A coragem e a palavra dada apenas se cumprem entre gente de princípios, entre homens e mulheres livres, os quais raramente coincidem com a chamada gente de poder, entre os que, quando estão aflitos, proclamam que ninguém os amedronta ou ninguém os cala, para, depois do caldo entornado, dizerem que estão de consciência tranquila. Entre a fauna do poder, quase todos consideram que a vida é um jogo, com sucessivos episódios onde, ora se ganha, ora se perde, onde os que hoje perdem, nunca perdem tudo, porque tudo se transacciona com os que lhes sucedem nas meias vitórias. E nestes sucessivos jogos de soma zero da barganha, onde um mais um pode ser igual a menos do que um, raramente se vislumbra aquela mais valia da criação, a que muitos dão o nome de cultura, daquilo que se acrescenta sobre o cru do vazio humano. Outra é a minha concepção do mundo e da vida, talvez mais peninsularmente dramática. Onde não há eternos palcos nem sucessivos jogos, mas uma longa linha de marítimo horizonte, onde sonhar é procurar passar os próprios limites, embora se reconheça a pequenez da nossa dimensão individual, como ser incapaz de captar todos os mistérios da criação. Continuaremos presos entre o lodo e as estrelas, entre o paradoxo de vivermos e morrermos, onde até podemos viver morrendo, se tivermos uma qualquer causa pela qual valha a pena morrermos sem morrermos, inserindo-nos naquelas correntes de ideias que nos dão eternidade além de nós. Que até pode ser soprarmos as cinzas do ódio que recobrem as brasas aviváveis do amor
Um povo de suicidas, a teoria do “Verstehen” e os cacos da não verdade que me caíram na careca
Andei com a minha agenda das efemérides perdida durante alguns dias. Por isso, quando hoje a recuperei, perdida no saco da roupa de mudar, fiquei a tempo de assinalar que se comemora hoje o dia um do mês de Junho, não apenas com o facto de, em 1823, D. João VI retomar o controlo do poder depois da Vilafrancada, como, sobretudo, pela data do suicídio de Camilo Castelo Branco, em 1890. O que levou o nosso grande amigo, Miguel de Unamuno, a atribuir-nos o qualificativo de povo de suicidas. Aliás, na altura o grande mestre espanhol falava na necessidade de uma intra-história, feita pela vida silenciosa de milhões de homens sem história donde vive a verdadeira tradição. Dizia também que os peninsulares são mais apaixonados do que sensuais, mais arbitrários do que lógicos. Lo somos y debemos seguir siendolo.
Esse grande mestre dos paradoxos que tanto defendia a espanholização da Europa como a europeização da Espanha, da mesma maneira como chegou a propor a própria portugalização de Espanha, percebia o que era o sentimento trágico da vida, esse imortal conflito entre a razão e a fé, entre a inteligência e o sentimento, pólos insusceptíveis de conciliação. Porque a fé só será fecunda e salvadora quando tiver por base a luta constante entre o cepticismo racional e a ânsia vital da imortalidade.
É por isso que, neste blogue, prefiro a metáfora e não posso deixar de recordar que ontem, dia 31, se comemorou o dia de 1232 em que o papa Gregório IX canonizou o nosso Fernando de Bulhões, tal como anteontem, dia 3o, no ano de 1431, se recordou Joana d’Arc, por ter sido queimada, e no passado dia 28, além da viagem de Gomes da Costa, quase ninguém referiu ou fez romagem ao santuário da Senhora da Rocha, em Carnaxide, no dia de 1822 em que se deram as aparições outora framosas, porque cerca de um século depois ocorreu Fátima.
Logo, tenho de continuar a falar por metáfora, que é aquilo que me aguenta, neste mundo de gente lúcida onde tento manter a lucidez de ser ingénuo, porque quero viver como penso, sem ter pensar como vivo, dado que sei que importa submeter-me para sobreviver, a fim de conseguir, de seguida, lutar para continuar a viver. Até porque, na prática, a teoria é outra e, de boas intenções, está o inferno cheio.
