O jogo do PEC parece aqueles da Taça da Liga, onde se mandam as reservas, os juniores e os juvenis, apesar de não serem sub-20. Estão quase todos a nível dos blogues “spin”…
Author Archives: jamaltez
Coligação negativa
Foi através de uma coligação negativa que a liberdade derrubou Napoleão. Tal como o próprio Hitler, numa grande coligação que foi de Estaline a Churchill. O paralelismo com imagens de guerra na política doméstica costuma dar raia.
António Barreto
Ouvi António Barreto. Este sujeito não devia estar retirado da política activa. Tem experiência, saber e provas dadas que bem falta nos fazem. Reitero a mensagem que nos legou: sabermos a verdade e refazermos um acordo entre partidos de boa vontade contra o marialvismo da linguagem de guerra!
O sobressalto líbio
Enquanto, o sobressalto líbio nos faz repensar a Europa, cá no quintal, apenas guerras de Alecrim e Manjerona, análises macro-económicas e quase total ausência de política, como se a nacional pudesse abstrair-se da internacional e como se esta se reduzisse ao FMI. Os dados começam a ser lançados para o “New Deal” e continuam muitos a julgar que basta sermos caixeiros à procura da tenda dos milagres. Alteremos o paradigma: nem Fukuyama, nem Huntington. Basta um olhar europeu: nem optimismo universalista, nem pessimismo relativista. Basta voar em armilar. A Europa não pode ser comandada por delegados de propaganda da banha da cobra e por caixeiros viajantes ao serviço do poder banco-burocrático. A Europa só pode ser política se tiver uma política internacional e não apenas o calculismo dos politiqueiros que não querem arriscar alianças civilizacionais Em Portugal, há apenas tradução de telegramas e resportagens de guerra a partir do sofá. Não há editoriais. Nem um único esboço de opinião vinda de movimentos da sociedade civil. Estamos entalados entre o discurso de Jerónimo sobre os belicistas e a sociedade civil que foi à Reitoria da Universidade de Lisboa bater palmas ao tirano. Não tenho dúvidas: estou com a acção militar da coligação internacional, legitimada pela ONU. Esta é a minha Europa. Obrigado, França e Reino Unido. A justiça deve ter força. Há pontos de não-regresso. Como não houve em Berlim (1953), Budapeste (1956), Praga (1968), Polónia (1981), ou Serajevo (1992). Já chega de cedências à chamada história dos vencedores, onde tem razão quem vence, mesmo que o soberano seja aquele que decide em estado de excepção, como subscrevem os schmittianos que nos ocuparam as entranhas da razão de Estado, não deixando que o Estado volte a ser semente de Estado-razão. Continuo em resistência, em nome da esperança dos desesperados.
Líbia. Europa. Política internacional.
Enquanto, o sobressalto líbio nos faz repensar a Europa, cá no quintal, apenas guerras de Alecrim e Manjerona, análises macro-económicas e quase total ausência de política, como se a nacional pudesse abstrair-se da internacional e como se esta se reduzisse ao FMI. Os dados começam a ser lançados para o “New Deal” e continuam muitos a julgar que basta sermos caixeiros à procura da tenda dos milagres. Alteremos o paradigma: nem Fukuyama, nem Huntington. Basta um olhar europeu: nem optimismo universalista, nem pessimismo relativista. Basta voar em armilar. A Europa não pode ser comandada por delegados de propaganda da banha da cobra e por caixeiros viajantes ao serviço do poder banco-burocrático. A Europa só pode ser política se tiver uma política internacional e não apenas o calculismo dos politiqueiros que não querem arriscar alianças civilizacionais Em Portugal, há apenas tradução de telegramas e rerportagens de guerra a partir do sofá. Não há editoriais. Nem um único esboço de opinião vinda de movimentos da sociedade civil. Estamos entalados entre o discurso de Jerónimo sobre os belicistas e a sociedade civil que foi à Reitoria da Universidade de Lisboa bater palmas ao tirano. Não tenho dúvidas: estou com a acção militar da coligação internacional, legitimada pela ONU. Esta é a minha Europa. Obrigado, França e Reino Unido. A justiça deve ter força. Há pontos de não-regresso. Como não houve em Berlim (1953), Budapeste (1956), Praga (1968), Polónia (1981), ou Serajevo (1992). Já chega de cedências à chamada história dos vencedores, onde tem razão quem vence, mesmo que o soberano seja aquele que decide em estado de excepção, como subscrevem os schmittianos que nos ocuparam as entranhas da razão de Estado, não deixando que o Estado volte a ser semente de Estado-razão. Continuo em resistência, em nome da esperança dos desesperados.
