Mai 11

Um de Agosto de 1938, a revolta continua…

Hoje, há mais para viver do que para dizer, porque a hierarquia dos valores assim o exige. Porque a esperança começa a conjugar-se sem necessidade das mesmas escadarias do hospital, uma, duas, três vezes por dia. Está tudo mais próximo e a recuperação continua. Daí que, espreitando os jornais e as televisões, considere totalmente artificial estas retóricas eleitoraleiras, governamentaleiras, presidencialeiras e politiqueiras. Pior ainda são as literaturas de justificação dos patifes que ainda há semanas tinham como inimigos os principais aliados. Bastou uma compra de votos, uma troca feudal de favores e a cooperação devorista à mesa do orçamento, de acordo com o plano do mais recente espião desempregado que nas horas vagas se costuma dedicar a passar a teoria das conspiração para uma mancha pé-de-página num qualquer jornaleco de província. Sua excelência volta a ter sonho secretarial no ministerialismo que inevitavelmente se vai renovar e tanto faz o social-democrata como o rosa, o comuna como o porteiro, já o vi meter cunhas adversário quando procurava manter o emprego. Por isso, sorrio.

 

 

Vou às aulas já com mais força, apesar dos corredores e finalmente, sem aviso prévio, lá me chegaram as provas de um livro que há mais de dois anos ando no prelo, sem ser por mim culpa, mas pelas volutas que também o fizeram jazer outros tantos anos à porta da decisão orçamental. Vale-me que o tempo beneditino do professor nada tem a ver com o curto-prazo dos maquivélicos detentores de um poder que precisa de ser pactado pelas pequenas e médias oligarquias das assembleias das pequenas e médias oligarquias. Os mandarins passam, as obras trabalham-se, mesmo quando se tem um nome estrangeiro como o meu.

 

 

Ontem espreitei na livraria o recente ficheiro dos condenados pelo salazarismo que Fernando Rosas mobilizou. E lá estava o avoengo que me deu um dos nomes que ainda consta no bilhete de identidade (“Eufrásio”). Confirmei que foi sentenciado em 1 de Agosto de 1938 e vou agora tentar compulsar o processo que não é referenciado no livro, dado que onde não havia organização do PCP e sucedâneos não ficavam registos nas efemérides anti-ditatoriais. Uma pequena revolta local contra o poder estabelecido, se não tivesse escritor, não ficava na história e o nome do sentenciado para mim não é mais um. Em qualquer caso, um obrigado ao Fernando Rosas por me lembrar o combate do Olho Marinho, onde meus avoengos resistiram, mantendo o espírito da Revolta do Grelo das gentes dos Campos de Coimbra de que sou mera consequência. Foi logo a seguir ao que a imagem comemora, o massacre de 1937. E os foros e costumes que defendiam eram umas regras medievais sobre regas e louvados, contra a interferência do estadão e das espingardas da GNR.

Mai 09

Entre São Domingos, Aljustrel e a Panasqueira, com passos trocados, sem a disciplina das correias

Quebrado o velho armístício, as duas correias de transmissão de interesses, pressões e canalizações do nosso situacionismo, continuam os insultuosos bailados de campanha, sem este garboso marcar passo dos restos de estalinismo bombista da revolução por cumprir. Por mim, que sempre prefiria um partido pirata, vou tentando ouvir as palavras da Professora Manuela Magno, as intervenções do Frederico do PPM, ou os ensaios de dinâmica de grupo da Laurinda Alves, em nome do respeito pelo princípio básico da igualdade de oportunidades. Rio-me com a polémica que rodeia o imposto vital, quase tão nebuloso para as massas que vão às feiras, quanto o testamento também vital que o parlamento ontem aprovou na generalidade, graças aos esforços da minha querida amiga Maria de Belém.

 

Noto que, na verdade, há muito pagamos impostos europeus, sem qualquer clandestinidade, como muito bem poderia explicar qualquer especialista em IVA. Porque qualquer transferência de soberania para uma qualquer comunidade política supra-estadual implica a inevitável democracia fiscal desta, apenas lamentando não haver um adequado imposto mundial que bem poderia incidir sobre as transacções bolsistas, conforme propostas de um prémio Nobel que sabe mais economia do que eu. Um qualquer federalista e um qualquer adepto de certos segmentos de república universal não pode desejar outra coisa, caso não padeça do pecado da hipocrisia.

 

Claro que não vou falar da poeira de Dakar, que as notícias transformaram em lama, nas desventuras das briosas avenças, ou naqueles lamentáveis comentários de um juiz sobre o caso da criança russa, onde ele confessou que apenas julgou por papéis fornecidos pelos burocratas do apoio social. Se a administração da justiça em nome do povo não resistir a estas tentações do microfone de “talk show” ao ritmo pimba, tais declarações ombrearão com as bocas dos ministros do trabalho e da justiça sobre a matéria. Isto é, são todas lamentáveis e susceptíveis de mais um choradinho do senhor bastonete dos abacates.

