Mai 19

Contra o federalismo neojacobino de uma assembleia única

Porque me acordo quase sempre nas vésperas antigas, entre as quatro e as seis da manhã, raramente consigo apanhar as televisivas ou internéticas emissões que aquecem por volta da meia noite. Não, não estou a referir-me às abstracções de Gianni Bertini, aparecidas em 2004, mas  talvez à tertúlia de ontem, com um ilustre candidato a deputado europeu que, muito à cabeça de lista, se disse federalista à maneira de Mário Soares, qualificando os dois como os únicos que assumem tal posição, mas justificando tal atitude pela defesa de uma constituição europeia, a emitir por uma assembleia europeia constituinte. O senhor candidato, que também ontem se assumiu como cristão progressista, por causa do apoio que dá a um sucedâneo de casamento para os homossexuais, não sabendo também se chegou a assinar a ficha de militante do CDS, por causa do apoio que prestou a Lobo Xavier, está no seu direito de entender a Europa dessa forma neojacobina de baptismo catolaico, mas talvez deva admitir que o mundo das ideias é bem maior do que o espaço do respectivo conhecimento paroquial. Chamo-lhe neojacobino não doloso, porque ele não se eximiu na adjectivação fácil de estalinista, para com um meu antigo professor.

 

 

 

Por outras palavras, pode haver um tertium genus europeísta, um pouco mais girondino do que os frequentadores do clube de Saint-Jacques: os que, não dormindo, como o frère, são federalistas e nacionalistas, repudiando o velho soberanismo e o mais antigo estatismo. E estes podem gostar mais de uma Europa como “nação de nações” e de “democracia de democracias”, não admitindo assembleias únicas de unidimensionalizado figurino, como nos é imposto por esta oligarquia partidocrática transnacional e quase apátrida, para recordar verbosidades certas de De Gaulle, quando procurava o “oui par le non”, em defesa da Europa Decadente. Apenas espero que os incautos, em nome do ódio a Vital Moreira e a José Sócrates, não passem um cheque em branco ao mesmo tipo programático de certo PS, não seguidor das teses de autodeterminação nacional, sempre perfilhadas por Manuel Alegre. Quando a música celestial da espuma dos dias nos faz elevar ao mais do mesmo, entre o PS e o PSD, prefiro continuar a ler Boris Vian. Espuma por espuma, prefiro a das ondas e, de tantas rasteiras de palavra solta, ainda nos vai sair a vitória do Vital. A Europa nunca se fará de um golpe, pai-fundador o disse, ou com a técnica da assembleia dos comprados por Bismarck…

Mai 19

Valha-nos Calvino que bem podia ser santo!

Por outras palavras, certos preconceitos de esquerda que marcam os nossos socialistas acabam por dizer que as coisas só são públicas se o patrão for o Estado, não reparando que o título pode não corresponder ao conteúdo. Não há meio de perceberem que não é o hábito que faz o monge, tal como não é o órgão que gera a função, quando o que interessa é ter o órgão ao serviço da função. Logo, não devemos continuara a julgar que só é público o que mede verticalmente, de cima para baixo, conforme a tradição absolutista do centralismo e do concentracionarismo. Porque, se viajarmos pelo fundamento da velha república romana, notaremos que o máximo da coisa pública estava na horizontalidade dos pactos, nomeadamente quanto à qualificação de uma lei, que só era verdadeiramente pública quando os magistrados a propunham num comício do povo. Com efeito, só é efectivamente público o que reside na horizontalidade dos consensos pactistas. Porque a comunidade é superior ao principado, dado que a república vale mais do que o aparelho de poder e a nação é superior ao Estado. Por outras palavras, não devemos trazer para a praça pública aquilo que, para ser eficaz, não deve sair do espaço da intimidade familiar e, muito menos, passar para o largo do pelourinho. Como jurista que continuo a ser, embora dessa ciência não faça modo de vida, até diria que a melhor sociedade é aquela onde todas as regras são espontaneamente cumpridas, nomeadamente aquela onde as tais questões de consciência não precisam do “casse tête” da guarda, dos manuais e códigos de processo penal e das grades prisionais… Os bons situacionistas encontram-se sempre no sindicato dos elogios mútuos. E a Razão de Estado sempre seguiu a máxima maquivélica, segundo a qual os fins superiores da governação permitem a literatura de justificação dos homens de sucesso. Tudo depende dos exércitos disponíveis e do desespero dominante. Apenas acrescento que em encruzilhadas onde não se vê luz ao fundo do túnel, o populismo é directamente proporcional aos sucedâneos messiânicos, mesmo que usem vestidos fora de moda, mas com muitos lacinhos de tecnocracia… Entretanto, alguns generais têm feito declarações muito críticas sobre o défice de democracia e liberdade no país. Parece que vão além da mera autodefesa corporativa, tendo algo de recado dos pais fundadores do regime face à presente decadência de um sistema que vai amarfanhando o regime. Mais grave parece ser a intenção governamental de lei da rolha, num processo de compressão da liberdade de expressão que também afecta certas secções universitárias, onde alguns conselhos directivos e certas inspecções parecem reduzir instituições marcadas pela honra e pela inteligência a dependerem dos discursos oficiosos da hierarquia verticalista de certo estilo “decretino” e quase hierocrático…

 

Mai 18

Sobre os caçadores de satânicos, demoníacos, maçónicos, pentescostalistas, bruxas e budistas

