Jan 04

Do regresso da guerra e da fome, ao santuário das baleias, em nome do sonho que falta

Noto que ano novo, mas vida velha, porque voltam os velhos cavaleiros do Apocalipse. Não por causa da crise de gripe, mas pela Guerra e pela Fome, mesmo que, por agora, se chame pobreza, sem abrigo e desemprego. Primeiro, a guerra, uma guerra que os judeus dizem total, um pouco à maneira do fantasma hitleriano, que pensava a total como mais curta. Uma guerra dos diabos identitários numa terra triplamente santa para judeus, cristãos e muçulmanos, onde o argumento mobilizador tanto é um bom árabe ser um árabe morto, como vice-versa. Curiosamente, as bombas vão destruindo grande parte da ajuda europeia à Palestina, saída dos nossos bolsos, do mesmo bolo que pretende servir para a sustentação do chamado Estado de Bem Estar. O mal-estar do dito cujo, aqui e agora, são dois milhões de pobres, como revela Isabel Jonet. Os mesmos de há quinze anos, apesar de tantos governos de esquerda, socialistas, sociais-democratas e democratas-cristãos. Com efeito, a Europa de Delors, que este definia como dois terços de remediados da classe média com um terço de excluídos, com desemprego, subsídio de desemprego, reformas, aposentações e caridadezinha contra a exclusão, aqui, em Portugal, caminha para a sul-americanização, numa espécie de jangada de pedra ao contrário. Daí o crescendo do indiferentismo e da não-cidadania, face a ricos que são cada vez menos, mas cada vez mais ricos, pedindo nacionalização dos prejuízos, enquanto nos vamos divertindo como circo da futebol-ítica e o pão ainda não sobe de preço. O sistema é uma grande panela de água a ferver, cujas válvulas de escape parecem ficar entupidas pelo lixo do indiferentismo e da corrupção. O sistema tende a asfixiar o regime e o povo pode colocar-se contra a partidocracia que, para si mesma, reclama o monopólio da democracia. Aliás, os comentadores instalados, apesar de anti-socráticos, apenas servem a águia bicéfala do situacionismo, a que chamamos coabitação de maiorias e falta de cooperação estratégica. Contudo, nenhuma das cabeças de tal águia denuncia a usurpação das forças vivas e da casta banco-burocrática, onde não é importante ser ministro ou partidocrata, mas tê-lo sido. Poucos reparam que, apesar de não haver descamisados, com o perigo real do chamado populismo, pode ser que os jovens desempregados e os velhos sem abrigo continuem a promover uma silenciosa conspiração de avós e netos. Não parece que o apelo ao instinto do estatismo centralista, hoje contra as regiões autónomas, amanhã contra as restantes autarquias, seja mobilizador. Apenas disfarça o essencial e revela como os supremos mandadores são herdeiros do Marquês de Pombal, de Afonso Costa e de Salazar . Espero que não seja pecado alguém poder ser regionalista e federalista a nível interno, assumindo-se frontalmente contra o capitaleirismo, a pior das chantagens que estão a fazer contra a democracia. Deixei uma última palavra de esperança para o futuro, em nome da mãe-terra, dessa mátria que descobriu em Timor um santuário de baleias e golfinhos. Infelizmente, em Portugal, terra de enjoados, dominada por um défice de sonhadores activos, poucos compreendem que só haverá boa política quando voltar o sonho, a criatividade e a imaginação.

Jan 03

Girondinamente federalista

Sou girondinamente federalista, nacionalista, europeísta e adepto da república universal, logo, ostensivamente metaconstitucional, cometendo o pecado mortal de afrontar o jacobinismo centralista. O que vai do Marquês de Pombal a Cavaco Silva, passando por Afonso Costa e Oliveira Salazar . Também não subscrevo o seu irmão-inimigo, o internacionalismo, bastardo de Marx, contrário ao cosmopolitismo.  Porque, para os que confundem o socialismo, a democracia-cristã e a social-democracia com o estatismo, continuo orgulhosamente adepto de Adam Smith.  Porque, no tocante ao transcendente situado, como sou um homem religioso, mas sem Igreja, nada ateísta e pouco agnóstico, mantenho o panteísmo de Espinosa, de Kant e do krausismo, isto é, liberal à antiga, azul e branco, ou verde e amarelo. Infelizmente, as regras, os fantasmas e os preconceitos que dominam a sociedade portuguesa transformam todos os que assim pensam em marginais do centro excêntrico, ou da direita que não convém à esquerda, porque estão na esquerda da direita, mas que gostariam de ser como os liberais radicais que ainda têm direito a partido em França, em Itália, na Grã-Bretanha e noutras democracias, polidas e civilizadas, desta Europa da boa razão, onde, nem nas tormentas, se perde a boa esperança. Porque ainda tenho saudades dos repúblicos tradicionalistas, conjugando esperança e meritocracia, pode ser que ainda se organize um partido português de matriz efectivamente liberal, mas sem João Franco ou Sidónio, porque prefiro o António José de Almeida, juntando vintistas, setembristas, patuleias, manuelinos e republicanos, a que imediatamente aderirei, embora como senador de base, e simples militante de ideias. E tudo pode ser surpreendentemente explosivo.