 

Claro que o Professor Vital, ao pisar o risco dos qualificativos serenos e ao confundir o partido concorrente com as zonas de roubalheira, ficou tão excitado que até trocou o Leste com o Oeste alentejanos dizendo que as Minas de São Domingos são as de Aljustrel, talvez porque no subconsciente estavam as da Panasqueira, com a inevitável lembrança das roubalheiras dos romances do volfrâmio de mestre Aquilino Ribeiro, que até rimam com Cova da Beira. Naturalmente, o mais jovem docente Rangel chama um figo a esses jogos florais do espumante da Bairrada e, com o verrinoso da Foz do Douro, mas sem pronúncia à moda do Norte, replicará com nova facada verbal, para que Manuel Alegre conclua, e muito bem, que nenhum deles está a querer discutir o mandato para a Europa que pedem ao povo.

 

Por estas e por muitas outras, somos obrigados a concluir que esta campanha não tem passado de um péssimo filme de série B, dependente das cenas de outras longas metragens, desde o BPN ao longo parto da eleição do novo Provedor de Justiça, dado que os sobreiros do BES, os submarinos e os sucessores do Chaimite ameaçam fazer concorrência de parangonas a Constâncio, a Berardo e ao futuro treinador do Sport Lisboa e Benfica, neste mais do mesmo que nos vai minguando em entusiasmo cívico.

Mai 08

As fotografias erradas da parecerística do nosso processo de desinstitucionalização em curso

Um diário de hoje parece ter tirado, da arca do politicamente incorrecto, um dos segredos mais badalados há décadas de certo bloco central de interesses, onde, aliás, poucos pormenores conheço, a não ser os que me bateram à porta e que foram, naturalmente, porta fora. Destes, apenas recordo que nunca mais poderia falar de certo autarca à  moda do Minho se aceitasse discorrer cientificamente sobre o racismo, depois de uma acusação com que Pacheco Pereira justamente o brindou. Tal como não poderia abrir a boca sobre o persurso político de um antigo ministro do ambiente, se tivesse ousado opinar remunerativamente sobre o Plano Nacional da Água. Ou sobre um outro grande político do PS se caísse na esparrela de teorizar sobre as prisões, como me foi proposto por um ilustre presidente de Conselho Directivo, ex-director-geral do ministério. Não sou intelectual nem nunca tive tentações de intelectuário.

 

Daí achar curiosas as pidescas pesquisas que algumas alimárias têm feito junto de estações de rádio e televisão, bem como junto de certas revistas e jornais, procurando determinar as quantias que recebo pelo comentarismo a que me dedico. Todas as tentativas chegaram à verdade do número zero e desafio quem quer que seja a perder a cobardia das pesquisas da espionite pidesca. Apenas considero o meu publicismo como extensão da vida universitária em prestação de serviço à comunidade, colocando-o no mesmo plano da investigação aplicada que torno disponível nas minhas páginas e portais. Podem consultar até à vírgula a minha declaração de IRS, pelo que desafio todas as universidades a colocarem nas  vitrinas as quantias recebidas por ilustres colegas, não apenas na parecerística, mas, sobretudo, nas alcavalas remunerativas da engenharia de subsídios públicos para a  investigação e viagens de turismo científico, incluindo as que são subsidiadas por certas fundações que com tais instituições públicas têm protocolos.

 

Julgo que muitos mistérios de colaboracionismo seriam desfeitos, incluindo subidas na carreira e protecção  nas subidas de familiares directos dos protocolantes, bem como certas indicações para alguns cargos, todas essas clandestinidades que têm a mesma natureza das zonas ocultas do financiamento partidário, dado que participam, de forma indirecta, neste sistema de compra do poder em sentido amplo. Basta recordar que já Alves dos Reis comprou para o respectivo banco ilustres e catolicíssimos professores universitários, conforme podemos ler no processo, onde um deles se safou graças aos magníficos depoimentos de António de Oliveira Salazar e D. Manuel Gonçalves Cerejeira. O nosso querido sistema derramou as suas faltas de autenticidade não apenas entre deputados e partidocratas, mas por todo o regime, numa operação de desinstitucionalização que sugou a autonomia tanto dos grandes corpos de Estado como das velhas autonomias da sociedade civil.

