Mai 18

Da montanha que deu à luz mais um ratinho, depois de gémitos tremendos ajoelhados

O estado a que chegámos volta a parecer uma espécie de cão de guarda dos interesses, continuando a ser alimentado por impostos. Enquanto o povo não voltar a ser a principal das forças vivas, as castas que controlam e pressionam os donos do poder até mantêm a ilusão de domar a própria democracia.

Segundo nossa eminência, em portinhol falando, não há bloco central, mas apenas um “parceiro patriota e responsável” com quem quer “danzar el tango”. Parafraseando Barroso, apenas peço que não nos deixem de “tanga”. A bailados destes, não há cooperativa que resista, nem a da mula do Max, que este, ao menos, sempre nos dava o bailinho da Madeira…

Cavaco Silva acaba de ser colocado ao nível de Jorge Lacão. E ministro diz que lei não vetada, mas denunciada, é tão pioneira quanto o foi o diploma de 1867, que aboliu a pena de morte. Ambos glosam equívocos sons de Max Weber, que ficam sempre bem em discurso da Razão de Estado e que misturam ética com convicção e responsabilidade…

A subtil distinção weberiana, nas suas categorias originais, equipara a ética da responsabilidade a Maquiavel e a da convicção, ao que viria a ser Ghandi. Por outras palavras, presidente preferiu a salvação da cidade, ao que especulou sobre a salvação de sua alma, ainda a semana passada benzida e genuflectida. Por coisa idêntica a tal angústia, rei Balduíno da Bélgica abdicou temporariamente…

Invocando a circunstância da presente situação de emergência, redita como potencialmente explosiva, apenas emitiu grito de alma com geasto de pólvora seca, deixando que o respectivo eu submergisse e com muitos exemplos de direito comparado. Seria mais convicto tê-la emitido, não da montanha cheia de ratinhos suburbanos, mas antes, ou durante, a peregrinação de Bento XVI e sem subentendidos de aula de macro-economia.

Sobre a coisa promulgada, a minha alma diz que a matéria do casamento de homossexuais dever ser mesmo casamento de homossexuais com outro nome e não este exercício de abstracção e generalidade, bem construtivistas, ao meter num contrato o que, de acordo com o direito romano, bem antes do direito canónico, deveria ser uma instituição. Continuo a preferir soluções à inglesa, à sueca e à francesa!

Já quanto à convicção dos católicos, sugiro que assumam a autonomia do direito canónico, incluindo a dos tribunais eclesiásticos, repensando a concordata. Porque foi a confusão entre política e religião e certa religião com a sociedade que adiou aquilo que era há muito urgência de não-discriminação. O atraso talvez tenha gerado uma pouco pioneira pior emenda do que o soneto, ao contrário do que aconteceu em 1867.

Mai 17

Depoimento aos jornais

Eleitores deverão penalizar PS e poupar PSD após acordo

Politólogos dizem que Governo será castigado nas urnas e que Passos Coelho poderá lucrar

00h30m

CARLA SOARES

O acordo entre José Sócrates e Passos Coelho sairá muito mais caro ao PS do que ao PSD, prevêem os politólogos. E há quem admita ganhos nas urnas para o líder da Oposição, se convencer o país de que apenas o sentido de Estado o levou a caucionar as medidas.

Na hora de ponderar as perdas e os ganhos para os dois partidos que subscreveram as medidas de combate ao défice, as previsões são claramente negativas para aquele que sustenta o Governo. E ninguém acredita na reedição do “Bloco Central”, apesar da grave situação do país levar alguns a defender uma união de esforços mais alargada, nomeadamente ao CDS e ao PCP.

Os politólogos consideram que Passos Coelho terá tempo para descolar-se da severidade das medidas, se souber passar uma imagem de partido responsável. Isto apesar de ter abdicado, pelo menos aos olhos dos eleitores, do papel de principal opositor ao Governo, quando poderia capitalizar a contestação social. PCP e BE deverão lucrar pela via do protesto. E o CDS perdeu margem de manobra para ser um aliado do Executivo.

