As manifestações do próximo dia 12 já são sistémicas. Carvalho da Silva diz que alguns querem convocar a juventude para a desarmar (TSF). O homem da Madeira diz que apoia porque ela é contra o regime (JN). Se calhar, não estão a falar da mesma coisa.
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O bom e velho Estado
Depois da UE, do euro ou de Schengen, a diferença entre o que é interno, do bom e velho Estado, e daquilo que é externo, não se compadece com a realidade de uma longa raia de uma cooperativa de soberania que só o bizantinismo dos manuais permite que dissertemos sobre o sexo dos anjos…
O bom e velho Estado passou a ter que viver com entidades supra-estaduais que, mesmo que não se designem como Estados, actuam em governação sincrónica sobre os mesmos territórios e populações em procura do bem-estar, da justiça e da segurança, com a consequente dispersão de expectativas e lealdades…
Por outras palavras, os portugueses e a terra portuguesa já vivem, há muito, sob a actuação de mais do que um governo e sofrendo mais do que um Estado. Até elegemos um parlamento supranacional, para além das velhas referências do mercado comum, da liberdade de circulação de pessoas, mercadorias e capitais.
Não importa agora dizer se é bom ou mau este processo de integração, apenas recordo que ele é tão efectivo que não se compadece com manobras de propaganda como aquela que enredou a Ditadura, antes da chegada de Salazar ao poder, com a diabolização do Grande Empréstimo da Sociedade das Nações. Infelizmente, a propaganda continua barata.
Infuncionalidade europeia
O drama está agora na infuncionalidade europeia. Quando a potência hegemónica tem poder na geofinança e na geoeconomia, mas continua com os pés de barro em termos de potência militar. A volatilidade dos vizinhos do Sul mostra que a Europa precisa tanto da moeda única como dos britânicos, da NATO e do guarda-chuva habitual do amigo americano.
O vizinho russo ainda não dá para saltar ao eixo e o jogo é complexo: tanto passa pelos barcos que os turcos autorizaram a navegar para a Palestina, como pelos emigrantes turcos na Alemanha e a adesão de Ankara a União Europeia. E Portugal já nem finge ameaçar, explicando como Otelo poderia ter sido o Kadafi cá do Ocidente. Por isso, prefiro acompanhar a reacção que vai ter o Estado de Israel.
Nesta democracia de notáveis
Nesta democracia de notáveis em que nos vamos sportinguizando, apenas temos que reconhecer a desorientação que reina entre alguns segmentos da sociedade de corte capitaleira que, graças a agências de comunicação e claques, faz uma competição sobre o mais capaz de pedinchar à banca. Apesar da hiper-informação opinativa da futebolítica, quem manda é o circuito fechado da chamada engenharia financeira.
Pobre pátria, que já não espera por D. Sebastião, mas pelos sinais de fumo que sejam emitidos depois de uma reunião entre o nosso chefe do governo e a liderança em figura humana da potência hegemónica desta regressada hierarquia das potências…
Uma bela imagem de quem efectivamente estamos, em termos de selecção dos seleccionadores. Mais um dos espelhos da nação, sobretudo nos passos perdidos que nos enredam. Que este sinal dos tempos não seja mais um retrato prospectivo do que podem ser os líderes políticos, donde ele veio, até como governador civil antes de ser deputado, mas sempre nos dois lados do bloco central.
Um antigo ministro de Santana Lopes tem a frase do dia: “se o governo não muda, é do interesse nacional mudarmos o governo”. Concordo. Desde que também se mude a forma como costumamos fingir mudar. Logo, também deve mudar a própria oposição. Para que ela, feita governo, não volte a cair de pôdre, pelo mais do mesmo do rotativismo.
Simplex
“Governo criou 70 grupos de trabalho e comissões envolvendo 590 pessoas”. Tudo “simplex”, tudo como dantes, pondo remendos numa máquina de carreiristas, onde basta uma notação de “rating” ou um telegrama de embaixador estrangeiro, para só então confirmarmos como o rei vai nu.
Teixeira dos Santos
Sua excelência o senhor ministro das finanças falou hoje do alto da sua soberania técnica, não para a planície dos súbditos, mas para o circuito fechado dos banqueiros e comentaristas que querem dar confiança aos mercados. O povo é alienígena e auditório. Apenas está sujeito ao tradicional imposto de palhota, inscrito no estatuto do indigenato do império colonial do euro.