 

Quem consultar a lista dos membros dos conselhos fiscais e das mesas das assembleias gerais de certos bancos e de importantes grupos económicos confirma a hipocrisia de uma sistema de gamela devorista, onde o público e o privado, irmanados pela empregomania, vivem em conúbio de economia mística, estendendo as suas nebulosas por todos os campos, incluindo o universitário, com este modelo dos conselhos gerais, onde os hierarcas instalados escolhem determinadas figuras da banca e do grande empresariado, para que o bloco central escolha quem os escolheu, em regime de endogamia, é quase tão pouco transparente quantos certos concursos públicos com fotografia. O artigo que hoje aparece no “Diário de Notícias” não é o princípio de muitos outros artigos, porque a armadura do silêncio vai fazer aliar a extrema-esquerda à  extrema-direita com a consequente unanimidade do boicote informativo, que é a alma do negócio desse Olimpo. Aliás, a pedrada nem sequer trouxe as fotografias certas, porque, dos principais, nem sequer há fotografias. Tentem outras zonas de parecerística e consultadoria, como a economia, a finança, as verduras, o ordenamento do território, as lixeiras e muitas engenharias e engenhocas. É um fartar de informações à espera do urgente jornalismo de investigação.

 

Actualizando um dito de certo general espanhol contra Unamuno, não direi, como ele disse, que, quando me falam de inteligência, puxo logo da pistola. Agora, puxam logo do livro de cheques e do cartão de crédito…

Mai 08

Muitos mistérios de colaboracionismo seriam desfeitos

Julgo que muitos mistérios de colaboracionismo seriam desfeitos, incluindo subidas na carreira e protecção  nas subidas de familiares directos dos protocolantes, bem como certas indicações para alguns cargos, todas essas clandestinidades que têm a mesma natureza das zonas ocultas do financiamento partidário, dado que participam, de forma indirecta, neste sistema de compra de poder em sentido amplo. Basta recordar que já Alves dos Reis comprou para o respectivo banco ilustres e catolicíssimos professores universitários, conforme podemos ler no processo, onde um deles se safou graças aos magníficos depoimentos de António de Oliveira Salazar e D. Manuel Gonçalves Cerejeira. O nosso querido sistema derramou as suas faltas de autenticidade não apenas entre deputados e partidocratas, mas por todo o regime, numa operação de desinstitucionalização que sugou a autonomia tanto dos grandes corpos de Estado como das velhas autonomias da sociedade civil. Quem consultar a lista dos membros dos conselhos fiscais e das mesas das assembleias gerais de certos bancos e de importantes grupos económicos confirma a hipocrisia de uma sistema de gamela devorista, onde o público e o privado, irmanados pela empregomania, vivem em conúbio de economia mística, estendendo as suas nebulosas por todos os campos, incluindo o universitário, com este modelo dos conselhos gerais, onde os hierarcas instalados escolhem determinadas figuras da banca e do grande empresariado, para que o Bloco Central escolha quem os escolheu, em regime de endogamia, é quase tão pouco transparente quantos certos concursos públicos com fotografia. Actualizando um dito de certo general espanhol contra Unamuno, não direi, como ele disse, que, quando me falam de inteligência, puxo logo da pistola. Agora, puxam logo do livro de cheques e do cartão de crédito…

Mai 07

Uma folha do meu cadastro, contra canhotos, endireitas e bonzos…

Com tanta gripe porcina e anúncios a papas de farinha de milho, o espaço do comentário político, mesmo quando lírico, fica comprimido por falta de adequados conhecimentos médicos e psicanalíticos. Aliás, um jornal de referência, que gentilmente transporta um comentário que emiti sobre Manuel Alegre, qualifica-me como alguém do centro-direita e inclui, na minha biografia, uma coisa que nunca fui: adjunto de secretário-geral ou secretário-geral de um partido cujo alvará ainda é acenado numa determinada bancada parlamentar. É evidente que este ultimo cargo foi ocupado por um conhecido autarca e agora comentador televisivo das segundas-feiras futebolísticas, o meu querido amigo Fernando, que actualmente é do PSD, tal como o que antecedeu, Vieira de Carvalho. Fora esta correcção, que me permitiria locubrar com mais densidade sobre financiamentos partidários e almoçaradas no “Ti Matilde” dos adjuntos de secretário-geral, detesto ser qualificado como do centro-qualquer-coisita, pelo que prefiro ser mesmo dito de direita, porque é bem mais democrático ocupar este espaço, mesmo quando me sinto à esquerda da actual esquerda, só porque me situo, como me ensinou o professor Miguel Reale, na esquerda da direita, isto é, um liberalão radical do centro excêntrico, sobretudo perante este situacionismo feito de governos de esquerda com mentalidade de direita e de oposições de direita que se dizem da esquerda moderna, dado que de tanto andarmos com preconceitos canhotos, restam os endireitas da demagogia, para que dominem estes nem carne nem peixe que, no PS e no PSD, se devem qualificar como autênticos bonzos.