Imagem, sondagem, sacanagem.
São Bento ainda guarda memória daquele presidente do conselho que raramente reunia os ministros todos à mesa. Ele bem dizia que, para haver conselho, bastavam dois: ele, sentadinho no sofá de coiro, e o ajudante, ao lado. Que o plenário apenas ratifica o que chefe manda. Perante a crise da velha democracia, marcada pela relação entre o indivíduo-cidadão e o velho Estado, através dos antigos partidos, passámos para um novo mundo. Onde surgem mecanismos dotados de mais complexidade e organizações não visíveis, onde os velhos actores se assumem com a antiga lábia dos caixeiros viajantes… No palco da política, não surgem os credores que comandam os marcados, os que fixam os preços dos bens alimentares, os que facturam com guerras, ou os indefiníveis controladores da produção e distribuição da energia. Nem sequer nos deixam detectar os novos sinais do tempo, depois da explosão inorgânica das manifestações ditas dos indignados. Os nossos donos do poder passado preferem continuar a retórica da velha opinião canalizada dos grandes representantes, sem dar voz a quem ainda não tem voz. Vivemos em encruzilhada e interregno, nesta anarquia ordenada onde manda quem consegue ser mais organizado, numa desorganização onde até se acirram as velhas teorias da conspiração dos ricos que paguem a crise, dos criptocomunistas, dos maçons ou das seitas fundamentalistas ou beatas, para gáudio do propagandismo e benefício das agências de comunicação. Quando se denunciaram sinais de ligação entre a corrupção e a partidocracia, os comandantes desta já perceberam que não podem continuar a alimentar certa teia que os assaltou. Garanto que, apesar de tudo, melhoraram, pelo menos, alguns deles. E na própria Europa, há mudanças boas que vieram de prévias mudanças no interior das partidocracias. Sou dos que ainda joga pela mudança interna no actual regime. Dá mais confiança do que a incerteza das revoluções, onde os pais fundadores são sempre substituídos no dia seguinte dos PRECS…Não sou revolucionário nem tenho alma de revolucionário ou de contra-revolucionário, que vem a dar no mesmo. As novas ou velhas ideologias parecem não aguentar este impacto das circunstâncias, onde não faltam o aleatório de um tsunami ou o erro de construção de uma central nuclear. E soa a ridículo pensar que será o velho Estado, herdado de Salazar e Vasco Gonçalves que nos vai ajudar a navegar na tempestade. Os partidos a que chegámos, como plataformas giratórias da política doméstica e da política internacional, ainda são fundamentais se assumirem com humildade o pequeno papel de mobilização social e comunicação política que ainda lhes cabe, mas desde que não exagerem na política de imagem, sondagem e sacanagem com que vão abusando do poder que resta. Somos gota de água num oceano europeu e ocidental de partidocracia multinacional. Posso discordar, mas tenho de me submeter para sobreviver. Só a partir dos partidos, mas não só, podemos lutar para viver. “Alterum non laedere”, “suum cuique tribuere”, “honeste vivere”, isto é, justiça, justiça de contratos no horizontal da confiança pública, e, a cada um segundo as suas necessidades, desde que antes cada um dê segundo as suas possibilidades, isto é, justiça dstributiva, mas depois de prévia justiça social, como diriam Aristóteles, São Tomás de Aquino e Marx, quase com as mesmas palavras da república romana. Só depois é que as ideologias e os programas de política pública estabelecem modelos de política prática e, sobretudo, a norma oculta de qualquer regime: como aferir o critério da igualdade, igualizando o que é desigual, tanto pela natureza como pela cultura, isto é, por aquilo que o homem acrescentou à natureza, desde a família à economia e, sobretudo, com a política.