Como crente que vou sendo, e cada vez menos ateu e menos agnóstico, nada posso ter de anticatólico, antiprotestante, antijudaico, antibudista ou antimuçulmano, mesmo que me reconheça como não adepto da religião dominante em Portugal. Bem pelo contrário! As grandes religiões universais, sobretudo em momentos de cepticismo pouco entusiasmante, são fundamentais para que o fundamentalismo não nos faça tropeçar nas encruzilhadas da decadência. Daí que, ontem, tenha espreitado, com toda a naturalidade, a participação do nosso Fidelíssimo chefe de Estado nas comemorações, procissões e missas do símbolo escultório que o Cardeal Cerejeira colocou na outra banda, saudando, em especial, a postura de reconhecimento popular que a presidente comunista da autarquia almadense assumiu.  Reparei que o senhor duque de Bragança foi transformado por Fátima Campos Ferreira em comentador de assuntos religiosos, mas que o Bispo de Setúbal teve o diplomático cuidado de silenciar referências à relação da dinastia que lhe dá nome com o culto mariano, certamente para não irritar a comissão oficial das comemorações do 5 de Outubro de 1910.  Invocar a aliança do trono e do altar, anteriores a 15 de Maio de 1891 seria tão politicamente incorrecto como homenagear D. Manuel Gonçalves Cerejeira e o seu grande aliado António de Oliveira Salazar , até porque os organizadores das cerimónias de ontem e de anteontem, tão justamente transmitidas em directo pela televisão pública deste Estado laico, não quiseram correr esse risco. Seria quase tão ofensivo quanto montarem uma banca onde poderiam colocar o “Diccionario Enciclopédico de Sectas” organizado pelo dignitário espanhol do Opus Dei, Manuel Guerra Gómez, especialista na detecção da dita “versão maçónica da Ordem de Malta”, bem como no inventário das vinte mil seitas que inundam a ortodoxia, segundo o conceito da Universidade de Navarra, com os consequentes processos difamtórios em tribunais do Estado Espanhol de hoje.  Temo que, do reino da Casa de Áustria, nos voltem a exportar conceitos como este: “uma seita é a chave existencial, teórica e prática dos que pertencem a um grupo autónomo, não cristão, fanaticamente proselitista, exaltador do esforço pessoal e da expectativa de uma mudança maravilhosa, colectiva – da humanidade – do indivíduo ou do homem em uma espécie de super-homem”. Temo que os neotorquemadas aqui se estabeleçam com a respectiva Rede Ibero-Americana de Estudo das Seitas (RIES), para concluirmos guerraticamente que a “nossa época, não menos do que outras e talvez mais que outras, merece apelidar-se demoníaca”. Daí que possam aparecer os habituais caçadores de satânicos, demoníacos, maçónicos, cismáticos, heréticos, pentescostalistas, bruxas e budistas, em nome de um pretenso científico catedrático, assente num qualquer Doutor em Teologia patrística e em Filologia clássica, capaz de concluir pelas vias que nos levam à “busca desenfreada do prazer sexual” ou às “relações peculiares com o Demónio”, bem como à detecção dos praticantes de “el yoga, las artes marciales (aikido, reiki, taichi, etc.) y, sobre todo, el zen, han sido el caballo de Troya que ha facilitado la introducción camuflada del budismo en Occidente”.  Por mim, continuo a reler o processo do Padre António Vieira perante a Inquisição, a ser fiel a Damião de Góis e a preferir Erasmo a Lutero, embora subscreva Fernando Pessoa. Contudo, não deixo de reconhecer que o livro minhoto-coimbrão “A Igreja e o Pensamento Contemporâneo”, de 1924, precede, numa década, o “Caminho” de São Josemaria Escrivá. Para bom entendimento de certa ortodoxia editorial, estas palavras esotéricas devem bastar. Compreendo a causa profunda das vergastadas saneadoras que me dão no lombo certos vendedores de santinhos e sanbentinhos. Para mim, Manuel Guerra era o nome do meu reitor do liceu de Coimbra, o “pulga” de que todos temos saudades, mas que antes da guerra tinha santos de baptismo. Mas esse era professor de matemática e nunca foi editor-mor da ACTIC…

Mai 16

De como Alegre não quis ser vencido na estreiteza dos campos de Alfarrobeira. Os povos continuam disponíveis para a restauração da república

O socialismo social-democrata cá dos reinóis vai reconhecendo a verdade do meio milhão de desempregados, acrescentando que, apesar de se esquecer dos números na algibeira do casaco, a situação é menos má do que a média da União Europeia, onde, embora estejamos na cauda das igualdades sociais, sempre temos belas vistas, olhanenses, olhos à belenenses e boas vistas que perderam as estacas dos loureiros a dias. Vale-nos que os primos do primeiro já conseguem que o expresso volte a dar notícias, fingindo poses de kungfu, quando o sobrinho do tio foi semear magalhães para o jardim do colombo, sem levar vitais nem vitalinos. Por outras palavras, a encruzilhada continua, a situação resiste e a pátria inteira vai continuar a ouvir prédicas de marcelo ao domingo, reprédicas de vitorino à segunda e entrevistas pimba todos os dias, nesta gerontocracia onde manda quem gosta de passar as horas a substituir missinhas por visitas quotidianas aos ginásios de fisiatria, onde reformados, aposentados e pensionistas pensam que ainda podem subir a coqueiros, como se as águas do rio da vida passassem duas vezes no mesmo sítio e da mesma  maneira.

 

Por isso, importa saudar a coragem de Manuel Alegre que, contra muitas previsões, cumpriu a palavra. Primeiro, veio dizer-nos que o PS não se reduz ao Partido de Sócrates, mas que não está disposto a substituir Jaime Gama no parlamento nem António Vitorino na RTP, dado que não se vislumbra como equivalente a Marcelo Rebelo de Sousa e prefere missão mais metapolítica: a de vencer os aparentes ideias conjunturais das sondajocracias, passando para a eternidade do respeito e da confiança públicas. Daí que ele também não tenha optado pela via estreita de um novo partido que o encarcalharia em aparentes retóricas de uma qualquer ideologia de pacotilha. Por outras palavras, Alegre manteve a autenticidade do poeta, a confiança na palavra e a esperança numa eternidade, quando ousou continuar a viver como pensa, sem ter que pensar como depois vai viver.

 

Daqui a alguns anos, ninguém se lembrará das retóricas comicieiras ou comentaristas das nossas carpideiras frustradas que nos enredam em velhices do restelo, para uso de uma gerontocracia  que continua a brincar aos assassinatos morais, típicos da conspiração de avós e netos, onde os jotas são usados para o jogo sujo dos que continuam a rebentar com as bonecas, para verem a palha que elas têm dentro. Isto é, Manuel Alegre, que recentemente estudou o drama do Infante D. Pedro, não deixou que os devoristas que se escondem atrás dos netos de D. João I, o levassem para o desastre de Alfarrobeira, dado que compreendeu que nesse campo ele perderia a natural aliança com as tropas populares do partido dos concelhos, conforme continua a ser exigido pela lei fundamental do reino, contante do discurso de João das Regras nas Cortes de Coimbra de 1385, essa constituição originária que nos deu 1640 e 1820, mas que os contitucionalistas de hoje esqueceram.

 

Em tempos de regafobe, é bom que os devoristas se devorem uns aos outros, para que os resistentes do “polla ley” e “polla grey”, conservem o projecto armilar de passagem do Cabo das Tormentas, mesmo que venham a morrer tentando. Os que têm a fibra multissecular de uma palavra que continuamos a passar, de segredo em segredo, sabem que a espera tanto é esperança como é esfera. Basta que a estratégia volte a dar força ao poder-ser.

 

É evidente que não iria com Alegre para Alfarrobeira, donde aliás poderia sair com a aparente vitória de uma corte reforçada de quinze ou vinte deputados que hoje estão certamente tristíssimos. Alegre é republicano e muitos como eu continuam realistas. Alegre é da esquerda socialista e muitos como eu não são socialistas e, face a esta esquerda, até continuam a dizer-se de direita, embora estejam muito à esquerda da direita cavaqueira e marcelosa, bem como da própria esquerda vitorina ou vitalina. Contudo, os que não vêem, na esquerda contra a direita, uma mera forma de hemiplegia mental, podem superar a estreiteza de horizonte dos sectários e preferem a autoridade ao poder, e a ideia às ideologias. Sabem que vencer pode significar o mero ser vencido, porque nem sempre tem razão quem vence, quando importa ganhar saudades de futuro. Obrigado, Manuel Alegre. Ainda há povo que pode restaurar a República. “Alfarrobeira é uma batalha que não acaba nunca”.

Mai 15

CPLP falha na afirmação da lusofonia, dizem especialistas


Lisboa, 15 mai (Lusa) – A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) está falhando na afirmação conjunta das nações lusófonas no Atlântico Sul, área de crescente importância estratégica, num hemisfério onde o português é a língua mais falada, alertaram especialistas ouvidos pela Agência Lusa.

Para José Adelino Maltez, professor do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), o primeiro problema é a falta de meios da CPLP, mas Portugal também tem um papel em alimentar uma “nova visão do Brasil sobre a África”.

