Por mim, enquanto for funcionário, cumprirei com lealdade e mérito, as funções que me foram confiadas, de acordo com os princípios constitucionais, mas também com toda a constitucionalíssima falta de respeito, a do direito de resistência, do direito originário, natural e racional, registado num artigo da nossa constituição, diante das distorções do politicamente correcto, com que certos altos serviçais do Estadão me querem condicionar, nomeadamente alguns desses militantes do partido dos becas que parece ter saudades da fórmula de aceitação das funções públicas que ornava tomada de posse dos tempos do salazarismo. Onde também éramos obrigados a ser servos voluntários dos valores da Constituição de 1933 e a comprometer-nos a não participarmos em associações secretas que a quisessem derrubar. Coisa que o meu mestre Agostinho gostava de contar, sobre o quando se recusou a assumir o juramento, por não conseguir poder limitar o respectivo futuro, dado não saber se poderia optar por essa “capitis deminutio”. Se o socratismo cair na esparrela de atingir o nível da lei salazarenta de 1935, a de Alberto dos Reis, mesmo que um Fernando Pessoa não seja capaz de escrever um desses eternos manifestos contra a intolerância, o fanatismo e a ignorância, o Portugal do século XXI cumprirá a sua função adequadamente torquemada, e poderá até pedir à Sá Couto que inclua, no “Magalhães”, uma espécie de tecla de controlo parental para a detecção das viroses de associativismo que marquem um qualquer funcionário, nomeadamente as preferências pelo clubismo futebolístico, as crendices religiosas ou as opções sexuais. Como cidadão e homem livre, habitual vítima deste tipo de controlo policiesco e de persiganga, visualizo a onda de redes e redes de informadores e denunciantes, bem como as resmas de apreensões de discos duros com que esta utópica republiqueta de becas se transformaria em retroactivo “tsunami”, porque os candidatos a caceteiros já os vejo prevenidos e acicatados por muitos e venerandos sermões, nomeadamente aqui na blogosfera. Apenas me tenho que recordar dos gloriosos tempos dos tribunais plenários e daqueles ilustres servidores magistrais do marquês e das alçadas antipedristas, para quase lhes sugerir que retomem antiquíssima legislação que transformou o conceito legal de aparência de limpeza de sangue numa estrela amarela, distintiva, com que deveriam ser ornados, nas suas aparições públicas, todos os politicamente incorrectos que vivem noutra dimensão de metapolítica. Já agora, seria interessante que exportassem essa luminosa ideia de repressão interior para tudo o que é república ainda livre, dos Estados Unidos ao Brasil, da França à Bélgica, etc. , e que por todo o mundo livre se abatesse a habitual escuridão que levou à tortura de Jacques Mollay e à própria entrada nos processo inquisitorial de Francisco Velasco Gouveia e do Padre António Vieira. Odeia essa república de becas. E não tenho medo de requerer o uso imediato do símbolo público da não limpeza de sangue. Obrigado, Manuel Alegre, por ainda resistires, isto é, por considerares que a metapolítica é bem superior à pulhítica da imagem, sondagem e sacanagem!
Quando descer sobre a luz que me faz falta, num ir além do poente, noite dentro, até sempre
Perguntam-me, lá de longe, lá dos dezoito mil quilómetros que ficam nos antípodas, mas sempre aqui tão perto, perguntam-me, se voltei a ter planos para o depois daquilo a que chamam voltar. Prosaicamente, digo que não sei. Porque haverá reuniões e fichas, despedidas do senhor embaixador, recepção do senhor secretário de estado, muitos empregados limpando o pó, cortando a relva, podando as árvores, muitos chefes de empregados preenchendo requestações, cruzinhas no excel, no word, no pdf, no fdp, ou lá no que é, só porque o que tem de ser tem muita força.
Confesso que não vim aqui procurar a pátria que já não há, a revolução que sempre foi perdida, quando apenas devia ter sido evitada, o falso homem do leme ou uma qualquer nau de fantasia que, envolta no mistério do exótico, seja capaz de me dar porto seguro ou refúgio face a ameaça dos piratas. Por mim, porque navegar é preciso, continuo sem contabilizar o ir não sei para onde, dos que apenas se submetem para o sobreviver e se esquecem que importa lutar, para que continuemos a viver.