Manifestação dos indignados
Já não chega a mera invocação da razão de Estado, sem acompanhamento parlamentar e com ostensivo desprezo da presidência. Os patrióticos fins não podem justificar todos os meios. Correm o risco de ficar no inferno das boas intenções. Por enquanto, apenas uma federação de minorias em coligação negativa, à procura da liberdade. Amanhã, poderá revolta. O poder cria-se. É sempre a união do órgão e da função. Não é esse órgão sem função, o da governação em pilotagem automática, nem essa função sem órgão, o da manifestação, ainda sem voz tribunícia. Os futuros protagonistas serão os políticos da democracia representativa que navegarem as circunstâncias através da palavra que se cumpra em confiança pública, contra o império sem rosto que nos oprime. A governação não existe como abstracção que nem é constitucionalmente prevista. Não passa de entidade representativa, a que está presente em vez dos outros que somos nós. Por enquanto não são deuses nem tiranos. São pastores, mas carneiros como todos os outros carneiros do rebanho dos cidadãos, como diria Platão. Há manifestações que constituem uma inorgânica federacao de minorias em procura de liberdade… Quem estica a corda em demasia, pode chegar a casa e reparar que ela quebrou pelo lado mais fraco. Tudo depende da qualidade da democracia. Se esta ainda resistir.
A falta que nos faz o “discurso do rei”
O terceiro presidente civil da história portuguesa, directamente eleito por sufrágio universal, vai tomar posse no primeiro dia de uma quaresma laica, sem que se vislumbrem sinais de libertação do cativeiro, com a consequente regeneração. Aliás, as boas intenções do teatro de Estado não permitem qualquer lume da profecia, à maneira de um “discurso do rei” que mobilize simbolicamente as energias da nossa comunidade de significações partilhadas. E não basta nova aula de análise da conjuntura económica, face à volatibilidade dos mercados e da geopolítica, dado que avariou o velho GPS do desenvolvimentismo securitário e parece faltar sabedoria para a velha arte de marear, pouco dada a soberanias condicionadas pela geofinança. Continuamos apenas à bolina, sempre à vista de costa. E o nosso modelo de presidência é uma quase inexistência no jogo da hierarquia das potências, na pouco oleada balança da Europa. Perante a inelasticidade de uma aritmética parlamentar, entre a partidocracia e o presidencialismo de primeiro-ministro, ao presidente só resta uma reserva de afinamento estratégico, com uma adequada oferta de nova geometria social, através de uma grande coligação de forças morais (igrejas, maçonarias, universidades e homens de cultura) e forças sociais (sindicatos e associações empresariais). Esperemos que escolha o pão ázimo da criatividade típica dos indisciplinadores colectivos e da respectiva engenharia de sonhos. Foi a fé que abriu brechas no mar vermelho e nos deu a terra prometida.