 

Por esta e por outras, fui reler uma carta minha, datada de 30 de Novembro de 1985. Quase mantenho tudo quanto nela escrevi, numa altura em que Vital Moreira ainda era cunhalista e muitas das gentes que hoje se dizem do centro-esquerda e do centro-direita ainda andavam pela extrema-esquerda e pela extrema-direita, longe dos ministerialismos que hoje os envaidecem e pombalizam. Mesmo deixando transparecer algumas ingenuidades, sobretudo quanto aos neomaquiavélicos e talleyrands, não deixo de publicitar aqui e agora esta folha do meu cadastro:

 

 

Exº Sr. xxx.

 

Porque Deus escreve direito por linhas tortas, os desígnios do “acaso” e o providencial da “necessidade” fizeram eleger V. Exª como Presidente da Comissão Política do yyy, com uma nova equipa directiva, a que tenho a honra de pertencer. Mudança de líder e, porque o estilo é o homem, uma inevitável alteração do discurso ideológico do partido, com redução da chamada sensibilidade liberal à dimensão de mera sensibilidade. Acontece que, no partido, sempre me afirmei como alguém da direita liberal, desde a moção que subscrevi no último congresso a várias intervenções na comissão política e nos conselhos nacionais.

 

Sempre estive próximo das linhas de força do discurso do Dr. Lucas Pires, menos pela amizade que a ele me liga, do que pela identidade de origens e de percurso políticos. Não considerei e continuo a não considerar tal posição como incompatível com o apoio ao Senhor xxx e, muito menos, incompatível com o fazer parte da equipa que V. Exª dirige. Não foi por acaso que, no primeiro conselho nacional depois das últimas eleições, fui um dos primeiros conselheiros a propor expressamente a liderança do Senhor xxx e, simultaneamente a proclamar a minha solidariedade activa para com as posições políticas do Dr. Lucas Pires.

 

Mas para que não surjam equívocos e eventuais acusações de oportunismo, sinto o dever de manifestar-lhe expressamente estas posições. É que podem mudar-se os tempos, mas as “viradeiras” não me fazem mudar de vontade e, muito menos de ideário. Ora, o silêncio pode gerar nebulosas e não queria deixar de clarificar situações, até porque não sei comprometer-me com reservas mentais. Com efeito, apenas aderi ao yyy na sequência do V Congresso, acolhendo-me à sombra da bandeira do nacionalismo liberal. Porque, até então, nunca me seduziu o carisma de Freitas do Amaral (carisma, por carisma, sempre fui sá-carneirista), nem os preconceitos de esquerda do centrismo que afectavam os dirigentes históricos do yyy.

 

….

 

Foram estas as raízes de direita cultural que nos marcaram, permitindo-nos observar a revolução de 1974 como inevitável consequência do império da esquerda. O PREC foi para nós a continuação da resistência e, atirados para o exílio, a prisão, o saneamento ou a simples marginalidade, não pudemos, ou não quisemos, ser actores da encenação partidária ocorrida a partir de 1974. Muitos de nós vieram apenas a reencontrar-se com a política activa através da imaginação criadora do Dr. Lucas Pires, já depois da chamada revolução conservadora ter feito renascer a direita ocidental.

 

A história vivida e a história estudada fez-me anti-revolucionário e o pendor tradicionalista fez-me acentuar o anti-absolutismo. Permaneci de direita e assumi-me como liberal. No meu caso, fui especialmente marcado pelo estudo da história das ideias políticas portuguesas e pela redescoberta do nacionalismo liberal de Garrett, Herculano, Pascoaes e Leonardo Coimbra. E não é por acaso que, conquenta anos antes do Dr. Lucas Pires, já Fernando Pessoa teorizava o nacionalismo liberal. Não se trata evidentemente do neoliberalismo estrangeirado, citador dos Hayeks e outros autores da moda. E muito menos da cedência a qualquer costela jacobina.

 

Considero, aliás, que a nossa direita integralista e salazarista sempre teve preconceitos em convergir com o liberalismo regenerador e o republicanismo conservador, esquecendo que grande parte dos nossos liberais apenas procurou restaurar o consensualismo pré-pombalino. É este o meu “ser de direita liberal”.

 

Marcado pela mesma fonte axiológica que levou à democracia-cristã original, ainda corporativa e hierarquista (não é por acaso que o nosso primeiro partido democrata-cristão se chamou nacionalista); fiel à mesma matriz que gerou a democracia social do pós-guerra, institucionalista e personalista, considero que este fundo permanente de valores pode agora iluminar a sensibilidade liberal, acentuando a luta contra o estatismo, socialista, social-democrata ou simplesmente tecnocrático. É esta a principal frente de combate, depois de outrora ter acentuado o anti-individualismo e o anti-colectivismo.

