Jan 29

29 de Janeiro de 2012. Preparando conferência sobre Gomes Freire

Durante o ano de 1806, Gomes Freire publicou “Ensaio sobre o methodo de organisar em Portugal o exercito, relativo à população. agricultura e defesa do Paiz”. Aí observa: “um paiz que sempre viveu de allianças vergonhosas e covardes, não tinha a esperar senão humillhações degradantes!”

Porque não pode reformar-se o Estado sem uma ideia de Estado. Porque não pode pensar-se o Estado sem uma ideia de sociedade. A mera aritmética quantitativista do menos ou mais Estado, ou do menos ou mais Sociedade, com que confundem liberalismos e socialismos, é péssima conselheira. Nenhuma destas caricaturas se compadece com a necessidade de, em primeiro lugar, se repolitizar o Estado, retirando-o da inércia moluscular em que se encontra.

Acontece que a unidade do Estado, em vez de federar a diversidade, fragmenta-se em neofeudalismos e neocorporativismos, directamente proporcionais à própria despolitização do Estado de uma democracia sem povo e de um direito sem justiça. Fica a pirâmide verticalista da máquina do poder pelo poder, a que não respeita os espaços de autonomia das sociedades imperfeitas que perdem a plenitude das matérias que dizem respeito à respectiva natureza, da família à universidade, passando pelos espaços associativos daquilo que se designa por sociedade civil.

Chega-se assim à despolitização típica do governo da burocracia, com uma administração que apenas aplica decretos, como acontecia com o czarismo russo, a monarquia austro-húngara e certos impérios coloniais. Porque os burocratas destes regimes, que administravam territórios extensos com populações heterogéneas, apenas pretendiam suprimir as autonomias locais e centralizar o poder. Contudo, nestes modelos, os donos do poder exercem uma opressão externa, deixando intacta a vida interior de cada um, ao contrário dos totalitarismos contemporâneos.

 

Jan 28

Farpas 28 de Janeiro

Para os devidos efeitos, reafirmo que não faço parte, como sócio ou dirigente, de nenhuma associação republicana nem monárquica. Mas nem por isso deixo de reivindicar a minha qualidade de republicano e monárquico. Assumindo a necessidade de restaurarmos imediatamente a república. Para podermos, livres, assumir a libertação. Sou contra os monárquicos que apenas são anti-republicanos e contra os republicanos que apenas são anti-monárquicos. Isto é, contra os que, matando o rei, assassinaram a república. Prefiro o armistício moral da paz dos bravos, em nome da pátria.

Não podendo ser racha-sindicalistas, até porque muitos me orgulho de meu passado sindicalista, embora longínquo, olho para o congresso da Inter, sem suficientes pergaminhos hermenêuticos, notando como um dos repórteres televisivos da cena, com plateias abertas e segredos de sala fechada, é um conhecido repórter de reuniões religiosas, entre a conferência episcopal e os assuntos vaticanos. Por outras palavras, estamos perante um sucedâneo de procura da unanimidade, depois de, na lei, ter sido instaurada e, depois, revogada a chamada unicidade. Mas o novo líder, num lapso verbal, não deixou de repetir Salazar, sobre o “todos não sermos demais”. Ninguém o interrogou sobre a eventual existência de maçons na central, onde, ao contrário do que acontece no PCP, não deve vigorar a determinação do Komintern de 1922, depois formalmente reafirmada por Álvaro Cunhal e ainda seguida, segundo confirmação recente.

Jan 27

Farpas 27 de Janeiro de 2012

Fui um dos vencidos da vida neste combate, onde alguns adversários caíram na esparrela do divide et impera

Senhores do poder, estais pisando as fronteiras da religião secular da pátria! Não por imposição dos outros, mas por politiqueirice manhosa, como essa do corta um feriado aos republicanos e outro aos monárquico e negoceia dois com a Conferência Episcopal. Eu pensava que a representação democrática era directa, imediata e de primeiro grau com a própria cidadania…sem recurso aos esquemas do velho feudalismo. O terceiro estado já é soberano desde 1820.

