Dez 15

Um protesto liberal contra a sociedade de casino

Leio: Alguns dos maiores bancos do Mundo somam perdas potenciais na ordem de milhares de milhões de euros resultantes do alegado esquema de fraude montado pelo corretor norte-americano Bernard Madoff. O sistema piramidal de fundos de risco implementado pelo antigo presidente do Nasdaq terá criado um buraco de 50 mil milhões de dólares.

Continuo liberal, porque, como liberal, em 2002, publiquei um manual sobre a matéria onde podia ler-se:

Passámos assim a viver nas teias de uma sociedade de casino, nessa nova religião dos mercados que tem como principais activistas os descendentes dos yuppies, que vão agitando uma massa informe de devotos de um pretenso capitalismo popular, marcado pela velha lógica do enrichissez vous.

A figura dos corretores aventureiros quase ameaça substituir a dos garimpeiros e dos achadores de volfrâmio, e a realidade quase se transforma numa ficção folhetinesca de telenovela, aproximando-se de muitos dos meandros do romance de Dona Branca. Aliás, podem reunir-se, sob os holofotes televisivos, os líderes das superpotências ou do G8, bem como as cimeiras da NATO, da UE ou da OSCE, mas não se conhece o rosto dos mestres do mercado, desses novos predadores para quem os valores da justiça e da honra parecem não contar.

A este respeito, importa sublinhar que revolução dos mercados, expressa pela livre circulação dos capitais, foi precedida pelo processo da desregulação e das privatizações. Assim, o poder económico desmaterializou-se, deixando de ter como base preponderante os chamado factores de produção da teoria marxista, como eram a terra, os recursos naturais e as máquinas, e passou a assentar em factores imateriais, como o conhecimento científico, a alta tecnologia, a informação, a comunicação e as finanças.

Com efeito, deu-se uma espécie de desmaterialização de certos mercados, onde não faltam as próprias mercadorias imateriais, como os chamados futuros puramente financeiros. O impacto da desmaterialização é, aliás, particularmente patente nas chamadas indústrias culturais, dos livros, da música, das artes plásticas, do cinema e até dos próprios títulos escolares, dado que hoje podem negociar-se mestrados e doutoramentos, quase virtualmente (Capella, 1997, p. 246).

O poder, incluindo o poder económico, transformou-se numa rede de poderes. Deixou de ser uma coisa, um patrimonium, um ter, e volveu-se em relação, numa rede de muitos micropoderes, em que os novos mestres predadores e conquistadores já não são apenas os detentores do capital nem os organizadores da era dos managers, mas antes os efectivos manipuladores dos tentáculos dessa rede, principalmente os que conseguem, por todos os meios, a necessária inside information. Surgiram, deste modo, novos grupos que, escapando às anteriores formas de representação e de legitimação política e social, logo manifestaram desprezo pelo bem mais precioso de qualquer democracia: aquela informação que permite a consolidação de uma opinião crítica.

Continuando a seguir o inventário do professor de economia de Lovaina, Ricardo Petrella, num artigo célebre Les Nouveaux Maîtres du Monde, publicado em Le Monde Diplomatique, de Novembro de 1995, esses novos poderes têm, com eles, legiões de aliados e colaboracionistas, desde os quadros da tecnociência aos criadores de símbolos, onde também é marcante o conúbio entre os universitários e os opinion makers, aliás paralelo à própria entrada dos grandes media no sistema dominante.

Aliás, estes novos elementos até diferem qualitativamente dos anteriores managers ou organizadores, denunciados em 1940 por James Burnham (1905-1987), do mesmo modo se distanciando dos chamados tecnocratas dos anos sessenta. Até vieram dar uma nova dimensão à chamada investigação científica, tornando caducas as velhas estruturas universitárias, quando algumas destas ficaram dependentes das empresas e das fundações transnacionais e se libertaram dos subsídios públicos, directamente recebidos das agências estaduais ou das organizações inter-estaduais. O grupo, cada vez mais cosmopolita, até ganha algumas características de casta apátrida, encontrando-se nas mesmas escolas de formação permanente e actualizando o velho receio da sinarquia, conforme as profecias de Saint-Yves d’Alveydre (1842-1900), para quem o mundo poderia ser conquistado por um sociedade secreta que integraria uma elite de técnicos e de representantes dos banqueiros.

Já não temos as sete irmãs das multinacionais petrolíferas, das grandes famílias que dominavam o tempo de mera troca de mercadorias que marcou o auge da revolução industrial. Passámos para a sociedade da informação, onde o novo bezerro de ouro é um produto que não se consome, como acontecia com o petróleo ou a alimentação, dado que se cria pelo uso e até pode reproduzir-se pelo abuso.

Como assinala Robert B. Reich, na sua obra The Work of Nations, de 1991, as actuais empresas multinacionais já não cabem no universo concentracionário dos modelos burocráticos e centralizados, tendo constituído uma vasta rede de entidades descentralizadas, de tal maneira ramificadas pelo mundo que até já não podem receber um bilhete de identidade nacional. As empresas em causa deixaram, definitivamente, de ter pátria, até pelas participações cruzadas que se foram estabelecendo entre as que representavam as principais marcas do mercado.

O cientista e filósofo húngaro Karl Polanyi (1886-1964) em The Great Transformation, de 1944, já referia a dinâmica interna da produção em massa de mercadorias, porque voltada sobre si mesma, levou a um crescimento ilimitado das trocas e a uma autonomização incontrolada do mercado.

