Out 22

Só por dentro das coisas é que as coisas realmente são

O mais habitual nestas paragens, onde o normal é haver anormais, prende-se com as repentinas e frequentes quebras de fornecimento de energia eléctrica, não tanto pela ausência de ar condicionado, dado que a sombra ou a brisa a compensam, quanto, sobretudo, pela impossibilidade de funcionamento dos computadores, no acesso ao resto do mundo, com a inevitável “jet-rooter”. E não há pilhas de “backup” que aguentem esta sucessão de imprevisibilidades, a que só a sonhada barragem de Laga pode pôr cobro. No entanto, é comovente notarmos como, nos próprios bairros degradados, que estão bem próximos do circuito da barra que vai do City ao BNU, há inúmeros cafés e lojas com acesso à net, onde jovens passam horas e horas.

 

 

Infelizmente, também aqui aterram algumas aves de arribação com ar de intelectuais desempregados pela demografia das nossas veiga-simónicas reformas de ensino, das tais que não estudaram previsões demográficas e que para o exótico, do pretenso veni, vidi, vinci, pensam poder vender o peixe estragado de respectivas retóricas, gramáticas e didácticas, que julgam ser “artes liberales”. Mas acontece que, por cá, são mais precisas “artes bona” dos latinos, as tais que são passíveis de conciliação com uma adequada “ratio studiorum”. Também, infelizmente, de vez em quando, lá temos que aturar alguns subprodutos das entidades herdeiras das faculdades de teologia, transformados em profissionais da intriga, dado que pensam poder interferir nas teias da partidarite dos mauberes, como se eles fossem parvos e não soubessem distinguir o trigo do joio. Não faltam sequer candidatos a espiões desempregados, formados em “copy and paste” de pós-colonialismo e artigos de divulgação das “Twin Towers”, que nem sequer respeitam democracias como esta, feitas de milhares de mortos, em nome da honra e da pátria. Entre muitos exemplares de agrobetos e de revolucionários frustrados, encontro, felizmente, uma maioria de amantes deste lugar, portugueses à solta e homens de boa vontade, convertidos à alma destas paragens, com destaque para os militares da GNR e da PSP.

 

 

 

 

Há, sobretudo, uma enevoada metafísica nestes orientais trópicos, há pedaços de espírito que vão dando contornos às coisas, neste saudosismo dos antípodas, onde Pascoaes pode ser Pessanha e Pessoa volver-se em Wenceslau, para não falarmos em engenheiros agrónomos surrealistas que passam a Cinatti. E todos os dias, há um dia novo, uma noite de sonhos sem pesadelos, há palmares e mangueiras bordejando casas que são casas, nesta cidade de muitos fios ostensivos, motoretas sempre em bulício e essências que podem realizar-se pela existência, a dos homens concretos de carne, sangue e sonhos. Porque as essências apenas se objectivizam espiritualmente, quando as subjectividades pegam na alma e a deixam penetrar nos corpos, compreendendo. Porque só há almas quando elas se religam a um corpo, porque todos os transcendentes só o são quando situados pelos exercícios espirituais. Porque há um idealismo materialista, ou um materialismo idealista, aquele que diz, da natureza das coisas, que só por dentro das coisas é que as coisas realmente são. Continuo estoicamente panteísta.

 

 

 

 

Aqui me esqueço desse estado a que chegámos, com o Mário Lino e o Teixeira dos Santos a fazerem o trabalho sujo do insulto à líder da oposição, dessse estado a que chegámos que pensa que se escreve razão por entre tantas linhas tortas de razão de Estado, perdido que está pelos meandros do poder pelo poder. Por mim, confesso que, aqui e agora, estou cada vez mais do outro lado, que é, desses lados, não querer ter lado nenhum. Que é estar farto desses trejeitos dos que torcem e torcem, vergando, porque apenas têm medinho do quebrar, preferindo o jogo carreirístico dos que pensam que assim vergando não perdem o investimento que estão a fazer pelas vidinhas, saltando pocinhas e evitando as pingas de chuva, julgando que, dessa forma, não vão molhar-se e alcançar o sonhado lugar ao sol. Prefiro saudar o missionário franciscano aqui da ilha, vindo da Beira profunda, que vai de motoreta de aldeia em aldeia, escrevendo divino por tantos caminhos tortos e lodosos da terra dos homens. Por isso vou continuar a tentar escrever, ao sabor da pena, o que me vem à mente, mesmo que seja a quente, para os detectores de ferro frio nos inventariem no regaço das respectivas regulamentarices…