Quando a ministerialidade se torna assexuada, isto é, não é republicana, não é monárquica, não é católica, não é maçon, corre o risco de deixar mesmo de ser portuguesa, porque devia ser monárquica, republicana, católica, maçónica e, sobretudo, patriótica. Se fosse alguma coisa além de ter direito de antena em conferência de imprensa. Isto é, se fosse. Porque nem tudo o que parece, ou aparece, é.

Segundo rezam os jornais, certas condutas de violação das comunicações privadas de um ilustre jornalista terão sido derivadas, não do dinheiro, não de sociedades iniciáticas, mas da mais antiga relação privada, a da relação de namoro. Logo, que se determine o óbvio: o registo de todas as relações, incluindo as de amor, namoro e namorico. Se levarem tudo ao extremo, até poderão emitir decreto antigo do nosso século XVI pós-inquisitorial, que Mao Tse Tung repetiu, sobre a relação doentia e pecaminosa de cada um com o seu próprio sonho, através do corpo, também próprio.

Esta onda de não resignação dita ética não fez adequado exame de consciência. A minha não está tranquila, depois do relato da morte por abandono de duas irmãs doentes, na multidão solitária da minha cidade. As que nem sequer quiseram pedir prévia ajuda dos sistema de assistência dita pública. A de um povo tão tranquilo que nem se indigna com os milhares que fraudulentamente declararam falsos nascimentos, em nome da subsidiocracia. Eu sinto vergonha. Revolto-me. Até comigo, pela solidariedade que não pratico como devia.

Não comento publicamente bobos da Corte, sobretudo quando fingem tragicomédia. Muito menos os que me insultaram pessoalmente, usando meios publicamente sustentados. Critico políticas. No local próprio. Até na boca dos lobisomens.

Não gosto de regicídios, republiquicídios e independenticídios. Nem que tenha de ser irredentista. Contra o niilismo. Detesto o jacobinismo decretino. O do estadão deslumbrado e sem conserto.

 

Jan 26

Carta do Manuelinho de Évora

Tiraste-me o direito à vida mas eu vivo
Mandaste-me prender mas eu sou livre
Que não pode morrer não pode ser cativo
Quem pela Pátria morre e só por ela vive.

Mandaste-me prender e preso não me prendes
Tu ministro do reino por vontade estranha
Tu que tudo vendeste e só não vendes
Quem luta por seu povo e não por Espanha.

Vi os campos sorrir mas não ouvi
Raparigas cantando em nossas eiras
Nossos frutos eu vi levar e vi
Na minha Pátria as garras estrangeiras.

Vi pesados tributos sobre o pobre
E vi no Paço o oiro da traição
Negros corvos eu vi pairando sobre
Minha Pátria com sombras pelo chão.

E vi velhos e meninos assentados
Nos degraus da tristeza vi meu povo cismando
Vi os campos desertos vi partir soldados
Sobre o meu povo negros corvos vi pairando.

E em cada noite ouvi o silvo do açoite
Em cada noite sempre sempre não se cansam
Os carrascos nos grandes longos turnos
Em que somente as sombras dos chicotes dançam
Como se fossem pássaros nocturnos
A encher de sangue a grande grande noite.

E em cada noite dormes sobre o sangue da cidade
Nenhuma dor te dói. Nenhum grito. Mas dói-te
Saber que se a tristeza tem a nossa idade
Da nossa idade é este sonho: Liberdade
Rosa de sangue flor da grande noite.

Não sei de quantas lágrimas se tece a dor.
Tu saberás as lágrimas choradas
Tu que só dor plantaste tu verás a flor
Da tristeza florir em ódio e espadas.

São estas as notícias que te dou
Na minha Pátria prisioneiro mas de pé.
Vai dizer ao teu rei que o meu preço não é
O baixo preço porque te comprou.

Vai dizer a Filipe quem eu sou.
Alguém que o desafia e que sabe porquê
Alguém que vê o que o teu rei não vê
Que nunca à vossa lei meu povo se curvou.

Tu ministro do Reino por vontade estranha
Vai dizer ao teu rei que viste algo de novo:
Quem luta por seu povo e não por Espanha.