Testamento de Sócrates
Sócrates está a falar para os mercados através do seminário Reuters/TSF. Vou ouvindo o silogismo.
(1) A crise da dívida soberana é apenas uma consequência da crise financeira, por causa da falta de Estado e não por causa de excesso de Estado.
(2) A Europa, depois desta crise, ou avança ou recua, não vai ficar na mesma, tendo que haver uma resposta sistémica.
(3) Somos os melhores da Europa na resposta à crise: crescemos 1,4 e reduzimos o défice em 2, são factos, não são opiniões.
(4) Qual década perdida? Fomos o melhor governo de Portugal de todas as eras. E aí vão números da campanha para as directas no PS. Quem os negar está enganado. O bom e velho Estado é que decreta os números e tira o retrato.
“Manter o rumo e não tirar o pé do acelerador”, “é o que eu recomendo para o meu país” (testamento de Sócrates, editado hoje, aqui em directo)
(1) Convidem imediatamente o nosso primeiro ministro para presidente da urgente governação económica da Europa
(2) Em alternativa, coloquem-no como governador mundial do conhecimento e da inovação
(3) Nunca reduzi-lo a Reitor da restaurada Universidade Independente
(4) Chega-nos uma simples maioria absoluta no actual quadro parlamentar, ou a convocação imediata um referendo eleitoral para estas maravilhas.
Um louco
Imagine o que é viver sob o comando de um louco”. A frase é equívoca. Mas, neste caso, refere-se apenas à Líbia e ao massacre Abu Salim, em 16 de Fevereiro de 1996. 1275 presos assassinados. O silêncio foi comprado por nós todos. E todos devemos pedir desculpa por estes danos colaterais de nosso petróleo.
Um interregno desertificado, onde a caravana não passa
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Debate quinzenal na nossa casa da democracia: foi 31 de boca contra 31 de boca, para glosar Silva Pereira… Pena faltar o discurso da palavra posta em razão (“logos” em grego). Mais um dos palcos desta campanha eleitoral permanente para efeitos sondajocráticos e de sessão de esclarecimento para as directas do PS…
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E o PSD com tantos ex-líderes como treinadores de bancada quase parece um clube de ausentes-presentes, os que não jogam mas não saem de cima de todas as jogadas, como Marcelo Rebelo de Sousa, Marques Mendes, Pedro Santana Lopes e Luís Filipe Menezes, a que se vai juntar Jardim e onde não vão faltar outros Zandingas, como diria Durão….
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Até as principais notícias da informação portuguesa são as de transferências de jogadores nos grandes órgãos de informação, naquilo a que se costuma chamar é poca do defeso, onde pouco interessam as cores da camisola, desde que saibam cativar desempregados políticos, à boa maneira dos velhos diários oficiosos dos antigos regimes e dos seus protectorados das forças vivas.
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Entretanto os juros da dívida estabilizam o seu curso ascendente no normal anormal que todos os nossos truques e falsos consensos nacionais já não conseguem colmatar nem com o lastro dos sacrifícios.
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Entre profetas da desgraça, os que pensam que isto é 1926 ou 1910, e o nacional-porreirismo, assim se vai degradando o situacionismo. Apesar de estarmos à beira do abismo, não conseguimos as tradicionais mobilizações que nos deram as legitimidades pós-revolucionárias de um rotativismo mais ou menos devorista que nos dava facturações….
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Há um longo interregno de decadência, onde os excessos de acomodação da cobardia geram o voluntarismo do principado governativo, apesar de alguns ainda invocarem um presidente que não quer nem pode sidonizar o regime…
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Foi mais uma vez Sócrates contra a Eloísa dos Verdes, tal como antes, a Passos Coelho, respondeu o ministro da presidência. Coitado, o Pedro foi excluído das listas pela antiga líder e actual deputada, e, involuntariamente, contribui para colocar a sede do poder fora do parlamento.
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O PS, em excesso de principado unificacionista, embora menos esclarecido, tem de gramar a escolha que os marechais do rotativismo fizeram numa jantarada na Curia, pensando que o Zé apenas seria um líder de transição para a travessia do deserto. Enganaram-se, não sabiam que ele operaria uma espécie de cavaquização eucaliptal da instituição outrora pluralista.