Out 21

Longe dos trabalhos de casa para a reeleição, do respeitinho ao chefe, do leitão à Bairrada e do camarão de Espinho

Acordo cedinho, pelo nascer do sol, percorro as ruas fervilhantes do nascer do dia, não leio jornais de Lisboa, estou farto da literatura de justificação dos ausentes-presentes, a que os que restam chamam memórias, a fim de promoverem um revisionismo da história, como se eles pudessem fazer interpretação autêntica dos factos em que foram actores, na maior parte dos casos, secundários, onde apenas soletraram guiões que outros produziram. Não comento as opiniões de Marcello Caetano sobre Freitas, Adriano e Kaúlza, nem as respostas que alguns deles vão dando contra Marcello e uns contra os outros. Portugal devia abrir as janelas e as portas, limpar o caruncho e o bolor e voltar ao navegar é preciso, mesmo para aqueles que têm de se submeter para sobreviverem, porque sempre devem lutar para que possam continuar a viver. Prefiro as ruas de Dili pela manhã e recordar o que ontem transmitia sobre a política, esse agregado humano superior à casa, onde o chefe político não é o chefe da casa, onde inventámos o Estado para deixarmos de ter um dono, um “dominus”, um “patrão”, um “oikos despote”. Prefiro recordar a velha história da doença da democracia, quando, desesperados, regressamos ao neofeudalismo de muitos donos, de muitos patrões, de muitos déspotas, de muitos protectores, de muitas compras do poder, de muitas cunhas, de muitos padrinhos e de intricáveis redes de micro-autoritarismos e sociedadezinhas de corte. Prefiro esquecer o quintalinho da Europa, de mão estendida à espera das migalhas da subsidiocracia e da mesa do orçamento. Prefiro um café pela manhã diante da ilha do Ataúro, prefiro passear ruas que ainda têm nomes como Jacinto Cândido, padrões com frases de Camões e edifícios com as cinco quinas. Prefiro não reparar nos recados que Jaime Gama deu há bocado aos senhores deputados do PS, porque, para serem reeleitos, devem fazer trabalho de casa, com leitão à Bairrada e camarão de Espinho. É bem mais interessante repararmos que para chegarmos à política, temos que sair do espaço doméstico da economia e entrarmos na praça pública pelo discurso, que em grego se dizia “logos”, isto é, razão, agregando-nos em tornos dos símbolos maiores que nos dão pátria, desde um Estado representativo, onde o chefe não é patrão, a uma religião secular que promova a comunidade entre as coisas que se amam, onde o primeiro pode ter poder, desde que assente na autoridade da segunda, porque autoridade é coisa que vem de autor, de fundador, da raiz donde brotamos e crescemos, a caminho das saudades de futuro.

Out 20

You might think that it was chuckling with amusement at the white men who come and go and leave all things as they were

O discreto autor do suspenso  Je Mantiendrai, cujo nome bem conheço, remeteu-me o seguinte excerto do livro cuja imagem encima este postal: “In the tropical East, where the sun sets at much the same time throughout the year, the evening’s ‘Last Post’ often coincided with the Muslim call to prayer or the gongs and bells of a nearby temple. Together they came to comprise a reassuring recessional at day’s end. The scent-laden air, once the sting of its heat had been drawn by the lengthening shadows, seemed at last to stir in moist sympathy with these serenades to silence and repose. Somewhere the flag had been furled and the watch had been set. Peace reigned; empires came off duty. Into crystal glasses tinkled ice cubes while rattan roofing reawoke to the first tut-tuts of the pale nocturnal lizard which Malays call the chik-chak. “You might think’, wrote the novelist Somerset Maugham, ‘that it was chuckling with amusement at the white men who come and go and leave all things as they were…”

 

Apenas lhe respondo com um abraço. Dizendo-lhe que tentarei o conselho de não perder uma peregrinação à ilha das Flores. Mais não posso dizer neste lugar público, a não ser este

 

Apelo à liberdade de blogar! Juntem-se!