Parece que não conseguirei um conveniente heterónimo me dê refúgio e talvez chegue mesmo à conclusão que tenho definitivamente de mudar para outra ilha qualquer, onde saiba mesmo que não haverá lugar, tanto do onde como do porquê. Mas sempre era capaz de dizer que quando descer sobre a luz que me faz falta, quando estiver no regressar, poderei, talvez, continuar a viver assim, sem agenda, para poder ter sempre um intervalo que me dê tempo e me dê sítio. De um estar que seja ser e de um ser que não dependa do ter. Num aqui e agora, que seja sempre acaso procurado, sem horários, sem relatórios, sem reuniões, avaliações, manual de procedimentos, num ir além do poente, até sempre, ao nascer de novo, de um dia mais dia que me dê força, para que o amanhã seja o que Deus quer e o que homem sonha, para que volte a dizer pedra e a dizer praia, a praia de partida que o sonho todos os dias desenha no mapa da procura de quem continua a procurar.
Há muitas pontes levadiças, muitas pedras que escorregam das escarpas, muitas íngremes ladeiras, alguns fossos e outros tantos fossados
Entre Timor Lorosae e a parte ocidental da ilha que fez parte das Índias Orientais Holandesas, há muitas pontes levadiças, muitas pedras que escorregam das escarpas, muitas íngremes ladeiras, alguns fossos e outros tantos fossados. Mas há também as mesmas bibis que não conhecem fronteiras, as mesmas casas, os mesmos pátios, os mesmos muros feitos com pedaços de palmeiras, bem como porcos negros, galos e galinhas que se passeiam diante dos poços onde as mulheres lavam a roupa e as raparigas se penteiam, ao lado dos túmulos dos antepassados. Quis fingir que não vi o ex-miliciano que me abordou na loja, a loja ao lado do malai que faz contrabando dos restos sandalosos e explora o “karaoke” noite dentro. Porque mais além há também Oecussi/ Ambeno, quinze mil pessoas que não falam tétum e meia dúzia de sucos que não quiseram a integração e liurais que morreram honrados sem verem a pátria libertada. Há Pante Makassar, onde o “Nakroma” vem, de vez em quando, trazer abastecimentos, demorando seis horas amarrado na praia. Por mim, malai demais, que não sei desenhar as palmeiras como elas na verdade são, também não posso deixar de testemunhar os dias que passei para lá da fronteira, onde não são raros os cartazes de Eurico Guterres como candidato a governador de Kupang. Apenas acrescento que tais dias apenas serviram para confirmar as muitas cenas de todos os dias, com que se vai fazendo a eternidade das nossas vidas.
Não tive suficiente tempo para comparar desenvolvimentos e atrasos, ou até memórias coloniais, mas tornou-se evidente o peso de dezenas de milhares de refugiados desta RDTL, que alteraram a paisagem, sobretudo, de Atamboa. Também não tive tempo para ir além das aparências e até não me chegaram as informações que fui obtendo através dos excelentes guias que me acompanharam. Apenas confirmei que, por esta linha de ilhas que fazem a fronteira entre a Ásia e a Oceania, já correu sangue demais entre irmãos, feitos pedras de xadrez do grande jogo das guerras por procuração. E continuo a desejar que elas não sejam apenas uma espécie de seguro de defesa das grandes potências que por aqui temem o terrorismo, a bandocracia e o narco-tráfico.
Lá do outro lado de Batugadé, a República Indonésia, de Suharto a Sukarno, que pediu, e bem, o estatuto de observador da CPLP, constitui ainda uma versão asiática do modelo clássico de construção da nação a partir da construção de um Estado, dominado por aparelhos de poder, como destaque para o militar, não faltando sequer uma espécie de cartilha de um mínimo de razão de Estado, a que chamam ética da reponsabilidade. Aliás, as semelhanças com o processo histórico francês, tanto do despotismo esclarecido como do estatismo pós-revolucionário, revelam uma espécie de neo-feudalismo numa anarquia ordenada, onde a pluralidade das forças vivas conseguiu ser mobilizada pelo autoritarismo modernizante do chamado Estado de Segurança Nacional.
Visitar Timor Ocidental e confirmar as causas geopolíticas da invasão, obriga-nos também a sublinhar que, mesmo em plena “integração”, nunca deixaram de existir fronteiras formais entre as duas partes da mesma ilha. Porque a remota parcela do extinto Império Colonial Português sempre se assumiu como “província” do aparelho militar de Jakarta, entendido como uma espécie de Estado dentro do Estado e dotado das suas próprias razões de Estado, até para financiamento privado desse serviço público. Por outras palavras, Timor Leste sempre foi para os militares indonésios uma província em sentido etimologicamente romano, isto é, uma terra objecto de um pro vincere.
Volto a Dili. A estes grandes contentores importados pelo “state building” da governação global, com milhares de peritos, consultores, magistrados e professores, todos empacotadamente especialistas, como eu, na escrituração de frases que hão-de salvar a humanidade, mas aos quais falta, simplesmente, a humildade de procurarem descobrir a razão pela qual esta parcela da humanidade não foi, ou não quer, ser salva por muitos “papers” apátridas. Por mim, confesso que só sei que nada sei.