E lá continuarei a falar por metáforas, no microcosmos e no macrocosmos, utilizando a técnica criativa da analogia que é ir de semelhante a semelhante, para pegar numa folha de árvore e tentar apanhar o todo, através da tradicional técnica da hermenêutica, que é o método epistemológico e de vivência que recebi da velha peripatética, coisa a que os alemães, muito Wissenschaft, chamaram Verstehen, que é prender coisa com coisa, similia ad similia, compreendendo a floresta pela descoberta do que é a alma de uma simples árvore, através dos indícios que me dão os sinais de casca que, por acaso, me caem na careca, sem eu, sequer, ter que os procurar, segundo a técnica da pretensa espionagem. Basta o olho vivo…mas triste.
continuar a falar por metáfora
Logo, tenho de continuar a falar por metáfora, que é aquilo que me aguenta, neste mundo de gente lúcida onde tento manter a lucidez de ser ingénuo, porque quero viver como penso, sem ter pensar como vivo, dado que sei que importa submeter-me para sobreviver, a fim de conseguir, de seguida, lutar para continuar a viver. Até porque, na prática, a teoria é outra e, de boas intenções, está o inferno cheio. E lá continuarei a falar por metáforas, no microcosmos e no macrocosmos, utilizando a técnica criativa da analogia que é ir de semelhante a semelhante, para pegar numa folha de árvore e tentar apanhar o todo, através da tradicional técnica da hermenêutica, que é o método epistemológico e de vivência que recebi da velha peripatética, coisa a que os alemães, muito Wissenschaft, chamaram Verstehen, que é prender coisa com coisa, similia ad similia, compreendendo a floresta pela descoberta do que é a alma de uma simples árvore, através dos indícios que me dão os sinais de casca que, por acaso, me caem na careca, sem eu, sequer, ter que os procurar, segundo a técnica da pretensa espionagem. Basta o olho vivo…mas triste.
O nosso situacionismo, onde volta a dominar o conflito entre o partido dos funcionários e o partido dos fidalgos, como nas rixas de Campo de Ourique de 1803, não repara que falta um adequado partido dos trabalhadores e dos criadores de riqueza, pela mão de obra, pela cabecinha ou pela organização empresarial. Os defensores da feudalidade ou da mera tecnocracia estadual não deixam espaço para os sonhadores do novo reino e do melhor regime, nem que seja o império do espírito, do poder dos sem poder, para podermos coroar as criancinhas. Agostinho da Silva nunca percebeu nada de finanças públicas. O passado e o presente esmagam as saudades de futuro.
Do homem lobo do homem ao homem rato do homem
De vez em quando, reparamos que, se não houver boa cultura e boa educação, a sociedade humana pode regredir, voltando ao nível de continuidade das sociedades animais. Porque, em ambas, existem animais agressivos, marcados por organizações hierárquicas e onde até se distinguem nitidamente os papéis reservados para o masculino e o feminino. Nas sociedades humanas, apenas podemos estabelecer medidas para limitarmos a agressividade, para canalizarmos os respectivos excessos, mas não para a eliminar. Aliás, a chamada democracia não passa de um simples sistema de institucionalização de conflitos e o direito daquele reconhecimento da circunstância de o homem ser um animal de regras, onde as regras só o são porque podem ser desrespeitadas.
Como ensinou Konrad Lorenz, o ser humano é um animal agressivo como todos os outros animais. Não vivemos apenas segundo a fórmula de Hobbes, do homem lobo do homem, mas também segundo o lorenziano acrescento do homem rato do homem, dado que, por vezes, o homem se assemelha ao dito, pois, ao contrário dos animais normais, como o lobo, o homem, tal como o rato, mata os rivais da mesma espécie, ao contrário dos restantes que apenas matam os de espécie diferente, procurando, para os tais da mesma espécie, apenas mantê-los à distância, quando se visa conquistar um simples território alimentar. Porque, em casa onde não há pão, todos ralham e todos têm apetite de rato…
Esta implosão mental que pode preceder a pior das guerra civis que é a guerra civil fria, ou o nosso sindroma de Timor
Basta que nos livremos do sindicato das citações mútuas dos chamados literatos oficiosos e das respectivas seitas de controlo, que tão mal têm feito à cultura viva, como bem o podemos confirmar quando olhamos, numa casa dita de Fernando Pessoa, os efeitos do decretino de um presidente de câmara, aliado ao decretino de outros cretinos, transformando outros pretensos aristocretinos em praga de bustos e arabescos que nos toldam as paredes. Nunca mais lá porei os pés. A memória de Pessoa nunca devia ter caído na feudalização dos amigalhaços do culturalmente correcto, mas de vistas curtas! Basta lembrar-me de conversas que mantive com Reis Ventura sobre os tempos de vida do nosso Camões do século XX. Não pensem, estimados leitores, que sofro do complexo da teoria da perseguição, que