verdade… Gostaria que cada qual escrevesse o que sabe e sem ultrapassar os limites de seus conhecimentos
Porque nunca um homem se pode banhar duas vezes nas águas do mesmo rio. A não ser os que não sabem reconhecer que há tantas maneiras de interpretar, que é difícil, qualquer que seja o assunto, um espírito engenhoso não descobrir o que lhe convenha.
Preocupante é, contudo, a circunstância de se manterem os subsistemas de Corte gerados por alguns pretensos super-senadores da República, esses grupos de pressão multiformes que se desdobram pelos bastidores da política, da cultura e da educação. Mais preocupante ainda será a hipótese de todos ou alguns desses fantasmas se federarem numa espécie de sociedade de egoístas, juntando anteriores irmãos-inimigos.
Na verdade, o chamado sector intelectual da Pátria Portuguesa vive uma curioso decadentismo, onde os principais teóricos do situacionismo, isto é, os canalizadores da opinião pública instalada nos grandes meios de comunicação oficiosos, começam já a falar em crise de regime, dado que o actual situacionismo segue a máxima do empirismo organizador de Salazar, segundo o qual o essencial do poder é procurar manter-se, na senda do dito de Mussolini, para quem o dever de qualquer regime é o de durar.
Por mim, prefiro seguir a velha lição liberal de Luís Mousinho de Albuquerque, para quem o princípio único de toda a Política é a Moral. Finanças, interesses materiais, formas de Governo, tudo é adventício, tudo é subordinado a esse princípio único. Tudo são entidades secundárias, tudo são acessórios do edifício da existência social. O valor fundamental é a independência portuguesa e o carácter nacional, importando servir o Estado…o Estado, a República…este dever todo moral, todo patriótico.
Seguindo tal exemplo, importa ser excêntrico a todas as parcialidades, a todas as exclusões, a todas as intolerâncias, para poder ser concêntrico com a nação, para que a nação seja governada para a nação e pela nação. Quer ser governada no interesse de todos, e não no interesse de alguns; quer ser governada pela influência colectiva de todos, e não pela influência exclusiva de uma parcialidade; quer o concurso de todas as virtudes, de todos os talentos, de todas as probidades para presidir aos seus destinos, sem distinção de cores, sem exclusões partidárias.
Por isso, há que assumir uma bandeira nacional, que seja excêntrica a todas as paixões, a todos os ódios, a todas as vinganças, em nome dodesejo do povo que não aspira à governança, mas sim à felicidade. Por um governo representativo, não em nome, mas em realidade. Por um regime, verdadeiro e sincero, para que a nação seja governada com justiça, com verdade e com amor; porque mal dos povos que não são governados com amor, mal das nações que são regidas sem sinceridade.
Podem as nações ter a faculdade de renascer pela reacção contra a força; mas da gangrena moral ninguém ressurge, não é essa gangrena uma das fermentações tumultuosas que transformam uns produtos em outros; é a fermentação pútrida, que destrói radicalmente o ser orgânico, que desagrega, que dispersa os átomos componentes.