Sobretudo, quando em Dili não falta nação, isto é, uma ideia de obra, mobilizadora do bem comum. Como não são raros os políticos experimentados em tacticismos, nomeadamente da guerrilha política. Aliás, também por cá não deixa de notar-se o lado negro da portugalidade, esta hiper-identidade, este excesso messiânico que leva a um exagero de frustração e até de depressão, sobretudo quando as expectativas da teoria se distanciam da prática das realizações. Também por cá ficou esta doença que levou Almada Negreiros a dizer qualquer coisa como a de sermos, nós, Portugal, um desgraçado país onde ninguém a ninguém admira e todos a determinados idolatram.
Se as elites da RDTL me permitissem um conselho, diria que importa moderar os ímpetos do tacticismo e passar para a estratégia, para um adequado inventário das reais potencialidades e das efectivas vulnerabilidades, a fim de evitarem que as primeiras não passem para o segundo termo, e, pelo contrário, para permitirem que as segundas se elevem a potencialidades, mas sem o jogo apaixonado dos poderes erráticos do tempo da resistência e da guerrilha e, sobretudo, o desperdício dos mesmos em partidocracia. Os portugueses pós-revolucionários, copiando os brasileiros, inventaram para o efeito o IDN e até chegou a esboçar-se uma listagem das potencialidades e vulnerabilidades do país que éramos. É o que sinto faltar aqui, bem longe da lógica autoritária modernizante dos estúpidos Estados de Segurança Nacional…
PS: A primeira imagem data de 1973, oriunda deste blogue de antigos soldados, que parece inactivo, mas onde até não falta o esboço de um dicionário de baikeno. A segunda é da minha autoria, de anteontem. O bronze que está na base do monumento não tem o nome de qualquer venerando figurão visitador de antes de 1975, mas o de António Guterres, do ano 2000. Muito justamente. Já agora, um grande abraço ao meu vizinho asiático Combustões, que resiste no Sião, testemunhando, como português antigo e português de sempre, que vale mais experimentá-lo do que julgá-lo.
De como me sobe o coração à cabeça… Timor cresce como um grito ecoando em todos nós…
Sou mesmo um romântico, um daqueles que, como Hernâni Cidade disse, lhe sobe o coração à cabeça. Por isso, vou dar uma aula sobre teoria da lei e interpretação do direito, assim com Savigny pelos começos, sem seguir as preferências marxianas do Professor Barata Moura sobre a matéria. Como lhe confessei um dia, na barra do Kwanza, ainda acredito que, no mundo afro-asiático, o direito pode ser expressão directa da consciência jurídica popular, uma produção instintiva e quase inconsciente, onde há um espírito particular, e o mesmo é gerador da poesia, dos costumes, da língua e de outros segregados da história. Por isso, levei para as aulas Ruy Cinatti e Luís de Camões, que hoje é o primeiro de Dezembro e aqui não é feriado, porque o foi na passada sexta-feira, dia da declaração unilateral da independência pela Fretilin, em 1975, coisa parecida ao que tentou D. António, o Prior do Crato, em 1580, antes da chegada do invasor que também herdou, comprou e ocupou…
Mas os sessenta anos de “integração” no império dos habsburgos de Madrid, fizeram com que se gerasse uma literatura autonomista que também criou essa comunidade imaginária que é a nação portuguesa, este fingir que é verdade aquilo que na verdade sentimos, pese embora os muitos da elite que continuam a preferir um qualquer Filipe II, em nome da racionalidade importada e da possibilidade de ascensão ao tacho internacional, com que os multinacionais costumam premiar Cristóvão de Moura e Miguel de Vasconcelos. Timor Lorosae ainda tem muita poesia por cumprir, muitas Actas das Cortes de Lamego para falsificar, muito sebastianismo para subverter os instalados. Aqui ficam os últimos versos do Cancioneiro de Cinatti
Praia presa, adiantada
no mar, no longe, no círculo
de coral que o mar represa.
Praia futura invocada.
Timor ressurge das águas,
praia futura invocada.
Molho o meu sangue na alma
da bandeira que mais prezo,
porque tenho nela a voz
da minha candeia acesa.
Sou transparente ao luar
da minha candeia acesa.
Senhor da terra, das águas,
do ar e dos milheirais.
Senhor Mãe e Senhor Pai,
dai-me um desejo profundo.
Que eu seja senhor de mim!
Dai-me um desejo profundo.
De monte a monte, o meu grito
soa, soa, como voz
de um eco infinito
ecoando em todos nós.
Timor cresce como um grito
ecoando em todos nós.
