Abr 07

Farpas

A obstinação socrática e o seu belo resultado! Ou, como dizia a Drª Manuela Ferreira Leite, o coveiro da pátria. Com dignidade, retirava-se, dado que afundou o país! — com José Teixeira E Melo e 38 outras pessoas.

A única coisa que a classe política dos náufragos discute: qual o meu lugar na lista e quantos é que vamos meter. Porque a coisa está mesmo preta neste tem-te não caias… Telefona ao Relvas, Manel! E não te esqueças de recordar ao Renato Sampaio aquele belo almoço com o Sócrates. E tu, Paulinho, marca lá na agenda a feira da próxima semana…

Ser da classe política ou independente à espera de um convite é a grande azáfama de cerca de cinco mil portugueses entre os capitaleiros da sociedade de corte e os anjos da província que querem bilhete para uma adequada queda. Tudo em nome da defesa do quadrado de muitas vidinhas de subpolíticos profissionais pouco dados ao conselho antigo: vale mais torceres do que quebrares, tu não sabes fazer mais nada!

Analista ou comentador económico é aquele que depois do jogo diz que o resultado era inevitável porque o que tem de ser tem muita força. Raramente diz que o árbitro não deveria ler levado o jogo para prolongamento. E que é inadmissível o desempate por grandes penalidades. Nada digo sobre a história do Calabote que afinal era mera lenda de chocolatinhos.

 

Abr 07

Troika

Almeida Santos, conselheiro de Estado, desmente Bagão Félix, conselheiro de Estado, também desmentido por Carlos César, conselheiro de Estado. Tudo porque Bagão desmentiu José Sócrates. Verdade além dos Pirinéus não coincide com a verdade de três responsáveis do Partido Socialista. Se todos forem falando de acordo com o partido, não há mesmo dignidade para o órgão.

 

Já pisámos o risco do funcionamento regular das instituições. A não ser que o normal seja haver anormais. Glosando Almeida Santos de outras eras: não quero viver num manicómio em autogestão!

 

Seria ridículo que o Presidente pedisse ao PGR para fazer mais um inquérito sobre a fuga de informação. Ainda haveria fuga sobre a fuga…

 

O burlesco seria divertido, caso o fundo não fosse trágico!

 

 

Dirão os especialistas em “marketing”: mais uma vez, Sócrates marcou a agenda!

 

Depois do pronunciamento de Carlos Santos Ferreira, ontem, hoje vai pronunciar-se Ricardo Salgado. Perante Judite de Sousa. Todos os dias, mais uma consulta nos sucessivos divã do regime.

 

Francisco Assis já o admite: “Se porventura a situação se degradar a ponto de termos que encontrar uma solução de ajuda externa é evidente que o deveremos sempre fazer na base de um consenso”. Um problema de simples bom senso.

 

O senhor banqueiro Salgado não tem nenhuma legitimidade para invocar a “unidade nacional” ou o “projecto europeu”. Tem apenas a obrigação patriótica de cumprir o seu dever como banqueiro. O poder da facção lusa da geofinança está subordinado ao poder político. E ele já demonstrou como não tem legitimidade para aí nos dar sentenças. Nem invocando o estatuto de arrependido.

 

Porque sou liberal, quero a política liberta da pressão do banqueirismo. E é também como liberal que invoco o legado de Mouzinho da Silveira, o principal dos criadores do Estado português contemporâneo. Pelo menos na limpeza das receitas e das despesas. Se continuarmos entre empresas de economia mística, continuaremos a nacionalizar os prejuízos e a privatizar os lucros.

 

O vasquinho, no mesmo filme, também dizia: “chapéus, há muitos”. Mas só para os “palermas”. Não é na 25ª hora que alguns conseguem sacudir a água do capote. Não é dignidade do trabalho que nos agrava o défice. São antes os juros da dívida e as PPPs, as contratadas e as clandestinas. Não estou disposto a continuar a pagar sem a necessária democracia fiscal. Também não quero ser protectorado dos banqueiros dos sucessivos regimes.