Um interregno desertificado, onde a caravana não passa
Entre profetas da desgraça, os que pensam que isto é 1926 ou 1910, e o nacional-porreirismo, assim se vai degradando o situacionismo. Apesar de estarmos à beira do abismo, não conseguimos as tradicionais mobilizações que nos deram as legitimidades pós-revolucionárias de um rotativismo mais ou menos devorista que nos dava facturações…. Há um longo interregno de decadência, onde os excessos de acomodação da cobardia geram o voluntarismo do principado governativo, apesar de alguns ainda invocarem um presidente que não quer nem pode sidonizar o regime… O velho e novo patronato não aposta no liberalismo a retalho, em época de potencial descida do FMI ou de outro fundo europeu. Não há uma vaga de fundo de apoio à alternativa na opinião independente. E nem sequer é suficientemente democrata-cristão para convencer o altar. Muito menos os corporativismos à solta. Um choque de coragem, precisa-se! Os grandes partidos continuam simples máquinas de conquista e manutenção do poder. Não sabem, ou não conseguem, exercer as funções de mobilização política e de comunicação política. E estão sitiados pelo indiferentismo e pelos processos de compra de poder, ou corrupção. Confundem a mobilização com as campanhas eleitorais e a comunicação com a propaganda. A presente decadência, já patente, pode levar a uma crise de regime. Isto é, a uma má relação da sociedade com um determinado sistema de valores e que lhe dava legitimidade. Por outras palavras, mesmo sem magnicídios, podemos caminhar para um republiquicídio. Podem não suceder dramatismos de opereta, das bancarrotas aos golpes de Estado, incluindo os provocados por uma explosão social, sendo bem mais previsível a tradicional antecipação das derrotas, onde os detentores do poder máximo invoquem o tabu nunca desfeito, o pântano nunca esclarecido, ou uma ascensão ao Olimpo supra-estadual, para não terem que aturar os bárbaros. O nosso deserto continua a ser a sociedade civil e a opinião livre. Até a revolução de 1974 foi hierárquica, com majores arvorados em generais para que a pirâmide estadual continuasse, em movimento de revolução “vinda de cima para baixo”. Até o processo revolucionário que esteve em curso foi uma espécie de subversão a partir do aparelho de poder, como o descreveu Sottomayor Cardia…
Da clandestinidade à luz
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Sim! O nome deriva de Aké, devido à ponta, como no instrumento pontiagudo de metal. Diz-se em hebraico shittah tendo como plural shittim traduzindo-se em grego por aseptos, isto é, o que não entra em putrefacção, enquanto modelo do incorruptível e da imortalidade da alma. Da madeira dela fez-se a própria Arca de Noé, sendo também usada para a construção do Tabernáculo, conforme a Bíblia (Ex. 30, 24; 26; 28).
2
Emblema solar, consagrado por Egípcios e Árabes, como a divindade diurna, por causa das flores amarelas e douradas, que representam o que é magnificente e poderoso, isto é, o sol e a luz. Símbolo da inocência e da ingenuidade, mas também da segurança e da certeza, da imortalidade e da incorruptibilidade, talvez porque, neste mundo de homens lúcidas, importa a lucidez de sermos ingénuos. Conhecida como pinheiro do Egipto, a dita acácia mimosa.
3
Para René Guenon, até a coroa de espinhos de Cristo tem a ver com os da acácia, equivalendo aos raios luminosos, provenientes do sol. Segundo a lenda, os Templários cobriram as cinzas de Jacques de Molay com acácias. E Maomé destruiu o ídolo Al-Vzza ou Al-Uzza que tinha a acácia como símbolo.
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Não! Não vou seguir este caminho. Prefiro passar do ramo à árvore e saudar esta memória viva de uma loja que procura regenerar um espaço que vai da preparação do cinco de Outubro à resistência à ditadura, entre Machado Santos e Adelino da Palma Carlos. Por outras palavras, uma loja de vencidos da vida e de projectos por cumprir, onde os momentos mais sublimes talvez tivessem sido assumidos pelos que tiveram a heroicidade de viverem como pensavam, sem pensarem como depois iriam viver. Mas desses não reza a história, pelo que temos de os assumir em regeneração, para os poder cumprir aqui e agora, com saudades de futuro.
5
Honra-me terem convidado alguém que os carimbos da sociabilidade parecem não corresponder ao percurso biográfico de um saudoso da revolução perdida. Apenas o podem estranhar os que, por vezes, não reparam nalguns paradigmas de homens livres, de antes quebrar que torcer e que souberam manter viva a nossa fibra multissecular, ajudando a transportar a lusitana antiga liberdade nas longas décadas de uma viradeira reaccionária e inquisitorial e que tentou unidimensionalizar-nos segundo uma concepção do mundo e da vida totalmente incompatível com o espírito criador dos fundadores do Conselho Conservador em 1808, e com o Sinédrio de 1817.
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Prefiro passar da árvore à floresta e recordar que a Maçonaria é uma floresta que não pode confundir-se com algumas das respectivas árvores. Apesar de origens claramente iluministas, não pode ser reduzida a certos philosophes do século XVIII e, muito menos, a uma das revoluções subsequentes, ou, pior do que isso, a um dos períodos ou a uma das facções desse modelo, o do Terror, onde as principais vítimas foram muitos maçons.