me considero vítima ou cordeiro sacrificado pelo actual situacionismo político ou cultural, até porque não sou candidato a qualquer lugar ou a qualquer renúncia. Já renunciei a tudo aquilo que este e anteriores poderes me ofereceram e tenho, nestes momento, suficientes amigos em lugares cimeiros que cederiam a uma qualquer cunha que lhes metesse, incluindo a de a receber, em troca favores que, outrora, lhes prestei. Apenas considero que o poder é cada vez mais incompatível com a autoridade e a parcela desta que conquistei por concurso público, filhos criados e obra experimentada será tanto mais alta quanto menor for o meu transacionismo com as teias deste sobe-e-desce da fama, ou das maiorias de conjuntura que levam alguns aos ministeriais poisos. Também não me considero como dos poucos que se sentem homens livres, porque felizmente me sinto muitísisimo bem acompanhado, não precisando de fazer apelo àquela “consciência tranquila” dos que, tendo rasca na assadura, elaboram os tais discursos de justificação, típicos dos que sofrem um desaire ou um desastre que os leva ao pelourinho da opinião pública. Prefiro continuar a apelar ao bom senso. Quem leu as opiniões que a senhora ministra da educação pré-universitária teve sobre certos professores e viu a reportagem da RTP de ontem sobre a matéria, pode concluir que atingimos um certo ponto sem retorno que nos pode atirar, não apenas para a continuidade desta decadência, mas, sobretudo, para aquele vazio institucional, onde, não havendo ideia de obra, desaparecem as manifestações de comunhão e de nada valem os autores e interpretadores de estatutos e regras heterónomas. Da decadência, sempre podemos sair pela regeneração, produzida pela consciência de crise. Da falta de doutrinas, crenças, valores e princípios, apenas nos podemos iludir com politiqueirices neomaquiavélicas e tacticismos, onde abundam, como cogumelos daninhos, muitos hermeneutas de regras alienígenas, os tais que se vão vendendo em avenças, pareceres e consultas, e a quem chamamos juristas, ou passeando-se nos palcos e bastidores dos holofotes da chamada crítica literária ou artística, a tal dos que, impotentes na sua criatividade, vão ditando, para os outros, aquilo que não sabem fazer, mas que lêem e traduzem de coloridas revistas que, do estrangeiro ou da seita, nos trazem sinais de sítios onde o pensamento ainda têm pátria e onde as pátrias, mesmo que sejam da antipátria, ainda têm pensamento. A pior das crises colectivas não é sermos extintos por uma invasão ou pela bancarrota, mas antes pela implosão mental, que, às vezes, precede a pior das guerras civis que é a guerra civil fria. Basta que os pretensos recriadores das instituições saiam de sua ausência feudalmente presente e, utilizando a técnica gerontocrática da conspiração entre avós e netos, nos decapitem com seus ódios ao presente e ao futuro. Basta que volte a entender-se a droga da revolução como “Prec”, premiando todos os processos de traição intitucional, ou de execrável vindicta, através do discurso faccioso ou demagógico. Compreendo a praga de aracnídeos que nos faz enredar no sindroma de Timor, reparo que, em vez de um Estado Falhado, temos uma comunidade falhada que, muitos dias sofro, em altas horas de um sono sem dormir, consumido pela revolta individual que me dá Norte. Onde a insónia não é a angústia da dúvida, mas apenas a constatação daquilo que tenho vindo a prever e a sentir difusamente nos sinais dos tempos. Já não tenho idade para depressivas revoltas ou para ilusórios encantamentos com os falsos D. Sebastião. Prefiro o sinuoso silêncio ao remorso. Prefiro dizer incomodamente, à cobardia dos que se abstêm, que crises que fazem arder Timor não são causas, mas sintomas, meras consequências das mesmas causas que, também por cá, nos amarfanham e que, de um momento para o outro, poderão explodir em novas pragas de aranhas, mosquitos e borboletas, quando os ovos da podridão demonstrarem que os parasitas nos continuam a corroer por dentro e a ser condecoradores e condecorados de um qualquer 10 de Junho usurpado, sem roteiros de luta pela inclusão.
Do homem lobo do homem ao homem rato do homem
De vez em quando, reparamos que, se não houver boa cultura e boa educação, a sociedade humana pode regredir, voltando ao nível de continuidade das sociedades animais. Porque, em ambas, existem animais agressivos, marcados por organizações hierárquicas e onde até se distinguem nitidamente os papéis reservados para o masculino e o feminino. Nas sociedades humanas, apenas podemos estabelecer medidas para limitarmos a agressividade, para canalizarmos os respectivos excessos, mas não para a eliminar. Aliás, a chamada democracia não passa de um simples sistema de institucionalização de conflitos e o direito daquele reconhecimento da circunstância de o homem ser um animal de regras, onde as regras só o são porque podem ser desrespeitadas.