O chamado fim do comunismo não foi, afinal, o fim da história, dado que a vitória dos modelos ocidentais significou a consagração de um estilo de organização marcado por factores totalmente diversos daqueles que poderiam ser captados por Karl Marx ou Lenine. Em primeiro lugar, surgiu a resposta teórica keynesiana, geradora daquilo que uns qualificam como consenso social-democrata e outros, como mero socialismo de direita. Seguiu-se o exemplo do New Deal de Franklin Delano Roosevelt, assente na aliança entre o capital e o trabalho. Avançou-se, depois, no compromisso fordista. E, na Europa Ocidental, social-democratas e democratas-cristãos promoveram a instauração de um Welfare State que acabou por ser eficaz, tanto para a superação do Warfare State, como para a competição com os modelos do socialismo real, de marca sovietista.

Acontece que, com o fim do mundo bipolar, mais do que a emergência de uma só superpotência, começou a desenhar-se um nebuloso império dos grandes países ricos, fundador do Grupo dos Sete, império esse que assenta em três moedas sólidas (dollar, deutsche Mark e yen), tem, como guardas avançadas, duas ou três praças financeiras fortes, núcleo duro que, pelos recursos, pelo poder de mando e pela atracção mimética, foi controlando quase todas as principais elites dos chamados países periféricos, e navegando num mar informativo manejado por agências como a Reuters ou a Dow Jones.

Com a chegada do euro, apenas nos apetece recordar que também o dinheiro não tem pátria. Aliás, o americano dollar tem origens etimológicas no alemão thaler, começando até por ser a designação dada pelos ingleses ao peso espanhol que circulava nas possessões sul-americanas, antes de se transformar na unidade monetária norte-americana desde 2 de Abril de 1792. E foi em nome da americanização que se instituíram o deutsche Mark, gerado pela ocupação americana, e o próprio Yen japonês. As três pessoas da tríade, estão, por dentro, unidas por uma neutra perspectiva circulatória…

A humanidade, depois de 1989 e do dobrar do milénio, também não chegou ao fim da história, porque logo se sucedeu uma espécie de balkamondialisation, com o regresso das nações e até das etnias, não se confirmando a previsão de um Kenichi Ohmae, o mr. Strategy, que proclamava o fim do Estado-Nação e a chegada de uma redentora entidade maior, a que chamava Estados-Região, porque, face à emergência de um capitalismo supra-territorial, os Estados apenas exerceriam funções transitórias no âmbito da organização e da regulação económicas.

Com efeito, o ritmo da política internacional que nos passou a marcar, depois da Guerra Fria, acabou por aproximar-se de modelos típicos dos anos vinte do século passado, dado que inúmeras Nações sem Estado voltaram a emergir. Os nacionalismos, muito particularmente os etnonacionalismos, eram, afinal, brasas por extinguir, que logo se avivaram com os novos ventos da história, quando estes sopraram as cinzas dos superpowers que os proibiam. O explodir do espaço controlado pelo imperial-comunismo soviético; os problemas que o Império Britânico deixou por resolver no Médio Oriente e no subcontinente indiano; a questão do renascimento árabe; ou as guerras civis africanas, afinal, não são causas, são sintomas. Por muito novas que fossem as maravilhas do século XX, nenhuma das forças instaladas no comando do universo foi capaz de construir um desses homens novos que as mesmas, repetindo o Iluminismo gnóstico, prometiam edificar sobre a pretensa tabula rasa do homem de sempre.

A globalização económica, onde a geo-finança passou a comandar a geo-economia, ao mesmo tempo que se desenvolveram instituições globais de vigilância como o G7/G8, o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio, vai levar a que se assista à eliminação do modelo de Welfare State e à crise das ideologias que o geraram, da democracia-cristã à social-democracia.

O dinheiro transformou-se no mais mobilizador dos valores universais do nosso tempo e, com ele, veio uma difusa forma de corrupção, onde se compram e vendem factores de poder, pelo simples uso da inside information. Porque a sociedade contemporânea, marcada pela difusão da informação, ao criar uma hiper-informação, teve que passar a assentar em redes de circulação, logo, quanto mais a informação de difunde, mais a rede se valoriza.

O poder deixou, assim, de ser uma pirâmide e transformou-se num labirinto, onde, ao mesmo tempo que os actores da decisão se multiplicam, se torna brutalmente desigual o acesso ao que é relevante, dado que raros sabem qual o local onde as fundamentais decisões são realmente tomadas.

Dez 14

Não costumo invocar o nome liberal em vão….

Isto de escrever em linguagem que é metalinguagem, não detectável pelos que precisam de interpretadores policiescos de códigos filosofantes, quase implica que eu peça desculpa aos ilustres leitores por não vos indicar com quem ontem fui jantar, qual a cor da cadeira onde vou teclando, ou se fui à missa à catedral ou a uma capelinha perto de Motael. Para evitar alguns subentendidos que me podem colocar na categoria de mentiroso, sou assim obrigado a publicar, na íntegra, um documento que, em 23 de Setembro, enviei a quem enviei e que foi interpretado da maneira como foi interpretado por quem, se tivesse a coragem de sair do anonimato, deveria ser especialista em interpretação de textos e que agora barafusta, dizendo ter sido enganado (apenas sublinho o que tenho de sublinhar) :

Meu caro J…

Pedindo-lhe para não polemizarmos publicamente, agradeço-lhe as referências, mesmo as críticas, sobretudo, as farpas que pegam fundo. Confesso que é uma honra. Não polemizo, por enquanto, embora apetecesse. Porque precisava de um bocadinho de tempo e como estou em vésperas de ir para um breve exílio no outro lado do mundo, outras são as vacinas a que tenho de submeter-me. Tenho consulta do viajante daqui a uns minutos.