“A boca emudece, a voz apaga-se”
Estive ontem aqui, Lifao, Oe-Cusse
Estive ontem aqui, Lifao, Oe-Cusse, também dito Ambeno, o mais longe e o mais só dos sítios que foram do fim de Portugal. Levei, no meu bornal, um livro de rimas e cartas de Camões, Paris, Pedro Gendron, III volume, assim portátil, e em edição de 1759. Fui ao monumento de Lifao, onde os portugueses contemporâneos de Camões terão desembarcado na ilha, pela primeira vez. O autor de “Os Lusíadas”, o amigo dos Jaus, estava processado e não terá seguido viagem. Eu fui, mas por terra, três dias, quatro paragens de longas horas em fronteiras, sempre em duplicado, ora em Timorense, ora em indonésio (Batugadé, Oesili, Wili, Batugadé), mas valeu a pena. E li: despois que dessa terra parti, como quem o fazia para o outro mundo, mandei enforcar a quantas esperanças dèra de comer atá então, com pregão publico, por falsificadoras de moeda. E desenganei esses pensamentos, que por casa trazia, porque em mim nam ficasse pedra sobre pedra. E assi posto em estado, que me nam via, se nam por entre lusco & fusco, as derradeiras palavras, que na Nao disse, forão as de Scipião Africano, “Ingrata patria, non possidebis ossa mea” (pp. 45.46). Aliás, amanhã é o 1º de Dezembro. Aqui deixo o meu depoimento, a publicar em Lisboa, em O Diabo: O 1º de Dezembro é sério demais para poder ser utilizado como pretexto de análise de um governo que tem figuras de estadão como estas e que não divulgo, para não poder cumprir o dito segundo o qual em política o que aparece é que é. Como dizia mestre Alexandre Herculano, Portugal só é independente quando tem a vontade de ser independente, mesmo que, na prática, o sermos independentes signifique gerirmos dependências e navegarmos nas interdependências. 1640 não foi feito contra a Espanha nem sequer num só dia, mas preparado com um investimento de décadas e décadas. E, como dizia outro dos meus mestres Agostinho da Silva, a principal consequência de 1640 chamou-se Brasil. Aliás, o plano vinha de longe e não é por acaso que um D. Luís da Cunha , pouco tempo depois da restauração, advogava a mudança da capital para o Rio de Janeiro, dando como exemplo um seu avô, implicado no partido de D. António Prior do Crato, com quem entrou em desavença porque este quando foi obrigado a abandonar o reino, optou por refugiar-se na Europa e não no Brasil. Repetindo Herculano e Agostinho, digo que Portugal corre o risco de perder a independência se os portugueses perderem a vontade que os levou a refundar Portugal várias vezes, nomeadamente nos últimos trinta anos, quando muitos disseram Europa como em 1640 dissemos viva D. João IV. Pouco me interessa este governo, porque sei que nele há ministros tão patriotas como os melhores patriotas, bem como outros tão alheios à emoção nacional quanto muitos outros que também tivemos em todos os regimes. Por estes meses, estou na República do Sol Nascente, como professor na Universidade Nacional de Lorosae, enquanto agente de cooperação da universidade pública portuguesa e sinto que a comemoração do 1º de Dezembro deveria ser o reconhecermos que, graças a ele, esta língua de Camões, de Cecília Meireles e de Rui Cinatti é a língua mais falada no Hemisfério Sul, deste lado de baixo do Equador. Infelizmente, os instrumentos que dispomos para a defender são parcos demais e aqui, não tanto pelas culpas dos governos portugueses, quanto por não conseguirmos fazer da CPLP uma comunhão entre as coisas que se amam. Por isso, vou comemorar o 1º de Dezembro, sonhando que, dentro de anos, esta semente de república universal falada em português, em tétum, ou nos muitos crioulos seus heterónimos, pode assumir em termos de poder político internacional o necessário abraço armilar. Pode ser que um dos próximos Papas seja angolano ou que o Brasil, além do G20, se torne membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. O que falta ao Portugal do quintal europeu é que os portugueses à solta não tenham que continuar a procurar Portugal fora de Portugal, por causa dos “ministros do reino por vontade estranha” que chamam doido ao Manuelinho. Como sou do partido de Mateus Álvares, de São Julião da Ericeira, continuo à procura da República Maior, como o jurista da restauração João Pinto Ribeiro, chamou à nossa comunidade política.