“Sobranceria do Governo”

André Freire, politólogo do ISCTE, sustenta que “o PS é quem, provavelmente, tem mais a perder”, porque as medidas “vão ser assacadas” ao partido que está no Governo. “O PSD também pode ficar demasiado colado, mas não vai governar e mostrou-se disponível para encontrar soluções”, contrapôe, ao JN, acrescentando que Passos Coelho “teve a humildade de pedir desculpas”, enquanto “o PS continua com a mesma sobranceria” de “quem muda de posição de 15 em 15 dias”.

O risco de o PSD ser penalizado “é remoto”, vaticina. “Quem será responsabilizado, em larga medida, é o Governo, na altura do voto”. Até porque o PSD “apresentou contrapartidas”. Já o Executivo está “sem linha de rumo” e “sem estratégia de crescimento económico”.

André Freire admite que esta convergência “não contribui para clarificar as alternativas” perante os eleitores. Além disso, não haverá necessariamente um reforço dos partidos mais pequenos, como PCP e BE, nas eleições. Pode, sim, crescer a abstenção.

O sociólogo Paquete de Oliveira crê que a atitude do PSD “é de elogiar”, pelo “dever de Estado”, mas pode “significar um prejuízo eleitoral para Passos Coelho” porque “a opinião pública, porventura, desconhece a gravidade” da situação que forçou aquelas medidas. Ou seja, o cidadão pode penalizar o PSD pela “caução” que deu e concluir que, se governasse, não lhe restava alternativa senão tomar as mesmas medidas.

Tudo depende da “habilidade do PSD para fazer crer ao eleitorado” que a sua posição “foi de sentido de Estado”. E pode “ser premiado” por isso. Quanto mais tarde houver eleições, mais tempo terá “para se descolar”, destaca, embora certo de que “o Governo será sempre o mais castigado”. Já o CDS perdeu “margem de manobra” para fazer uma coligação com o Governo.

Adelino Maltês, politólogo e professor da Universidade Técnica de Lisboa, considera que é “cedo para fazer cenários” sobre efeitos do acordo nas eleições, uma vez que não estamos perante “uma receita com resultados garantidos”. Seguro está de que “não haverá ‘Bloco Central’”. E prevê que o líder do PSD, no imediato, desça nas sondagens para “os níveis habituais”.

O essencial, defende, “é saber se a imagem do país ficou beneficiada em torno da unidade”. Se não ficou, o que considera “mais provável”, “não chega o ‘Bloco Central’” e o “acordo provisório”. Há “necessidade de uma coligação mais ampla”, incluindo “o CDS e o PCP”, num “acordo à irlandesa”, em vez de “navegar à vista”.

Viriato Soromenho-Marques, professor de Filosofia Política, diz que tudo dependerá de como os discursos evoluirão, sublinhando que o acordo “não foi explicado”. “Para o cidadão comum, esta convergência não coloca os dois líderes no mesmo saco”, garante. E “o eleitorado não penalizará da mesma maneira um Governo autista que doura a pílula” e o líder do PSD, que lucrará com a situação se passar a imagem de “partido responsável e com sentido de Estado”.

Prevendo uma subida nas sondagens para Passos Coelho, Soromenho-Marques elogia o pedido de desculpas ao país. “Não ouvi o primeiro-ministro a pedir desculpa”, nota. E condena Sócrates por se ter demarcado do corte de 5% nos salários dos políticos e gestores, revelando “insensibilidade à dimensão simbólica”, necessária em tempo de crise. A situação, prevê, “é insustentável” e pode desembocar em eleições antecipadas.

 

Mai 17

Depois da casa roubada, trancas na porta…

Os tratados firmados pelos náufragos deste “rebus sic stantibus”, por menos tecnocráticos e por mais competentes que tenham sido os plenipotenciários apenas foram rascunho que outras canetas corrigiram, em nome de um guião iluminado pela cegueira dos controladores dos cordelinhos da hierarquia das potências da Europa… O rolo compressor do politicamente correcto desta europeização criou um falso super-Estado europeu, onde os eurocratas, em defesa dos respectivos privilégios, movem processos inquisitoriais a todos quantos os criticam, impedindo que a Europa seja a necessária democracia de muitas democracias… Os papa-reformas do Leviathan eurocrático são como os colaboracionistas de Napoleão e de Bismarck: usurparam o sonho e apenas sabem fazer contas de merceeiro. Não compreendem que o belo projecto que pode ir da ilha do Corvo a Vladivostoque não deve continuar com estes gestores do carreirismo e do neofeudalismo patrimonialista.