 

Aquilo que considero como a terceira geração da democracia-cristã, a síntese entre a perspectiva liberal e a perspectiva cristã, por enquanto apenas se prenuncia, ainda sem claros contornos doutrinários. Mas o renascimento liberal e conservador do Ocidente vai impulsionar essa convergência que, nos países de tradição católica como o nosso, revestirá formas diversas das sínteses alcançadas em sociedades marcadas pelo conservadorismo laicista dos partidos liberais clássicos. Nacionalista por princípio e apenas liberal por conclusão, considero que o yyy só se enraizará na sociedade portuguesa quando se portugalizar doutrinariamente.

 

Senti-me no dever de expressar esta minha posição através do presente meio. Julgo que a melhor forma de apoiar o Senhor xxx, para servir o partido e a nação, é não ser xxxista, no sentido de yesman. Não sou catavento doutrinário nem imobilista ortodoxo. Acredito. E uma equipa é tanto mais unida quanto melhor potenciar a integração de diferentes sensibilidades e gerações. Julgo que, na essênciam nada do que aqui afirmo constitui uma novidade para o Senhor xxx. Com todo o respeito e consideração (sic).

 

P.S. 1. Dois anitos volvidos, saí do partido, com o regresso de Freitas do Amaral. Ainda foi antes da queda do muro e até fui deputado à AR quando passava minhas férias de Verão no Valbom dos Gaviões, junto a São Julião de Mateus Álvares. Mas o líder parlamentar, que era adjunto do senhor XXX, só mo disse depois de acabar o período de suspensão do deputado que fui substituir. Na altura, o grupo parlamentar era numeroso: cabia todo num táxi. Mas ainda guardo o cartão de membro desse clube de soberania e o dístico para o parque de estacionamento do palácio. Mais acrescento que não estive quieto durante o PREC e logo a seguir ao 25 de Novembro ainda tive tempo para ser adjunto de um dos gabinetes do governo provisório, como o fui dos três governos eanistas. Mas formal militante de partido, só o fui enquanto ele era oposição. Sempre fui do contra.

 

P.S. 2. Quando saio de uma instituição, saio mesmo, até antes de formalmente sair, especialmente quando ela perde a ideia de obra, não cumpre as regras de processo e entra em vazio de manifestações de comunhão entre os colegas ou campanheiros. Por exemplo: apesar de ter formalmente saído em 1984, nunca saí animicamente da Faculdade de Direito de Lisboa. Tal como da de Coimbra, como aluno, “status” que larguei em 1974. E estas continuam a ser as duas escolas que me fazem pertencer à “alma mater”. Por isso, agradeço as manifestações de comunhão que os colegas e companheiros me transmitiram nestes últimos dias. Mesmo quando as excepções confirmam a decadência..