A tutela neocolonial da chamada tecnocracia multicultural
A tutela neocolonial da chamada tecnocracia multicultural, as muitas e desvairadas gentes de todas as sete partidas que, vindas de inúmeros Estados falhados, se assumem como super-especialistas no “state building”, são coisas que muitos apenas julgam só porque nunca as puderam chegar a experimentar. Esta nebulosa apátrida de certo funcionalismo supra-estatal, que vai lançando seus acampamentos em todos os sítios ditos da desgraça, pode, desenraizadamente, ajudar a destruir as energias libertadoras da política. A democracia não é uma qualquer engenharia social que seja abstractamente cega. Eu, pelo menos, não consigo admitir que ex-políticos, adeptos e praticantes dos planeamentismos centralistas, possam ser recrutados agora para a construção de capitalismos a retalho, com retórica de desenvolvimento sustentável, apenas porque assentam, como chefes de contínuos, numa legião de recrutados estagiários, saidíssimos das faculdades do fabrico em série, ou das avaliações de sargentos, das tais que nos põem em fila indiana no dia da inspecção, à procura do funcionário a promover por mérito excepcional, medida pela ficha da classificação de serviço. Há, por estas e muitas outras bandas, alguns imensos e pretensos gurus que não são peritos de qualquer coisa, em qualquer lugar com tempo, mas que sabem exercitar a arte do relatório cinzento, desses “papers” que transformam as crises políticas, económicas e sociais numa espécie de modo de vida de alguns desempregados estruturais, com os seus “caterings”, os seus “briefings”, os seus “compounds” ambulantes, coisas exógenas e exóticas, com que se vai poluindo a paisagem das coisas humanas e sociais. Nesse jardim zoológico que vai invocando a superioridade quase celestial da metapolítica, não sei se vamos gastando dinheirinhos que bem poderiam servir para dar segurança, matar a fome e lutar contra a doença de todos. Uma organização ou uma cooperação internacionais, quando se tornam infuncionais, podem transfigurar-se em entidades feitas de poder pelo poder, mas já perderam o sentido dos gestos.
A insustentável leveza do “to be or not to be, sendo que sonhamos ser
Agradeço aos muitos amigos que me enviaram o artigo, de hoje, do jornal “Público”, da autoria de Pedro Rosa Mendes, dito “Timor Leste, a Ilha Insustentável”. Sobre a matéria, as frases que, neste blogue, já escrevi assumem uma perspectiva diversa da expressa pelo correspondente da Lusa, homem de excelente palavra, óptima informação e com valores e crenças. Sobretudo, porque não tenho, nem nunca tive, altas expectativas de uma ilha da utopia, nem as consequentes frustrações. Segundo, porque basta fazer comparativismo, e colocarmos Timor do Sol Nascente no contexto de outras Nações da respectiva Sociedade das Nações, paraconcluirmos que se trata de uma realidade tão normal em tal anormal quanto o seria a República dos Portugueses, se a relativizássemos no contexto de uma pequena Sociedade das Nações, restrita aos nórdicos escandinavos. Feliz, ou infelizmente, o meu estatuto de agente da cooperação obriga-me a ter que dizer antes e, para dentro, através de adequado relatório à consideração superior, mesmo que seja um tombo no caixotinho do lixo, o que, para fora, me apetecia comunicar e até polemizar. Mas, dentro de algumas semanas, poderei, em plena liberdade académica, se ela ainda houver, para mim, analisar, não tanto a questiúncula portuguesa, quanto a existência de uma das primeiras tentativas de criação de uma secção colonial do anticolonialismo da supra-estadualidade onusiana, com o seu “state building” de laboratório e o seu “nation building” de teses de mestrado e doutoramento. Felizmente, não oriento nenhuma e se, por improvável acaso, for convidado para um júri desses, recordarei que continuo em regime de “non grata” para com os missionários e missionárias de tal “way of life”. Apesar de herético, prefiro a companhia e os conselhos do Padre João Felgueiras, que é homem de fé e maneja tão bem o lume da razão quanto o lume da profecia. E vou continuar a decifrar os conselhos do Professor José Mattoso.