 

Dear Friend, 10th October, 2008

 

At this moment, at least 80 people around the world, many of them bloggers, are behind bars because they dared to express their political opinions online. We are hoping that you will take a moment to add your name to a petition by parliamentarians and others calling for their release. The short statement below, calling for freedom of expression on the Internet, has been signed by over 50 legislators from all continents, and is now being circulated for signature to bloggers, journalists, citizens and groups. Once it has received a large number of signatures, it will be sent to heads of state and government, including those who are holding the prisoners, as well as to the UN Human Rights Council.

This Call for e-Freedom has been initiated by the e-Parliament, which is a new forum for democratic legislators.

For the first time in history, the internet enables us to have a truly global conversation about our common future – in our local communities, our national communities and our global community. In blogs, websites and discussion groups, people are sharing ideas, exposing corruption and building networks to solve common problems.

Yet in some parts of the world, people who express views that conflict with those of their leaders risk imprisonment, torture or death. This is not only a denial of their rights. It denies their countries the benefits of free debate, and it prevents the world from hearing their voices as our global conversation expands day by day.

We are now contacting you as a member of the blogging community in the hope that you would like to sign this Call for e-Freedom — to show solidarity with your fellow bloggers whose only crime has been to voice an opinion online.

The text that we are asking people to sign is as follows:

As Members of Parliament and Congress and as citizens, we call on all governments to allow their people to express their views on the Internet freely and without fear of retribution. In particular, we call for the release of those who are now in prison because they expressed opinions online that their governments did not like. We believe the Internet should be a space for free exchange among all the world’s people, where no one loses their life or their liberty for saying what they think.

You can add your name simply by visiting http://www.e-parl.net/efreedom and signing at the bottom of the page. If you can also encourage your friends and colleagues to add their names, we would be most grateful.

We look forward to hearing from you.

Sincerely,

 

Graham Watson MEP , Alliance of Liberals and Democrats, European Parliament

Sirpa Pietikainen MEP, European People’s Party (Christian Democrats), European Parliament

Ana Maria Gomes MEP, Socialist Group, European Parliament

Anders Wijkman MEP, European People’s Party (Christian Democrats), European Parliament

Out 20

Que prazer, cumprir este dever de ser professor! Obrigado, Timor, estou a nascer de novo!

Hoje foram quatro horas de aulas. Que prazer cumprir este dever, na modéstia destas instalações, onde os contínuos que abrem as portas são os próprios professores, onde os contínuos que preparam as salas são os próprios alunos e professores, onde a paixão de aprender e ensinar se vive em comunidade, sem que tenhamos de receber lições abstractas de gestão motivacional, emitidas pelo tecnocrata trinta e três, da avaliação três mil e quinhentos, vindas de quem não faz da vida de professor uma missão de amá-la ou largá-la. Que prazer cumprir este dever inscrito na ciência dos actos do homem enquanto indivíduo, expatriando-me nas raízes da minha própria civilização e confirmando que todas as civilizações verdadeiramente universais são filosoficamente contemporâneas. Que prazer não ensinar nada de novo, mas repetir parcelas de aulas de mestre Platão e sugerir as leituras de mestre Aristóteles, especialmente para povos que também tiveram Platão e Aristóteles, mas aos quais apagaram a memória. Que prazer dizer nação como comunidade das coisas que se amam, dizer Estado como libertação, onde o monopólio da violência legítima ainda sonha coincidir com a justiça. Que prazer dizer que a democracia é aquele regime que permite golpes de Estado sem efusão de sangue, como ensinava Karl Popper, mesmo quando as identidades partidárias ainda estão ao rubro, à procura da necessária institucionalização dos conflitos. Que prazer, pensar que vou ensinar, quando afinal apenas me ajudei a aprender. Sabe tão sentir a escola como espaço de liberdade e correr nos intervalos para a sala colectiva dos professores, preparando os papéis, com pensamento e entusiasmo, com honra e com inteligência. Que prazer a liberdade de ensinar e de aprender!