Segundo ele, os portugueses devem aceitar a dar primazia aos brasileiros, “colocando-se no seu devido lugar para poder melhor servir um projeto maior”.

“Somando 200 milhões de brasileiros, com os futuros 50 milhões de angolanos e os futuros 20 milhões de moçambicanos, nós [Portugal] somos um “entrepostozinho” do sul na Europa”, afirmou o professor.

Além disso, Maltez acrescentou que “temos de rever toda a nossa maneira de pensar, como foi expresso de maneira lamentável por todas as reticências em relação ao acordo ortográfico”.

“Parece que não se percebe que [a CPLP] não são os Estados Unidos da Saudade. É a pilotagem do futuro no balanço da globalização. Basta perguntar quanto gasta cada país da CPLP no orçamento”, afirmou o acadêmico.

Apesar das dificuldades, “estamos condenados ao regresso de algum triângulo estratégico Luanda-Lisboa-Bahia/Rio de Janeiro/São Paulo” e o Brasil “tem um papel de destaque” na cena internacional, até porque quando “fala forte nos palcos internacionais está a representar-nos a todos”, afirmou.

Mai 15

O que pode-ser tem muita força, quando, depois do querer de Deus, o homem sonha e a obra vai nascendo

Ontem, ao fim da tarde, na Estrada das Laranjeiras, no auditório da Embaixada do Brasil, tive a honra de poder expressar o meu amor lusíada e de dissertar, um pouco provocatoriamente, sobre essas pluralidades de pertenças que podem pilotar o futuro dos povos que pensam, amam e falam na língua de Camões, Pepetela, Mia Couto e Manuel Bandeira. Aliás, comecei por invocar o facto de meu nome fenício, de um avoengo oriundo da ilha dita refúgio, Melita ou Malta, provindo de uma emigração do século XVIII, onde a maioria da família nem se estabeleceu na Lusitânia, dado que logo passou para o que era então a América Portuguesa. Confesso que sou pouco dado a colóquios, seminários e conferências, sobretudo as que servem de tacos para “papers” e outras miudezas que enchouriçam os “curricula”. Gosto mais de dizer que residi, para além da fase turística do “veni, vidi, vinci”, aprendi e ensinei em universidades e centros de estudo luso-chineses, angolanos, Timorenses, brasilienses, moçambicanos e guineenses, sentindo a terra e o infinito dessas noites lusotropicais, isto é, experimentando aquilo que apenas alguns julgam na super-estrutura do livresco ou do seminaresco. Abraço armilar é do navegar é preciso… Por isso, recordei os velhos projectos de um triângulo estratégico de um Atlântico maior, de um Índico de saudade e de um Pacífico armilar, em íntima aliança com os nossos irmãos hispânicos, da UE ao Mercosul, tentando reprimir certos discursos de justificação do situacionismo lusitano, mistos de neocolonialismo de preconceito e de verbosidades retóricas gerontocolonialistas. Por isso, advogo o eixo que vai de São Paulo do Piratininga a São Paulo de Luanda, como base de poderio para uma CPLP que, além dos afectos dos eternos Estados Unidos da Saudade, tem de ter estratégia, isto é, tem de evitar que as potencialidades se transformem em vulnerabilidades e que as vulnerabilidades se volvam em potencialidades. Daí que a prova de vida de futuro passe pela resposta que todos os CPLPs devem dar a Timor Lorosae, essa pátria de poder-ser que nos voltou a dar sonho, quando o David dos cem guerrilheiros teve um povo aliado em aliança de libertação, contra o Golias de um Exército invasor e ocupante que ocupou o nome de um povo amigo e aliado. Logo, todos os CPLPs têm de fazer com que o Brasil não se esqueça da sua função liderante desta comunidade de sonhos. Porque o que pode-ser tem muita força, quando, depois do querer de Deus, o homem sonha e a obra via nascendo. O telegrama da Lusa sobre o colóquio, apesar de injustamente me destacar, revela apenas um dos ramos da árvore daquela floresta por onde ontem peregrinámos Segundo a Lusa, terei dito que o primeiro problema é a falta de meios da CPLP, mas Portugal também tem um papel em alimentar uma “nova visão do Brasil sobre a África”.  Porque os portugueses devem aceitar a dar primazia aos brasileiros, “colocando-se no seu devido lugar para poder melhor servir um projeto maior”. “Somando 200 milhões de brasileiros, com os futuros 50 milhões de angolanos e os futuros 20 milhões de moçambicanos, nós somos um “entrepostozinho” do sul na Europa”. Além disso, acrescentou que “temos de rever toda a nossa maneira de pensar, como foi expresso de maneira lamentável por todas as reticências em relação ao acordo ortográfico”. “Parece que não se percebe que [a CPLP] não são os Estados Unidos da Saudade. É a pilotagem do futuro no balanço da globalização. Basta perguntar quanto gasta cada país da CPLP no orçamento”. Apesar das dificuldades, “estamos condenados ao regresso de algum triângulo estratégico Luanda-Lisboa-Bahia/Rio de Janeiro/São Paulo” e o Brasil “tem um papel de destaque” na cena internacional, até porque quando “fala forte nos palcos internacionais está a representar-nos a todos”.

Mai 14

Algumas cenas do presente salazarismo dito democrático, em ritmo de pá que já não é porreiro

O estilo dos debates quinzenais no parlamento, nesse pugilato verbalístico de um divino Sócrates contra tudo quanto é diabo oposicionista, onde o clímax foi o regresso do “pá”, mas pouco “porreiro”, depois das rasteiras de Rangel, pouco iluminou os atalhos sombrios que nos conduziram à presente encruzilhada, onde, apesar de todos saberem escrever as frases que hão-de salvar Portugal, nenhum conseguirá salvar mesmo Portugal, dado que voltámos à rotina de uma decadência e da falta de autenticidade. Aliás, os irmãos-inimigos da social-democracia e do socialismo democrático, onde escasseiam os nobres fundadores do regime e abundam os fidalgotes que delapidam a herança, gostam de mascarar-se da rábula do senhor contente e do senhor feliz, adorando que se discuta o regresso do Bloco Central. Acresce que também Portas (Paulo), tal como o PCP e o Bloco de Esquerda são unânimes interesseiros quanto a esse “agenda setting”, o tal que dá ilusões ao comentarismo político quanto à salvação do sistema por estes actores da presente partidocracia. Contudo, quem põe o regime acima destes bonzos, endireitas e canhotos e equaciona como altamente provável a impossibilidade do PS atingir a fasquia da maioria absoluta, começa a espreitar cenários que se aproximam do actual estado de coisas na República Checa.

 

Qualquer observador minimamente atento da nossa história partidária é capaz de compreender que o Partido Socialista não vai acabar se o Licenciado em Engenharia José Sócrates for forçado a pedir a demissão da liderança, se assim o povo o ordenar. Não porque ele corra o risco de ser substituído por Manuel Alegre ou por António José Seguro, mas antes por uma conjugação de esforços que livrem o partido de tipos como Carlos Candal, José Lelo, Augusto Santos Silva e outra tralha socrática, mas sem a habitual síntese cangalheira, como a que poderia receber o nome de Jaime Gama. O PS tem suficiente energia para escolher uma personalidade pouco ávida da personalização do poder e capaz de gerar confiança representativa tanto da respectiva ala esquerda, como da maioria de militantes pouco dados ao negocismo. Basta que esse servidor da ideia de obra consiga poder ser primeiro-ministro num governo de acordo interpartidário com o PSD e o PCP, dado que Portas deve ser condenado a escolher o caminho marginal do Bloco de Esquerda, por serem quiméricos os resultados eleitorais mínimos que lhe permitiriam negociar um acordo de maioria com José Sócrates.