Ainda não sei suficiente lulic para deixar de ser malai
Sim! Já foram escritos todos os livros que explicam Ataúro 1975, invasão indonésia, Xanana, chefe da resistência, Ramos Horta, presidente, petróleo, Austrália. Mas ainda não sei suficiente lulic para deixar de ser malai, ainda não compreendi a imanência do crocodilo e de todos meus antepassados, ainda não sei que avô quer dizer mais do que auctoritas. Porque já se passaram muitos séculos desde o ano de sandalosos livros de deve e haver com a foz do Rio das Pérolas, coisa que é mais do que o papiar cristão ou que a busca do que está além da canela. Pelo menos, foram trezentos anos antes de 1812, depois de chins e dominicanos, pombais e jesuítas, e até filipes e 1640, tendo finalmente arribado, do Rio de Janeiro, um tal Vitorino Gusmão, que detectou a ilha dividida entre um partido a favor do rei de Motael e outro a favor do Padre Governador do Bispado, com a praça de S. Alteza Real abandonada. Na altura, estava o pessoal militar reduzido a doze Europeus, vindos como degredados de Goa, a quatro oficiais em iguais circunstâncias e somente um tenente coronel, um major, e um capitão, apenas os três que tinham vindo servir voluntariamente. Embora houvesse cem soldados Timores, mas sem soldo nenhum, enquanto o que recebiam Europeus e Goeses apenas dava para comerem durante quatro meses, sendo, portanto, forçados a comerciar, a ir aos diferentes reinos com fazendas muitos ordinárias, a troco de sândalo, cera e de escravos, num verdadeiro tráfico de mercancias… Por mim, que só sei que nada sei, vou continuando a ter que estudar, a ter que seguir o conselho da muita experiência, porque ainda há muito que quero fazer, sem nenhuma jantarada, almoçarada ou uiscada no hotel Timor, com muita e muita gente que bebe do fino e dá parecer… Estou aqui sentado no meu cantinho, diante das árvores do meu jardim, em mais uma noite em que dolorosamente me fico sem dormir, estou aqui, sentido, diante de mim, por dentro de mim, confirmando, nas memórias das gentes, nos sinais das pedras, nas conversas de muitos, algo que se passou desde que o almirante chinês que podia ter feito a descoberta do caminho marítimo da Índia para Lisboa, acabou por ter que regressar ao império do quadrado debaixo do céu, mui celeste, rodeado de sombras, porque a caravela era mais tecnologicamente atractiva que a grande nau, grande tormenta, de quem se sentia ameaçado por gentes do Norte. Mas se o dono do casino da Coreia do Kim Il Sung já dita desditas, valia mais o Alves dos Reis macromonetário, precursor de Keynes, do sonhar é fácil. Porque chapéus há muitos, seus palermas, no tempo em que os vascos eram santanas.
Apenas continuo a fingir que ainda posso desembarcar em Lifau
Apenas continuo a fingir que ainda posso desembarcar em Lifau e passar a Solor e Flores, sem fugir para o Ataúro (in memoriam de Rui Palma Carlos, que aqui veio ao fim de Portugal e nos deixou, em surrealismo de 1977 , este quadro dito Libertação) Os meus alunos e os meus filhos não são do tempo dos restos do Império que nunca foi o Quinto, quando alguns ainda diziam que podíamos visitar um tempo em que o tempo tinha parado, porque, por cá, ainda vivíamos antes de Bandung, mas também antes dos massacres do Ruanda, antes da guerra civil de Angola, antes de Mugabe, antes de Mandella. Era o tempo em que ainda era ministro Joaquim da Silva Cunha , que fumava cachimbo e despachava, com pormenores de lápis atrás da orelha, uma qualquer construção de barragens lá para os lados da Namíbia, sem ceder à pressão dos carcamanos e a outras, incluindo as da compra de poder. Até desdenhava daquela que lhe fazia a bicha dos intelectuários, desses que são intelectuais porque foram ministros, tal como foram ministros porque todos diziam que eram intelectuais, mas sem que a inteligência se tivesse casado com a honra, porque mesmo em glosas de um quarto de hora antes de morrerem continuam a ser tão tratantes como sempre foram. Era um tempo em que Lisboa vivia como se o Príncipe Regente ainda pudesse largar de barco do cais da Junqueira, com o Estado na bagagem de porão, sempre disponível para ocupar a colónia do Sacramento, para conquistar terreno na Amazónia, para poder contar com discursos feitos pelo Silvestre Pinheiro Ferreira, contra a oclocracia, ou com planos de reconstrução bancária do José da Silva Lisboa, para não ter que se dar razão a Weber, e ao protestantismo como a única ética possível para o dito capitalismo, o que vai do Oliveira e Costa ao Valle e Azevedo, onde nenhum deles é zeca nem diabo. Alguns dos meus leitores que pensam ter horas certas, bem certinhas, quando lêem, com os olhos do respectivo a priori, pré-captando (donde veio preceito) e cum-captando (donde veio conceito), o tempo e o lugar de emissão deste meu blogue, sem admitirem que, por aqui, tudo é nove horas mais cedo, também nunca hão-de compreender como, de vez em quando, assim vir ao mais cedo é talvez poder andar, no tempo, antes do tempo, coisa que, contudo, apenas é admissível para os que, não