Mai 07

Porque Deus escreve direito por linhas tortas

Exº Sr. xxx.  Porque Deus escreve direito por linhas tortas, os desígnios do “acaso” e o providencial da “necessidade” fizeram eleger V. Exª como Presidente da Comissão Política do yyy, com uma nova equipa directiva, a que tenho a honra de pertencer. Mudança de líder e, porque o estilo é o homem, uma inevitável alteração do discurso ideológico do partido, com redução da chamada sensibilidade liberal à dimensão de mera sensibilidade. Acontece que, no partido, sempre me afirmei como alguém da direita liberal, desde a moção que subscrevi no último congresso a várias intervenções na comissão política e nos conselhos nacionais.  Sempre estive próximo das linhas de força do discurso do Dr. Lucas Pires, menos pela amizade que a ele me liga, do que pela identidade de origens e de percurso políticos. Não considerei e continuo a não considerar tal posição como incompatível com o apoio ao Senhor xxx e, muito menos, incompatível com o fazer parte da equipa que V. Exª dirige. Não foi por acaso que, no primeiro conselho nacional depois das últimas eleições, fui um dos primeiros conselheiros a propor expressamente a liderança do Senhor xxx e, simultaneamente a proclamar a minha solidariedade activa para com as posições políticas do Dr. Lucas Pires.  Mas para que não surjam equívocos e eventuais acusações de oportunismo, sinto o dever de manifestar-lhe expressamente estas posições. É que podem mudar-se os tempos, mas as “Viradeiras” não me fazem mudar de vontade e, muito menos de ideário. Ora, o silêncio pode gerar nebulosas e não queria deixar de clarificar situações, até porque não sei comprometer-me com reservas mentais. Com efeito, apenas aderi ao yyy na sequência do V Congresso, acolhendo-me à sombra da bandeira do nacionalismo liberal. Porque, até então, nunca me seduziu o carisma de Freitas do Amaral (carisma, por carisma, sempre fui sá-carneirista), nem os preconceitos de esquerda do centrismo que afectavam os dirigentes históricos do yyy.  …. Foram estas as raízes de direita cultural que nos marcaram, permitindo-nos observar a revolução de 1974 como inevitável consequência do império da esquerda. O PREC foi para nós a continuação da resistência e, atirados para o exílio, a prisão, o saneamento ou a simples marginalidade, não pudemos, ou não quisemos, ser actores da encenação partidária ocorrida a partir de 1974. Muitos de nós vieram apenas a reencontrar-se com a política activa através da imaginação criadora do Dr. Lucas Pires, já depois da chamada revolução conservadora ter feito renascer a direita ocidental.  A história vivida e a história estudada fez-me anti-revolucionário e o pendor tradicionalista fez-me acentuar o anti-absolutismo. Permaneci de direita e assumi-me como liberal. No meu caso, fui especialmente marcado pelo estudo da história das ideias políticas portuguesas e pela redescoberta do nacionalismo liberal de Garrett, Herculano, Pascoaes e Leonardo Coimbra. E não é por acaso que, conquenta anos antes do Dr. Lucas Pires, já Fernando Pessoa teorizava o nacionalismo liberal. Não se trata evidentemente do neoliberalismo estrangeirado, citador dos Hayeks e outros autores da moda. E muito menos da cedência a qualquer costela jacobina. Considero, aliás, que a nossa direita integralista e salazarista sempre teve preconceitos em convergir com o liberalismo regenerador e o republicanismo conservador, esquecendo que grande parte dos nossos liberais apenas procurou restaurar o consensualismo pré-Pombalino. É este o meu “ser de direita liberal”. Marcado pela mesma fonte axiológica que levou à democracia-cristã original, ainda corporativa e hierarquista (não é por acaso que o nosso primeiro partido democrata-cristão se chamou nacionalista); fiel à mesma matriz que gerou a democracia social do pós-guerra, institucionalista e personalista, considero que este fundo permanente de valores pode agora iluminar a sensibilidade liberal, acentuando a luta contra o estatismo, socialista, social-democrata ou simplesmente tecnocrático. É esta a principal frente de combate, depois de outrora ter acentuado o anti-individualismo e o anti-colectivismo. Aquilo que considero como a terceira geração da democracia-cristã, a síntese entre a perspectiva liberal e a perspectiva cristã, por enquanto apenas se prenuncia, ainda sem claros contornos doutrinários. Mas o renascimento liberal e conservador do Ocidente vai impulsionar essa convergência que, nos países de tradição católica como o nosso, revestirá formas diversas das sínteses alcançadas em sociedades marcadas pelo conservadorismo laicista dos partidos liberais clássicos. Nacionalista por princípio e apenas liberal por conclusão, considero que o yyy só se enraizará na sociedade portuguesa quando se portugalizar doutrinariamente.  Senti-me no dever de expressar esta minha posição através do presente meio. Julgo que a melhor forma de apoiar o Senhor xxx, para servir o partido e a nação, é não ser xxxista, no sentido de yesman. Não sou catavento doutrinário nem imobilista ortodoxo. Acredito. E uma equipa é tanto mais unida quanto melhor potenciar a integração de diferentes sensibilidades e gerações. Julgo que, na essênciam nada do que aqui afirmo constitui uma novidade para o Senhor xxx. Com todo o respeito e consideração (sic).

Mai 06

Gerontocracia

Este regime de gerontocracia corre o risco de não querer olhar-se ao espelho, para confirmar que tem quase o mesmo tempo de vida que o governo de António de Oliveira Salazar , começado em 1932. Está velho, precisa de tratamento e não chegam as papas e os bolos com que se enganam os tolos. Porque, como me contava um ministro do antigo regime, um dia, Salazar terá recusado a nomeação de um arcebispo para um certo cargo honorífico, invocando a circunstância de ele já ter feito setenta anos. O proponente argumentou que ele estava perfeitamente lúcido. Salazar concordou, mas logo disse que o perigo estaria em ele ficar sem saber quando faria setenta anos outra vez, o que seria terrível para o eclesiástico, porque ninguém teria a coragem de dizer ao mesmo que ele estava apenas no condicional e no futuro imperfeito, que ele já não era o que tinha sido em tempo de pretérito. Por ironia do destino, tanto Salazar como o então jovem ministro esqueceram-se do argumento. Um teve de cair numa cadeira ou numa banheira, o outro acabou por ser Talleyrand do regime seguinte e com esperança de o voltar a ser no próximo, isto é, sem saber conjugar o presente.