 

Esta polémica está a colocar em risco o normal funcionamento das instituições e sugere que se sigam os ex-presidentes da República, que têm tido “uma voz superior a estes partidarismos e a este facciosismo”. Estamos a pisar as raias do funcionamento regular das instituições e a pisá-las, sobretudo, num órgão que devia dar o exemplo”. Citando A. Santos, “isto não pode ser um manicómio em auto-gestão” (JAM).

 

Do Bloco ao Bloqueio: “Nunca houve tantos candidatos a secretário-geral do PS como desta vez: foram quatro e normalmente era um só…Se não quiserem fazer coligações com o PS por ser liderado por José Sócrates, quem bloqueará o país será a oposição. Quem bloquear assumirá as responsabilidades”

 

Finalmente, falou o socialista francês, director do FMI e eventual candidato à presidência em Paris, contra a direita. O camarada de Sócrates é claro: “o problema não é tanto a dívida pública como o de financiamento de bancos e a dívida privada, o que o tornam um caso completamente diferente da Grécia”. Os salgados que não nos dêem lições, ao povo, e as PPPs que se amanhem…

 

Como é que eu posso acreditar em banqueiros que, ainda há poucos meses, defendiam o betão pelo betão e tratavam a classe política como meros empregados, enquanto nada diziam de mostrengos que agora são os simples contribuintes a terem que pagar, como no caso de suprapartidos do bloqueio central, bem expressos pelo modelo BPN, onde, à esquerda e à direita, se recrutavam ex-ministros para que a procissão da roubalheira criminosa nos sugasse, repetindo o modelo Alves dos Reis e dos seus impolutos administradores, feitos inocentes inocentes úteis, de acordo com os velhos manuais da psicologia da burla!

 

O problema português não o do esquerdismo ou direitismo, mas dos clássicos burlões cuja lábia nos continua a intrujar! Nem sequer são mafiosos, porque lhes basta a actualização do conto do vigário…

 

Votarei no político que venha ao espaço público declarar: o problema português não é o do esquerdismo ou direitismo, mas dos clássicos burlões cuja lábia nos continua a intrujar! Nem sequer são mafiosos, porque lhes basta a actualização do conto do vigário… Logo, investiguem-me! Aquele que apanhar na minha vida uma só cedência à roubalheira, fique certo que imediatamente me demitirei!

 

 

Apaziguamento, concórdia, acalmação, união sagrada, ministério nacional, concentração, bloco central, convergência alargada, salvação nacional, salvação pública, coligação. Mas apesar de tanto fim e tanto inferno de boas intenções, agora vai tudo, vou sozinho às eleições e depois do cheque endossado, negócio arrumado.

 

O problema político está na desconstrução da linguagem teológica sobre a unidade na diversidade, entre a santíssima trindade laica e a ira divina da ajuda externa que é coisa bem mais prosaica sobre o paga o que deves ao ritmo de “ultimatum” já sem “heróis do mar”…

 

Não foi por alguns, foi só por ele que ele pensava que era o todo e todos tiveram de suspendar a política e voltar à casa, com oikos despote

 

Como disse ontem Carrilho, propaganda hoje é contar-se uma história simples, fingindo que a realidade é ficção e levá-la até à exaustão, com um herói e um vilão, a salvação e o inferno. Digo eu: vivemos em messianismo de telenovela e o povo pode não querer ser autor e continuar como simples auditor. Por mim, prefiro desconstruir, para que venha a verdade em cada um

 

Os contadores de história ainda mandam, entre PECs e FMIs, ao ritmo dos televangelistas, reinventando o “Gegenreich”, o “Anticristo” e a própria antinação, como os derradeiros salvadores deste orgulhosamente sós de má memória. Espero que os socialistas simples não se misturem com este nacionalismo de opereta.

 

Leio mais um comunicado, logo certificado pelo outro, porque antes de o mesmo ser emitido foi negociada a confirmação. Podemos também certificar que um quarto de hora antes do presente situacionismo morrer ele ainda estava bem vivinho com muitos mouros na costa e alguns discursos daquilo que outrora se designou como brigada do reumático.

 

Senhor Presidente da Assembleia da República, Senhor Deputado Jaime Gama, terminou o seu tempo. Últimas palavras, depois de anunciar que não seria candidato na próxima legislatura. Ou o criador reconhecendo o que é efectivamente a sua criatura.