Jan 02

Um governo que se quer confundir com um regime

Já tivemos maiorias uma absoluta e outra quase absoluta, a que estava apenas dependente de uma fatia de queijo, e ambas, de vitória em vitória, chegaram a uma derrota final a que deram o nome de “tabu”, ou de “pântano”. O problema é menos de aritmética,  isto é, de soma contabiliística de forças eleitorais e mais de geometria qualitativa quanto ao redesenho da mobilização pelo bem comum. Por outras palavras, não é pelo facto de se reforçar o poder que uma maioria parlamentar dá a um governo, pelas ordens dos directórios partidários, que se consegue a necessária autoridade que gera a obediência pelo consentimento.  Julgo que o situacionismo governamental, caso a crise não se agrave, vai procurar manter, até às eleições, no essencial o nível da bolsa do cidadão, porque, de outro modo, a respectiva vida estaria ameaçada. Nem que seja pelo anúncio de um aumento das expectativas do sonhar é fácil.  Por outras palavras, a crise pode não ser suficientemente forte para que o português comum afaste o governo. Basta recordar que, depois da Grande Depressão, o New Deal de Roosevelt apenas chegou cerca de um lustro depois, enquanto nós mantínhamos o gesso da ditadura das finanças salazarista que, como dizia Agostinho da Silva, nos entalou a perna em gesso durante quarenta e oito anos, apesar de ele tar ficado sã cinco anos depois… Tenho dito que o sistema político português, envelhecido e fechado na concha da partidocracia, já não se reduz ao confronto dos situacionistas, com os seus apoios, e dos oposicionistas, com as suas reivindicações. O principal “input” começa a ser o indiferentismo, queé bem pior do que a mera medição do abstencionismo, dado que se aproxima do gesto do “Zé Povinho”. Só que os governos lusitanos, principalmente em rotativismo, têm sabido durar em decadências sistémicas que às vezes duram mais de uma década. Veja-se, por exemplo, o que sucedeu à monarquia liberal, onde, depois do “Ultimatum” que a dessangrou, ainda durou duas décadas. Sem querer repetir o âmbito da análise política dos que encenam factos artificialmente políticos, nesse que é o latim com que se delicia a partidocracia, para que continue o mais do mesmo… julgo que, infelizmente, vão repetir as metodologias anteriores, elaborando teatros operacionais imaginados e consultando sondagens, porque acreditam que não haverá suficiente dramtismo para a deriva messiânica. Todos os opositores internos dos partidos da oposição, ao proclamarem a inviabilidade das respectivas lideranças estão a cair na armadilha que lhes lançou o situacionismo, cuja sondajocracia parece favorável ao governo que assim corre o risco de se confundir com o regime, só porque o sistema que ele controla o asfixia.

 

Dez 31

O que está a fazer? Onde estavas no dia 31 de Dezembro de 2008?

Acabei de enviar a algumas pessoas o seguinte SMS. Alargo-o a todos os meus queridos leitores que comigo são solidários na resistência:

Regressado do Sol Nascente, e já na Ribeira do Tejo,
embora com os sonos trocados,
desejo um ano de 2009
que contribua para fim da hipocrisia
e para que cada um dos amigos e companheiros
tenha direito à felicidade
de poder viver como pensa,
sem ter que pensar como depois vai viver!