tendo queda para a literatura de justificação do revisionismo, julgam que o futuro é tempo que ainda vale a pena conjugar. Não é um acaso, mas apenas uma procura, a que, neste período, entre Obama eleito e o melão de Sócrates entreaberto, a que vou fazendo por esta ilha, pretensamente perdida. A tal que os administradores do império quiseram esquecer, a tal que os agentes da descolonização, do anti-rapidamente e em força, mais rapidamente se quiseram livrar dela, com o absurdo, entendível, de gonçalvistas promoverem partidos integracionistas face à Indonésia, enquanto nacionalistase super-direitistas iam traindo, cavando e dando às vilas diogo. Por isso me lembro da morte do Rui, lá no mês de Maio, para que não mais morra. Porque, in medio, não estava a virtus, mas moderadíssimos e malandríssimos oficiais, de carreira ainda mais ambiciosa, que, usando o “divide et impera”, com riscos pouco calculados, prenhes de especialismos em estratégia, apenas não ponderaram a hipótese de duzentas mil vidas, decepadas por maus cálculos de “intelligence”. Até nem faltaram sequer especialistas em importação de sandalosas iguarias, que não sabiam de poços de petróleo, nem entendiam que valeria a pena a soma de São Tomé com Timor, para a hipótese de um novo ministro das colónias que não tratasse apenas das contrapartidas dos casinos em omnipotência dita moral que é pior do que a outra. Pelo menos dava mais emprego do que o Macau do Stanley e outras afundações que são as únicas que julgam poder emitir adequadas certidões de patriotismo, porque, dos ostrácicos, nunca rezará a história, nem do futuro. Portugal ainda era o erat e o tal erat era tão real que contá-lo, três décadas volvidas, pode parecer que soa a falsete. Mas o erat era mesmo em todo o lado, do mesmo modo, onde para fazermos a quarta classe sabíamos dos afluentes do Mondego e dos apeadeiros da Linha de Oeste, até que chegaram os que gritaram, e conseguiram, o nem mais um soldado para as colónias. Os que traduziam o estilo de Jane Fonda com o gnóstico de Mao Tse Tung, pintando de vermelho e amarelo as paredes da gare marítima de Alcântara, enquanto outros, mais telúricos e dados a santinhos de barro e missal, viam filmes do Eisenstein e punham Cunhalno lugar de Nossa Senhora de Fátima. Mas a maior parte de tais outros nem sabia para que lado seguir, entre os que partiam para Franças de valise de cartão e os soldadinhos do adeus até ao meu regresso com o angola é nossa tatuado por cima do amor de mãe. E foi assim que correu Abril num fazer coisas em estampido, no que, noutros lugares, onde o tempo havia sido tempo do seu próprio tempo, havia demorado séculos de guerras civis, de guerras mundiais, de guerras coloniais. Eu, pelo menos, tive a vantagem de ser um desses meninos que passou noites em claro a transformar, em escrita, poemas por cumprir e manifestos políticos de uma revolução a haver, enquanto se ouvia Zeca Afonso e Chico Buarque, se liam coisas da arca do Pessoa, assim postas nas pretensas obras completas da edição brasileira, ou se descobria a Cecília, dos Açores e do Brasil. Para, bem lusotropical, me preparar para a guerra que um dia tinha que vir, com dois anos de comissão em terras de malária, mísseis e missangas. Por mim, que acabei por não vir à guerra, por não fugir para Paris, mas a ter que gerir o resultado de não ter havido guerras civis, guerras mundiais e guerras coloniais, apenas continuo a fingir que ainda posso desembarcar em Lifau e passar a Solor e Flores, sem fugir para o Ataúro.
Entrevista Jornal de Negócios
- Como avalia a estratégia de comunicação que o PSD apresenta neste momento e que estão a colocar pressão sobre a direcção do partido?
Estratégia, aprendi eu no IDN, é a arte de transformar as vulnerabilidades em potencialidades e, pelo contrário, evitar que as potencialidades passem a vulnerabilidades. Apenas para concluir de tantos líderes anteriores, plenos de tacticismo, mas falhos de estratégia, o PSD, para mal da democracia, não pode ter estratégia de comunicação, porque ainda anda à procura de estratégia de acção que lhe permita superar o vazio de funcionalidade no actual sistema político.
- O facto de se ter seguido a um período de silêncio tem alguma influência, nomeadamente ao nivel das expectativas?
O período da gestão dos silêncios correspondeu a um momento de super-cavaquismo sem Cavaco e depressa se concluiu que era pior emenda do que os sonetos de Menezes e de Santana, dado que as medidas reveladas pelas sondagens apontavam para um esvaziamento do partido em termos de apoios sociológicos.
- Relativamente às intervenções polémicas da líder do PSD nas últimas semanas (dizer que as obras públicas só beneficiaria os desempregados de Cabo Verde, em relação ao aumento do salário mínimo, discurso de vitimização em relação à Comunicação Social e depois a ideia do controlo dos media; e a de ontem sobre a dificuldade de fazer reformas e a frase da suspensão da democracia por seis meses), considera que elas surgem por inabilidade ou estratégia comunicativa?