Mai 17

Depois da casa roubada, trancas na porta…

Acabou o futebol, acabou fátima e vai-se trilhando o fado do desencanto. Soares elogia o sentido de Estado de Passos Coelho, Gilberto Madaíl volta a ser entrevistado, assim demonstrando como é directamente proporcional a Sócrates, na construção de estádios que elefantes brancos. E todos têm como herói Zeinal Bava, esse resistente.

Porque nem trabalhando ao domingo a comissão parlamentar de inquérito conseguiu demonstrar uma conspiração. Mesmo que esta tenha existido, não deixou rasto captável, a não ser pelo CSI. Como se tal não fosse uma parte visível de um derretido “iceberg” com que nos quiseram “zapaterizar”, mas sem saberem tocar rabecão…

Os romances de cordel dos negociadores sem sono, por onde divagaram os agentes tecnocráticos da nossa cooperativa de gestores de um rotativismo de bonzos apenas demonstrou os tiques de vassalagem dos donos do poder e respectivos satélites…

Prefiro recordar as últimas denúncias de Saldanha Sanches, sobre os oposicionistas que se ensalivaram com as perspectivas de imediato acesso ao poder, sobre as redes de vassalagem e o sobre conúbio dos “papa-reformas”… Alguns até vão à televisão discursar sobre a autenticidade, sentados em cargos e cargos, com que acumulam prebendas e donde distribuem honrarias.

Os tratados firmados pelos náufragos deste “rebus sic stantibus”, por menos tecnocráticos e por mais competentes que tenham sido os plenipotenciários apenas foram rascunho que outras canetas corrigiram, em nome de um guião iluminado pela cegueira dos controladores dos cordelinhos da hierarquia das potências da Europa…

Os mesmos que permitiram a casa roubada não sabem agora que trancas pôr na porta, apesar de terem posto um socialista francês no FMI e Constâncio a substituir o grego das estatísticas helénicas, como vice-presidente do condecorado Trichet. O problema está nos bastidores de Paris e de Berlim e nos que lhes dizem porreiro, porque não lhes deixam dizer mais nada.

O rolo compressor do politicamente correcto desta europeização criou um falso super-Estado europeu, onde os eurocratas, em defesa dos respectivos privilégios, movem processos inquisitoriais a todos quantos os criticam, impedindo que a Europa seja a necessária democracia de muitas democracias…

Os papa-reformas do Leviathan eurocrático são como os colaboracionistas de Napoleão e de Bismarck: usurparam o sonho e apenas sabem fazer contas de merceeiro. Não compreendem que o belo projecto que pode ir da ilha do Corvo a Vladivostoque não deve continuar com estes gestores do carreirismo e do neofeudalismo patrimonialista.

Mai 16

Ana (1966-2010). Foi há três meses.

Foi há três meses. Entre a terra e o céu, és o eixo que nos une ao mais além. És a alma e o ânimo, que se elevou, destruindo o que é inferior. E contigo, sempre, em ascensão, vais abrindo o caminho para o superior. Ascendeste, mas estás aqui, no amor que é eterno.