Julgo que se lembra da minha presença no Tribunal de Alcobaça em defesa do A… E se percorrer os textos que blogueei, sobre a matéria, por essa época, eles correspondem à posição última. Julgo que a primeira vez me cruzei com o P… foi num supermercado, em compras, depois de ele sair da cadeia. E conversámos, com ele a agradecer as posições que tinha tomado e manifestado pessoalmente à A…, minha querida e antiga aluna, e publicamente, no meu blogue.

De resto, as minhas coincidências de pertença institucional com o ex-ministro e actual deputado têm a ver com a República Portuguesa e mais nada. Pelo menos, que eu saiba. Mas como não faço parte das secretas organizações que tudo dizem saber, prefiro saber que nada sei.

As suas outras insinuações sobre a minha coincidência de pertenças, com os grupos e as concepções do mundo e da vida de Kant, constituem uma honra para mim. E qualquer observador pode reparar que elas até são uma das minhas bandeiras de luta, permanecentes, sem qualquer tipo de secretismo. Acresce que, em todas as organizações a que pertenço, há um lugar na Internet e em todas elas colaboro publicamente com o nome de baptismo e sem pseudónimo. A única que ninguém repara é a minha pertença directiva ao movimento cívico “Intervenção Radical”, com o Eurico de Figueiredo e o Carlos Antunes, entre outra meia dúzia de resistentes.

Quando tiver tempo, terei todo o gosto em polemizar consigo. Nas próximas semanas, estou mobilizado pelo Oriente, de onde vem a luz… do sol. Espero que me deixem ir para Timor, ensinar na Kant, na Faculdade de Direito…

Com as melhores saudações bem orientais…

José Adelino Maltez

Por outras palavras, ilustre anónimo, sou defensor de uma alínea deontológica entre magistrados que obrigue os mesmos a não serem anónimos blogueadores, usando instrumentos a que só acedem por dever de ofício. Daí manter na íntegra, que:

(1) não faço parte das secretas organizações que tudo dizem saber
(2) tenho coincidência de pertenças, com os grupos e as concepções do mundo e da vida de Kant
(3) essas pertenças são uma honra para mim
(4) e são também uma das minhas bandeiras de luta, permanecentes, sem qualquer tipo de secretismo.

Aliás, basta clicar nos nomes a quem me atribuem irmandade e que escrevem publicamente nos jornais, para todos verificarem que tanto com eles costumo polemizar, como também os tenho afrontado, bem directa e frontalmente. Não tenho culpa, absolutamente nenhuma, de, por cá, os pretensos tories não entenderem que um whig tanto pode ser girondin, como detestar neopides e jacobinos, gostar de ir à tromba ao Sebastião José e ao Pina Manique, estar disponível para desembarcar no Mindelo e ainda poder ir para a Maria da Fonte e para a Patuleia, para que, desta, se expulsem os Cabrais que vieram do Clube dos Camilos. Não costumo invocar o nome liberal em vão. Para bom entendedor, azul e branco basta.

PS: Um semanário pôs, na sua primeira página, uma frase que disseram minha, mas onde eu apenas citava uma frase da autoria de Manuel Alegre sobre o actual situacionismo. Isto é, não plagiava. Mas como se esqueceram do verdadeiro autor e apenas a espreitaram nas bancas, logo uns “comments” de corajosos anónimos me bafejaram: quem é este iluminado vindo das tumbas? ao que outro obscuro e anónimo logo respondeu que por causa da frase se tratava de uma voz anterior a mil novecentos e setenta e quatro… ! Eu nasci em mil novecentos e cinco e um e o autor da tríade denunciadora acho que era da rádio portugal livre…

Dez 14

A gente se transforma no caminho do meio, não é nem dum nem doutro

Não há nada como dar uma volta pela imprensa brasileira, para nos vermos livres destas tenazes do “agenda setting” de certo portugalório. Foi com um breve sorriso que reparámos na circunstância de Luiz Inácio Lula da Silva, na passada terça-feira ter proclamado que “quem tem 60 anos e se diz de esquerda tem problemas, e quem é jovem e se diz de direita também tem”, argumentando também que, com o passar do tempo as pessoas deixam de adotar posicionamentos radicais em relação à política. “Quando a gente tem 60 anos, é a idade do ponto de equilíbrio, porque a gente não é nem um nem outro”, disse. “A gente se transforma no caminho do meio, aquele caminho que precisa ser seguido pela sociedade”. Perante o coro de protestos que se levantou de sessentões e setentões que permanecem na esquerda e que o acusaram de camaleão, o presidente veio dizer que apenas disse uma brincadeira. Podemos concordar com todos. Ele não definiu esquerda nem direita, apenas definiu o situacionismo que gosta de dizer que não é de esquerda nem de direita, porque está acima das partes e dos partidos. Já Estaline quase tinha dito o mesmo. Tal como Salazar nunca se disse da esquerda e muito menos da direita. Aliás, o nosso fantasma, quando era militante de uma causa, num regime pluralista, apesar de imperfeito, o da I República, chegou a deputado de um partido dito do centro, apesar de católico, o qual não se eximiu de amplos elogios ao governo de António Maria da Silva, o símbolo máximo do republicanismo situacionista no pós-guerra. Por outras palavras, todos eram “bonzos”, como então se dizia de Silva, cercado por “endireitas” e “canhotos”.
Este mesmo António Maria da Silva acabou por ser derrubado pelo 28 de Maio, liderado pelo almirante Mendes Cabeçadas, um dos activistas do 5 de Outubro de 1910 e, depois, golpista contra Salazar . Mas também este acabou por ser ultrapassado por Gomes da Costa, militante dos radicais republicanos, para depois ser esmagado por Óscar Carmona, num jogo de empatas que veio a ser deglutido pelo tecnocrata Salazar que aproveitou os escombros e supendeu a política durante quase meio século, instaurando um sistema doméstico de poder, nesse paternalismo que é a melhor demonstração de regresso ao “oikos despote” das teorias aristotélicas- Lula da Silva apenas disse o óbvio, pôs em voz alta o que pensam os homens do poder. Todos tendem a abusar do poder que conquistam, mesmo que o tenham conquistado pelas virtudes da democracia. E a única maneira de o evitarmos é estabelecermos o sistema dos travões proposto por Montesquieu, a tal separação de poderes e o tal estabelecimento de contrapoderes, ou de forças de bloqueio segundo os lamentos de Cavaco quando era primeiro-ministro, o tal modelo que faz a democracia contemporânea, onde, segundo Popper, interessa menos sabermos quem manda, mas antes como se controla o poder dos que mandam, como representantes do todo. Porque até a virtude precisa de limites, conforme o eterno mestre de La Brède.   Resposta dada ao Semanário “O Diabo” sobre o que mais receio e o que mais desejo para 2007:

Entre receios e desejos, bem apeteceria responder como homem comum, e dizer de forma democrática e pluralista, tanto o “saúde e fraternidade” da I Republica, como o slogan de Fernando Pessoa, a gozar com um dos primeiros lemas do Estado Novo “tudo pela Humanidade, nada contra a Nação”. Por isso temo que o socratismo nos continue a Salazar izar, em nome de uma Europa de merceeiros mentais, que o PSD não lidere a oposição ao Bloco Central de interesses e que a autonomia da sociedade civil não assente nos homens livres da finança e dos partidos. No plano internacional, porque acredito que a Europa das liberdades nacionais e da autonomia das pessoas pode voltar a caminhar do Atlântico aos Urais, receio que não se siga a lição de Kant de 1795 e que continue esta anarquia ordenada e esta falta de ordem universal, marcada pela confusão que a república imperial que resta continua a fazer entre os sonhos da humanidade e o respectivo interesse nacional. 

Desejava mesmo que D. Sebastião não tivesse morrido, para podermos ter o verdadeiro poder dos sem poder, sem apocalipses nem teorias da conspiração. Para tanto, seria conveniente restaurarmos a “res publica”, a fim de cercarmos a coroa aberta desse império sem imperador com instituições de cidadania. Por nós, bastaria que entrássemos em verdadeira organização do trabalho nacional, partindo do respeito pela palavra dada por aqueles que têm o mérito de viverem como pensam, porque neste tempo de homens lúcidos convém ter a lucidez de continuar ingénuo. Daí exigir o regresso da justiça que sempre foi o de cada um conforme as suas possibilidades, para podermos dar a cada um conforme as suas necessidades, misturando a honra do “antes quebrar que torcer”, com a inteligência dos que não têm medo e não cedem à cobardia dos que dizem que tem razão quem vence, embora saibam que, por cá, continuam a vencer os que não têm razão.

Dez 13

Nesses caminhos de aborígenes, cheios de muitos sinais sagrados e a casa das corujas onde nasceu quem somos, para sempre

Aqui, diante do Ataúro, com a tribal descendência em vagamundo, com um em Delaware, outra em São Miguel e a terceira, entre Paris, Madrid e uma plataforma petrolífera do Mar do Norte, e para ajudar os pequenos agentes pidescos que nos procuram identificar com estrelas amarelas e ainda nos põem como descendentes do capitão da polícia de choque, apenas confirmo que os nossos avoengos, do patronímico, vieram todos dos moinhos da Ribeira e da Barroca, lá dos campos de Cernache e Vila Pouca, talvez oriundos da ilha do mar interior donde todos partimos, aqui vos deixo, gente da família, um primeiro inventário de nossa plebeia labuta à procura do abraço armilar. Porque poucos sabem dos trilhos que nos levavam às terras das Rodas ou do Cimo do Olival, nesses carreiros feitos com pés descalços, onde conhecíamos as árvores quase pelo nome e sabíamos das curvas da ribeira e dos silvados, quando minha avó me lavava às cavalitas, nesses caminhos de aborígenes, cheios de muitos sinais sagrados, onde se guardam os espíritos dos antepassados, entre alminhas, cruzeiros, eiras, moinhos e a casa das corujas onde nasceu quem somos, para sempre, porque sempre havemos de regressar, mesmo sem querermos e sem que a semente tivesse vivido em árvore que me desse a sombra eterna lá diante do Olho Marinho. Apenas quero ser do pó eterno, que o fogo atiça, e cinza a cinza que me espalhem no Atlântico que Mateus Álvares olhou em sonho, como o gavião com que me metaforizo. No dia 19, em Mafra, as gentes da Ericeira vão lançar em livro um pedaço de uma das minhas profecias, a propósito de 1808. Mesmo aqui, por lá serei, também.