Como ensinou Konrad Lorenz, o ser humano é um animal agressivo como todos os outros animais. Não vivemos apenas segundo a fórmula de Hobbes, do homem lobo do homem, mas também segundo o lorenziano acrescento do homem rato do homem, dado que, por vezes, o homem se assemelha ao dito, pois, ao contrário dos animais normais, como o lobo, o homem, tal como o rato, mata os rivais da mesma espécie, ao contrário dos restantes que apenas matam os de espécie diferente, procurando, para os tais da mesma espécie, apenas mantê-los à distância, quando se visa conquistar um simples território alimentar. Porque, em casa onde não há pão, todos ralham e todos têm apetite de rato…
O filme do 30 de Maio de 1926, porque todas as revoluções são pós-revolucionárias….
Bernardino Machado indigita Cabeçadas a formar governo, às 11 horas da manhã do dia 30, domingo, depois de convite formulado por Ribeiro de Carvalho.
Às 7 horas da manhã, Ferreira do Amaral, comandante da PSP de Lisboa, toma posse como governador civil interino de Lisboa. Gomes da Costa vai depois dizer que a guarnição de Lisboa não podia bater-se. Aderiu. E Ferreira do Amaral, confessar então querer um governo republicano e uma Constituição. Sem isso, é impossível a paz.
Depois de Cabeçadas endereçar uma carta ao Presidente da República, onde propõe a constituição de um governo de carácter extra-partidário, constituído por republicanos que mereçam a confiança do país, Bernardino logo o nomeia Ministro da Marinha e presidente do Ministério, acumulando interinamente todas as outras pastas. Repete o que fizera Saldanha em 19 de Maio de 1870 e Pimenta de Castro, em 25 de Janeiro de 1915, mas assumindo também os poderes que, antes, cabiam ao rei e ao presidente da república.
Governo de Mendes Cabeçadas (18 dias). Bernardino Machado convida Cabeçadas a formar governo, às 11 horas da manhã de domingo, 30 de Maio. Depois de Cabeçadas endereçar uma carta ao Presidente da República, onde propõe a constituição de um governo de carácter extra-partidário, constituído por republicanos que mereçam a confiança do país, Bernardino logo o nomeia Ministro da Marinha e presidente do Ministério, acumulando interinamente todas as outras pastas. Repete o que fizera Saldanha em 19 de Maio de 1870 e Pimenta de Castro, em 25 de Janeiro de 1915, mas assumindo também os poderes que, antes, cabiam ao rei e ao presidente da república.
Em 30 de Maio de 1926: presidente assume todas as pastas. Nesse mesmo dia é instituído um triunvirato com Cabeçadas na presidência, marinha e justiça. Gomes da Costa na guerra, colónias e agricultura. Armando Humberto da Gama Ochoa (1877-1941) no interior, estrangeiros e instrução.
Em 3 de Junho de 1926: Cabeçadas na presidência e interior; António de Oliveira Salazar (1889-1970) nas finanças; Manuel Rodrigues (1889-1946) na justiça; Gomes da Costa na guerra e colónias; Jaime Maria da Graça Afreixo (1867-1942) na marinha; Carmona nos estrangeiros; Mendes dos Remédios na instrução.
O 1º governo da Ditadura, presidido por Mendes Cabeçadas, tem três fases. Na primeira, em 30 de Maio de 1926, há apenas um Presidente do Ministério.
Na segunda, a partir do dia 31, o mesmo assume todas as pastas e concentra a plenitude do poder executivo, face à renúncia de Bernardino Machado.
Na terceira, desde 2 de Junho, o ministério é repartido por um triunvirato. O mesmo Cabeçadas fica com a marinha e a justiça, Gomes da Costa na guerra, colónias e agricultura, Gama Ochoa no interior, estrangeiros e instrução.
Em 3 de Junho, nova repartição: Cabeçadas na presidência e interior. Oliveira Salazar nas finanças. Manuel Rodrigues na justiça. Gomes da Costa na guerra e colónias. Jaime Afreixo na marinha. Carmona nos estrangeiros. Mendes dos Remédios na instrução. Ezequiel de Campos na agricultura e no comércio.