Mai 14

Mais um discurso sem Santo António nem peixinhos, à beira do poço onde fomos ao fundo

Apenas apetece recordar Carl Schmitt e o seu decisionismo. Soberano é o que decide em estado de excepção. Ou Thomas Hobbes, lançando o Leviathan como “salus populi, suprema lex”. O resto é literatura de justificação, plena de metáforas celestiais, mas com nada de institucionalismo. A verdadeira sede de poder já nem são os directórios partidários, mas o mesmo sítio onde foram os dois abusadores da posição dominante da partidocracia, na passada semana, não para receberem ordens, mas para obterem a “inside information” que aqui não chega… A política é a arte do possível, sujeita à ditadura dos factos, porque, de boas intenções, está o inferno cheio. Logo, a pedra em que deve assentar toda a construção democrática é o respeito pela palavra dada, sobretudo a da promessa eleitoral. Vale-nos que Jesus Cristo não percebia nada de finanças. A boa política não pode confundir-se com operações de lóbis, vendendo gato por lebre, ou proclamando novas fronteiras, quando apenas oferece pescada descongelada, aquela que antes de o ser já o era, através de uma eficaz operação de colocação de cirúrgicas fugas de informação, à mesma hora, à velha maneira da psico militar em actos de ocupação do vazio de povo… Não se combatem incêndios florestais com bombeiros-pirómanos, mesmo que se recubram com o verniz de um federalismo sem dor, invocando a salvação da Europa e deste país, quando apenas querem conservar o que está e não o que deve ser, de acordo com a antiquíssima lógica do poder pelo poder. Entre o martelo dos tremendistas e a bigorna do não bebas coca-cola, eis a pretensa classe média, a dos remediadinhos, do sonhar é fácil, que, entre canhotos e endireitas, vai confirmando que chapéus há muitos, seu palerma! Logo, porque já não há fiado, fica o fatalismo do come e cala… Prefiro o adequado gesto do Zé Povinho, em nome da não resignação e do direito à indignação que me ensinaram os locatários de Belém, onde um terceiro também decretou que há vida para além do défice. Antigamente, ainda havia a tradicional lógica do procurar o d’além para salvar o d’aquém, e assim, durante séculos, nos pusemos a mexer desta terra ocupada pela fidalguia sem competência e pela fradalhada sem autenticidade, com ambas as classes marcadas pelo dito do sapateiro de Braga, para quem não há moralidade nem comem todos. A nossa última ilusão imperial foi a integração europeia, entre as dores da passagem a salto, para lá dos Pirinéus, e as cerimónias do porreiro pá, recordando o betão dos fundos estruturais! A santa terrinha já não é essse misto de aldeia da roupa branca com o pátio das cantigas, quando os vascos eram santanas. O jogo da economia da roleta, a sociedade das “slot machines”, do euromilhões e das fundações do Stanley Ho. Tudo aquilo que essa guerra deu, essa guerra parece levar, sem trova do vento que passa, porque tudo o vento levou… Entre os discursos do ministro da informação de Saddam Hussein e as venerandas palavras de Américo Tomás, dizem que o Titanic vai vencer os icebergs. Prefiro reconhecer que já ouvi um desses discursos sobre as vacas magras, antes de um regime cair por dentro, de apodrecido, quando as gaivotas esvoaçavam e os cravos pareciam viçosos…Os tempos que passam, com tanto reumático contra o fantasma do reumático, cheiram demais aos tempos da outra senhora. Vivemos a maior crise dos últimos cem anos, mas, pior do que isso, foram os últimos quinze dias e nós, os campeões europeus do crescimento, apenas vamos ter mais impostos para ajudar a salvar a Europa e a moeda única! O pretenso federalismo sem dor, com obras ferroviárias e elefantes brancos, para outros especuladores, apenas reflecte o regresso às velhas ditaduras das finanças, não já domésticas, mas multinacionais, plenas de bruxaria e de navegação à vista, com a tal ciência pretensamente certa que invoca a certeza do poder absoluto e que não se importa com golpes de Estado constitucionais. Por enquanto, disfarçam a pílula com encenações de Bloco Central, a que deviam dar o nome de união sagrada, quando Afonso Costa se entendeu com António José de Almeida, mas onde não entrou o Brito Camacho, chefe dos que se chamavam unionistas. Preferiu guardar o seu sidónio para o golpe dezembrista que foi pior emenda do que o soneto.