 

Bons foram os discursos de Mota Amaral e de Francisco Assis. Jorge Lacão continuou bem abaixo, ao nível da malhação governamentalista.

 

Depois dos banqueiros, parece que chegou a vez de Merkel… Será que querem mesmo procurar novos feitores?

 

Fim do princípio. Depois do sinal de Lacão, Teixeira dos Santos reconhece que se vai pedir ajuda externa. Sócrates faz comunicação ao país às 20 horas.

 

FEEF/FMI, a coligação vencedora, pré-eleitoral.

 

O que eu disse não foi aquilo que vocês ouviram do que eu disse, eu sempre disse tudo aquilo que não me impede de dizer aquilo que me apeteça dizer. Infelizmente, ainda há quem pense que possa dizer alguma palavra em que possamos confiar!

 

O velho partido que nos trouxe o FMI por duas vezes, chegou à conclusão que não há duas sem três. Aliás o director do FMI é um tal de Strauss Kahn, por acaso camarada da Internacional Socialista. Pode ser um argumento que o nosso JSPS use em seu favor…

 

A teoria mais inspiradora que eu conheço tem a ver com o mexilhão, embora esteja momentaneamente suspensa a apanha dos bivalves, para que o mar enrole na areia e dado que as ondas do mar são brancas e no centro são amarelas, prós coitadinhos dos que nasceram e votaram no vira-o-disco-e-toca-o-mesmo

 

Portugal já entrou na era pós-gâmica da história, mas sem trazermos canela nem fazermos cristãos. Ficámo-nos pelo Cabo das Tormentas, levámos nas trombas do Adamastor e corremos o risco de afundamento se passarmos até diante do Bojador…pesada é a pedra desta jangada, com tantos náufragos famintos!

 

‎Julgo que nunca tivemos muito bom senso. E em vez de ter ou estar era melhor o ser…

 

“Alors, on y va?”…”Allons-y.” Diz o Vladimir para o Estragon no “À Espera de Godot”. Mas afinal “Ils ne bougent pas.” Está tudo no Samuel Beckett. Na peça publicada poucos meses depois de eu ter nascido.

 

‎Depois desta da TVI, consta que a Prisa e o Miguel Paes Amaral já encetaram contactos com a Manuela Moura Guedes para o imediato regresso à estação, dado que foi essa a condição imposta por Henrique Medina Carreira para a entrevista em que explica como não aceitou o convite de Sócrates para suceder a Teixeira dos Santos.

 

Hoje é o fim do Sócrates II. Mas já houve um Sócrates I e é do povo que depende haver um novo heterónimo, tipo Sócrates III, embora ele possa voltar mesmo com outro nome e com outro partido. Preferia vida nova.

 

Sim, sempre o problema da pecuária…

 

Tenho outra solução: um Portugal feito de “portugueses à solta”, em vez de um Estadão em soltura, ou absoluto, sobretudo para gáudio das empresas de regime e a casta bancoburocrática que mantêm estas sucessivas ditaduras da incompetência, dominadas por uma classe política de bonzos, animando jogos florais de endireitas e canhotos…

 

O mal a que chegámos vem da empregomania, do carreirismo cobarde e de órgãos inventados para que se finja o cumprimento de funções.

 

Por outras palavras, os empresários devem apenas ser empresários. Em política, nem sentenças!

 

O “Pingo Doce” anuncia que vai investir em agricultura (Imaginação criadora, para responder a um grupo que foi o principal beneficário deste modelo pós-revolucionário de socialismo de consumo).

 

Não são apenas os investidores que têm direito a ser bem remunerados. Sem dignidade do trablaho não há justiça, palavras que ASS nunca usou.

 

Porque a maior fuga que se nota de Portugal não é de capitais. É de gente, de pessoas concretas, à procura de liberdade

 

Hoje, alguma coisa de novo começa a mexer esta carcaça de conservadores do que está que nem sequer são conservadores do que deve ser

 

Declarações de há minutos de alguém do círculo íntimo: “sempre cumprimos aquilo que prometemos; não pedimos ajuda externa que isso só retrógados anti-europeístas é que não assumem; com efeito, a Europa não é estrangeiros, segundo os tratados e a nossa constituição; e assistência financeira está no âmbito da nossa coerente defesa do Estado Social”.