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O PSD, apesar de caminhar na via cavaquista, tem o barco pesado demais, com tanto marechal sem adequado senado, não podendo jogar flexivelmente com os velhos recursos autárquicos e regionalistas, nem consegue federar os muitos “clusters” de descontentamento existentes na dita sociedade civil…
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Para o PSD, de pouco valerá a reedição de estados gerais, ao ritmo das comissões de honra, ad hoc, das candidaturas presidenciais. Porque ainda não encontrou suficientes dissidentes da esquerda, principalmente do PS, que queiram fazer o papel dos reformadores, como no tempo da AD de Sá Carneiro.
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O velho e novo patronato não aposta no liberalismo a retalho, em época de potencial descida do FMI ou de outro fundo europeu. Faltam “opinion makers” com o ritmo de Miguel Relvas. Não há uma vaga de fundo de apoio à alternativa na opinião independente. E nem sequer é suficientemente democrata-cristão para convencer o altar. Muito menos os corporativismos à solta. Um choque de coragem, precisa-se!
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Os grandes partidos continuam simples máquinas de conquista e manutenção do poder. Não sabem, ou não conseguem, exercer as funções de mobilização política e de comunicação política. E estão sitiados pelo indiferentismo e pelos processos de compra do poder, ou corrupção. Confundem a mobilização com as campanhas eleitorais e a comunicação com a propaganda.
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A presente decadência, já patente, pode levar a uma crise de regime. Isto é, a uma má relação da sociedade com um determinado sistema de valores e que lhe dava legitimidade. Por outras palavras, mesmo sem magnicídios, podemos caminhar para um republiquicídio.
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Podem não suceder dramatismos de opereta, das bancarrotas aos golpes de Estado, incluindo os provocados por uma explosão social, sendo bem mais previsível a tradicional antecipação das derrotas, onde os detentores do poder máximo invoquem o tabu nunca desfeito, o pântano nunca esclarecido, ou uma ascensão ao Olimpo supra-estadual, para não terem que aturar os bárbaros.
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O nosso deserto continua a ser a sociedade civil e a opinião livre. Até a revolução de 1974 foi hierárquica, com majores arvorados em generais para que a pirâmide estadual continuasse, em movimento de revolução “vinda de cima para baixo”. Até o processo revolucionário que esteve em curso foi uma espécie de subversão a partir do aparelho de poder, como o descreveu Sottomayor Cardia…
Líbia, ou o vazio de república universal
Entre a Cirenaica e a Tripolitânia, o deserto aqui tão perto. Já não há mouro na costa, apenas exportação de consultadoria em betão e importação do petróleo, no carrito, no esquentador, ou no fogão. Ao pé dos bombardeamentos aéreos do despotismo, os camelos de Mubarak até parecem cordeirinhos… Quanto mais intensa for esta repressão dos fósseis do costume, mais sangrenta será a Viradeira, eventualmente marcada por dinâmicas tribais e teocráticas. Ou de como quem com ferro mata, com ferro pode morrer… Deste despotismo iluminado, que se dizia terceira via e livro verde, quantos intelectuais lusitanos não houve que com ele confundiram a atracção pelo exótico a que chamam a utopia… Desde os adeptos nacionais-revolucionários aos que foram a teatro comicieiro no anfiteatro da Reitoria da Universidade de Lisboa, de tudo se viu. “Vemos, ouvimos e lemos”, mas continuamos a “ignorar”… Até os pretensos omniscientes não esperavam “tanta volatilidade no mundo árabe”. Mas não faltam os que acreditam nestas manifestações de revolução contra a revolução, para que o pensamento científico possa derrubar os “dogmas religiosos” (relatos de um debate radiofónico de há pouco). Os ilustres consultores das multinacionais do petróleo, do betão e da informática, os que nunca se indignaram com proibições de cultos e minorias votadas ao ostracismo, deveriam ter reparado na impossibilidade de exportações de conceitos abastractos sobre democracia, autoritarismo e totalitarismo, que os manuais de transicionologia até para nós continuam a traduzir em calão… É uma estupidez pensar que é possível exportar o nosso Estado dito moderno e racional-normativo. Apenas por lá ficaram segmentos de Estado-Aparelho de poder (burocrático, militar e de coordenação empresarial) sem Estado-Comunidade. Ficaram os principados da personalização do poder, do clientelismo e