Mai 14

Mais um discurso sem Santo António nem peixinhos, à beira do poço onde fomos ao fundo

Em memória de José Luís Saldanha Sanches
Pedro Passos Coelho pede desculpa a quem tem de pagar a presente ditadura da incompetência, onde mandam os bonzos que se assumem como representantes das principais multinacionais partidárias, ao serviço do directório da nova hierarquia das potências geofinanceiras e do respectivo ocultismo, gerido pelo eixo franco-alemão.

Portas fala em bombardeamento fiscal e não se recorda de ter fundado aquele PP de Manuel Monteiro, o que foi expulso do PPE por ter discursado sobre a preferência de produtos de origem nacional, como agora proclamou o senhor Presidente da República.

Cavaco continua a gestão dos silêncios, está em espiritualidade e em tolerância de ponto, nesta semana de banhos místicos de multidão, com 65 000 no estádio da águia e 100 000 na Rotunda, entre saudações a Jesus e esquecimento dos cem anos da ousadia de Machado Santos. Manuel Alegre não diz nada. Está entalado entre a coca-cola de Sócrates e os filetes ideológicos de Louçã.

Apenas apetece recordar Carl Schmitt e o seu decisionismo. Soberano é o que decide em estado de excepção. Ou Thomas Hobbes, lançando o Leviathan como “salus populi, suprema lex”. O resto é literatura de justificação, plena de metáforas celestiais, mas com nada de institucionalismo.

O governo é Sócrates sozinho numa jantarada em Bruxelas. E o parlamento, mera caixa de ressonância de uma reunião entre Sócrates e Passos, onde vamos ter uma revirada unidade técnica de acompanhamento orçamental que até deveria ser presidida por Medina Carreira. A verdadeira sede de poder já nem são os directórios partidários, mas o mesmo sítio onde foram os dois abusadores da posição dominante da partidocracia, na passada semana, não para receberem ordens, mas para obterem a “inside information” que aqui não chega…

A política é a arte do possível, sujeita à ditadura dos factos, porque, de boas intenções, está o inferno cheio. Logo, a pedra em que deve assentar toda a construção democrática é o respeito pela palavra dada, sobretudo a da promessa eleitoral. Vale-nos que Jesus Cristo não percebia nada de finanças.

A boa política não pode confundir-se com operações de lóbis, vendendo gato por lebre, ou proclamando novas fronteiras, quando apenas oferece pescada descongelada, aquela que antes de o ser já o era, através de uma eficaz operação de colocação de cirúrgicas fugas de informação, à mesma hora, à velha maneira da psico militar em actos de ocupação do vazio de povo…

Não se combatem incêndios florestais com bombeiros-pirómanos, mesmo que se recubram com o verniz de um federalismo sem dor, invocando a salvação da Europa e deste país, quando apenas querem conservar o que está e não o que deve ser, de acordo com a antiquíssima lógica do poder pelo poder. Um desceu nas sondagens para segundo lugar, pela primeira vez, outro parecia merecer os 40%, antes de se abrir o melão… Mas as modas podem passar de moda e Portas já deu o golpe do costume…

Entre o martelo dos tremendistas e a bigorna do não bebas coca-cola, eis a pretensa classe média, a dos remediadinhos, do sonhar é fácil, que, entre canhotos e endireitas, vai confirmando que chapéus há muitos, seu palerma! Logo, porque já não há fiado, fica o fatalismo do come e cala… Prefiro o adequado gesto do Zé Povinho, em nome da não resignação e do direito à indignação que me ensinaram os locatários de Belém, onde um terceiro também decretou que há vida para além do défice.

Antigamente, ainda havia a tradicional lógica do procurar o d’além para salvar o d’aquém, e assim, durante séculos, nos pusemos a mexer desta terra ocupada pela fidalguia sem competência e pela fradalhada sem autenticidade, com ambas as classes marcadas pelo dito do sapateiro de Braga, para quem não há moralidade nem comem todos. A nossa última ilusão imperial foi a integração europeia, entre as dores da passagem a salto, para lá dos Pirinéus, e as cerimónias do porreiro pá, recordando o betão dos fundos estruturais!