 

Sócrates cumpre sempre aquilo que diz: «Eu não estou disponível, da minha parte, para governar com o FMI». A 20 de Março de 2011. Eu não lhe li os lábios. Confirmo a lábia.

 

Afinal, ainda voltei. Dizem que a telenovela vai dar os últimos episódios da chamada “Espírito Indomável”. Parece que agora o vilão já está definitivamente em fuga. Mas pode haver reviravoltas. Vou ver que amanhã é só futebol, com a assistência financeira dos que vão agora pedir assistência financeira.

 

 

Dizem que Sócrates vai suspender a liderança do PS, assumindo a plenitude do agir patrioticamente. Só volta no dia 1 de Junho, já com a assistência rascunhada. Também consta que Cavaco vai designar um condomínio directivo para a negociação. Para além de Sócrates, Carlos Carvalhas, Manuela Ferreira Leite e Medina Carreira.

 

‎”Um pedido de assistência financeira…que lamento…mas…me empenharei com toda a minha determinação”. Não sabia que em Bruxelas havia prego, penhores, ou uma casa de crédito popular, como havia na velha Caixa…

 

Depois do Vladimir, fala o Estragon. Para haver diálogo, tem que haver lugares comuns (os “loci” ou “topoi” da velha dialéctica que devia ser sempre o método da democracia). Continuaremos à espera. Preferia fazê-lo por D. Sebastião.

 

“As lideranças que vão estar no congresso são as mesmas que querem integrar as próximas listas e estas são feitas por quem anda à volta do líder e de José Sócrates”. “Os que estão a aguardar apoio para uma candidatura e que a querem até vão apoiá-lo [Sócrates] nos próximos tempos”. Pelo menos até serem conhecidos os resultados das legislativas, nas quais Sócrates será recandidato a primeiro-ministro.

 

A única coisa que a classe política dos náufragos discute: qual o meu lugar na lista e quantos é que vamos meter. Porque a coisa está mesmo preta neste tem-te não caias… Telefona ao Relvas, Manel! E não te esqueças de recordar ao Renato Sampaio aquele belo almoço com o Sócrates. E tu, Paulinho, marca lá na agenda a feira da próxima semana…

 

Ser da classe política ou independente à espera de um convite é a grande azáfama de cerca de cinco mil portugueses entre os capitaleiros da sociedade de corte e os anjos da província que querem bilhete para uma adequada queda. Tudo em nome da defesa do quadrado de muitas vidinhas de subpolíticos profissionais pouco dados ao conselho antigo: vale mais torceres do que quebrares, tu não sabes fazer mais nada!

Abr 06

Hoje é o fim do Sócrates II

Esta polémica está a colocar em risco o normal funcionamento das instituições e sugere que se sigam os ex-presidentes da República, que têm tido “uma voz superior a estes partidarismos e a este facciosismo”. Estamos a pisar as raias do funcionamento regular das instituições e a pisá-las, sobretudo, num órgão que devia dar o exemplo”. Citando A. Santos, “isto não pode ser um manicómio em auto-gestão” (JAM).

Do Bloco ao Bloqueio: “Nunca houve tantos candidatos a secretário-geral do PS como desta vez: foram quatro e normalmente era um só…Se não quiserem fazer coligações com o PS por ser liderado por José Sócrates, quem bloqueará o país será a oposição. Quem bloquear assumirá as responsabilidades”

Finalmente, falou o socialista francês, director do FMI e eventual candidato à presidência em Paris, contra a direita. O camarada de Sócrates é claro: “o problema não é tanto a dívida pública como o de financiamento de bancos e a dívida privada, o que o tornam um caso completamente diferente da Grécia”. Os salgados que não nos dêem lições, ao povo, e as PPPs que se amanhem…

Votarei no político que venha ao espaço público declarar: o problema português não é o do esquerdismo ou direitismo, mas dos clássicos burlões cuja lábia nos continua a intrujar! Nem sequer são mafiosos, porque lhes basta a actualização do conto do vigário… Logo, investiguem-me! Aquele que apanhar na minha vida uma só cedência à roubalheira, fique certo que imediatamente me demitirei!