 

Por outras palavras, a partir de Outubro, a democracia portuguesa vai ter resultados eleitorais que a forçarão à procura de uma regeneração que nos livre da demagogia eleitoralista de leis feitas à pressa, onde tanto se procura a criminalização do enriquecimento ilícito, como, no dia seguinte, se permite a imagem do deboche no financiamento partidário. Assim, quando alguns dos nossos companheiros de blogosfera, coerentes no seu anti-socratismo primário, logo se volvem em seguidistas dos bons sinais de mudança vindos do PSD, cá por mim continuo a não estar disposto a passar um cheque em branco a quem ainda não pediu perdão ao povo por ter sido causas dos mesmos vícios que agora cantarola contra o PS. Basta assistir a uma charla de Ângelo Correia, a um discurso de Alberto João ou a um choradinho de Manuel Dias Loureiro, para concluir que algumas andorinhas como Rangel ou certos discursos de Manuela Ferreira Leite ainda não são suficientes para medalhar com confiança um partido que continua a proibir a expressão da vontade popular, nomeadamente num referendo sobre as determinações que a multinacional do PPE impõe à autodeterminação portuguesa.

 

Do PP (Partido Portas), não vale a pena falar: basta a comparação com a energia do PCP e do Bloco de Esquerda. Os porteiros nem sequer conseguiram a autenticidade dos discursos de alguns bispos sobre a crise social e a crise da globalização, perdidos em causas como o securitário e o chauvinismo doces, de que os primos do Bloco Central logo se proveitarão quando acharem conveniente. Até nem conseguiram fazer uma justa defesa da ética do capitalismo democrático, porque cederam ao oportunismo do liberalismo a retalho, subscrevendo a cobardia daquela economia mística e salazarenta que gosta de privatizar os lucros e de socializar os prejuízos. Paulo Portas, o tradutor para português de Novak, esqueceu-se das fichas que então o doutrinavam, quando as associações católicas de empresários tentavam traduzir em vaticanês a ética protestante do capitalismo.

 

Aliás, ainda ontem ouvia o Professor Fernando Rosas, mantendo a sua coerência de marxiano, sublinhar que a esquerda autêntica era o último reduto dessa abstracção chamada Estado, contra os malefícios do mercado, emitindo um discurso que, sem ser de esquerda ou de direita, seria o mais próximo daquele que um Salazar renascido emitiria e até ultrapassaria, denunciando “a fina flor da plutocracia”. Julgo que quase todos os situacionistas de esquerda e de direita não reparam que o Estado a que chegámos já não é apenas o Estado da República dos Portugueses, porque, aqui e agora, a maior parte dos factores de poder já não são nacionais, havendo uma pluralidade de estadualismos, grande parte deles incaptável pelo dever-ser dos constitucionalistas. E não é a regulação estadualista dos portugueses que consegue colmatar a lacuna do vazio de Europa e da falta de uma urgente república universal capaz de controlar a geofinança e a geo-economia.

 

Por mim, que sou liberal e, como tal, defensor de um público e de um político mais eficazes, não situo essa necessidade de distribuição da justiça apenas no fantasma do Marquês de Pombal, de Fontes Pereira de Melo, de Afonso Costa e de Salazar. A regulação que nos falta não cabe no parlamento português, no governo português ou no presidente português. Precisa deles, mas situa-se na supra-estadualidade que só culturas políticas pluralistas, poliárquicas e fedralistas conseguem captar. Tentar matar elefantes com fisgas é gastar energias desnecessariamente. O Estado português é pequeno demais para os desafios da presente crise e utilizá-lo como grande demais para que se esmague a autonomia da sociedade civil é remar contra o tempo e liquidar a hipótese de uma pilotagem do futuro.

Mai 14

Conferência sobre o Brasil

 

Memória 1

O Brasil não é só presidente, mas uma realidade federal, onde tanto contam os Estados como os cinco mil municípios que, numa originalidade constitucional face ao modelo norte-americano, fazem parte da própria federação. E nesta mistura entre federalismo municipalista com poder moderador, surge um oceano político federalista, onde a imaginação continua a ser um elemento que além faz alguma diferença. Até o presidencialismo tem muito a ver com a velha herança imperial, da democracia coroada ou da monarquia republicana, onde os presidentes tentam reassumir esse sentido de pai dos pobres, à imagem e semelhança do Senhor D. Pedro II.

Memória 2
Isto é, para chegar à alma do Brasil, mesmo um português tem que fazer um esforço de conversão interior que o tente compreender, não como terra estranha e estrangeira, mas como algo que, provindo da mesma raiz se reproduziu noutras direcções e com outras gentes, mas a que nos continua a prender uma irmandade de afectos que gera esta profunda comunidade de significações partilhadas que, em paralelo, nos pode permitir caminhar, de nação em nação, para a super-nação futura.

Memória 3

Além, Silvestre Pinheiro Ferreira é mestre, José Bonifácio, um estandarte e até se conta a história de Avelar Brotero, o jurista, não o botânico, o tal que para aqui veio em 1825, depois de uma actividade de magistrado na pátria de origem, e que se transforma no primeiro lente da Faculdade de Direito de São Paulo, onde foi secretário durante quatro décadas.Será que nos esquecemos dele, só porque pediu a nacionalidade brasileira em 1833.Mas mestre Agostinho da Silva sempre exibiu, até morrer, o seu passaporte da terra de Vera Cruz…

Memória 4
É por via destes paradoxos que poucos repararam na reunião cimeira do Brasil, Índia e África do Sul, aqui ocorrida há dias. Este símbolo de uma emergente realidade que pode levar ao estabelecimento de um novo processo de relações entre o Norte e o Sul, com estas três grandes potências a mobilizarem o tertium genumreunido em torno dop grupo dos vinte. Todos querem esquecer as Tormentas e assumir a Boa Esperança.

O Brasil tem a vantagem de se assumir como uma espécie de espelho do mundo inteiro, este cadinho de povos entre o Velho e o Novo Mundo, onde a fome de justiça que se manifesta pode ser o sinal de um amanhã pós-ideológico, sem os falsos messianismos que mercaram o sectarismo do século XX.

 

Memória 5

Todos os dias quando acordo, aqui na residência universitária, vejo da janela uma família que habita sob um oleado, encostado ao parque de estacionamento do “campus”. Mais adiante, vai chagando carroça com um desses saloios dos arredores que vem à cidade vender verduras e fruta. Reparo como o povão destas grandes massas ainda vive em regime de “docta ignorantia”, não entendendo o discurso da elite politiqueira, mesmo a que vai cantarolando a causa operária. Também aqui este zé povinho não entende o exotismo de quem faz desta terra sítio de episódico turismo tropical que procura manconha, espiritismo ou sexo abrasador, quando burgueses e “yuppies” do mundo WASP se embedam de hedonismo terceiromundista, apagando, com dólares, euros e cartões de crédito a ética do puritanismo protesto que os fazem produtores austeros e cidadãos pacatamente silenciosos no dia a dia dos seus cinzentos nórdicos.