E se a Pátria confundes eu distingo-a:
A Pátria não és tu mas este povo
Que não entende as leis que ditas noutra língua.

E tu que do País fizeste a triste cela
Tu que te fechas em teu próprio cativeiro
Tu saberás que a Pátria não se vende
E em cada peito em cada olhar se acende
Este vento este fogo de lutar por ela.

Tu saberás que o vento não se vende.

E não terás nas tuas mãos de carcereiro
O sol que mora nas canções que nós cantamos
Nem estas uvas penduradas nas palavras
Tu que servis as pretendeste ou escravas
Em silêncios de morte e de convento
Tu ouvirás na língua que traíste
Palavras como um fogo como um vento
Estas palavras com que Portugal resiste.
Tu saberás que há línguas que recusam amos.

Tu saberás que nós não aceitamos
O céu de que nos falas se o teu céu é feito
Do espaço estreito dessa negra cela
Que em vez do coração trazes no peito.
Tu saberás as lágrimas choradas
Quando na Pátria a dor florir em espadas
Em cada peito que sangrou por ela.

Manuel Alegre “A Praça da Canção”

Jan 26

Ribeiro Sanches

“O povo não faz boas nem más acções e raríssimas vezes se move por sistema nem por reflexão: será cortês ou grosseiro, sisudo ou ralhador, pacífico ou insultador, conforme for tratado pelo seu cura, pelo seu juiz, pelo escudeiro ou lavrador honrado. O povo imita as acções dos seus maiores. A gente das vilas imita o trato das cidades à roda; as cidades o trato da capital; e a capital o da corte. Deste modo, que a mocidade plebeia tenha ou não mestre, os costumes, que tiver serão sempre a imitação dos que virem nos seus maiores, e não do ensino que tiveram nas escolas…” (António Nunes Ribeiro Sanches, já lá vão séculos, antes de haver televisão e Assembleia da República).

Jan 26

Discurso de Péricles

O discurso fundador da democracia, em homenagem aos soldados mortos pela pátria: “O nosso sistema político não inveja as leis dos nossos vizinhos, pois temos mais de paradigmas para os outros do que de seus imitadores. O seu nome é democracia, pelo facto da direcção do Estado não se limitar a poucos, mas se estender à maioria; em relação às questões particulares, há igualdade perante a lei; quanto à consideração social, à medida em que cada um é conceituado, não se lhe dá preferência nas honras públicas pela sua classe, mas pelo seu mérito; nem tão pouco o afastam pela sua pobreza, ou pela obscuridade da sua categoria, se for capaz de fazer algum bem à cidade.
(…) Além disso, pusemos à disposição do espírito muitas possibilidades de nos repousarmos das fadigas. Temos competições e sacrifícios tradicionais pelo ano fora; e usufruímos de belas casas particulares (…). Devido à grandeza da cidade, afluem aqui todos os produtos (…) e acontece que desfrutamos dos bens locais com não menos abundância (…).
Em resumo, direi que esta cidade, no seu conjunto, é a escola da Grécia.”

Discurso de Péricles, citado por Tucídes em A Guerra do Peloponeso (século V a.C.), in Claude Mossé, As Instituições Gregas, Lisboa, Edições 70, 1985, p. 53

Jan 26

Alexandre O’Neil

Uma excelente proposta para o desenvolvimento em plástico da marca Portugal, apenas com três sílabas, de plástico, um relatório para o Conselho da Con(s)ertação Sucial, com adequada “alvura arrendada para o meu devaneio”, da autoria do Alexandre, evidentemente:

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós…

Jan 26

Feriados

A questão dita dos feriados é tão absurda quanto isto: em cada uma das cinquenta e tal semanas do ano, além de um feriado não religioso, o sábado, há um feriado religioso, o domingo. Pior do que isso, cada um dos dias da semana na nossa língua tem o nome de “feriado”, isto é, feira, derivado do latim “feria”, isto é, festa religiosa. Por outras palavras, se incluirmos o sábado judeu, todos os dias do ano em Portugal são de feriado. Somos, de facto, uma feira. Amen!