 

PS1: Já sei dos resultados das eleições regionais dos Açores. SMS amigo logo mos comunicou, para além de me enviar esta reflexão sobre a soberania viral dos meus actuais vizinhos. Para quem “in loco” sentiu a pré-campanha, nada de estranhar. Louvo a parte da nova lei eleitoral que reforçou o pluralismo partidário. Um abraço especial para o deputado do Corvo!

 

PS2: Nem reparei, como no silêncio destas noites tropicais, passei horas e horas a fazer a revisão final do texto da minha “Crónica do Pensamento Político”. Remeti-as já hoje pela DHL para Lisboa e não tenho onde contabilizar os custos individualizados da transferência, equivalentes a, pelo menos, seis almoços individuais no principal hotel cá da capital. Não me queixo, nem destes magníficos quartos de dois metros e meio por três metros e vinte desta residência de campanha. Missionário tem prazer de cumprir sua missão, mesmo que ela não entre na ficha dos analistas de sistemas dos burocratas e avaliólogos reinóis.

Out 19

O melhor de Timor não é o aparelho de Estado, mas aquilo que está na base da política, o comunitário, a que dão o nome de nação

Meu ritmo domingueiro passou hoje por visitar uma feira de artesanato que reuniu grupos de mulheres dinamizadas pelo microcrédito. Fiquei supreendido pelas dezenas de pequenas unidades produtivas que transformam a economia em actividade humana e desmentem totalmente os que pensam nesse Estado como algo completamente desarticulado a nível produtivo. O melhor de Timor não é o aparelho de Estado nem as actividades das grandes máquinas do lucro, mas aquilo que está na base da política, o comunitário, porque aqui a nação é bem superior ao tal Estado. Por isso é que a base da independência e da identidade do povo de Timor assenta na Igreja Católica, mas o que não impede imensas organizações de outro cariz de lançarem a sementeira da solidariedade. Confirmei-o, espreitando a obra a Fundação Lafaek Diak, de marca protestante, e até notei que organizações australianas como os maçons de Victoria, aliados aos catolicíssimos “Knights of the Southern Cross”, criaram, nomeadamente para o Colégio Salesiano, o programa “Working Tools for East Timor”, ajudando a desabrochar esta bela comunidade, conforme documento na imagem.

 

Há, depois, um povo muito especial, ainda não contaminado por certas facetas da nossa política de homens de sucesso e capaz de pequenos gestos na relação interpessoal. Por exemplo, hoje, perdi o meu telemóvel local, o +670 7432773, e logo a seguir, quando para ele fiz uma chamada, logo o achador se prontificou a vir entregá-lo, coisa que talvez não acontecesse para as bandas dos que para aqui enviam especialistas em engenharia social e “state building”, traduzindo em calão muita elefantíase legislativa e criando uma casta de um neocolonialismo anónimo, escondido pelas traseiras da chamada globalização. De qualquer maneira, se um Belmiro de Azevedo ou um Américo Amorim, assumindo a sua dimensão de homens de boa vontade, se prontificassem a vender nos respectivos centros comerciais muitas das produções que eu hoje vi na feira, bem poderíamos ter o capitalismo ao serviço do comércio justo e notarmos que Timor não são apenas as notícias que vendem sobre instabilidade política ou agitações de rua. Até poderíamos mobilizar entidades da nossa sociedade civil que aqui deixaram raízes em imponentes casas nas ruas principais, como a casa do Benfica e do Sporting…

 

Por exemplo, ainda há horas, com a ventania que hoje fustigou Dili, caiu uma árvore na rua em que se situa a minha casa, no bairro da cooperação. Garanto-vos que, menos de um quarto de hora depois, os garbosos bombeiros apareceram e limparam a coisa num ápice. Contam-me que no tempo da ocupação indonésia utilizaram outra técnica: derrubaram grande parte das frondosas árvores que bordejavam as principais avenidas da cidade. É por esta e por outras que não apetece comentar a entrevista de Cavaco Silva ao “Expresso”. Prefiro acompanhar as eleições nos Açores, mas, segundo diz o noticiário da uma da RTP, que aqui é à hora do jantar, só sairão os primeiros resultados lá pela madrugada timorense.