Porque o grande espaço deste Estado Continental, sem perspectivas hegemónicas ou expansionistas, apenas está condenado a crescer por dentro, transformando o povão em baixa classe média, mas correndo o risco de se fechar sobre si mesmo, sem assumir a missão que lhe cabe no mundo, que é a de contribuir para a mobilização da comunidade lusíada e, a mesmo tempo, sustentar a solidariedade com o mundo dos hispanos, para que valores universais como a democracia e o pluralismo, não continuem a ser traduzidos pelos calão, do anglo-americano.

Memória 6

 

Muitos esquecem que a mudança da capital de Lisboa para o Rio de Janeiro não ocorreu por pressão de Junot, dado que a mesma era uma alternativa estratégica desde 16140, várias vezes acalentada por D. Pedro II e aparecendo até no Testamento de D. Luís da Cunha como objectivo nacional.

Porque nesta banda lusíada do Atlântico Sul, naquilo que foi a América Portuguesa, sempre se publicaram obras de exílio da Europa Portuguesa. Desde os trabalhos do miguelista José da Gama e Castro, ao primeiro volume dos Ensaios de António Sérgio. Por aqui peregrinaram ilustres nacionalistas místicos de estirpe maçónica, como Jaime Cortesão e Agostinho da Silva ou densencantados do 28 de Maio como Fidelino de Figueiredo. E por cá até morreu Marcello Caetano, semeando discípulos como Ubiratan Borges de Macedo, por acaso ligado familiarmente ao próprio Fidelino.

À esquerda e à direita, entre os sonhos do progresso ou as nostalgias da reacção, o Brasil sempre foi espaço, não de exílio, mas de refúgio e alento para transfigurações e redescobertas da arte de ser português. Sem este espaço de alento, conforto e reconciliação, com doçura tropical, muito do que melhor se produziu entre certos portugueses tinha ficado no limbo das boas intenções. Espero que a vida continue. Navegar é preciso. Viver também.

É que por cá se não cravaram fundas as garras inquisitoriais, ou o clericalismo anticlericalista dos que proíbiram vestes talares ou o toque de sinos. A tolerância é condição ontológica do Brasil. O novo mundo só existiu para que os europeus nele pudessem fugir a perseguições de dogmatismos e fundamentalismos,.

Não consta que nesta banda do mundo tenham emergido os totalitarismos, nem por cá se contabilizam democídios, como os que mataram cerca de 200 milhões de seres humanos no século XX, para que as doutrinas se pudessem martelar.

Memória 7

Bem tenho pensado nesta emergência de um novo mundo lusíada do político e ainda ontem meditava na circunstância da formação do Brasil ter acompanhado a própria emergência do modelo pós-medieva, com Estado e Soberania, coisas que não existiam quando Pedro Álvares Cabral aqui desembarcou, antes de Maquiavel ser ditado postumamente e de Bodin ter teorizado a soberania. Aliás, no âmbito das revoluções demo-liberais do espaço ocidental, as revoluções sul-americanas, ficam situadas depois da inglesa, da norte-americana e da francesa, mas antes da primavera dos povos da Europa Central e Oriental, tendo o Brasil até exportado para Lisboa uma cópia constitucional que, entre nós, durou mais de meio século, nestas trocas e baldrocas políticas que nos fazem irmandade efectiva.

Mandaram-nos para a Lusitânia a Carta Constitucional, o partido dos brasileiros, ou chamorros, vencedor da guerra civil de 1828-1834, e a nossa querida D. Maria II, bem como, depois nos atiraram o positivismo republicano, com os brasileiros Sebastião Magalhães Lima e Bernardino Machado, tal como nós mandámos o Imperador, o Estado Novo e os constitucionalistas de 1976, talvez para compensar a circunstância de os últimos tempos do regime derrubado em 1974, ter sido pautado ideologicamente pelos modelos do Estado de Segurança Nacional de Golbery, para não falarmos nas relações de Gilberto Freyre com o almirante Sarmento Rodrigues, no lusotropicalismo. Está na hora de continuarmos este esforço, agora em conjunto com a própria CPLP. Basta relermos o Padre António Vieira, o José Bonifácio ou o Agostinho da Silva, para percebermos a urgência de superarmos a velha retórica dos Estados Unidos da Saudade, dado que os mesmo deixarão de existir se não fizermos investimentos culturais de povo a povo.

 

Memória 8

Volto a sublinhar como por estas paragens sempre se deu grande destaque à produção internacional de sociologia e de politologia, talve por causa da República Positivista que transformou em lema nacional a divisa de Comte e pôs na bandeira o verde que ele propunha para a salvação da humanidade. Mas talvez tenha sido por causa disso que o lado antipositivista aqui também floresceu, nomeadamente o neotomismo maritainista, bem represemtado pelo fulgor de Alceu Amoroso Lima. Nesta terra de contrastes, a sobrevivência impõe que se pratique o pluralismo e impede a unidimensionalidade, mesmo quando o Estado tem uma doutrina e se transforma numa força que a difunde a partir do vértice.

Confissão

Sou, infelizmente, daqueles que não sabem o que querem nem para onde vão, porque julgo que vale mais a autenticidade da procura, mesmo quando não se acha. Não sou dos que lamentam já não haver doutrinas que tenham força, nessas linhas que davam racionalidade ao pretenso processo histórico que não tinha previsto o fim da URSS e uma globalização com neoliberais e fundamentalistas islâmicos. Chamar caos ao que tem sido o presente baralhar do construtivismo de certas concepções do mundo e da vida talvez seja uma caricatura.

Na principal potência metafísica da Terra, com um abraço armilar

 

 

Reparo como o Brasil é, ao mesmo tempo, a principal potência católica do mundo e o sítio onde há mais espíritas, à Kardec, com direito a banca de divulgação nas universidades ou nos “shoppings”. E também não é por acaso que, por cá, as actividades da maçonaria são tão naturais como o ar que se respira, ao memso tempo que os canais evangélicos nos entram pela casa dentro.

Por outras palavras, esta mistura do português sonhador, à procura do paraíso, com a nostalgia das nações índias, dos afro-descendentes e dos muitos e variados povos das outras partes do mundo, gerou esta complexidade crescente, cada vez mais metafísica. Uma entidade espiritual que, começando por ser o mero mundo que o português criou, se tornou, felizmente, uma criatura liberta do criador que foi e continua a dar novos mundos ao mundo, cumprindo seu destino como comunidade nacional ao serviço do universal, como sítio de passagem para a super-nação futura.

E eu, português antigo, refeito nestas paragens como português à solta, conforme a definição de brasileiro dada por Manuel Bandeira, me revigoro de cosmopolis, sendo quem sempre fui, mas procurando diluir-me em todos os outros, de acordo com o conselho de mestre Gilberto Freyre.

Como heterodoxo lusitano, passível de condenação por heresia, é com uma cumplicidade de afectos plurissecular que assisto a este cadinho de explosões metafísicas que é o Brasil.
Apenas espero que o Brasil sonho tornar-se na principal potência espiritual do mundo. Porque assim o nosso compatriota comum, o Padre António Vieira pode voltar a ter razão.

E que viva o Reino Unido!