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Basta também recordar que o fundador do conservadorismo, o irmão Edmund Burke, construiu um sistema directamente contrário à ideia pós-revolucionária de revolução, procurando defender o espírito da revolução inglesa, ela própria uma revolução evitada. Aliás, basta assinalar que apenas 10% dos actuais maçons do mundo, se filiam nos modelos sincréticos das Maçonarias dominantes em França, em Itália, na Bélgica ou em Portugal e mesmo estas não apenas admitem um espaço de convívio entre espiritualistas, ateus e agnósticos, sem exigirem uma prévia ligação de todos a uma religião revelada.
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Com efeito, mesmo em termos de Maçonarias latinas, em grande parte coincidentes com Grandes Orientes dos países referidos, a Maçonaria não coincide com os modelos anticlericalistas reactivos dos países católicos, como o demonstra a própria história da Maçonaria lusitana, mesmo quando houve coincidência de programas e práticas da I República com a República Radical francesa.
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Segundo Piet Van Brabant: o segredo iniciático é, por sua própria natureza, secreto. Está ligado ao indizível, que é, por sua própria natureza, também ele incomunicável. O segredo maçónico constitui o XXII Landmark. Como salienta Fernando Pessoa, é depois de estar na Ordem, de atingir a sua essência e espírito que este segredo se atinge. E enigmaticamente expressa: sou capaz de responder ainda que não responda… se, por acaso, souber, digo também que não sei
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Porque a leitura, por profanos, de rituais maçónicos, impressos ou manuscritos, os deixa no fim da leitura no mesmo estado de trevas em que estavam no princípio. Falta-lhes a luz com que dissipem essas sombras propositadas, o fio com que espalhado no solo quando entram no labirinto, de novo os reconduza à entrada. O mesmo autor fala em três segredos, correspondentes às três ordens do cosmos: o segredo alquímico, a verdadeira natureza da alma humana, da vida e da morte; o segredo mágico, a verdadeira maneira de entrar em contacto com as forças secretas da natureza e manipulá-las; e o segredo místico, a verdadeira natureza de Deus ou dos Deuses e da criação do mundo.
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Costuma até dizer-se, sobre esta ambivalência que Prometeu foi libertado por ter revelado a Zeus o segredo de Tétis, de que dependia o Concílio dos Deuses. Também para a alquimia, o segredo dos segredos era a arte de fazer a pedra dos sábios. Concluindo como Pessoa, nascemos sem saber falar e morremos sem ter sabido dizer.
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Contudo, se formos para uma análise mais serena, quase podemos subscrever o que disse Tzvetan Todorov, em Théories des Symboles: quanto mais é intensa a actividade simbólica, mais ela segrega esse anticorpo que é a afirmação meta-simbólica segundo a qual o símbolo é para nós desconhecido… Para as regras maçónicas, um irmão pode revelar que é maçon, mas não pode desvendar a pertença à ordem de outro irmão. Difere este pormenor do chamado segredo iniciático, que tem a ver com a conversão interior de cada um, circunstância que, pela natureza das coisas, não é passível de comunicação a não ser pela metalinguagem.
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Porque, seguindo a lição de Pauwels, há três aspectos do segredo: o funcional (a proibição de revelar, não as palavras, mas os gestos realizados no lugar da inicição, é um elemento de acção psicológica e um fermento de coagulação do grupo); a vivência (o segredo está ligado a uma nova coloração de pensamentos e atitudes, no labirinto da individuação, a intercâmbios psicológicos no seio da comunidade de iniciados, implicando uma nova relação de cada um consigo mesmo); linguagem simbólica (a linguagem de uma comunidade de iniciados não pode transmitir-se ao exterior, embora se tenha publicado tudo o que é possível sobre ritos e símbolos).