PS: consta que o dantas, ex-ministro e tudo, continua como cadáver adiado, procriando condecorados saneamentos, através daquilo que, no direito não público, se chama assédio laboral, contra todos(as) (os)(as) mal-amad(os)(as), dissidentes e quejandos(as). Consta também que há revolucionários(as) sindicalistas que se compraram e que, à boa maneira do ti estaline, passaram para agentes torquemadas, queimando os gulagueiros, em assassinatos de carácter, em troca de uns degraus acima na engrenagem macacal. O dantas gosta de dizer que foi, ou esteve para ser, ministro da educação, com um pé no regime do pretérito e do presente, ou outro pé no outro, o do presente ou o do futuro. Com um pé no primeiro pê do bloco central e outro pé no outro pê. Com um adjunto num dos lados da barricada, cheirando a cultura, e outro, no sofá da banca, cheirando a tecnocrata. Porque só em Portugal, onde não há corrupção, é que os banqueiros não são terroristas, mas simples bancários com as pretensões do poetastro. Para que se confirme, do devorismo, o dito de proudhon sobre a propriedade ser um roubo, onde quem não mama não mama. Dizem que nos vamos ver livres do mais velho dos dantas ainda antes do fim do ano. Como se o dantas não se tivesse frutificado pela parasitagem que não lhe foi dada pela árvore do paraíso, mas pelo bichinho que devora as bagas ainda verdes e pedófilas e, depois, as expele além da tripa como carnes flácidas de velha espatifada. Ele, dantas, não se importava que o coiso mudasse de política, desde que o coiso lhe desse outro ministério, como pediu. Aliás, o dantas chegou a convidar o coiso para padrinho de casório, mas já o dito, em dita, estava a dar o badagaio. Agora, vingou-se em chateza, tentando dar aos outros o epitáfio dele próprio. Amen.  Que o dantas enfie a carapuça e que o Júlio Dantas me perdoe. Nada é com ele.

Dez 13

Nesses caminhos de aborígenes, cheios de muitos sinais sagrados e a casa das corujas onde nasceu quem somos, para sempre

Aqui, diante do Ataúro, com a tribal descendência em vagamundo, com um em Delaware, outra em São Miguel e a terceira, entre Paris, Madrid e uma plataforma petrolífera do Mar do Norte, e para ajudar os pequenos agentes pidescos que nos procuram identificar com estrelas amarelas e ainda nos põem como descendentes do capitão da polícia de choque, apenas confirmo que os nossos avoengos, do patronímico, vieram todos dos moinhos da Ribeira e da Barroca, lá dos campos de Cernache e Vila Pouca, talvez oriundos da ilha do mar interior donde todos partimos, aqui vos deixo, gente da família, um primeiro inventário de nossa plebeia labuta à procura do abraço armilar. Porque poucos sabem dos trilhos que nos levavam às terras das Rodas ou do Cimo do Olival, nesses carreiros feitos com pés descalços, onde conhecíamos as árvores quase pelo nome e sabíamos das curvas da ribeira e dos silvados, quando minha avó me lavava às cavalitas, nesses caminhos de aborígenes, cheios de muitos sinais sagrados, onde se guardam os espíritos dos antepassados, entre alminhas, cruzeiros, eiras, moinhos e a casa das corujas onde nasceu quem somos, para sempre, porque sempre havemos de regressar, mesmo sem querermos e sem que a semente tivesse vivido em árvore que me desse a sombra eterna lá diante do Olho Marinho. Apenas quero ser do pó eterno, que o fogo atiça, e cinza a cinza que me espalhem no Atlântico que Mateus Álvares olhou em sonho, como o gavião com que me metaforizo. No dia 19, em Mafra, as gentes da Ericeira vão lançar em livro um pedaço de uma das minhas profecias, a propósito de 1808. Mesmo aqui, por lá serei, também.

PS: consta que o dantas, ex-ministro e tudo, continua como cadáver adiado, procriando condecorados saneamentos, através daquilo que, no direito não público, se chama assédio laboral, contra todos(as) (os)(as) mal-amad(os)(as), dissidentes e quejandos(as). Consta também que há revolucionários(as) sindicalistas que se compraram e que, à boa maneira do ti estaline, passaram para agentes torquemadas, queimando os gulagueiros, em assassinatos de carácter, em troca de uns degraus acima na engrenagem macacal. O dantas gosta de dizer que foi, ou esteve para ser, ministro da educação, com um pé no regime do pretérito e do presente, ou outro pé no outro, o do presente ou o do futuro. Com um pé no primeiro pê do bloco central e outro pé no outro pê. Com um adjunto num dos lados da barricada, cheirando a cultura, e outro, no sofá da banca, cheirando a tecnocrata. Porque só em Portugal, onde não há corrupção, é que os banqueiros não são terroristas, mas simples bancários com as pretensões do poetastro. Para que se confirme, do devorismo, o dito de proudhon sobre a propriedade ser um roubo, onde quem não mama não mama. Dizem que nos vamos ver livres do mais velho dos dantas ainda antes do fim do ano. Como se o dantas não se tivesse frutificado pela parasitagem que não lhe foi dada pela árvore do paraíso, mas pelo bichinho que devora as bagas ainda verdes e pedófilas e, depois, as expele além da tripa como carnes flácidas de velha espatifada. Ele, dantas, não se importava que o coiso mudasse de política, desde que o coiso lhe desse outro ministério, como pediu. Aliás, o dantas chegou a convidar o coiso para padrinho de casório, mas já o dito, em dita, estava a dar o badagaio. Agora, vingou-se em chateza, tentando dar aos outros o epitáfio dele próprio. Amen. Que o dantas enfie a carapuça e que o Júlio Dantas me perdoe. Nada é com ele.

Dez 13

Poucos têm “mata-mata” (inteligência) para admitir o “ukun rasik an”(ordem própria) de cada povo