Ao começo da tarde do dia 30 de Maio sai uma nota da presidência da república anuncia as circunstâncias e Cabeçadas presta compromisso de honra cerca das 20 horas desse dia.
Bernardino Machado, através do seu secretário, Bourbon e Meneses, conferencia no Palácio de Belém, com os majores Ribeiro de Carvalho e Francisco Aragão, tentando também contactar com Brito Camacho que, entretanto, já tinha retirado para Aljustrel.
Na noite do mesmo dia 30, alguns republicanos dirigem-se a casa de Álvaro de Castro, a quem solicitam a resistência. Este, já deitado, levanta-se, e, de pijama, declara: não há nada a fazer. Chega a hora deles. É inútil tudo.
Nessa noite, a população de Lisboa, manifesta-se a favor do novo poder estabelecido. Grita-se morra o partido democrático e clama-se contra o governo de António Maria da Silva. Vitoriam o exército liberal, a República e Gomes da Costa. Até se notam grupos operários que saúdam a chegada da ditadura militar.
Entretanto, Gomes da Costa dá ordem a todas as forças militares para avançarem sobre Lisboa.
Cabeçadas, no dia 31, instala a presidência do governo no ministério da guerra e aqui, cerca das 16 horas, toma posse das restantes pastas ministeriais.
Realiza-se, contudo, a última sessão da Câmara dos Deputados, presidida por Rodrigues Gaspar, a que apenas comparecem 37 deputados. Da mesma forma sucede com o Senado, presidido por Correia Barreto, com 24 senadores. Ambos ainda recebem continência dos soldados da guarda à entrada no Palácio das Cortes. Abrem a sessão, mas logo reconhecem a falta de quorum. Soltam-se ainda, nas duas sessões, uns tímidos vivas à República, com os parlamentares monárquicos calados, mas a cumprirem a sua missão, não faltando um protocolar discurso do senador monárquico João de Azevedo Coutinho que faz o elogio formal de Correia Barreto. Às 16 h e 15 m chega um esquadrão de cavalaria da GNR que encerra as portas do Congresso.
No mesmo dia, Cabeçadas recebe carta de Bernardino Machado, ao retirar-se para a sua residência particular na Cruz Quebrada, onde o Presidente da República renuncia ao cargo de Chefe de Estado, confiando o mesmo ao Ministério em conjunto. Considera que restaurada a ordem pública sem violentas colisões e entregue a constituição de um Ministério Nacional a V. Exª, em quem a República tanto confia, a minha missão está cumprida. Esta carta será publicada no Diário do Governo de 12 de Junho seguinte, para os devidos efeitos.
Cabeçadas lê o processo, considerando que, em conformidade com a Constituição passa a ter a plenitude do Poder Executivo.
Entretanto, chega a Lisboa, no rápido da noite, Pedro de Almeida, delegado de Gomes da Costa, bem como os dois emissários que Cabeçadas tinha enviado ao Norte, Bragança Pereira e José Romão. O comandante, que se encontra junto das tropas bivacadas na Amadora, recebe-os de madrugada, numa reunião alargada a João Maria Ferreira do Amaral e a Oliveira Gomes, comandante da Escola Prática de Infantaria, que chefia as forças estacionadas na Amadora.
No Entroncamento, às 22 horas, já Raúl Esteves e Passos e Sousa congregam cerca de 2 000 homens, postos à disposição de Gomes da Costa que, no Porto, telegrafa aos últimos, dizendo que o governo de Lisboa não merece confiança e atraiçoa o espírito do movimento do Exército… Vou iniciar a marcha sobre Lisboa rapidamente.
Carmona estaciona em Vendas Novas comandando as forças do exército do sul.
Também a 31, o major Ribeiro de Carvalho, ainda apela para que se repita o modelo da Regeneração de 1851, com uma política ampla e de generosa conciliação nacional, reconhecendo que o movimento pode ser útil. Salienta que a vitória da revolução é, antes de mais nada, um triunfo da opinião pública. Os revoltosos venceram porque ninguém estava disposto a sacrificar-se por um governo que não traduzia os votos da nação.