 

Além que é aqui continuo neste grande mar do sertão, onde os bandeirantes deram aos locais deste novíssimo mundo os nomes dos ventos de Atlântico Sul, aqui onde navegar é preciso para que viver possa continuar a ser possível, através de uma inevitável submissão para a sobrevivência, através de uma gestão das redes de influência em que se vão fragmentando as teias dos donos do poder. Onde quanto mais localmente feudal se situa o senhorio mais este tem de disfarçar-se de estadão.

 
Muitos esquecem que a mudança da capital de Lisboa para o Rio de Janeiro não ocorreu por pressão de Junot, dado que a mesma era uma alternativa estratégica desde 16140, várias vezes acalentada por D. Pedro II e aparecendo até no Testamento de D. Luís da Cunha como objectivo nacional.

Porque nessa banda lusíada do Atlântico Sul, naquilo que foi a América Portuguesa, sempre se publicaram obras de exílio da Europa Portuguesa. Desde os trabalhos do miguelista José da Gama e Castro, ao primeiro volume dos Ensaios de António Sérgio. Por lá peregrinaram ilustres nacionalistas místicos de estirpe maçónica, como Jaime Cortesão e Agostinho da Silva ou densencantados do 28 de Maio como Fidelino de Figueiredo. E por lá até morreu Marcello Caetano, semeando discípulos como Ubiratan Borges de Macedo, por acaso ligado familiarmente ao próprio Fidelino.

À esquerda e à direita, entre os sonhos do progresso ou as nostalgias da reacção, o Brasil sempre foi espaço, não de exílio, mas de refúgio e alento para transfigurações e redescobertas da arte de ser português. Sem esse espaço de alento, conforto e reconciliação, com doçura tropical, muito do que melhor se produziu entre certos portugueses tinha ficado no limbo das boas intenções. Espero que a vida continue. Navegar é preciso. Viver também.

É que por lá se não cravaram fundas as garras inquisitoriais, ou o clericalismo anticlericalista dos que proíbiram vestes talares ou o toque de sinos. A tolerância é condição ontológica do Brasil. O novo mundo só existiu para que os europeus nele pudessem fugir a perseguições de dogmatismos e fundamentalismos,.

Não consta que nesta banda do mundo tenham emergido os totalitarismos, nem por cá se contabilizam democídios, como os que mataram cerca de 200 milhões de seres humanos no século XX, para que as doutrinas se pudessem martelar.

Por isso, o sonho construtivista de cidades voando para o paraíso, onde Brasília tem algo do sonho de Norton de Matos no Huambo, à procura de uma Nova Lisboa, para se transformar num eventual Rio de Janeiro e que algumas vozes da actual Luanda querem continuar, com a edificação de uma Angólia. Porque a terra que tem por capital uma cidade com nome de São Paulo alimenta algumas das sementes deste desejo de novo mundo e de novo grande espaço para o sonho dos que gostam de navegar no sertão. Viva o Reino Unido!

Foi numa viagem à Índia que Pedro Álvares Cabral descobriu oficialmente a terra brasil, foi por causa do triângulo Portugal, Brasil, Índia que demos novos mundos ao mundo, escapando-nos da tenaz das cruzadas que marcava Roma e a Europa do Norte. Decidimos ir além, baralhando e dando de novo, fugindo, então, à tradicional crise do Médio Oriente. Hoje, entramos na fila dos que costuma tratar os assuntos do Levante com os pés.

 

1. Quando dizemos que Portugal tem oito séculos e meio, estamos a fazer uma interpretação retroactiva da história, estamos a contar uma história que tem mais a ver com a literatura de justificação do presente e com certa saudade de futuro do que a dizer verdade.

 

2. Portugal foi não apenas uma fundação, mas uma sucessão de refundações, porque a continuidade nos segredou que valia a pena assumirmos aquilo que Alexandre Herculano qualificou como a vontade de sermos independentes.

 

3. Eu que, neste meio século, assisti ao Portugal que alguns diziam dos anos do fim, foi-me dado concluir que, apesar de tudo, nos reinventámos, tal como em 1822, depois do traumatismo do fim do Reino Unido, conseguimos navegar na balança da Europa, gerindo dependências e aproveitando marés das interdependências, mas contando, no final do século XIX com a geração do heróis do mar e da reconstrução de mais um ciclo imperial, depois do marroquino, depois do indiano e depois do brasiliense.

 

4. Dizer o que vai ser Portugal daqui a vinte e cinco anos, com algum lume da razão, é muito menos do que vislumbramos do que, sobre Portugal, pode ser dito com algum lume da profecia.

 

5. Por mim, apenas digo que vai continuar a ser reinventado e reidentificado, desde que a geração dos inactivos e enjoados do situacionismo possa dar lugar aos indisciplinadores da nossa tradicional criatividade do abraço armilar.

 

6. Neste sentido, faço parte do partido dos velhos crentes e continuo a defender o quinto-império, o do poder dos sem poder, em que voltarão a reinar as crianças, podendo cumprir-se o máximo do sonho de Portugal que é o diluir-nos em todos os outros, sendo brasileiros, angolanos, moçambicanos ou timorenses.

 

 

 

Foi com emoção que, ontem, tive a honra de conferenciar num dos templos da pátria e da liberdade, no Rio de Janeiro, o Real Gabinete Português de Leitura, fundado há 170 anos por exilados liberais portugueses, agora instalado num edifício neomanuelino, inaugurado em 1887, onde se guarda uma primeira edição d “Os Lusíadas” de 1572, ou o manuscrito do “Amor de Perdição”, que o presidente António Gomes da Costa me permitiu consultar. Porque esta instituição, de matriz azul e branca, isto é, liberal e liberdadeira, ainda vive como pensa, como um pedaço de Portugal à solta, tentando cumprir a ideia maior do abraço armilar, fiel à matriz dos homens livres que a fundaram e sucessivamente recriaram (aqui deixo algumas imagens do espaço e das pinturas que nela se guardam, de Camilo a um quadro de Malhoa sobre a descoberta do Brasil). E não foi por acaso que esta instituição teve a coragem de recordar alguém que, no ano de 1980, teve o seu corpo em câmara ardente nesse local.

 

Prefiro entender os sinais do tempo que nos permitem o diálogo entre homens de boa vontade, que isto da metafísica vai lá mais com esforço próprio do conhecimento modesto sobre verdades supremas e bem menos com sentenças, blogues e sermões mediáticos.

 

 

Por isso, me apetece passear sobre a viagem de mil e quinhentos, quando a armada de Pedro Álvares Cabral carimbou o registo visível da descoberta, antes de rumar ao subcontinente indiano e de deixar o estabelecimento dos portugueses na antiga feitoria chinesa. Porque, na altura, com os flexíveis navios que tínhamos recebido de um verdadeiro choque tecnológico, conseguimos o “abraço armilar”, permitindo que o rei de Portugal e dos Algarves fosse senhor do comércio e da navegação e não dono do estadão, seus domínios e conquistas, contra a geometria habsburguiana da monarquia única de Carlos V que, em 1580, nos apoucou e abocanhou.