O problema político está na desconstrução da linguagem teológica sobre a unidade na diversidade, entre a santíssima trindade laica e a ira divina da ajuda externa que é coisa bem mais prosaica sobre o paga o que deves ao ritmo de “ultimatum” já sem “heróis do mar”…

Como disse ontem Carrilho, propaganda hoje é contar-se uma história simples, fingindo que a realidade é ficção e levá-la até à exaustão, com um herói e um vilão, a salvação e o inferno. Digo eu: vivemos em messianismo de telenovela e o povo pode não querer ser autor e continuar como simples auditor. Por mim, prefiro desconstruir, para que venha a verdade em cada um.

Depois dos banqueiros, parece que chegou a vez de Merkel… Será que querem mesmo procurar novos feitores?

Dizem que a telenovela vai dar os últimos episódios da chamada “Espírito Indomável”. Parece que agora o vilão já está definitivamente em fuga. Mas pode haver reviravoltas. Vou ver que amanhã é só futebol, com a assistência financeira dos que vão agora pedir assistência financeira.

Sócrates cumpre sempre aquilo que diz: «Eu não estou disponível, da minha parte, para governar com o FMI». A 20 de Março de 2011. Eu não lhe li os lábios. Confirmo a lábia.

Hoje é o fim do Sócrates II. Mas já houve um Sócrates I e é do povo que depende haver um novo heterónimo, tipo Sócrates III, embora ele possa voltar mesmo com outro nome e com outro partido. Preferia vida nova.

 

Abr 05

O fim do ciclo socrático e o pronunciamento dos banqueiros

Cavaco, finalmente, convoca Conselho extraordinário de todos os principais partidos, parceiros sociais e banqueiros para Belém, ao fim da tarde, apresentando-lhes uma carta mínima de compromisso, a que alguns chamam Pacto Sociedade Civil/Partidos.

O ciclo socrático do teatro de gestão de crises perdeu-se na presente anarquia ordenada. Só um mínimo de patriotismo científico e de humilde sentido de serviço público nos poderia ajudar o regime. Mesmo que não perca, este foi o testamento de um homem que passou. (JAM, O homem que passou, DN, hoje)

Gosto sempre de colaborar com os estudantes da minha velha universidade. A única que é sempre dos meus afectos, como comunidade das coisas que se amam. As que são centros de carreirismo podem ser sucedâneos de hierarquismos e só valem quando imitam a alma da coisa, para quem a compreende. A pátria pertence à mesma essência. Isto é, não pode ter donos (prestei depoimento ao jornal A Cabra).

O desnível a que chegámos: “Perante as declarações do senhor primeiro-ministro só posso dizer que tem um problema de natureza física, como surdez, o que não parece, ou é distraído, o que também não me parece, ou faltou à verdade. Mentiu.” Nota de um conselheiro de Estado-comentador sobre um candidato, chefe do governo.

Tão amigos que eles eram, os antigos parceiros da casta bancoburocrática…na mais recente versão da aliança da dita “esquerda moderna” (assim se autoqualificaram Cavaco e Sócartes) com a efectiva direita dos interesses (a que costuma mudar de feitor, conforme a ameaça de resultados, bem personificada no sucessivo banqueiro de todos os regimes e ciclos políticos). Porque Bancos portugueses não vão dar mais empréstimos ao Estado.

Quem não compreender que os próximos dias serão decisivos para a restauração da república, ou coisa pública, dos portugueses, pode não ser digno dos mínimos de cidadania. Crise sempre foi o espaço que antecede as decisões.

Almeida Santos, conselheiro de Estado, desmente Bagão Félix, conselheiro de Estado, também desmentido por Carlos César, conselheiro de Estado. Tudo porque Bagão desmentiu José Sócrates. Verdade além dos Pirinéus não coincide com a verdade de três responsáveis do Partido Socialista. Se todos forem falando de acordo com o partido, não há mesmo dignidade para o órgão.

Depois do pronunciamento de Carlos Santos Ferreira, ontem, hoje vai pronunciar-se Ricardo Salgado. Perante Judite de Sousa. Todos os dias, mais uma consulta nos sucessivos divã do regime.