Começa a contagem descendente, começa a compreensão do que só é captável pelo espírito, do que só é navegável pela metafísica, por uma hermenêutica mais íntima, profunda e mesmo mítica, como leio no trabalho de um aluno. Porque há Lel Mau-Tar, o Sol, o ente radiante, o juiz último cujos raios chegam a todo o cantinho da Terra, iluminando e desvendando, com minúcia, toda a verdade, e nada deixando oculto ou camuflado. Ai de quem não chegue a esta tradição oral mambae, que não assuma Maromak gia tsu. Só assim pode sentir-se a continuação do novo cancioneiro de Timor que vai bem além do tetum para turista em comissão de serviço paga em USD, ou para empregado das ONGs, em carreirismo de factura: Rogamos às raízes para que elas penetrem na terra, aos botões para que ascendam aos céus, … àqueles que nos esconderijos e nos ermos estarão sempre acompanhados, a vossa busca do que visa o progresso tem de ir avante. Confesso que me bastam meia dúzia de trabalhos de alunos com estas recolhas sobre a justiça e o político no pré-estadual do Timorense, para me sentir um professor que aqui veio aprender, isto é, para me sentir verdadeiramente professor. E também para me reconhecer ineficaz, se ousasse bater à porta dos emissores globalizantes do rolo unidimensional do neocolonialismo, para que eles nos subsidiassem a lançar a resistência deste aceder ao universal pela diferença. Os paineleiros preferem os mercenários de Sarawak e os que desiberizaram em 1898 Cuba e as Filipinas e que agora emitem PHDs para que fiquemos terceiromundizados em vassalagem, vergonha e política da canhoneira.  Que lhes interessa que o ga’u vanu mi sirva para manter a harmonia entre a comunidade e a natureza, entre a comunidade e o ancestral no mundo inivisível. Interessa-lhes mais pentear macacos e traduzir em calão constituições que nem o pluralismo da autonomia dos Açores conseguem captar criativamente. PS: A imagem podia ser do Corvo e das Flores. É apenas do mar-mulher a caminho de Manatuto.  Os crocodilos preferem passear pelo mar-homem, lá do outro lado da montanha. As incompreensões sobre as autonomias são exactamente as mesmas e os jacobinos não há meio de se aliarem aos girondinos na festa da federação, relendo Althusius, Teófilo Braga ou até Proudhon e Rougemont…

Dez 12

O neocabralismo revisitado, face a novas propostas de estrela amarela, para que voltemos a ser a galhofa do Ocidente

Não foi por acaso que, ontem, ao ouvir, aqui em Dili, relatos autênticos, provindos de um violentado por certa grandiosa personalidade, pertencente a uma certa religião universal, me foi dado concluir que todas as grandes instituições universais se compõem de três elementos: um que é secreto, o da fé; o elemento caridoso, da filantropia, da fraternidade ou da solidariedade; e o elemento a que chamarei humano – isto é, o que resulta de ela ser composta por diversas espécies de homens, de diferentes graus de inteligência e cultura, e o que resulta de ela existir em muitos países, sujeita portanto a diversas circunstâncias de meio e de momento histórico, perante as quais, de país para país e de época para época reage, quanto à atitude social, diferentemente. Isto é, aquilo que o jesuíta Francisco Suárez concluiu quando deu mais Aristóteles e mais estoicismo à primeira versão restauracionista dos princípios greco-romanos de São Tomás de Aquino.

Nos primeiros dois elementos, onde reside essencialmente o espírito metafísico, cada ordem é a mesma sempre e em todo o mundo. No terceiro, qualquer instituição humana, secreta ou não – apresenta diferentes aspectos, conforme a mentalidade dos indivíduos, e conforme circunstâncias de meio e momento histórico, de que ela não tem culpa. Contudo, há uma entidade que gira, porém, em torno de uma só idéia – a “tolerância”; isto é, o não impor a alguém dogma nenhum, deixando-o pensar como entender.

Uma entidade que não tem uma doutrina. E tudo quanto se chama doutrina da coisa pública em causa são opiniões individuais dos membros da instituição, quer sobre a ordem em si mesma, quer sobre as suas relações com o mundo profano. São divertidíssimas. Mas, as suas afirmações, porém, são simplesmente suas; a instituição nada tem com elas. Ora o primeiro erro dos fundamentalistas, ou dos militantes de certas doutrinas e ideologias, consiste em tentar definir o espírito do que é metapolítica, em geral pelas afirmações de membros particulares, escolhidas ordinariamente com grande má fé.

O segundo erro dos mesmos fundamentalistas, de todas as ideologias e de todas as religiões, consiste em não querer ver que a instituição, unida espiritualmente, está materialmente dividida, como já expliquei. A sua ação social varia de país para país, de momento histórico para momento histórico, em função das circunstâncias do meio e da época, que afectam a instituição como afectam toda a gente. A sua acção social varia, dentro do mesmo país, de Obediência para Obediência, onde houver mais que uma, em virtude de divergências doutrinárias – as que provocaram a formação dessas Obediências distintas, pois, a haver entre elas acordo em tudo, estariam unidas. Segue daqui que nenhum ato político ocasional de nenhuma Obediência pode ser levado à conta da instituição em geral, ou até dessa Obediência particular, pois pode provir, como em geral provém, de circunstâncias políticas de momento, que a instituição não criou.

As citações em cripto-escrita e metalinguagem fazem parte de um artigo que certo empregado de uma agência de publicidade enviou para um Diário de Lisboa, depois de um deputado lusitano,proponente da restauração da pena de morte, ter conseguido a aliança de alguns ilustres lentes de Direito e de alguns traidores, para emitir a primeira lei formal do regime derrubado em 1974.

Por mim, continuo, como sempre, seguidor das perspectivas de meu mestre Fernando e julgo que a recente aquisição de algumas peças do respectivo espólio só foi possível devido a manobras de organizações secretas, como aquelas que levaram à fundação de uma escola onde autor do  ilustre postal que me serve de pretexto foi formado.