Cabeçadas segue para Coimbra no rápido do Porto, logo de manhã. Gomes da Costa, sai do Porto, a meio da tarde, no comboio Sud, juntamente com o capitão-tenente Armando Humberto da Gama Ochoa, com o mesmo destino (1 de Junho). Têm uma conferência de reconciliação, nessa cidade do Mondego, ao fim da tarde. Dela resulta a nomeação de um triunvirato provisório, com Cabeçadas e Gama Ochoa, até então representante de Gomes da Costa no Porto e seu homem de confiança. Cabeçadas regressa a Lisboa, no rápido da noite, acompanhado por Filomeno da Câmara Melo Cabral e Raúl Augusto Esteves.
Gomes da Costa, que segue no mesmo comboio, desce no Entroncamento. Entretanto, Pedro de Almeida é encarregado de contactar Mendes dos Remédios, Oliveira Salazar e Manuel Rodrigues, para os sondar no sentido de entrarem para o governo.
Cabeçadas chega a Lisboa já de madrugada (2 de Junho). Declara aos jornalistas a constituição de um triunvirato provisório, dado que o ministério definitivo seria formado, depois da chegada de Gomes da Costa a Lisboa, e para o qual seriam convidadas entidades de reconhecido mérito e provada honestidade.
Decreta, então, a distribuição das pastas ministeriais, atribuindo a Gomes da Costa as da guerra, colónias e agricultura, e a Gama Ochoa, as do interior, negócios estrangeiros e instrução (decreto publicados no Diário do Governo do dia 2, mas com a data do dia 1, com Mendes Cabeçadas a assumir-se como Chefe de Estado).
Noutro curioso decreto, em simultâneo, Cabeçadas demite-se a si mesmo: é um caso inédito na história da República: um chefe de Governo demitir-se a si próprio. Sucedera assim porque também é Chefe de Estado (Rocha Martins).
Gomes da Costa sai do Entroncamento e vai para Tancos, donde emite um telegrama a todas as unidades militares, onde declara discordar da atitude de Cabeçadas: comunico, para conhecimento de todos os oficiais, que não estou de acordo com a notícia dos jornais acerca da formação do Ministério, continuando à frente do movimento de carácter exclusivamente militar, para engrandecimento da Pátria e para bem da República e do Exército. Gomes da Costa, General.
Timor, temor, amor, mas sem circo nem intriga
Em Timor, entre o amor e a dor, proclamam os jornais que actualmente “é impossível dizer quem é quem e de que lado está”, até porque o presidente Xanana Gusmão, abrigado nas montanhas, manteve contactos com líderes da força internacional, mas o ministro do Interior, Rogério Lobato, e o chefe da PNTL, Paulo Martins, estão incontactáveis e em local incerto. Já em Lisboa, o ex-vice-presidente da AR e o actual deputado europeu das quatro estações, ambos dirigentes do partido anti-tralha, promoviam um jantar político-universitário-jubilado com a senhora embaixadora de Dili. O país chorava a derrota da Jugoslávia no recente referendo realizado no Montenegro, terra do meu querido Milovan Djilas. Em Timor, entrou em espiral alkatiriana, a ideia de construção do Estado, embora todos os lusíadas esperem que vença a ideia xananista de construção da nação, sem necessidade de advogados petrolíferos contabilizando cadáveres e lendo memórias de Henry Kissinger, porque basta uma conversa com o meu querido Padre Felgueiras, com quem não falo desde os tempos de Cernache, e que bem devia ser ouvido pelos poderes lusitanos, dado que na mentalidade de certos orientais, pretensamente especialistas em oriente, não há convergência, divergência nem emergência da complexidade crescente do bom padre Teilhard de Chardin, mas simples mistura de circo e de intriga, em perpétuo movimento de apoio à canonização de José Maria Escrivá. Prefiro voltar a ler Rui Cinatti ou as recentes reflexões do Professor José Matoso que mantém a sabedoria do silêncio, passeando-se nas ruas de Lisboa. Para mim, ainda há o bem e o mal, segundo o universalismo da concepção do mundo e da vida dos estóicos e dos judaico-cristãos, entre o chamado humanismo laico e o chamado humanismo cristão, sem importação de árvores exóticas que, além de estragarem a paisagem são massas implosivas que provocam incêndios. Porque, do bem e do mal, têm volutas de massa cinzenta, onde a racionalidade finalística da intriga e do circo entra em conflito com a racionalidade axiológica das lealdades básicas.