Out 19

Aqui vos deixo a nocturna companhia, a minha irmã osga… dita toké

(Toké- lagarto especial do país [deve referir-se a Timor], que dá uns sons que parecem dizer “tó ké”, os quaes repete por vezes, dizendo alguns indigenas que o numero d’essas vezes indica as horas que são; o que é certo é que esse numero é muito variavel, succedendo que emquanto de uma vez repete o som por duas ou tres vezes, de outras chega a sete e mais.) – in Diccionario Teto-Português, autor Raphael das Dores; Lisboa, Imprensa Nacional, em 1907.

 

Também dito Platydactilus gottutus e Gecko verticillatus,um bichinho que fala sem discurso e nos acorda em som, depois de comer baratas e outra bicharada, sem uso de insecticida. Garanto que o gavião, exilado do Valbom, que costuma acordar ao sons dos galos, antes do combate, não vai cair da tentação de o espantar aqui do quarto, onde, por manobras do meu colega informático, já consigo manejar a net, por curtos períodos, roubando o “wireless” a uma casota vizinha, até repararem a avaria que nos boicota a ligação ao mundo pelos dois mega teoricamente disponíveis. Minha osga favorita ainda há pouco se passeava por cima meu pano tradional de Timor, com as cores verde-rubras, dado que ainda não encontrei uma bandeira azul e branca, pois estas apenas se conservam nas casas sagradas, às quais malai não têm acesso. Vou tentar domesticar este simpático vizinho, primo de uns que encontrei no sertão de Brasília, que me dispensa do uso do mosquiteiro, que é coisa que apenas usarei quando for condenado a comentar a poitiqueirice desse quintal à beira mar prantado que, por estes dias, exportou para a Bahia de São Salvador os principais organizadores da nossa conspiração de avós e netos, com receitas para a crise mundial que não parecem ter sido ouvidas por Bush, Sarkosy e Barroso …

Out 18

SOS SOS SOS

Quase uma da tarde deste primeiro sabado de Dili. Uma internet lenta demais e, com longas brancas, especialmente no “wireless” que concedem aos agentes da cooperacao, apesar de o gestor, um engenheiro informatico paquistanes, ou la o que e, tentar superar o problema. Logo, volto a escrever de uma maquina sem regras ortograficas lusitanas, no espaco para agentes de negocio do Hotel Timor, pouco adaptado a nossa ortografia, apesar de ter sido reconstruido gracas ao apoio da Fundacao de Carlos Monjardino. Apenas para comunicar aos meus amigos e leitores que ontem ja tive o prazer de longas e belas horas de aulas e que, depois de tantas trocas e baldrocas, me voltei a sentir professor na sua plenitude, naquela funcao que e missao e que e vocacao, onde o trabalho nao e uma imposicao do regulamento ou objecto de analise dos tecnocratas da avaliacao, mas daquela comunidade em torno das coisas que se amam e que se chama sala de aula. Agradeco a todos os deuses esta oportunidade de libertacao.

 

Quando sai da universidade, voltei a reviver e aquilo que foram noites de dormir que o meu ritmo circadiano interpretou como se fossem uma curta sesta acabaram, esta noite, compensadas, porque foram quinze horas seguidas de soneca, para me sentir finalmente liberto neste novo fuso horario. Agora, perante novas circunstancias de tempo, posso novamente peregrinar pelo lugar, ja sem o peso da tralha burocratica a que estava agarrado, especialmente daquilo que o meu Professor Rogerio Soares qualificava como elefantiase legiferante, como aquela que temos em Portugal, esse universo comcentracionario de leis e regulamentos que obriga o agente aplicador a ter que cair naquele estilo da administracao otomana a que Hannah Arendt dava o nome de governo dos espertos, dado que o cipaio e o administrador de posto podem sempre escolher arbitrariamente qual a lei que hoje podem aplicar aos incautos cidadaos que estao na lista dos mal-amados.