A santa terrinha já não é essse misto de aldeia da roupa branca com o pátio das cantigas, quando os vascos eram santanas. O jogo da economia da roleta, a sociedade das “slot machines”, do euromilhões e das fundações do Stanley Ho. Tudo aquilo que essa guerra deu, essa guerra parece levar, sem trova do vento que passa, porque tudo o vento levou…

Entre os discursos do ministro da informação de Saddam Hussein e as venerandas palavras de Américo Tomás, dizem que o Titanic vai vencer os icebergs. Prefiro reconhecer que já ouvi um desses discursos sobre as vacas magras, antes de um regime cair por dentro, de apodrecido, quando as gaivotas esvoaçavam e os cravos pareciam viçosos…

Os tempos que passam, com tanto reumático contra o fantasma do reumático, cheiram demais aos tempos da outra senhora. Vivemos a maior crise dos últimos cem anos, mas, pior do que isso, foram os últimos quinze dias e nós, os campeões europeus do crescimento, apenas vamos ter mais impostos para ajudar a salvar a Europa e a moeda única! O pretenso federalismo sem dor, com obras ferroviárias e elefantes brancos, para outros especuladores, apenas reflecte o regresso às velhas ditaduras das finanças, não já domésticas, mas multinacionais, plenas de bruxaria e de navegação à vista, com a tal ciência pretensamente certa que invoca a certeza do poder absoluto e que não se importa com golpes de Estado constitucionais.

Por enquanto, disfarçam a pílula com encenações de bloco central, a que deviam dar o nome de união sagrada, quando Afonso Costa se entendeu com António José de Almeida, mas onde não entrou o Brito Camacho, chefe dos que se chamavam unionistas. Preferiu guardar o seu sidónio para o golpe dezembrista que foi pior emenda do que o soneto.

Mai 11

Rebus, sic stantibus…ou fia-te na Virgem e não corras…

Ontem, pela manhã, no Rádio Clube, lá recordei a noite política de sexta-feira e a chuvosa manhã de sábado. Com Sócrates, de Bruxelas, a ligar directamente a Passos, num telemóvel que não deve ser vermelho, mas utilizar a intermediação belenense…
Sábado, Cavaco, no país do chocolate, faz pressão e comentário político, põe Dona Maria com saudades da casinha do Allgarve, mas sem conseguir abrir gavetas, porque não se dá com a “very cleaver” arquitectura contemporânea das ferragens do clique, mas não tem suficiente informação sobre a reviravolta da eurofinança, ocorrida nessa madrugada diante de Barroso, depois deste ter recebido Passos Coelho, dias antes…
Mendonça, ex-fiel ortodoxo de Marx, vende banha de cobra ferroviária e invoca como bem exemplo de obra pública ferroviária a ponte de Salazar, em nome de novo mestre, Keynes, mas sem ler o livrinho que Professor Jacinto Nunes lhe vai dedicar…
Teixeira dos Santos lá deixa cair que vai haver aumento de impostos. Nunca mais leiam os lábios de Sócrates!
Há uma coisa que faz alterar promessas eleitoral e provoca revisões de contratos, com consequentes défices e derrapagens. Chama-se alteração anormal das circunstâncias (rebus sic stantibus) e até está consagrado nos Códigos Civis, incluindo o nosso, o de Salazar, mas que ainda não mudou de nome, como a ponte…
A República Portuguesa só é soberana através da gestão de dependências e pela navegação nas interdependências, da UE à NATO, do TGV à globalização, incluindo Papa e bolsas…
Se até agora vivemos acima daquilo que temos e produzimos, foi porque os manuais de macro-economia, invocados por Cavaco em Óbidos, nos mandaram ser utilitaristas, pelo máximo de prazer com o mínimo de dor, no âmbito da geofinança e dos especuladores. Logo, quem vai à guerra dá e leva e quem ganhou, agora perde, nesta sociedade de casino…
Aquilo que nos permitiu viver remediadinhos, mas entre os trinta primeiros do “ranking” mundial, no grupo dos mais ricos do mundo, mesmo sem produtividade, instrução, cultura e civismo, está agora a tramar-nos…
Agora, ai de quem queira fiar-se na Virgem e não corra. Vale mais fiar-nos no proteccionismo europeu, nas medidas para a recuperação e segurança da moeda única e, sobretudo, na “remuntada” da economia e das finanças das Espanhas e do chamado mercado ibérico. É o que vai acontecr, caso contrário, acaba o euro…
Passos e Sócrates vão namorar esta semana. Mas Bloco Central já não chega. PS mais PSD, diante de uma crise social sem justiça, podem vir a ser menos, se assim se somarem, do que foram PSD e PS sozinhos, em tempos de maiorias absolutas. Para haver povo, têm que chamar Jerónimo e Carvalho da Silva, Portas e Saraiva. A frente social de apoio, que ia de Joe Berardo a Ricardo Salgado, apenas folgava. Alargá-la a Jardim dá apenas défice de risada. O apoio a Alegre, mesmo com tele-evangelistas, não alarga. Até as IPSSs do Padre Maia e o Banco Alimentar da Isabel Jonet são urgentes! Mesmo que seja com Sócrates a seguir o exemplo patriótico de Gordon Brown…