Ao contrário do que pode parecer, os formigas, pretos e brancos, os moscas do intendente, os pides e neopides, da vigilância revolucionária e contra-revolucionária, mesmo que persistam, serão simples nota de pé de página de um carcomido processo kafkiano, meras melgas ou nojentas baratas, os que se auto-extinguirão sem necessidade de insecticida. Basta o Estado de Direito. Onde a justiça é superior ao direito, o direito superior à lei e a lei bem superior ao despacho ou ao decreto do conselho de compadres e compadres… Continuo a acreditar na democracia!

Dez 30

Já me estou escrevendo diante da Ribeira do Tejo

Voltei. Isto é, ainda sem distinguir ontem de hoje, por causa do ritmo de nove hora que até ontem vivi, houve um avião que me deixou na Portela e, hoje, aqui e agora, já me estou escrevendo, diante da Ribeira do Tejo, esse rio que desagua na minha aldeia.  Noto que o “Correio da Manhã” me dá algum destaque porque ousei criticar, ontem o discurso de Cavaco Silva, a que já assisti em directo. Reparo também que saiu uma entrevista minha à revista “Focus” e que as minhas amigas, jornalistas de “O Diabo”, a Isabel Guerreiro e a Ana Clara, transcreveram os meus diálogos à distância.

Pode ler-se no”Correio da Manhã”: José Adelino Maltez, especialista em Ciência Política, entende que o Presidente da República ‘enveredou por um caminho pouco pedagógico’ na questão do Estatuto Político-Administrativo da Região dos Açores e ‘revelou um desconhecimento da realidade açoriana’. ‘O caminho que trilhou, apesar do apoio de alguns constitucionalistas, foi exagerado’, diz.

Para o politólogo, o Presidente da República devia ser o primeiro a ‘retirar este processo da agenda política’ até porque, defende ‘o valor da autonomia regional é incomensuravelmente maior do que o valor dos poderes presidenciais’. José Adelino Maltez acredita mesmo que ‘o problema está na Constituição’. ‘A Constituição devia ser melhorada para dar mais poder às autonomias regionais. Quanto à relação institucional com o Governo, o especialista desvaloriza a questão, afirmando que ‘ficaram como sempre foram’.Presidente da República devia ser o primeiro a ‘retirar este processo da agenda política’ até porque, defende ‘o valor da autonomia regional é incomensuravelmente maior do que o valor dos poderes presidenciais’. José Adelino Maltez acredita mesmo que ‘o problema está na Constituição’. ‘A Constituição devia ser melhorada para dar mais poder às autonomias regionais. Quanto à relação institucional com o Governo, o especialista desvaloriza a questão, afirmando que ‘ficaram como sempre foram’.

Dez 30

Já me estou escrevendo diante da Ribeira do Tejo

Voltei. Isto é, ainda sem distinguir ontem de hoje, por causa do ritmo de nove hora que até ontem vivi, houve um avião que me deixou na Portela e, hoje, aqui e agora, já me estou escrevendo, diante da Ribeira do Tejo, esse rio que desagua na minha aldeia. Noto que o “Correio da Manhã” me dá algum destaque porque ousei criticar, ontem o discurso de Cavaco Silva, a que já assisti em directo. Reparo também que saiu uma entrevista minha à revista “Focus” e que as minhas amigas, jornalistas de “O Diabo”, a Isabel Guerreiro e a Ana Clara, transcreveram os meus diálogos à distância.

Pode ler-se no”Correio da Manhã”: José Adelino Maltez, especialista em Ciência Política, entende que o Presidente da República ‘enveredou por um caminho pouco pedagógico’ na questão do Estatuto Político-Administrativo da Região dos Açores e ‘revelou um desconhecimento da realidade açoriana’. ‘O caminho que trilhou, apesar do apoio de alguns constitucionalistas, foi exagerado’, diz.

Para o politólogo, o Presidente da República devia ser o primeiro a ‘retirar este processo da agenda política’ até porque, defende ‘o valor da autonomia regional é incomensuravelmente maior do que o valor dos poderes presidenciais’. José Adelino Maltez acredita mesmo que ‘o problema está na Constituição’. ‘A Constituição devia ser melhorada para dar mais poder às autonomias regionais. Quanto à relação institucional com o Governo, o especialista desvaloriza a questão, afirmando que ‘ficaram como sempre foram’.Presidente da República devia ser o primeiro a ‘retirar este processo da agenda política’ até porque, defende ‘o valor da autonomia regional é incomensuravelmente maior do que o valor dos poderes presidenciais’. José Adelino Maltez acredita mesmo que ‘o problema está na Constituição’. ‘A Constituição devia ser melhorada para dar mais poder às autonomias regionais. Quanto à relação institucional com o Governo, o especialista desvaloriza a questão, afirmando que ‘ficaram como sempre foram’.