Francisco Assis já o admite: “Se porventura a situação se degradar a ponto de termos que encontrar uma solução de ajuda externa é evidente que o deveremos sempre fazer na base de um consenso”. Um problema de simples bom senso.

O senhor banqueiro Salgado não tem nenhuma legitimidade para invocar a “unidade nacional” ou o “projecto europeu”. Tem apenas a obrigação patriótica de cumprir o seu dever como banqueiro. O poder da facção lusa da geofinança está subordinado ao poder político. E ele já demonstrou como não tem legitimidade para aí nos dar sentenças. Nem invocando o estatuto de arrependido.

 

Abr 05

Um novo Pacto Sociedade Civil/ Partidos

A democracia é cara, desde a subvenção pública aos partidos aos próprios custos dos actos eleitorais, mas só será um desperdício se não for um investimento estrutural na cidadania. Logo, as despesas na procura da vontade geral, quando cada um decide conforme fosse o todo, abdicandos dos interesses próprios que costuma manifestar em actos de sondajocracia, que apenas medem a vontade de todos e não pode ser fonte de soberania, serão insuportáveis se o sufrágio for condicionado e não atingir as raias do “fair and free”. Onde o primeiro termo é menos do que o justo, equivalendo apenas a uma exigência de não concorrência desleal, mesmo que a liberdade continue condicionada pela partidocracia vigente. Apesar de tudo, podemos chegar, como já nos aconteceu, à plenitude libertadora de um golpe de Estado sem efusão de sangue, como Karl Popper definia as mudanças democráticas. Basta que as próximas nos tragam “new deal”, um diálogo entre adversários, assente em lugares comuns que nos restaurem a coisa pública, onde o aparelho de poder se abra à sociedade civil, ultrapassando a mentalidade de sociedade de corte, onde certos escolhidos escolhem os que os escolheram, segundo o ritmo das castas, onde a farsa das eleições macrocéfalas seria algo a decepar, neste despesismo sem dor e muita música celestial em que nos vamos gastando.

Abr 05

Farpa

Chegou ao fim o ciclo dos governos minoritários e já não parece ser

possível até uma mera coligação de aritmética parlamentar absoluta.

Daí que a encenação de campanha da entrevista de Socrates tenha

continuado a exagerar, numa visão da essência da política como guerra

entre amigos e inimigos, exagerando na manha da propaganda, no engodo

da ideologia e na invocação autoritária da razão de Estado. Porque

depois do anúncio da nao recandidatura de Zapatero, do abandono da

presidencia do FDP por parte do ministro alemão dos estrangeiros, todo

o equilibrismo da Interessenpolitik em que assentou o negócio do PEC

em Berlim tornou se um vazio. O ciclo socrático do teatro de gestão de

crises perdeu-se na presente anarquia ordenada. Só um mínimo de

patriotismo científico e de humilde sentido de serviço público nos

poderia ajudar o regime. Mesmo que não perca, este foi o testamento de

um homem que passou.

 

Abr 04

Os habituais filósofos da traição

Quem, sendo político, tendo ocupado e ocupando lugares políticos, diz que a culpa é dos políticos, toma, desde logo, uma posição política: serve os que, estando no poder, os nomearam. Outros há que, continuando a procurar a quem servir, apenas traem os que os nomearam. Ambos, não contem com o meu respeito. Gosto muito mais de adversários onde nunca deve haver inimigos.

Por estes dias, quem quiser ser “adesivo” ou “viracasaca” tem lugar assegurado em qualquer primeira página de jornal ou a servir de abertura a telejornal. Aconselho os habituais candidatos a moderação no impulso. Na maior parte dos casos, usam-se e deitam-se fora. Não passam de adereço descartável e nem sequer são aconselháveis para a função.