Testemunho de um velho crente, pré-estadualista e pré-soberanista em dia de memória da luta contra os ortodoxos
Cá por mim, condenado a heterodoxia por fazer parte daqueles velhos crentes que sempre foram cristãos novos, prefiro continuar por aqui, a passear entre as páginas do tempo, embora não possa deixar de assinalar que anteontem, ao fim da tarde, quando dava uma volta pelos becos do meu bairro, encontrei, por acaso, na Rua do Embaixador, um antigo colega meu do curso do IDN de 1985, o senhor D. Duarte, duque de Bragança e que, de conversa em conversa, fomos à procura de um café, assentando-nos nos Queques de Belém, diante do Museu dos Coches, onde, dele, recebi novas sobre a sua última visita a Bissau e da conversa que aí manteve com Nino Vieira, assim se demonstrando como o descendente de D. Pedro IV e de D. Miguel merece o título, no seu eterno sonho do Portugal universal, capaz de vencer o estreito círculo das pequenas sociedades de corte que o tentam fechar na caricatura do reizinho, pretendente ao trono, ele que é dos mais lúcidos críticos que tenho encontrado face a aristocretinos e fidalgotes. O duque de Bragança tem a grandeza da humildade daquela velha nobreza que não tem os tiques da fidalguia, assumindo o essencial da herança que lhe cabe legar ao futuro, aquilo que em português antigo se chama o afecto e que nos leva à lealdade básica face a princípios e a instituições. Aqui lhe deixo o meu testemunho azul e branco, de realista que bem gostaria de realizar a minha máxima ambição política, a de, um dia, ser procurador do povo numas quaisquer Cortes que voltassem a refazer leis fundamentais que dessem à república dos portugueses o símbolo congregante da coroa aberta do rei medieval e renascentista, do pré-estadualismo Maquiaveliano e do pré-soberanismo bodiniano, a fim de nos libertar deste espartilho leviatânico que, depois de conspurcar os ditos Estados Nacionais, continua a fazer apodrecer a própria Europa política, tentada pelo método bismarckiano, napoleónico ou da casa de Áustria. O imaginário da geração que traduziu em calão o Maio 68 ainda não compreendeu que todas as revoluções são pós-revolucionárias Com efeito, o jogo dos grupos de pressão e dos grupos de interesse, nessa manipulação de uma gerontocracia, entretida com a literatura de justificação do poder que alcançou e com o consequente revisionismo histórico, leva a que os restos de universidade que ainda resistem caiam na esparrela das chouriçadas, alimentadas por elementos colonizadores, vindos da partidocracia, das catacumbas da buracratite ou das empresas onde são empregados, usando a universidade para cartão de visitas. É com a angústia do desencanto que revejo palavras e ideias de uma época em que ainda tinha esperança na instituição fundada há vinte e cinco séculos por Platão. Vejo agora que o desencanto é cada vez mais pressionante. Mesmo as eventuais boas intenções do ministro Gago e dos seus compagnons de route se preparam para manter esta instabilidade estatutária, em que costumamos ser férteis, repetindo o erro jacobino de Veiga Simão, que fez uma reforma Pombalista para a não executar, desculpando-se sempre com a circunstância de a criatura se ter liberto do criador. Agora, todos os universitários, os que esperam o prometido pacote decretino do senhor ministro, que quase nos obriga a louvaminhar os novos amanhãs que cantam, sabem, de experiência sofrida, que esse impulso reformista vai ser sucessivamente barganhado em instabilidades e eventuais vazios de poder, até porque este ministro, muito provavelmente, não será o executor da peça com que doirará as respectivas memórias. O conceito indeterminado da bolonhesa, a criação de fundações, as campanhas eleitorais para as curadorias e as reitorias, a dependência de todos os aparelhos dos critérios mínimos de excelência, etc. , redundarão na inevitável guerra de todos contra todos, onde acabarão por gerar uma luta pela sobrevivência no emprego, com a consequente feudalização de um processo que deveria ter uma ideia de obra, claro cumprimento das regras processuais e manifestações de comunhão entre os membros da instituição. A Universidade que sobreviveu à Ditadura, ao PREC e à pós-revolução corre o risco de não aguentar os muitos aprendizes de feiticeiro que ainda não compreenderam que o feitiço se volta sempre contra o desencadeador da tempestade. Julgo que qualquer revolucionário frustrado não consegue, a partir da respectiva frustração, assumir a necessária reforma de uma entidade que caiu nas teias de grupos de pressão e de grupos de interesse. O imaginário da geração que traduziu em calão o Maio 68 ainda não compreendeu que todas as revoluções são pós-revolucionárias e que quer fazer de anjo acaba por se tornar, muitas vezes, num bestial que, depressa, passa à categoria de demónio. Não é a Gago que me refiro. Mesmo que o remodelassem, isso não impediria que fossem contidas as forças de destruição que as respectivas boas intenções desencadearam e que acabarão por fazer prevalecer os fagmentários interesses das muitas árvores que não têm o sentido da floresta. Não tardará muito que entidades com interesses financeiros acabem por aproveitar esta oportunidade de res nullius, para aqui instalarem a racionalidade importada de um novo ensino superior verdadeiramente privado e lucrativo, a que se acolherão os consumidores defraudados pela falta de qualidade da chouriçada que se avizinha, dado que nem sequer podemos recorrar à ASAE e à DECO, porque os produtores da fraude continuam a abusar da respectiva posição dominante no mercado da publicidade enganosa.