 

Dai que me apeteca citar Camoes de memoria e proclamar que vale mais experimenta-lo do que julga-lo, para que julguem os que nunca o puderam experimentar. Basta reparar nos erros ortograficos deste postal para algum leitor poder pedir ao Carlos Monjardino que mande aqui para o hotel a que ele esta ligado um carregamento de teclados em segunda mao que tenham um til e uma cedilha. Basta que outros leitores tenham a ousadia e a imaginacao de pedir as respectivas escolas e aos respectivos editores que mandem para a Universidade Nacional de Timor Leste todos os livros que tenham em armazem e que querem amanha remeter para as maquinas de destruicao de papel. Nao custa nada fazer um embrulho dessas coisas e despacha-las ca para esta terra. Ate mas podem mandar, aqui para o Bairro da Cooperacao, que eu farei chaga-las ao sitio certo. Lembro a coiss, especialmente ao Henrique Mota e ao Paulo Teixeira Pinto que a devem sentir por dentro.

 

Ainda ontem, nas aulas, reparei que estes meus alunos manejavam o manual de Financas Publicas do meu querido Professor Teixeira Ribeiro. Tentando espreitar a edicao que nao conhecia, notei que a mesma era, afinal, uma bem montada fotocopia emitida, num destes recantos imaginativos de uma oficina de comerciantes chineses. Imediatamente, autorizei que o meu volume de filosofia do direito, por acaso esgotado, ha varios anos, em Lisboa pudesse ser editado clandestinamente por esta magnifica casa eleitoral da necessidade. Hei-de sugerir que facam o mesmo ao manual introdutorio do saudoso Professor Joao Castro Mendes, apesar de haver o mesmo na biblioteca, ao lado de longos codigos anotados sobre o nosso direito do trabalho e a nossa estrada que, naturalmente, ninguem consulta.

 

Quanto ao manual de Castro Mendes, peco imensa desculpa a Dona Lurdes e ao Senhor Costa, da ex-editora do PBX da Faculdade de Direito de Lisboa, a que concorria com o “stencil” do senhor Charneca, mas quero aqui perpetuar a palavra de um dos mais maravilhosos mestres que ainda conheci na Faculdade do Campo Grande. Julgo que a logica dos futuros magistrados desta terra do sol nascente merece ser impregnada pelas obras mais pedagogicas que a nossa ciencia do direito produziu no seculo XX. De qualquer maneira, este meu testemunho, se tiver alguma alma caridosa que o receba, bem pode ter alguns frutos, se certos leitores tiverem a pachorra de o transformar num “mail” que remetam as nossas escolas e editoras, do Rei dos Livros a Almedina, nao esquecendo a Coimbra Editora e todas as escolas de direito lusitanas. Remetam para a Universidade Nacional de Timor Leste os livros necessarios para a sementeira.

 

Do mesmo modo, se houver brasileiros nas mesmas circunstancias e alguem que faca chegar o apelo ao Rio de Janeiro, a Sao Paulo ou a Brasilia, todos agradeceriamos. Infelizmente, ja esta falecido o meu querido mestre Miguel Reale, porque ele, de certeza, iria bater a porta do maior editor de livros juridicos de lingua portuguesa, o Saraiva, esse mesmo, da Editora Saraiva, que nunca por Portugal repararam que era compatriota, ate para podermos furar o esquema da edicao de livros juridicos portugueses no Brasil. Porque nao bastam as boas feiras de livros que fazemos no Brasil ou noutros paises dos PALOP. E necessaria muita imaginacao e o esforco individual do portugues a solta.

 

PS: podia utilizar a tecnica do copy paste para resolver o problema da ortografia, mas apenas a deixo para verem como ate no Hotel mais portugues de Dili ninguem se lembrou de solucionar este pequeno nada…

Out 18

As pessoas quando viram que nem os lugares da Igreja haviam sido respeitados pelos indonésios fugiram todas dizendo: “Vieram para nos matar a todos”

Leio, no jornal “Diário do Minho” uma recente entrevista do meu querido Padre Felgueiras. Transcrevo excertos, sem muitos comentários. Apenas recordo que, quando o  conheci,  vivia em Cernache, adolescente, prestes a entrar para a Universidade e devo-lhe grande parte de quem sou, apesar de nunca termos falado de religião. Fui obrigado a ler tudo sobre Baden Powell e até me proporcionou um especial curso de dinâmica de grupo, dado pelos professores do nascente ISPA. Apenas assinalo que, nas paredes do meu quarto, além dos familiares, apenas conservo a fotografia deste missionário do século XX. Com ele, aprendi que sermos portugueses era sermos desses universais que devem diluir-se em todos os outros.