Dez 19

Um obrigado em telegrama e outros escritos inúteis

Obrigado por todos quantos, ontem, me deram os sinais do nascer de novo, no sentido profundo dos gestos, na palavra e em plenitude! Continuo em regresso, entre muitos lugares sem mapa, enchendo o bornal de escritos inúteis. Porque tudo é relativo, neste circadiano movimento, como se a linha da vida não se aproximasse cada vez mais das nervuras do acaso procurado que nos dão sinal. O tempo é sempre relativo ao olhar que cada um tem do mais além que o situa. Porque é dentro de cada um, que cada um tem de procurar o seu próprio transcendente.

Dez 16

A grande crise-macro da partidocracia deriva precisamente de ela se ter enredado no federativismo de micro-patifarias

O partido sistémico português com maior número de dissidentes “per capita” é, sem dúvida, o eterno mais pequeno de todos eles e, do qual, infeliz e envergonhadamente, fiz parte, no estreito espaço que teve como a quo o dia em que dele saiu, em suspensão de militância, o formal fundador, depois feito ministro dos estrangeiros de Sócrates. Contudo, foi breve o ad quem,  porque logo, dele, me pus a andar quando o dito cujo voltou, antes de, novamente, dar às vilas Diogo, onde o acaso do nome coincide, sem ser por mera coincidência.

Aliás, quando decidi dissidir, ainda tive a tentação de, com isso, fazer estrondo, através de uma carta da qual me esmerasse, através de programada fuga de informação, mas tive o bom senso de preferir a amargura do silêncio, para nunca mais ter de os aturar. Aliás, ainda foi tudo antes da queda do Muro de Berlim.

Acresce que, só anos depois de eu ter saído, é que Portas entrou, pelo que, deste, e dos respectivos opositores, me sinto totalmente indiferente, não porque deteste a vida partidária, dado ter sido fundador de dois falhados partidos e de mais dois ou três movimentos cívicos, mas porque não admito que, na vida das instituições, nos imponham um padrão comportamental que nunca admitiríamos aos nossos filhos, aos nossos pais, aos nossos amigos e aos nossos íntimos.

Aliás, a falta de espinha de tal grupelho é directamente proporcional aos discursos morais contra a falta de espinha que costumam ser proferidos pelos seus antigos presidentes e altos dirigentes, dos quais eu quero excluir tanto um Adelino Amaro da Costa como um Francisco Lucas Pires. Dos outros, reza a história que todos, à excepção do Monteiro e do Zé Ribeiro e Castro, dele quiseram servir-se e até utilizaram o carimbo histórico de terem sido líderes de tal instituição, para subirem a relação colaboracionista com instituição adversa que, a seguir, os prebendou, chame-se PSD ou PS.  Logo, se estes e eles continuarem a ser a direita, eu continuarei a ser da extrema-esquerda.

Ainda hoje me rio de certas lembranças, nomeadamente quando, um dia, jantando com os presidentes da JSD e da JP, na presença de Portas e Manuela Ferreira Leite, numa dessas universidades de Verão de uma das jotas, ter tido uma delicada altercação com Portas, dado que este se referia a um período da vida do CDS em que eu era máximo dirigente da coisa e ele, colaborador formal do cavaquismo partidário. Ele, que nada podia saber de tal história, dizia que o que estava a dizer lhe tinha sido dito pelo presidente do partido de então. Eu apenas lhe disse que o referido não passava do primeiro dos mentirosos, em nome da razão de Estado dita cristã, mas efectivamente talleyrandesca. E mais não disse. Mostrei as provas. E com Portas, nisso e depois disso, tudo correu em delicada e bem educada relação, porque o tipo é, de facto, alguém de encantadora inteligência e de finíssimo trato. Aliás, posso dizê-lo porque nunca pertenci, em simultâneo, a qualquer partido de que ele também fosse militante.

Quanto à outra estória, basta, um dia, questionarem o Vítor Constâncio e o Eanes, para que ele expliquem a razão pela qual o governo de maioria relativa de Cavaco teve pernas para andar, graças à opção de Soares.