Mai 05

A democracia do regime é bem maior do que as curvas e contracurvas do sistema partidocrático que vai gangrenando a república

Os sinais de esperança de hoje são melhores do que ontem, tal como os desta semana superam os da anterior. E quando um choque existencial nos obriga a repensar a hierarquia dos desafios, nem por isso desistimos da banalidade quotidiana, desta espuma do tempo que passa, destas muitas notas de rodapé da futura história, onde os principais actores ainda não compreenderam que podem ser vencidos, mesmo se vencerem. E agradeço aos amigos que, nestes dias, me deram ânimo. Obrigado!

 

Ontem mesmo, recebi mais uma papeleta sobre a qual ainda não posso falar, so bre a qual até tenho vergonha institucional de falar, mais uma notinha pé-de-página que constitui um belo revelador do ódio. Apenas anoto para memória futura. E nada digo. Quem cala não consente, “nihil dixit”, como me ensinou o querido Sebastião do direito romano, quando aprendi a ser jurista, mas cuja qualidade não invoco apesar de dezenas anos de docente da área. Prefiro falar com a Joana mal ela acorda lá no hospital e respirar o ar puro da Primavera que regressa.

 

Mas não desisti de pensar e dar o meu testemunho cívico. Os que me apanharam ontem nas redes hertziana, da TSF ao RCP, repararam que os meus pontos de vista são claro, sobre esta questão dos discuros de Sampaio e Manuela Ferreira Leite sobre o dito bloco central, coisa que aconteceu há mais de um quarto de século e que explodiu em Dona Branca, antes de chegar a época do primeiro Cavaco e de Delors. Por mim, apenas recordo que foi sob tal Bloco que partidariamente militei, na evidente oposição, como seria natural, para continuar em oposição depois de ele ter sido escavacado. Aliás, entre no fim da militância partidária logo após a queda do Muro e da chegada do novo partido-sistema, o cavaquismo laranja, a mãe efectiva do actual cavaquismo socrático.

 

Apenas recordo que, mesmo na história política portuguesa, há mais coligações governamentais pós-eleitorais do que coligações pré-eleitorais, como foi a AD. O primeiro Bloco Central não foi o de Mário Soares (PS) com Mota Pinto, Rui Machete e João Salgueiro (PSD). O primeiro foi o do governo FMI de Soares com Freitas do Amaral, o chamado governo PS/CDS, com Constâncio a ministro das finanças. Logo, o povo é quem mais ordena e os resultados eleitorais que tivermos é que vão determinar que tipo de bloco surgirá. Pode ser um novo Bloco Central como o foi o do primeiro governo de Sócrates, onde Freitas voltou a ministro. Pode ser o Bloco Central actual entre o PS e as forças vivas que gostam da nacionalização dos prejuízos e da privatização dos lucros, a que o BE e o PCP costumam dar o nome de governo de direita e de cedência aos neoliberais.

 

Como pode ser uma coligação com o PSD, o CDS ou o PCP/BE. Pode ser tudo, depende da balança das opções do eleitorado. Se houver uma maioria absolutíssima do PS com o PCP, uma nova liderança do PS está condenada à união de esquerda. Se o PSD e o CDS tivessem uma improvável aritmética de domínio, mesmo que o PS fosse o primeiro, para outro lado deveria o Presidente da República inclinar-se. O resto são golpes de propaganda eleitoral. Convém até não esquecer que, neste ciclo, o primeiro político no activo a falar em Bloco central foi Paulo Pedroso quando regressou, isto é, veio da ala esquerda do PS o regresso do fantasma, que é tão antigo quanto o governo de união sagrada da Primeira República ou os esforços de concentração partidária do crepúsculo da monarquia liberal.

 

Aliás, no dia em que Manuel Dias Loureiro vai voltar a ser parlamentarmente inquirido, nunca nos esqueçamos que ele serviu de acólito ao lançamento das novas entrevistas de António Ferro a novo S que nos manda, agora pela pena de Eduarda Maio. E que outro acólito era aquele advogado a que Francisco Sá Carneiro deu o cognome de ministro da propaganda dos governos presidenciais do eanismo.

 

Porque, aritmética por aritmética, não foi a renovada maioria absoluta que impediu o tabu de Cavaco. Ou a falta de um queijo limiano que obrigou Guterres a abandonar, reconhecendo a situação pantanosa. E a maioria absoluta do actual presidente será sempre maior do que as maiorias que resultarem das próximas eleições paralamentares. Política e confiança pública são bem mais do que medições quantitativas e os actuais partidos, como instituições, são maiores do que as lideranças transitórias que agora os personalizam. Basta recordar que Manuela Ferreira Leite entrou no PSD uma década depois da respectiva fundação e que Sócrates até começou pela JSD.