Logo, deve o mesmo Fernando ser banido de todos os manuais escolares, juntamente com os textos de outros inimigos da humanidade como Goethe e Kant, propondo-se até que o um parque ajardinado onde está a Estufa Fria, em Lisboa, mude de nome, porque o dito cujo faz parte eterna da mesma ordem. Aliás, deveremos extinguir, em nome dos mesmos fundamentalismos, consequências que tanto irritam certas cabecinhas que confundem a nuvem com Juno, ou Mafoma com o toucinho,  como a república norte-americana,  a monarquia e a revolução inglesas, ou uma entidade política feita em torno de tais princípios diabólicos, um tal Brasil, que, por acaso, é o Estado mais católico do mundo. Infelizmente a destruição da monarquia liberal portuguesa impediu que Portugal, nesse âmbito da tolerância e da complexidade crescente, copiasse a grande esperança da pátria da língua portuguesa para o século XXI. Concordo plenamente com a recente proposta do reitor da universidade concordatária lusitana: a república a que chegámos deve pedir desculpa aos jesuítas, mas desde que os eclesiásticos católicos, nesta de perdão, façam como os mais recentes papas fizeram face aos judeus e, no universo da história contemporânea lusitana, peçam deculpa aos liberais, no strictu sensu da palavra.

Volta, José dos Santos Cabral, estás perdoado!  Porque já não há fogueira, nem autos ditos da fé, a estrela amarela, já! Mesmo para liberais à antiga, de sempre, e para sempre, militantes conservadores, de mal com os progressistas por serem do nacionalismo místico, e de mal com os reaccionários por serem tradicionalistas. O pior dos que se pensam sabedores de segredos, confundindo o nome com a coisa nomeada,  é não saberem que o verdadeiro segredo está em não haver segredo, a não ser para a metapolítica, a metalinguagem e o amor. Só não é segredo nenhum que mesmo entre os portugueses alguns traidores houve, algumas vezes…

Dez 12

A Ilha Verde e Vermelha de Timor e um ministro sidonista

E eis-te no fim do mundo,

Costa verde e vermelha de Timor!

Mas que divina, extraordinária cor,

A do teu céu, a do teu mar profundo!

É d’oiro a manhã de Dili.

(Alberto Osório de Castro)

Não foi por acaso que Ruy Cinatti dedicou Um Cancioneiro de Timor a quem editou,  em Dili, no ano de 1908, Flores de Coral. Ambos chegaram ao amor de Timor pela misteriosa capacidade de sentir e de amar a Terra, o Homem e Deus, como Jorge Dias disse do primeiro. Porque Alberto Osório de Castro, aqui magistrado no crepúsculo da monarquia e que até há-de ser ministro da justiça da República Portuguesa, no sidonismo, é mais do que as aparências de um título: A Ilha Verde e Vermelha de Timor, Lisboa, Agência Geral das Colónias, 1943. Basta assinalar que os primeiros versos desta publicação surgiram na revista Seara Nova, em 1928. É melhor lê-lo, integrando-o no seu tempo: de colega, e íntimo amigo, de Camilo Pessanha.

Na frescura das ribeiras.

Murmura perpetuamente

A verde sombra virente

Das gaboeiras

À contemplação da paisagem em Fahi-ten

Saudades são a lembrança

Dalgum bem que nos deixou

P’ra sempre, e sem esperança

De volta, o bem que passou.

E passa mesmo a lembrança

De todo o bem que findou

Depois de uma viagem de regresso Lahane

Alto vale de Lahane, ermo e divino,

No murmúrio das águas! Quantos dias

Por tuas sombras divaguei, absorto

Na beleza da vida morredoira,

Face do mundo misteriosa e vária…

A infinda noite opalescente

Sobe, arrebatadoramente,

A fugir de todo o olhar,

Céu tão claro, tão surpreendente,

Que sente a alma, longinquamente,

Como um voo do céu aflar.

A asa translúcida e nevada

Roça de leve a cumeada,

Adeja, e perde-se a alvejar

Na azulada noite doirada…

Presença alada enamorada

Da imensidade do luar.

Dez 12

A Ilha Verde e Vermelha de Timor e um ministro sidonista

E eis-te no fim do mundo,

Costa verde e vermelha de Timor!

Mas que divina, extraordinária cor,

A do teu céu, a do teu mar profundo!

É d’oiro a manhã de Dili.

(Alberto Osório de Castro)
Não foi por acaso que Ruy Cinatti dedicou Um Cancioneiro de Timor a quem editou, em Dili, no ano de 1908, Flores de Coral. Ambos chegaram ao amor de Timor pela misteriosa capacidade de sentir e de amar a Terra, o Homem e Deus, como Jorge Dias disse do primeiro. Porque Alberto Osório de Castro, aqui magistrado no crepúsculo da monarquia e que até há-de ser ministro da justiça da República Portuguesa, no sidonismo, é mais do que as aparências de um título: A Ilha Verde e Vermelha de Timor, Lisboa, Agência Geral das Colónias, 1943. Basta assinalar que os primeiros versos desta publicação surgiram na revista Seara Nova, em 1928. É melhor lê-lo, integrando-o no seu tempo: de colega, e íntimo amigo, de Camilo Pessanha.

Na frescura das ribeiras.
Murmura perpetuamente
A verde sombra virente
Das gaboeiras
À contemplação da paisagem em Fahi-ten
Saudades são a lembrança
Dalgum bem que nos deixou
P’ra sempre, e sem esperança
De volta, o bem que passou.
E passa mesmo a lembrança
De todo o bem que findou
Depois de uma viagem de regresso Lahane
Alto vale de Lahane, ermo e divino,
No murmúrio das águas! Quantos dias
Por tuas sombras divaguei, absorto
Na beleza da vida morredoira,
Face do mundo misteriosa e vária…

 

 

A infinda noite opalescente
Sobe, arrebatadoramente,
A fugir de todo o olhar,
Céu tão claro, tão surpreendente,
Que sente a alma, longinquamente,
Como um voo do céu aflar.
A asa translúcida e nevada
Roça de leve a cumeada,
Adeja, e perde-se a alvejar
Na azulada noite doirada…
Presença alada enamorada
Da imensidade do luar.