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Basta, aliás, notar o que proclama Albert Einstein: aquilo que é, para nós, impenetrável existe realmente. Por trás dos segredos da natureza permanece algo de subtil, inantingível e inexplicável. A veneração desta força para além do que podemos compreender é a minha religião. Até porque a religião do futuro será uma religião cósmica. Transcenderá o Deus pessoal e evitará o dogma e a teologia.
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Será difícil comparar a Mafia, os Mau-Mau do Quénia, as Tríades chinesas e as estruturas clandestinas de um movimento revolucionário com as estruturas de uma qualquer igreja institucional de uma religião universal, ou com as das ordens maçónicas. Apenas para algumas seitas interessa santificar ou diabolizar os outros. Vejam-se as palavras do fundador do Opus Dei sobre a matéria: Chefes!… Viriliza a tua vontade, para que Deus te torne chefe. Não vês como procedem as malditas sociedades secretas? Nunca conquistam as massas. Nos seus antros, formam uns tantos homens-demónios que se agitam e movimentam as multidões, tresloucando-as, para fazê-las ir atrás deles, ao precipício de todas as desordens… e ao Inferno. Eles levam uma semente amaldiçoada (Josémaría Escrivá, Caminho, versículo 833, ed. port., Lisboa, Aster, p. 180).
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Há uma perspectiva analítica do modelo de acordo com a ciência antropológica, onde, conforme as teses de Marcel Mauss, se referem sociedades voltadas para o exercício do poder político, onde se distinguem as formas primárias do exercício de poder, das formas secundárias. As sociedades secretas pertenceriam a este último domínio, sendo sociedades divididas em clãs ou em graus, mas também organizações de conluio, mas que desempenham uma função regular, dado que a sociedade secreta é secreta pelo seu funcionamento; mas a sua função é pública (DA, p. 570)..
Os exemplos habituais deste processo são bem expressos pelos movimentos da África ocidental, onde, na própria sociedade secreta há uma dupla hierarquia, uma relativamente visível e outra, oculta, onde os da parte invisível ocupam sempre um post-chave na outra. De qualquer maneira, na sociedade secreta, são secretos o ritual e as fórmulas, bem como os pormenores da organização interna e a discriminação das regras de acesso ao poder, havendo, contudo iniciações especiais para o acesso às mesmas.
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Contudo, a Maçonaria, como salienta Oliveira Marques, em períodos de perseguição… assume as características de sociedade secreta. Em períodos de liberdade e tolerância, o secretismo tem a ver com a circunstância de os profanos, os não-maçons, não poderem assistir às sessões rituais, de os participantes não poderem narrar os conteúdos das mesmas; e de nenhum maçon poder divulgar os nomes dos seus irmãos, contra a respectiva vontade, dado prevalecer a soberania individual. Neste sentido, a Maçonaria é uma sociedade secreta iniciática, mas não é uma sociedade secreta política.
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A Maçonaria só pode ser clandestina quando os regimes políticos, alguns dos quais tem de ser leal servidora, até porque deles foi co-criadora, quando estes se tornam sistemas de poder pelo poder que passam a promover o fanatismo, a ignorância e a tirania, quando os irmãos têm, então, o direito e dever de assumir a resistência. Logo, quando se fantasiam ditaduras dentre de um sistema de liberdade, corremos o risco de sermos instrumentalizados pelos jogos da sociedade de corte e até de permitir que os nossos tradicionais modelos de solidariedade, irmandade e conspiração possam ser instrumentalizados pelos desvarios dos aparelhos de poder e pela desvertebração do clientelismo, da corrupção e da partidocracia.
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Foi assim com os jogos do cabralismo e, depois, com os formigas brancas contra os formigas pretas. E todos nos fanatizaram e nos tornaram ingredientes de jogos de poder, até com os irmãos que fizeram o 28 de Maio, para, depois, alguns traidores prepararem a própria dita de extinção da Maçonaria de 1935. Logo, também não foi por acaso que as massas foram instrumentalizadas para sucessivos assaltos a este palácio em 1918, 1928 e 1974. Aqueles terríveis enganos que episodicamente transformaram o povo em populaça.