As expectivas de muita comunicação social sobre MFL têm a ver com a imagem que ela transmitiu de antiga ajudante de Cavaco, da ex-ministra tecnocrata que iria fazer de conselho de fiscalização de Teixeira dos Santos, vestida de Anti-Santana e de Anti-Menezes. Só que MFL tem genes de política desde os tempos do avô e do bisavô e tem uma história de activismo e de solidariedade que lhe vem das próprias lutas estudantis, onde esteve sempre do lado da democracia. Só alguém mal-intencionada é que a pode colocar no lugar errado. Ou então, só alguém que não quer discutir o fundo da questão e prefere a pega de cernelha.
- Todas as intervenções enumeradas acima tiveram um impacto negativo? Quais é que não tiveram? Por exemplo, a afirmação sobre o emprego para os trabalhadores imigrantes não pode valer votos ao PSD?
MFL ainda está na fase de personagem à procura de actor, ainda não estabeleceu devidamente o respectivo estilo como líder do principal partido da oposição. Primeiro, porque tem de se libertar do ausente-presente com quem sempre a comparam, Cavaco. Segundo, porque apanhou uma crise financeira internacional que a impediram de poder ter um discurso onde tem, indiscutivelmente, mais autoridade. Terceiro, porque lançou pessoal político novo, como Paulo Rangel… Isto é, MFL ainda é um melão de que só puseram no prato a primeira talhada, até porque muitos ameaçam que o PSD vai apresentar outra sobremesa, dita melancia, com uma coloração por fora e outra por dentro.
- O que é exactamente uma ‘gaffe’? Pode-se chamar realmente ‘gaffe’ a estas expressões recentes?
“Gaffe” é o Reagan ser apanhado a ameaçar a URSS em “off”, o que não o impediu de ser o presidente do fim da guerra fria, mas também pode ser o ministro Borrego a contar uma anedota sobre o alumínio e sair do governo para apresentar estudos paraa confederação patronal sobre o novo aeroporto do Barrete Verde…
- Relativamente ao uso da ironia no discurso político, qual a principal dificuldade que enfrenta um político neste particular? O que pode garantir que ela seja mesmo entendida como tal (ironia)?
A ironia é coisa que não se adequa ao ritmo da “imagem, sondagem e sacanagem”, a tríade que, segundo Manuel Alegre, marca a política à portuguesa…
- O que é que, na sua opinião, falhou ontem no discurso de Ferreira Leite?
Ao contrário do que parece, eu que costumo ser um crítico frontal de MFL, compreendi perfeitamente o que ela quis dizer e julgo que, se ela usar o tempo de antena a que tem direito, conseguirá comunicar devidamente a mensagem. Nem o avô dela, o ilustre José Eugénio Dias Ferreira, que, se quisesse, podia ser o chefe do 28 de Maio em vez de Salazar, deixaria de dizer que vivemos num período de degenerescência democrática e que esse ambiente propicia a ilusão de uma suspensão da política. Mas também me lembro que um António Sérgio, em pleno crepúsculo da I República, chegou a lançar a ideia de uma espécie de ditadura à romana, onde, durante um período curto, se fariam as reformas que a partidocracia emperrava.
Lembro-me que Ramalho Eanes tentou coisa sucedânea com três governos presidenciais e que Mário Soares, por duas vezes, provocou a suspensão com um governo PS com ministros do CDS, por causa do FMI, e, depois, com um governo do Bloco Central, por causa da CEE. Mas o que tenho a certeza é que MFL não reeditou a proposta do Bloco Central, na linha do proposto no primeiro discurso de regresso de Paulo Pedroso. Pelo menos, eu percebi que ela estava a dizer que José Sócrates tinha entrado numa encruzilhada de conflito com as forças vivas e que, no respectivo discurso, quase parecia que precisava de não ter partidos de oposição, sindicatos e patrões que o não deixavam trabalha. Por outras palavras, compreendi a suprema ironia: MFL estava a fazer uma autocrítica e a denunciar a memória da maioria absoluta do cavaquistão, quando este mostrava o estilo que agora Sócrates parece assumir.
- Lembra-se de casos antigos semelhantes na política nacional de falhas comunicativas pelo uso da ironia?
Em política o que parece é e a ironia faz parte da arte literária e não do discurso eficaz a que está condenado o político. O caso mais próximo que conheço, no PSD, foi o de Marcelo Rebelo de Sousa comunicar que só iria disputar a presidência do partido quando Cristo voltasse à terra…
Agradeço antecipadamente a ajuda que me puder dispensar. O meu deadline é um pouco apertado, até às 18 horas.