 

 

Foi assim que a descoberta do caminho marítimo para todos os cantos do mundo teve prioridade sobre a eventual descoberta, por juncos chineses, da ponta de Sagres. obrigando-os a optar pelas lojas dos trezentos, o contrabando do tabaco e a grande “hackerie”. Porque vivíamos o tempo de Maquiavel, que também foi o tempo de Thomas More e da Utopia, de Erasmo e de Lutero, de D. Jerónimo Osório e de Bodin, dos Jerónimos e de Luís de Camões, onde a Utopia lusitana tinha as sensações do aqui e agora da Ilha dos Amores, desse vale mais experimentá-lo do que julgá-lo, embora continue admitir o julgamento dos que não podem, ou não querem, experimentá-lo. E lá me passeei de Maquiavel para Bodin, para o fim da “respublica christiana”, essa elipse que tinha dois focos (o Papa e o Imperador) e que foi destruída quando o florentino baptizou o Stato e o francês da soberania inventou a teoria conveniente para Henrique IV, libertando-o da dependência de Roma e dos Habsburgos.

 

 

Depressa concluí que tanto o Estado como a Soberania foram os dois principais inimigos do sonho português. E recordo como os “greatpowers” da história nunca tiveram essas algemas: o imperialismo democrático ateniense de Péricles; a “respublica” romana; os projectos de Alexandre executados por portugueses e britânicos; ou o mais recente regresso da república imperial norte-americana aos modelos dos senhorios manuelinos do comércio e da navegação. Porque todos eles foram anti-absolutistas, contra os absolutismos de monarcas, de partidos ou do próprio povo, resistindo em poliarquia. Porque absolutismos sempre foram os poderes em soluto, à solta, mesmo que seja a diarreia dos autoritarismos subestatais em que se enredaram estes pigmeus que invocam Sócrates, sempre mais papistas do que o pretenso papão.

 

 

Os grandes poderes do mundo, que sempre souberam rimar com democracia e consensualismo, nunca caíram nos vícios deste crescente salazarismo dito democrático que o nosso situacionismo vai conjugando, ao exaltar as lendas do estadão e do crescimento governamentalizado do respectivo intervencionismo maizena.

 

 

Por isso, mantenho-me como cidadão do Reino Unido da esfera armilar e quase me apetece voltar a pedir a integração da república portuguesa nos Estados Unidos do Atlântico Moreno, com Cabo Verde e Angola, mas com a capital no Rio de Janeiro. Porque me recordo que foram os brasileiros que fizeram regressar Luanda a este triângulo estratégico. Porque me apetece saudar José Bonifácio, o Padre António Vieira e D. Pedro I, que foi o nosso D. Pedro IV, e que aos dois deu a mesma constituição da democracia da sociedade civil.

 

Estes analistas dos prognósticos depois do apito final das crises, ditos, algumas vezes politólogos das relações internacionais, não há meio de compreenderem que só pela compreensão (Verstehen) podemos voltar a abraçar o armilar. Estão fora do tempo que passa porque não sabem conjugar o no princípio era o verbo do animal de discurso que tem ritmo de eternidade. Até nem sabem que a história, a do processo histórico das utopias e das ideologias, é bem menos verdadeira, no sentido de menos filosófica, do que a poesia. Precisam de ler mais sermões de Bento XVI, embora eu prefira os do Padre António Vieira, de avó mulata, em pleno Maranhão, porque assim me recordo que 1640 teve no Brasil a primeira das consequências, como me ensinou mestre Agostinho.

 

 

 

Nos próximos cinquenta anos continuaremos as escrever muitas frases que hão-de salvar a humanidade, mas a humanidade continuará por salvar. Porque continuaremos a chamar política a certas degerescências que não concebem que o Estado está acima do cidadão, mas que o homem está sempre acima do Estado.

 

Imaginei que, nos próximos cinquenta anos, voltarão os velhos cavaleiros do Apocalipse, como a fome, a peste e a guerra, mas que o homem de sempre, depois da queda, levantar-se-á e continuará a ler Platão, Buda, Confúcio, Cristo, Maomé e Rousseau, não tanto nas letras que matam o espírito, mas nos livros de folhas brancas que foram escritos pela eternidade, por aquele conceito que nos deve fazer reconhecer que a poesia é mais verdadeira do que a história.

 

Quisemos ser anjos, em nome das utopias, mas acabámos por incrementar as bestas.Temo que as utopias nos trarão novos autoritarismos e novos totalitarismos, mas que a força do bem, a beleza de sempre e a eterna sabedoria nos continuarão a mobilizar. Mesmo em tempo de crise, haverá sempre a “spera”, a “sphera” e a “sperança”, conforme a divida da armilar que D. João II deu ao futuro D. Manuel. Tentei apenas exprimir as minhas crenças e as minhas concepções do mundo e da vida, dessa procura do universal pela diferença. Esquecemos os homens como eles são e caímos na estreita perspectiva das ideologias, dos cientismos e da utopias, porque só a partir da humildade de nos reconhecermos como imperfeitos é que poderemos caminhar para a perfeição, atendendo mais às acções dos homens do que às rescpectivas intenções, construtivistas ou planeamentistas.

 

Todos temos, humildemente, que aprender com a ditadura dos factos. As tais realidades que quebraram todos os caixilhos ideológicos que nos tentavam explicar o processo histórico, onde alguns pensavam que a história é que moldava o homem. Todos temos de reconhecer que pode ser o homem a fazer a história, mesmo sem saber que história vai fazendo. Por mim, apenas confio. E, como liberal à Kant, mantenho a esperança dos desesperados. Prefiro assistir a estas reuniões cimeiras, onde dois dos vinte actores falam português e outros dois, castelhano, com seis anglo-saxónicos e apenas um em francês. Julgo que a nova língua universal da aliança de civilizações pode entrar no ritmo da justiça, se a política continuar superior à economia, mas sem que nos esqueçamos que os problemas económicos e financeiros se resolvem com medidas económicas e financeiras, mas não apenas com medidas económicas e financeiras. Acho que, apesar de tudo, depois de amanhã, o mundo vai ficar melhor. Sinto.-me da pátria do Padre António Vieira do Maranhão e do Zé Bonifácio do meu Conselho Conservador.

 

Contudo, se perspectivarmos o Portugal universal, poderíamos dizer, como ensinava Agostinho da Silva, que 1640 teve outra mais importante consequência: permitiu a criação do Brasil, permitiu que as principais energias do independentismo lusíada assentassem no lado de baixo do Equador e que se preparasse a mudança da capital do reino para o Rio de Janeiro, conforme uma estratégia nacional que estava amplamente delineada por D. Pedro II, bem antes de D. João VI. E foi do Brasil que saiu Salvador Correia de Sá para fundar outra cidade de São Paulo, a de Luanda, assim se dando corpo ao novo triângulo estratégico atlântico do oceano lusíada, entre o Rio, Luanda e Lisboa.

Quando a capital de Portugal foi de barco para a América do Sul e desembarcou no Brasil (1808), nessa operação inédita que nos tornou no único país da Europa que já teve a cabeça noutro continente, há duzentos anos. Na altura, a integração europeia obedecia ao ritmo imperialista de Paris, com um italiano afrancesado chamado Napoleone que, só por acaso, não estava casado com a Carla Bruni, embora também já tivesse a intenção de se assumir, pelas parangonas, rei do continente.

 

 

 

Mai 13

O subscretário da propaganda e turismo da ditadura não diria melhor!