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Mas quem ousar o impulso que levou à fundação da Acácia não pode deixar de reconhecer que seria trair não começarmos por reconhecer os nossos próprios erros passados e algumas interpretações históricas contaminadas que, de fora para para dentro, nos continuam a instrumentalizar. E seria não cumprir a nossa missão de resistência se não honrássemos e geração daqueles pais-fundadores que vão de Machado Santos a Adelino da Palma Carlos.
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Logo, ai de nós, se deixarmos aos tradicionais inimigos da democracia a tarefa de crítica desta degenerescência de democracia que, por vezes, nos enreda, no sentido de procura da perfeição do melhor regime, a “politeia” de Platão, ou a “república” de Cícero. Um melhor regime que não pode confundir-se com o sacristão que perdeu o sentido dos gestos e se vai perdendo em formalidades já sem sentido de bem comum.
Um peculiar sistema de moralidade, ilustrada por alegorias e iluminada por símbolos (system of morality, veiled in allegory, and illustrated by symbol) é a definição mais antiga e universalmente seguida, embora passível de uma pluralidade de interpretações.
Segundo as clássicas palavras de Albert Mackey, Freemasonry is a science of symbols, in which, by their proper study, a search is instituted after truth – that trust consisting in the knowledge of the divine and human nature, of God and the human soul. Como recentemente assinala Fernando Sacramento, na Maçonaria, a aprendizagem faz-se pela apreensão do símbolo, equanto a transmissão do conhecimento se faz pelo exemplo (p. 40).
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No mesmo sentido, o antigo Grão-Mestre do Grande Oriente de França, dizia em 1979: uma harmonia entre uma atitude de aperfeiçoamento interior e uma vontade entusiasta e activa de servir a humanidade. Washington observava que the grand object of masonry is to promote the happiness of the human race. Andrew Jackson (1767-1845) há-de acrescentar que Freemasonry is an institution calculated to benefit mankind.
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Ainda hoje, as auto-definições da Maçonaria falam numa sociedade de homens esclarecidos, unidos para trabalhar em comum para o aperfeiçoamento intelectual e moral da Humanidade Uma sociedade de homens esclarecidos, unidos para trabalhar em comum, para aperfeiçoamento intelectual e moral da humanidade. Porque o aprendiz é um homem que nasce livre e de bons costume, igualmente amigo do rico e do pobre, desde que sejam virtuosos. Alguém que deve duvidar de si mesmo e não deve emitir opinião na ordem sem ter consultado os seus irmãos. Alguém que nasceu livre depois de ter morrido para os preconceitos e que renasceu livre para uma nova vida que lhe confere a iniciação. Alguém que tem os deveres de fugir do vício e de praticar a virtude, onde importa preferir a justiça e a verdade.
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Porque, segundo Oliveira Marques, não possui a Maçonaria leis gerais nem livro santo que a definam ou obriguem todo o maçon através do Mundo. Não sendo uma religião, não tem dogmas. Porque, conforme constata Dan Brown, são três os pré-requisitos para que uma ideologia seja considerada uma religião: assegurar, acreditar, converter: os Maçons não fazem promessas de salvação; não têm uma teologia específica; e não procuram converter ninguém.
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Voltando a Fernando Pessoa, a Maçonaria compõe-se de três elementos: o elemento iniciático, pelo qual é secreta; o elemento fraternal; e o elemento a que chamarei humano. Logo nos dois primeiros dois elementos, onde reside essencialmente o espírito maçónico, a Ordem é a mesma sempre e em todo o mundo. No terceiro, a Maçonaria… apresenta diferentes aspectos, conforme a mentalidade de maçons individuais, e conforme circunstâncias de meio e ambiente histórico, de que ela não tem culpa (artigo publicado contra a proposta de lei sobre a extinção da Maçonaria, 4 de Fevereiro de 1935).