 

DM – Como se deu a ida para Timor?

 

Estava no Colégio da Companhia de Jesus, em Cernache, e o Padre Provincial propôs-me ir para Timor. Isto em Maio de 1970. Fiquei surpreendido e, então, pedi um tempo para reflexão.

 

Em Dezembro desse ano, parti de Cernache rumo a Timor. Neste tempo entre o pedido do Provincial e a minha partida, li muitos livros sobre Timor a fim de criar uma visão mais objectiva daquele País.

 

Li praticamente todos os livros que havia e que estavam na biblioteca do colégio e isso enriqueceu a minha visão. Preparei-me para partir, com consciência renovada da minha missão de cristão, de sacerdote e de jesuíta.

 

Tomei esta missão a sério, não apenas como uma aventura cega. Inseri-me no espírito dos grandes missionários, sabendo da responsabilidade que era e da própria beleza da missão em si.

 

Com o domínio indonésio não havia guerra no interior mas apenas nas fronteiras, para onde se dirigiam diariamente milhares de homens soldados.

 

Mas, a invasão alastrou.

 

O Seminário foi bombardeado e totalmente destruído. Durante este ataque, lembro que estávamos no interior da capela, estendidos debaixo dos bancos, para evitar os estilhaços.

 

Estávamos persuadidos de que os indonésios iriam respeitar os lugares da Igreja e até tínhamos posto bandeiras brancas, mas mesmo assim fomos bombardeados.

 

Quando parou este ataque saímos de lá. Instalámo-nos numa casa de um timorense que nos deu guarida, no relevo da encosta da cidade. Começámos a cavar buracos e valas no chão para nos protegermos dos bombardeamentos, que aconteciam diariamente, de canhões, morteiros e metralhadoras.

 

Foi uma época terrível.

 

As pessoas quando viram que nem os lugares da Igreja haviam sido respeitados pelos indonésios fugiram todas dizendo: “Vieram para nos matar a todos”.

 

Nesse preciso momento, a Indonésia perdeu todas as hipóteses de simpatia dos timorenses.

Este ambiente de violência decorreu até ao referendo de 1999, que foi favorável à independência de Timor.

 

 

Nome Associação: MISSÃO CATÓLICA PORTUGUESA DO PADRE JOÃO FELGUEIRAS

Morada: RESIDÊNCIA DOS PADRES E IRMÃOS JESUITAS // LEHANE

Pessoa de Contacto: PADRE JOÃO FELGUEIRAS

Telefone: 322272

Fax: 323832

Out 16

No acaso procurado de uma espera de pátria prometida, depois da guerra e do império

Depois de um longo mar, bem calmo, por onde me reparti, bem longe de quem estou, veio a ilha, em mar largo. É por aí que vou cumprir meu sonho, nesta procura. Foi por cima de um largo mar azul, pejado de ilhas e ilhotas, corais e ondas brancas que a orla foi de ilha em ilha, passando os confins da Ásia até à Oceania. Navegar é preciso, viver, sobrevivendo, já não é preciso. Porque os sonhos que sonhei e agora recordo têm a emoção cósmica de um novo mundo que sempre podemos ter para descobrir. Para que o vulcão do lirismo possa mais uma vez romper dentro de mim.

 

 

O chegar foi muito mais forte do que as palavras que o poderiam expressar. Porque muitas memórias me vieram, do fundo da alma, nestas brumas tropicais. Como os sonhos que fui tendo noite dentro, onde se misturaram casas e terras do passado, encruzilhadas, projectos de vida por cumprir. E, sem saber porquê, mais fundo, um sinal de flor, um terno olhar, de uma beleza imaculada, como ave que se passeia por cima do arvoredo. Não estava longe, mas no seu lugar, porque é assim que, em paz, podemos ir além do breve espaço de tempo a que chamamos vida. Porque a esperança pode ser eternidade, se nos diluirmos no tempo sem tempo, de um Deus a que muitos chamam mundo.