Os habituais filósofos da traição que costumam emoldurar as comissões de honra de qualquer acto de conquista do poder lá vão fazendo discursos de fazer chorar as pedras da calçada. Sugiro que se faça uma adequada antologia de tais vergonhas naturais, com adequadas notas de cunhas e prebendas com que eles foram dando e recebendo de todos os nossos governos que agoram qualificam como desgovernos…

Presidente mandou que tudo se fizesse pela positiva. Os principais não seguem o conselho. Os secundários dizem que seguem e também aconselham. Vista a coisa de fora, parecemos uns primitivos actuais, copiando o Porto de Pinto da Costa e o Benfica de Vieira, sem árbitros que condicionem as caneladas verbais.

 

Abr 03

Farpas

Estive em retiro, mas não estive fora. Às vezes, só por dentro das coisas é que as coisas realmente são. Aliás, só há bocadinho é que foi possível ler a acta do último Conselho de Estado no “Expresso”. Espero que o Professor Marcelo desenvolva o tema, ao cair da tarde, e aguardo ansioso que se democratize a RGA de todos os comentadores da nossa praça, incluindo os não-alinhados, a que cada vez mais pertenço.

Zapatero não se recandidata. Ministro alemão dos estrangeiros demite-se de presidente do FDP. Por cá, a moda dos ódios da futebolítica propaga-se. Por enquanto, tenho vergonha de gostar de futebol. Espero que a política não se divida entre o campeão e o apagão.

Abr 01

Não chega a aritmética de uma maoria absoluta parlamentar

Muito fui criticado por ter dito que no dia imediato à eleição presidencial entrámos num novo ciclo. Até o meu amigo Carlos Abreu Amorim me zurziu em directo. Afinal, entrámos mesmo. Apenas me apetecia que viesse aquilo que desejei na própria noite das últimas legislativas: um governo intermediário, com os apoios que tiveram os seis provisórios deste regime.

Não chega a aritmética de uma maoria absoluta parlamentar. Importa uma geometria social de consenso, para uma refundação do regime, onde a anterior partidocracia tem de fazer, com humildade, um novo pacto, agora entre a sociedade civil e os partidos, com ideias de obra e consequentes manifestações de comunhão. É o meu desejo de liberal para uma democracia consociativa, sem corporativismos.

Estado consegue financiar-se em leilão extraordinário, mas Fitch corta-nos o rating em três níveis. Aquece, arrefece, aquece, arrefece. São só flexões, com a barriga cheia de gorduras do estadão, pronunciamentos de propaganda e falta de senso. Precisamos de mais nervo e de calcificação dos ossos. Vamos à obra. De organização do trabalho nacional, como diria Ezequiel de Campos.

Mar 31

Neofeudalismo confuciano

Ninguém duvide: o que é bom para as três gargantas, é bom para o partido comunista chinês, embora o inverso da Ilusitânia possa não corresponder ao bem comum. Isto é, para além do preto e do branco, do capitalismo e do comunismo, do fascismo e da democracia, há quem seja especialista no “tertium genus”. Um belo conjunto, participado por ex-governantes, para os quais, quando alguém lhes fala em inteligência, eles puxam logo do livro de cheques e subsídios. As corporações, as companhias e as fundações são entidades civilizadíssimas. Entre nós, assistidas por várias comadres e compadres do país da empregomania e da subsidiocracia, financiam instituições de solidariedade para os pobrezinhos, academias culturais para os ineptos e universidades da terceira e da quarta idade, bem como laboratórios de investigação farmoprotectora para o comprimido azul do elixir da vida eterna. Em Portugal, quem está no poder são os mesmos de sempre: os antigos feitores e capatazes que a cenoura e o chicote salazarentos nos legaram, entre as malhas que o império teceu e entreteceu e os partidos que a pós-democracia pariu, com a rede neofeudal de patronos e encomendados, ditos curadores, conselhos gerais e comissões de honra, entre júris, prémios de carreira e personalidades do ano da casa dos segredos, os que vão gerindo a teia que alguns inocentes úteis, muitos medalhados e outros tantos prebendados vão qualificando com os velhos estigmas inquisitoriais das novas teorias da conspiração. Porque anda meio mundo ao serviço do outro, os que andam de pé atrás enredam-se com os que andam em bicos de pés e quem se lixa é o remediadinho, que é o nome portuguesinho para o pobre do impostado, quando é manifesto que o rei do estadão vai nuzinho e em pelota, com suas vergonhas naturais já sem a parra protectora.