Continuam as tolices de avaliólogos, educacionólogos e outros ornitólogos
Se os estudantes e pais se apercebessem como se faz esta engenharia de tira cadeira e põe cadeira, sempre em nome do vamos a ver se consigo aguentar o meu emprego ou o daqueles que eu feudalizo, perceberiam como são poucos os que pensam na missão do que devia ser uma instituição, dotada de uma ideia de obra, de evidentes manifestações de comunhão entre os respectivos membros e de regras estatutárias pautadas pelo espírito e pela letra do Estado de Direito. Os engenheiros curriculares que estão a transformar a universidade num desses falidos centros de planeamento prenhes de estalinistas desempregados, transformados em verbeteiros tecnocratas, em nome da União Europeia, ainda não perceberam que não se fazem omeletas sem ovos, isto é, cursos sem professores e professores sem professarem uma vocação assente na qualidade e na criatividade. Arrebanhando na fotocópia e na Internet uma floresta não digerida de planos e maquetas, muitos traduzem-nos em repetição típica na universidade cartesiana, Pombalista e napoleónica, sem compreenderem que uma universidade não pode ser asfixiada pela mentalidade veiga-simonista dos destruidores do direito à invenção em Portugal. É por isso que, em nome do meu estatuto de professor, autorizado por sucessivos concursos públicos a cumprir um programa que criei em provas para professor associado, para a agregação e para professor catedrático, não considero que tenha de discutir o processo em ritmo de luta sindical, até porque não me considero perseguido, e se alinhasse no processo, seria naturalmente ouvido pelos meus pares. Felizmente, nenhuma das funções que exerço na universidade depende do chamado voto que muitos pedem ao assistente, ao monitor e ao aluno, nessa barganha que finge poder haver democracia numa hierarquia, como a estúpida regulamentação da chamada gestão democrática da autonomia universitária continua a decretar, não reparando que, em nome da dita, se gerou uma oligarquia, não científica nem democrática, que, de feudalismo em feudalismo, até criou essa corporação de reitores e avaliadores, dotada dos seus clericais primazes, onde quem denuncia o esquema fica sujeito ao ostracismo e ao silencioso veto da vindicta, por vezes gerontocrática. Por mim, sinto algum receio de mudar por mudar, para receber o carimbo de vanguardista, mesmo que sob o hábito renovado permaneça o monge de sempre. Prefiro o modelo não geometrizante que marca o ritmo anglo-americano, o que parte do particular para o geral, assenta na experiência e faz “curricula” a partir das produções científicas próprias e dos programas assentes em mais valias publicadas, e não em obediência a vulgatas de más enciclopédias. Por isso, cá vou resistindo e recordando que sei o que são as tolices de avaliólogos, educacionólogos e outros ornitólogos. Até tenho três filhos entre os vinte e os trinta anos e sei o que significam as experiências professorais que os utilizam como cobaias para manias doutorais. Por mim, prefiro combater o desemprego real dos jovens licenciados e seguir o exemplo das universidades que ocupam os primeiros lugares dos “rankings” mundiais, por acaso, produtoras da quase totalidade das listas dos Nobel. Não foi com este método que fizemos a melhor universidade portuguesa de todos os tempos, a que chamaram Escola de Sagres, nem seria assim que se constituiria a NASA. Julgo que continuo a ter razão antes do tempo. E não participo nos bailados que têm a ver com candidaturas ao reitorado e ao reitorado primaz, nem com os mecanismos dos vasos comunicantes que se começam a fazer entre a universidade e a partidocracia, para o Jaquim vá a ministro e o líder político desempregado possa movimentar-se para que o Manel obtenha tal ou tal bolsa de estudo. Sou de outro tempo. O que há-de vir quando se voltar a descobrir o princípio do ovo de Colombo.