 

 

E sempre o desejo de voltar ao sítio para onde vou, porque, só depois do fim, hei-de lembrar. Nasci para chegar além de mim, para permanecer em espírito, para além do estar aqui, mas onde, de vez em quando, me vêm sinais do infinito de que também sou feito. Eu, indiviso, indivíduo, pequeno pedaço do imenso, para onde tendo, naquilo a que muitos gostam de chamar metafísica, coisa sobre que sei que nada sei. Mas o caminho místico que me dá este ambiente de trópico faz, afinal, com que regresse para seguir em frente.

 

 

Aqui e agora, olhando por mim dentro, voltei a ser menino que procura o que se esconde para além da curva do caminho. E peregrinando meus confins, nos antípodas do que dizem ser o sítio onde nasci, é mais perto de todos os outros que, dentro de mim, já me acho. Porque, vivendo o mistério deste sol nascente, é mais perto do eterno a que me chego. Nesta serenidade de olhar um mundo que me volta a dar o sonho da procura do paraíso. Até, vestido de Camões e Mendes Pinto, trato de procurar Portugal, assim fora de Portugal, dando-lhe os muitos nomes com que os portugueses à solta, do império sombra, foram registando estes mares dantes nunca navegados. E assim diluindo-se em todos os outros, nos foram dando o ser universal que nos abrasa.

 

 

É esta nossa metafísica de aventura, de correr todas as sete partidas que sempre foram semente do abraço armilar. É esta fidelidade avoenga que nos obriga muitas vezes à resistência e à rebeldia. Andar sempre em partida, eis meu lugar, para poder cumprir a missão de ser simples parcela de uma corrente de sonho e pensamento que me transcende. Para que meu corpo possa servir a alma que o mobiliza.

 

 

E vieram asas para que sou procura. Pequenos pedaços de um sinal do tempo para onde voo. Um indefinível mistério que se cruzou comigo, no acaso procurado de uma espera de pátria prometida, depois da guerra e do império. Porque, no mar, é o princípio e serei sempre o procurar.

Out 16

Um povo é uma comunidade de significações partilhadas

Porque aqui são oito horas mais tarde, não sofri com as queirosíadas, mas agora, prestes a jantar, noto como os programas de opinião pública da rádio estadual de Lisboa nos debitam análises sem fim sobre a causa da crise da nossa FPF onde, finalmente, se nota como está nu o tal madail que ainda vai ser herói se optar pela chicotada psicológica. Já, da política, nos vêm as disputas laranjas sobre a candidatura de Pedro à autarquia lisbonense, enquanto o governo nos orçamentaliza e Medina Carreira continuar a pregar no deserto. Vale-me que, neste ambiente timorense, vivo noutro mundo, sem qualquer paixão identitária pelas facções e partidos locais que, apesar estarem bem perto, nada têm a ver com o ritmo da minha cidadania. Assim se confirma como um povo é uma comunidade de significações partilhadas.

 

Vistos de Timor, Sócrates, Louçã, Portas, Jerónimo ou Manela são animais exoticamente idênticos, revestidos pelo mesmo discurso, embora uns se digam de um lado e outros, do lado oposto. Tal como os portugueses de hoje vêem os opostos políticos da I República como gente de chapéu preto e de discurso de comício em cima de um carro de bois. Poucos conseguem saber se António José de Almeida estava à direita, ou à esquerda, de Afonso Costa. Também os políticos de hoje, vistos à distância, são tão rotativamente próximos, quando o Zé Luciano ou o Hintze. Contudo, a paixão identitária que nos mobiliza pode constituir uma saudável energia, se a soubermos sublimar em adequada institucionalização dos conflitos.

 

Por isso, amigos e queridos leitores, não esperem que aqui formule opiniões sobre Xanana, Alkatiri ou Ramos Horta. Não só porque sou estranho e estrangeiro, como não é justo que exerça qualquer sucedâneo de cidadania, sobretudo face, a um povo que ainda há pouco conjugava o martírio. Esta democracia timorense, com o seu real dramatismo, exige, pelo menos, que respeitemos os mortos. Daí que fique cada vez mais longe de toda politiqueirice lusitana, ainda marcada pelo mais do mesmo.