da corrupção, numa sucessão de volatilidades fósseis… Os exagerados custos de consultadoria nessas exportações oportunistas, nunca compreenderam o segmento do chamado risco político. Mandaram-no prrencher à pressa pelos novos licenciados em engenharia política que acham essa coisa da legitimidade comunitária mero engodo… Todas as revoluções são pós-revolucionárias, sobretudo quando a transmissão dos poderes dos queridos líderes cai no mero hereditário e clientelar. Os brilhantes assessores e comedores da nossa estúpida eficácia contratual foram além de suas chinelas analíticas… Todos continuamos com as nossas cabecinhas enfiadas nas areias de um deserto de ideias, onde apenas emitem opinião os conhecidos cobradores de comissões, percentagens e subsídios que sempre considerarm os violentados como meros danos colaterais… A dita volatilidade do mundo árabe tem ligação directa com o nosso potencial regresso às vacas magras e ao consequente risco de evaporação das vacas sagradas de certa direita dos interesses e das suas alianças com os artistas de circo da pretensa esquerda moderna… Bastou que o vento das areias entupisse uma estabilidade dita institucional, feita de fidelidade tribal e verniz teocrático, para que a ditadura dos factos começasse a ameaçar a tradicional banha da cobra que marca o ritmo da nossa informação espectáculo, com os nossos telejornais fazendo reportagens em directo de mentirosos fins da história. Os velhos paradigmas dominantes que permitiam a facturação petrolífera e em materiais de segurança parece não aguentar o desabar da tenda e das esporádicas visitas… Quando os ditos realistas de catecismo proclamam que fora deles só há as sombras do normativismo e do idealismo, estão a vender ideologia disfarçada de cientificismo…. Quem disse que os teóricos o podem ser sem experimentação? Outro argumento da habitual adjectivação diabolizante dos pseudo-realistas, para que se eliminem os dissidentes, incluindo aqueles que sabem de navegação, desse saber de experiência feito, só porque lhes dizem que não. E há os que só são teóricos depois de serem práticos… Voltem ao velho, mas não antiquado, paradigma de perspectivarmos o universal através da diferença. O que aí vem é aquele médio prazo de um diálogo onde vão participar os fiéis das grandes religiões universais e das tradicionais forças morais. Não haverá viragens históricas de telejornais em cimeiras intergovernamentais. Espero que algumas das principais forças da minha civilização, nomeadamente os norte-americanos, aproveitem as boas relações provocadas por inimigos comuns, nomeadamente com a Rússia, para compreenderem o que se passa em democracias islâmicas como a Turquia ou a Indonésia. E que a Europa tire rapidamente a lição das circunstâncias. Aconselho a todos que estudem a biografia de dois ocidentais convertidos ao islamismo: um, René Guenon (1886-1951); o outro, Roger Garaudy (n. 1913). Grande parte da geração que assumiu o poder em Portugal, neste regime, bebeu seus mitos neste ex-comunista francês e ex-patriarca dos cristãos ditos progressistas da nossa praça. Sobretudo a “Biographie Du XXe Siècle”, Paris, Tougui, 1985… Outro conselho: ler o Livro Verde do Coronel que bombardeia o seu próprio povo. E reparar como este enlatado catecismo não passa de um subproduto de nossas nostalgias revolucionárias, transformadas no definitivo de um PREC posto em comprimido Eu sou contra essa das transições…Qualquer mudança não é regresso ao pretenso caminho de um processo histórico que outros nos escreveram, com os habituais guiões encomendados. Não é a história que faz o homem, são os homens que fazem a história, mesmo sem saberem que história vão escrevendo. A história não é o resultado das intenções de alguns nem de planeamentismos, sejam económicos, politiqueiros ou securitários. O pior da história real do século XX foram esses ditos das boas intenções de que o inferno da realidade está cheio. Só há mudança e até progresso na epigénese, não na distribuição de antigos factores de poderes, mas na criação mobilizadora de novos fins políticos mobilizadores. Eis meus comprimidos epistemológicos, onde sigo tipos como Tocqueville, Hayek e Etzioni, os tais que já não citar porque falam por mim dentro. Falem dos homens como eles realmente são e das leis como elas devem realmente ser (conselho de Rousseau, no começo do Contrato Social)… Kadafi é uma das caricaturas de ocidentalismos que abrasaram o mundo. Tal como as revoluções do marxismo em comprimido que, no sol posto, instrumentalizaram os retratos de Marx, Engels e Lenine, para que um Estado Terrorista de exportação fabricasse o