Mai 04

Patriotismo e vazio de povo!

Patriotismo e vazio de povo!

 

por José Adelino Maltez

 

Alegre é, sem dúvida, o poeta mais politicamente consequente da nossa história contemporânea e, em termos simbólicos, com um avô republicano e outro monárquico, consegue fazer convergências mobilizadoras tanto à direita como à esquerda. Quem ama a palavra, não só o respeita como o admira, mesmo que faça parte de outras tribos familiares da nossa politiqueirice. Logo, pode citar o sonho de Antero, ou o companheirismo de Melo Antunes, até porque foi consequente com a liberdade, antes, durante e depois de Abril e do PREC,  e não deve ceder aos áulicos que o mandam invocar Keynes, como conselheiro de Roosevelt, por causa dos actuais projectos de investimento público. Até Karl Marx se revoltaria com essa invocação da grande oficina de recauchutagem do capitalismo, nomeadamente pelos equívocos que pode gerar com outros paradigmas mais caseiros, como o de Duarte Pacheco e os conselhos que o velha escola do Quelhas dava a um pretenso Estado Novo que, por acaso, até antecedeu o conceito de “New Deal”, quando Salazar denunciava “a fina flor da plutocracia” .  Alegre não nasceu para ser comentador económico, mas antes o patriotismo em figura humana que não tem que fazer contabilidade de partidocracia. Porque, mesmo um patriota nada socialista, não republicano e pouco laico pode estar disposto a comungar em fé de povo, esse mobilizador das brumas da memória e das suadades de futuro.

Mai 04

Patriotismo e vazio de povo!

Alegre é, sem dúvida, o poeta mais politicamente consequente da nossa história contemporânea e, em termos simbólicos, com um avô republicano e outro monárquico, consegue fazer convergências mobilizadoras tanto à direita como à esquerda. Quem ama a palavra, não só o respeita como o admira, mesmo que faça parte de outras tribos familiares da nossa politiqueirice. Logo, pode citar o sonho de Antero, ou o companheirismo de Melo Antunes, até porque foi consequente com a liberdade, antes, durante e depois de Abril e do PREC,  e não deve ceder aos áulicos que o mandam invocar Keynes, como conselheiro de Roosevelt, por causa dos actuais projectos de investimento público. Até Karl Marx se revoltaria com essa invocação da grande oficina de recauchutagem do capitalismo, nomeadamente pelos equívocos que pode gerar com outros paradigmas mais caseiros, como o de Duarte Pacheco e os conselhos que o velha escola do Quelhas dava a um pretenso Estado Novo que, por acaso, até antecedeu o conceito de “New Deal”, quando Salazar denunciava “a fina flor da plutocracia” .  Alegre não nasceu para ser comentador económico, mas antes o patriotismo em figura humana que não tem que fazer contabilidade de partidocracia. Porque, mesmo um patriota nada socialista, não republicano e pouco laico pode estar disposto a comungar em fé de povo, esse mobilizador das brumas da memória e das suadades de futuro.