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No segundo artigo sobre a matéria, que a Censura proibiu, falando hermeticamente, e atribuindo ao liberalismo o que identificava como Maçonaria, esclarece que os seus princípios são: o respeito pela dignidade do Homem e pela liberdade do Espírito, ou, em outras palavras, o individualismo e a tolerância, ou, ainda, em uma só palavra, o individualismo fraternitário. Porque há três realidades sociais – o Indivíduo, a Nação e a Humanidade. Tudo o mais é fictício. São ficções a Família, a Religião, a Classe. É ficção o Estado. É ficção a Civilização… E tudo faz para que se distinga o que estava confundido, se aproxime o que por erro estava separado, e haja menos nevoeiro nas ideias, ainda que não seja por elas que haja de se esperar por D. Sebastião.
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Já a Maçonaria do Sul em 1835 assinalava como missão o erigir templos à virtude e cavar masmorras ao vício. O Oriente Irlandês, em 1839, falava no melhoramento da espécie humana. O Grande Oriente Lusitano de 1840 apontava-lhe o estudo da moral universal da ciência e das artes. A CMP em 1851 anotava-lhe como missão propagar conhecimentos úteis e melhorar a condição social do homem por todos os meios, especialmente pelo exercício da beneficência. Miguel António Dias em 1843 definia como uma escola de fraternidade.
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Théodore Verhaegen, maçon belga, ligado à fundação da Universidade Livre, define-a como Instituição cosmopolita e progressista, tem como objecto a procura da verdade e do aperfeiçoamento da humanidade. Funda-se na liberdade e na tolerância; não formula nem invoca nenhum dogma.
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Para Fernando Pessoa, as fórmulas e os ritos maçónicos são nitidamente judaicos; o substrato oculto desses ritos é nitidamente gnóstico e agiu fortemente na Renascença e na Reforma; a sua ingerência na Revolução Francesa é assinalada (AQ 151). Porque, segundo o mesmo poeta, a Maçonaria é, nas suas bases, insuficientemente dogmática e definida para que do seu conteúdo se possa afirmar isto ou aquilo, judaísmo ou outra cousa qualquer. É um produto do protestantismo liberal (AQ 193) que, quanto às suas redacções originais se torna um produto do século dezoito inglês, em toda chateza e banalidade (AQ, p. 192).
Aliás, o conteúdo dos graus fundamentais, que vulgarmente se chamam simbólicos, não é judaico em espírito, mas ó em figura. Porque o protestantismo foi, precisamente, a emergência, dentro da religião cristã, dos elementos judaicos, em desproveito dos greco-romanos (id., p. 192) e a presença de elementos cabalísticos na Maçonaria não prova, pois, uma origem judaica. O mesmo autor salienta que a Maçonaria nada, pois, tem que ver com qualquer regimen ou partido político, excepto se ou quando esse regimen ou partido atacam a tolerância ou oprimem a liberdade (JS, Da República, 411). Porque toda a Maçonaria gira, porém, em torno de uma só ideia – a tolerância; isto é, o não impor a alguém dogma nenhum, deixando-o pensar como entender (id. 402). Até porque o espírito partidário é uma consequência da intolerância religiosa do passado, e por isso se acentua naqueles países que sofreram, durante séculos, o influxo da mais intolerante de todas as formas de religião – o catolicismo (p. 358).
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Segundo o artigo 1º da Constituição do Grande Oriente Lusitano é uma ordem universal, filosófica e progressiva, fundada na Tradição Iniciática, obedecendo aos princípios da Fraternidade e da Tolerância e constituindo uma aliança de homens livres e de bons costumes, de todas as raças, nacionalidades e crenças. Fernando Sacramento, desenvolvendo a sua teoria e experiência observa que a Ordem é eterna, universal, tradicional, simbólica, iniciática e fraternal. É tradicional no sentido em que esta afirmação indica a transmissão de um saber, de um conteúdo doutrinal teoricamente comum a todas as civilizações (e/ou à humanidade) e a utilização de um conceito operatório (uma hermenêutica) para interpretar a história. É iniciática porque a transmissão dos seus conhecimentos se faz pelo exemplo, pela via da iniciação, isto é, pela transmissão dos seus mistérios de iniciado para iniciado. É simbólica porque torna sensível o que o não é, que reúne, assinala a pertença e permite transmitir a outrem o que ordena, sugere e prescreve. É fraternal porque considera a Humanidade como uma fratria una e indivisível