 

Por outras palavras, os actuais têm mais energias do que as jogadas eleitoralistas do respectivo comando de campanha e a democracia do regime é bem maior do que as curvas e contracurvas do sistema partidocrático que vai gangrenando a república.

Mai 05

O dito Bloco Central foi coisa que aconteceu

O dito Bloco Central foi coisa que aconteceu há mais de um quarto de século e que explodiu em Dona Branca, antes de chegar a época do primeiro Cavaco e de Delors. Por mim, apenas recordo que foi sob tal Bloco que partidariamente militei, na evidente oposição, como seria natural, para continuar em oposição depois de ele ter sido escavacado. Aliás, entre no fim da militância partidária logo após a queda do Muro e da chegada do novo partido-sistema, o cavaquismo laranja, a mãe efectiva do actual cavaquismo socrático. Apenas recordo que, mesmo na história política portuguesa, há mais coligações governamentais pós-eleitorais do que coligações pré-eleitorais, como foi a AD. O primeiro Bloco Central não foi o de Mário Soares (PS) com Mota Pinto, Rui Machete e João Salgueiro (PSD). O primeiro foi o do governo FMI de Soares com Freitas do Amaral, o chamado governo PS/CDS, com Constâncio a ministro das finanças. Logo, o povo é quem mais ordena e os resultados eleitorais que tivermos é que vão determinar que tipo de bloco surgirá.

Mai 04

Por uma unha negra… (comentário publicado no DN, hoje) e mais um acrescento

Os engenheiros da sondajocracia não costumam captar quantitativamente aquelas decisões individuais que surgem em estados de excepção e raramente vislumbram que a unha negra da aritmética de uns escassos dois ou três por cento pode levar Manuel Vilarinho a derrrubar Valle e Azevedo, ou Aznar a ser substituído por um qualquer Zapatero.

 

Os sinais do tempo confirmam que o situacionismo socrático não revela sinais de ter entrado no tal quarto de hora do “encore vivant” de Monsieur de la Palisse. Aliás, o governamentalismo, acirrando o mau gosto de alguns palanques propagandísticos, parece temer menos Manuela Ferreira Leite e muito mais o telejornal de Manuela Moura Guedes, dado que este é o único pé de barro na máquina populista que enreda a presente teledemocracia. E tudo poderá decidir-se com uma viragem na simpatia expressa pelo populismo “radical chic” de Louçã ou pelo eventual anúncio da coligação entre Sócrates e Alegre, dado que a coligação pós-eleitoral entre o PS e o PCP entre em ritmo de 1º de Maio p. p..

 

A grande surpresa pode vir de um crescimento lento, mas constante, do PSD que, com paciência contabilista, tenta usar a persuasão intimista da imagem dramática da respectiva líder, mas que tem contra ela tanto a imagem degradada dos respectivos círculos partidocráticos, como o efeito eucalipto de Cavaco, que acaba por impedir que as expectativas dos revoltados contra o governamentalismo se canalizem para o principal partido da oposição.

 

A unha negra que Sócrates joga não depende apenas da crise internacional, da agressão a Vital Moreira ou da gripe porcina. Depende das contabilidades que ele faz quanto ao processo de desinstitucionalização em curso, naquilo que o PS qualifica como luta contra as corporações. Porque, segundo cálculos do respectivo “staff”, os cem mil professores que foram para a rua podem ser menos valiosos em termos eleitorais do que o mei milhão de mobilizáveis pelo populismo pimba da luta contra as corporações, na lógica que foi desencadeada contra as forças armadas, os médicos, os polícias ou os magistrados.

 

Por outras palavras, a democracia consociativa que vivíamos e a poliarquia que praticávamos foi substituída pelo verticalismo jacobino do ministerialismo e dos seus adjuntos distritais, à boa maneira do cabralismo. E o povão que gosta do Marquês de Pombal e de Oliveira Salazar pode até não se incomodar com estas tretas da autonomia da sociedade civil e dos grandes corpos do Estado que não estão dependentes da administração directa dos secretários de Estado, os directores-gerais e os directores-regionais. Não tarda que qualquer juiz ou professor agragado não esteja a preencher a ficha do SIADAP, dependente de um qualquer director de nomeação administrativa, isto é, dependente de um “boss” e cercado de muitos “boys for the jobs”, para que, depois do Estado da Rosa, vole o Estado Laranja, ou se casem os dois na cor parda do Bloco Central, juntando o jacobinismo de esquerda com o jacobinismo de direita.

 

E se o povo sufragar a coisa, temos o Estado que merecemos, como profetizou o General Eanes…