Dez 12

O neocabralismo revisitado, face a novas propostas de estrela amarela, para que voltemos a ser a galhofa do Ocidente

Não foi por acaso que, ontem, ao ouvir, aqui em Dili, relatos autênticos, provindos de um violentado por certa grandiosa personalidade, pertencente a uma certa religião universal, me foi dado concluir que todas as grandes instituições universais se compõem de três elementos: um que é secreto, o da fé; o elemento caridoso, da filantropia, da fraternidade ou da solidariedade; e o elemento a que chamarei humano – isto é, o que resulta de ela ser composta por diversas espécies de homens, de diferentes graus de inteligência e cultura, e o que resulta de ela existir em muitos países, sujeita portanto a diversas circunstâncias de meio e de momento histórico, perante as quais, de país para país e de época para época reage, quanto à atitude social, diferentemente. Isto é, aquilo que o jesuíta Francisco Suárez concluiu quando deu mais Aristóteles e mais estoicismo à primeira versão restauracionista dos princípios greco-romanos de São Tomás de Aquino. Nos primeiros dois elementos, onde reside essencialmente o espírito metafísico, cada ordem é a mesma sempre e em todo o mundo. No terceiro, qualquer instituição humana, secreta ou não – apresenta diferentes aspectos, conforme a mentalidade dos indivíduos, e conforme circunstâncias de meio e momento histórico, de que ela não tem culpa. Contudo, há uma entidade que gira, porém, em torno de uma só idéia – a “tolerância”; isto é, o não impor a alguém dogma nenhum, deixando-o pensar como entender. Uma entidade que não tem uma doutrina. E tudo quanto se chama doutrina da coisa pública em causa são opiniões individuais dos membros da instituição, quer sobre a ordem em si mesma, quer sobre as suas relações com o mundo profano. São divertidíssimas. Mas, as suas afirmações, porém, são simplesmente suas; a instituição nada tem com elas. Ora o primeiro erro dos fundamentalistas, ou dos militantes de certas doutrinas e ideologias, consiste em tentar definir o espírito do que é metapolítica, em geral pelas afirmações de membros particulares, escolhidas ordinariamente com grande má fé. O segundo erro dos mesmos fundamentalistas, de todas as ideologias e de todas as religiões, consiste em não querer ver que a instituição, unida espiritualmente, está materialmente dividida, como já expliquei. A sua ação social varia de país para país, de momento histórico para momento histórico, em função das circunstâncias do meio e da época, que afectam a instituição como afectam toda a gente. A sua acção social varia, dentro do mesmo país, de Obediência para Obediência, onde houver mais que uma, em virtude de divergências doutrinárias – as que provocaram a formação dessas Obediências distintas, pois, a haver entre elas acordo em tudo, estariam unidas. Segue daqui que nenhum ato político ocasional de nenhuma Obediência pode ser levado à conta da instituição em geral, ou até dessa Obediência particular, pois pode provir, como em geral provém, de circunstâncias políticas de momento, que a instituição não criou. As citações em cripto-escrita e metalinguagem fazem parte de um artigo que certo empregado de uma agência de publicidade enviou para um Diário de Lisboa, depois de um deputado lusitano,proponente da restauração da pena de morte, ter conseguido a aliança de alguns ilustres lentes de Direito e de alguns traidores, para emitir a primeira lei formal do regime derrubado em 1974. Por mim, continuo, como sempre, seguidor das perspectivas de meu mestre Fernando e julgo que a recente aquisição de algumas peças do respectivo espólio só foi possível devido a manobras de organizações secretas, como aquelas que levaram à fundação de uma escola onde autor do  ilustre postal que me serve de pretexto foi formado. Logo, deve o mesmo Fernando ser banido de todos os manuais escolares, juntamente com os textos de outros inimigos da humanidade como Goethe e Kant, propondo-se até que o um parque ajardinado onde está a Estufa Fria, em Lisboa, mude de nome, porque o dito cujo faz parte eterna da mesma ordem. Aliás, deveremos extinguir, em nome dos mesmos fundamentalismos, consequências que tanto irritam certas cabecinhas que confundem a nuvem com Juno, ou Mafoma com o toucinho,  como a república norte-americana,  a monarquia e a revolução inglesas, ou uma entidade política feita em torno de tais princípios diabólicos, um tal Brasil, que, por acaso, é o Estado mais católico do mundo. Infelizmente a destruição da monarquia liberal portuguesa impediu que Portugal, nesse âmbito da tolerância e da complexidade crescente, copiasse a grande esperança da pátria da língua portuguesa para o século XXI. Concordo plenamente com a recente proposta do reitor da universidade concordatária lusitana: a república a que chegámos deve pedir desculpa aos jesuítas, mas desde que os eclesiásticos católicos, nesta de perdão, façam como os mais recentes Papas fizeram face aos judeus e, no universo da história contemporânea lusitana, peçam deculpa aos liberais, no strictu sensu da palavra. Volta, José dos Santos Cabral, estás perdoado!  Porque já não há fogueira, nem autos ditos da fé, a estrela amarela, já! Mesmo para liberais à antiga, de sempre, e para sempre, militantes conservadores, de mal com os progressistas por serem do nacionalismo místico, e de mal com os reaccionários por serem tradicionalistas. O pior dos que se pensam sabedores de segredos, confundindo o nome com a coisa nomeada,  é não saberem que o verdadeiro segredo está em não haver segredo, a não ser para a metapolítica, a metalinguagem e o amor. Só não é segredo nenhum que mesmo entre os portugueses alguns traidores houve, algumas vezes…