Terror, esmagasse as Vendeias internas e ocupasse as “républiques soeurs”, chamando libertação à chacina! O processo kadafiano é clássico. Primeiro, a libertação pela via de um golpe militar da federação de médias patentes. Depois, a junção da personificação verticalista do poder, com o propagandismo dos comités populares de base. No fim, a invocação de um terceira via de um qualquer “ismo” original. Pelo caminho dos quarenta anos, Kadafi transformou o terrorismo interno, claramente inquisitorial, num modelo de exportação selectiva, com avanços, recuos e sucessivas chacinas. Um tirano clássico, pouco arabesco, mas com transmissões directas pela TV do respectivo teatro de Estado, de tenda armada… Felizmente não “libertou” os árabes nem África, apenas negociou com uma Europa berlusconizada! Reconheçamos que a ocidentalização globalista com que quisemos conquistar o mundo depois das descolonizações falhou. Tanto na “marxização”, aparentemente eficaz com os seus catecismos e canhões, como pelo “doux commerce”, com os seus ministros das finanças em “tratamentos de choque” à merceeiro. Tolstoi, através de Gandhi, ou o diálogo de civilizações à João Paulo II, são bem mais credíveis, embora de médio prazo. Outro exemplo a assinalar está no referido René Guenon, quando, depois de pesquisar o que chamou de tradicionalismo, decidiu diluir-se no outro e misturar a respectiva via iniciática com o islamismo, no Egipto onde morreu, e no preciso ano em que eu nasci, representando toda uma geração de ocidentais que, indo às raízes, procuraram o exótico dos orientalismos. Os encontros de Assis podem relembrar-nos a lenda de São Francisco, quando quis converter o sultão no Egipto. Este, disfarçado, revelou-se e disse admirá-lo, até porque lhe fazia lembrar os franciscanos do Islão, os chamados “sufis”, até pelos hábitos, embora estes nem sempre façam os monges… O universalismo ocidentalista não ganha nada com a emissão de generalidades e abstracções da habitual engenharia de conceitos que pretende unidimensionalizar as identidades. O universal só se atinge respeitando as diferenças, nunca com as conversões do Palácio dos Estaus, baptizando à força magotes de judeus que, depois, foram condenados a cristãos-novos, hipocrisia que não foi boa para as duas comunidades. O multiculturalismo à londrina e o assimilacionismo à francesa, tanto se assemelham às nossas antigas judiarias e mourarias, como ao posterior inquisitorialismo de caça aos hereges. Vale mais integrar a Turquia na União Europeia ou admitir o crioulo como língua oficial portuguesa. Só há arremedos de república universal quando os altos desígnios de salvação da humanidade coincidem episodicamente com os interesses de uma das grandes potências, a quem convém fingir-se de polícia do universo. As frases que hão-de salvar a humanidade já estão todas escritas. Falta apenas salvar a humanidade, como dizia Almada Negreiros. A indignação retórica da comunidade internacional face a eventuais crimes contra a humanidade, nomeadamente o democídio, apenas demonstra como a justiça sem força é impotente, depois de se desperdiçarem forças nas areias de outros desertos. Rezemos para que a metodologia diplomática e a pressão multilateral metam medo ao tirano. Não quero ter vergonha do meu próprio tempo. A Líbia está, mais ou menos, no meridiano da “Mitteleuropa” e quase no paralelo da Madeira, entre o Mediterrâneo e o deserto. Isto é, apesar de já ser africana, do resto do mundo tem de ser perspectivada como o quase Ocidente europeu, mesmo diante de Roma. Isto é, é tudo menos periferia… Politicamente, Kadafi não passa de um subproduto do nosso colonialismo de ideias, principalmente da nostalgia da revolução perdida, como alguns dos nossos “maitres à penser” tentaram exportar para um qualquer lugar exótico de estranhas gentes, onde o poderiam exportar sem sofrerem as consequências… Há por aí muitos que continuam, à boa maneira dos “philosophes”, procurando um lugar de conselheiros de déspotas que os não podem unidimensionalizar. Daí que proponham revoluções em comprimido, como se os catecismos pudessem ser livros de receitas de outras carnes para canhão… Há certas ideias de vulgata que acabam por ser mortíferas, quando geram laboratórios vivos de genocídios e democídios, mesmo que invoquem a impunidade revolucionária das boas intenções e a literatura de justificação das ideologias… Todos os Estados que não são produto de uma cultura enraizada trazem consigo a semente do terrorismo, quando a respeitabilidade internacional confunde a segurança com a paz dos cemitérios e um qualquer monopólio da violência, mesmo que não seja legítima…