Porque o ministro, o porta-voz, o provedor das empresas de trabalho temporário estão onde estava o marquês e o pina manique: estão por cima, são de cima. Contudo, até estão acima do que era a “alteza” dos processadores, dado que atingiram o impune da “majestade”. São um ponto geométrico soberano que paira como satélite abstracto na estratosfera, ensombrando a planície dos súbditos, esses unidimensionalizados opositores a quem vamos dar o nome odiado de “os partidos”. Porque nós, nós, os do partido do governo, nós somos o Estado. E o que nós dizemos tem valor de lei. E nós até estamos dispensados da própria lei que fazemos. Nós e os nossos representantes é que podemos processar e nenhum dos nossos agentes pode ser processado. O Estado são eles, o “lui”, os que passaram para o mandarinato, esquecidos que em democracia o Estado devíamos ser nós, a república, a comunidade, porque os cidadãos inventaram a política para deixarem de ter um dono e apenas entregaram aos ministros, aos deputados e ao porta-voz, um depósito, um “trust” transitório, mantendo o poder original da revolta. Resta saber se o espelho invisível do amiguismo pode apagar todos os vestígios desse corta-fogo discursivo, para que Pilatos continue a lavar as mãos com os falsos credos maquiavélicos do arrependimento do sim-senhorismo. Os donos do poder parecem esquecer que a democracia não é sabermos quem manda, mas como é possível controlar o poder dos mandarins, dos que pegam na mesa do orçamento e convidam certos opositores para comensais, transformando inimigos de ontem em aliados de hoje, para que os aliados de ontem que passaram a dissidentes ou a opositores possam ser devidamente processados no caso de usarem o discurso da racionalidade contra as notas oficiosas do chefe e dos respectivos porta-vozes. Prefiro continuar a ouvir o Amália Hoje, sem discos riscados…

 

Mai 12

Conjugando o abraço armilar, ao ritmo da heresia, contra o intervencionismo do estadão

Observo o Papa em visita à Jordânia e a Israel e noto como um homem de filosofia não consegue ser um homem de teatro e púlpito, embora o compreenda como homem das verdades absolutas da religião, mesmo que seja de uma religião que é mais do que minha, porque, indo por Roma dentro, cheguei aos estóicos, como me recordou Albert Camus. E prefiro entender os sinais do tempo que nos permitem o diálogo entre homens de boa vontade, que isto da metafísica vai lá mais com esforço próprio do conhecimento modesto sobre verdades supremas e bem menos com sentenças, blogues e sermões mediáticos. Europeísmo, por europeísmo, prefiro a bandeira do Padre Vieira e estou a preparar uma intervenção que farei na embaixada do Brasil daqui a poucos dias sobre a minha perspectiva lusitana sobre a teoria do Brasil. Por isso, me passeei sobre a viagem de mil e quinhentos, quando a armada de Pedro Álvares Cabral carimbou o registo visível da descoberta, antes de rumar ao subcontinente indiano e de deixar o estabelecimento dos portugueses na antiga feitoria chinesa. Porque, na altura, com os flexíveis navios que tínhamos recebido de um verdadeiro choque tecnológico sem QREN nem Gago, conseguimos o “abraço armilar”, permitindo que o rei de Portugal e dos Algarves fosse senhor do comércio e da navegação e não dono do estadão, seus domínios e conquistas, contra a geometria habsburguiana da monarquia única de Carlos V que, em 1580, nos apoucou e abocanhou. Foi assim que a descoberta do caminho marítimo para todos os cantos do mundo teve prioridade sobre a eventual descoberta, por juncos chineses, da ponta de Sagres. obrigando-os a optar pelas lojas dos trezentos, o contrabando do tabaco e a grande “hackerie”. E recordo as aulas que dei sobre o tempo de Maquiavel, que também foi o tempo de Thomas More e da Utopia, de Erasmo e de Lutero, de D. Jerónimo Osório e de Bodin, dos Jerónimos e de Luís de Camões, onde a Utopia lusitana tinha as sensações do aqui e agora da Ilha dos Amores, desse vale mais experimentá-lo do que julgá-lo, embora continue admitir o julgamento dos que não podem, ou não querem, experimentá-lo. E lá passei de Maquiavel para Bodin, para o fim da “respublica christiana”, essa elipse que tinha dois focos (o Papa e o Imperador) e que foi destruída quando o florentino baptizou o Stato e o francês da soberania inventou a teoria conveniente para Henrique IV, libertando-o da dependência de Roma e dos Habsburgos. Depressa concluí que tanto o Estado como a Soberania foram os dois principais inimigos do sonho português. E recordei como os “greatpowers” da história nunca tiveram essas algemas: o imperialismo democrático ateniense de Péricles; a “respublica” romana; os projectos de Alexandre executados por portugueses e britânicos; ou o mais recente regresso da república imperial norte-americana aos modelos dos senhorios manuelinos do comércio e da navegação. Porque todos eles foram anti-absolutistas, contra os absolutismos de monarcas, de partidos ou do próprio povo, resistindo em poliarquia. Porque absolutismos sempre foram os poderes em soluto, à solta, mesmo que seja a diarreia dos autoritarismos subestatais em que se enredaram estes pigmeus, sempre mais papistas do que o pretenso papão. E penso-o, principalmente, nesta loucura teórica do desespero do estadão, dito de esquerda ou de direita, quando elas se transformam em mera hemiplegias mentais, para citar Ortega y Gasset, esse espanholito que residiu oficialmente na Avenida 5 de Outubro e que Sócrates tentou há dias balbuciar em comiciês, mas sem garra de autenticidade. Os grandes poderes do mundo, que sempre souberam rimar com democracia e consensualismo, nunca caíram nos vícios deste crescente salazarismo dito democrático que o nosso situacionismo vai conjugando, ao exaltar as lendas do estadão e do crescimento governamentalizado do respectivo intervencionismo maizena. Por isso, mantenho-me como cidadão do Reino Unido da esfera armilar e quase me apetece voltar a pedir a integração da república portuguesa nos Estados Unidos do Atlântico Moreno, com Cabo Verde e Angola, mas com a capital no Rio de Janeiro. Porque me recordo que foram os brasileiros que fizeram regressar Luanda a este triângulo estratégico. Porque me apetece saudar José Bonifácio, o Padre António Vieira e D. Pedro I, que foi o nosso D. Pedro IV, e que aos dois deu a mesma constituição da democracia da sociedade civil. E para homenagear Cavaco, até poderia recordar que o mais fiel amigo dos turquinhos foi o segundo imperador, o D. Pedro II, embora prefira salientar que gosto mais do fazer e estou muito orgulhoso com o curso de turco cujo nascimento influenciei numa secção da universidade pública portuguesa. Estes analistas dos prognósticos depois do apito final das crises, ditos, algumas vezes politólogos das relações internacionais, não há meio de compreenderem que só pela compreensão (Verstehen) podemos voltar a abraçar o armilar. Estão fora do tempo que passa porque não sabem conjugar o no princípio era o verbo do animal de discurso que tem ritmo de eternidade. Até nem sabem que a história, a do processo histórico das utopias e das ideologias, é bem menos verdadeira, no sentido de menos filosófica, do que a poesia. Precisam de ler mais sermões de Bento XVI, embora eu prefira os do Padre António Vieira, de avó mulata, em pleno Maranhão, porque assim me recordo que 1640 teve no Brasil a primeira das consequências, como me ensinou mestre Agostinho.