O mal não está na partidocracia, mas na lógica neomaquiavélica que marca todo o ritmo participativo no Portugal da decadência, onde se contam votos e onde impera a lógica do homem de sucesso, do ter razão quem vence. Até um dia lhes acontecer o fim do período de ascensão e rebentar a queda, à maneira dos presidentes de clubes de futebol, ou de bancários feitos banqueiros pela engenharia da cunhocracia.  Feliz ou infelizmente, fui educado para não ter que suportar patifes desse jaez, como alguns desses travestizados de padreca que, um dia, comigo, se cruzaram institucionalmente.

Um deles chegou a visitar os meandros da prisão preventiva, mas era todo poderoso enquanto mandava e acumulava sinais distintivos de riqueza. O outro ainda continua a ir de vitória em vitória, julgando que não chegará a derrota final, pelos mesmos ferros com quem tentou matar os outros. Os dois podiam ter o mesmo nome, porque são feitos da mesma massa moluscular, para quem a política se reduz a comprar os adversários e a ameaçar os dissidentes ou opositores com os “casse têtes” do neopidismo e da traição. A grande crise-macro da partidocracia deriva precisamente de ela se ter enredado no federativismo de micropatifarias. O principal problema político é, afinal, um problema moral.

Leio aqui a explicação: Aos Judeus de Villadiego foi concedido, pelo rei Fernando III da Castela, o direito de não serem perseguidos. Havia, no entanto, uma contrapartida: tinham que usar calças (os castelhanos usavam calção), calças essas que nunca abandonavam, para garantirem os seus privilégios. Os Judeus de Burgos ou de Toledo não tinham tais privilégios e, logo que perseguidos, abandonavam tudo o que tinham e fugiam para Villadiego. Nesta localidade, ofereciam-lhes umas calças para escaparem aos perseguidores, mas com um preço: eram forçados a pagar um tributo aos Judeus locais. Em suma, tinham que continuar com as calças na mão para o resto da vida. Daqui vem também a expressão que se utiliza em Espanha e em algumas regiões portuguesas junto à fronteira espanhola.

Dez 16

O necessário tempo de nascer de novo, de Oriente para Ocidente.

A partir de amanhã, dia 18, encerra este ciclo que me levou à Ribeira de Timor, em busca do sol nascente. Acabam, deste modo, os postais de exílio procurado, emitidos a partir da praia de Dili, na Ribeira do Mar de Timor, ainda de costas voltadas para a Corte, para poder ser um “português à solta”, em busca do “abraço armilar”

Nos últimos dias de Dezembro, espero voltar a esse rio que passa na minha aldeia e, no intervalo, apenas viverei o necessário tempo de nascer de novo, de Oriente para Ocidente. O blogue ficará suspenso durante esse período de viajar dentro de mim e em torno do eixo do próprio mundo. Tentarei continuar a viver como penso, sem ter que pensar como vivo.
posted by JAM | 12/16/2008 10:36:00 PM
A grande crise-macro da partidocracia deriva precisamente de ela se ter enredado no federativismo de micro-patifarias

O partido sistémico português com maior número de dissidentes “per capita” é, sem dúvida, o eterno mais pequeno de todos eles e, do qual, infeliz e envergonhadamente, fiz parte, no estreito espaço que teve como a quo o dia em que dele saiu, em suspensão de militância, o formal fundador, depois feito ministro dos estrangeiros de Sócrates. Contudo, foi breve o ad quem, porque logo, dele, me pus a andar quando o dito cujo voltou, antes de, novamente, dar às vilas Diogo, onde o acaso do nome coincide, sem ser por mera coincidência.

Aliás, quando decidi dissidir, ainda tive a tentação de, com isso, fazer estrondo, através de uma carta da qual me esmerasse, através de programada fuga de informação, mas tive o bom senso de preferir a amargura do silêncio, para nunca mais ter de os aturar. Aliás, ainda foi tudo antes da queda do Muro de Berlim.

Acresce que, só anos depois de eu ter saído, é que Portas entrou, pelo que, deste, e dos respectivos opositores, me sinto totalmente indiferente, não porque deteste a vida partidária, dado ter sido fundador de dois falhados partidos e de mais dois ou três movimentos cívicos, mas porque não admito que, na vida das instituições, nos imponham um padrão comportamental que nunca admitiríamos aos nossos filhos, aos nossos pais, aos nossos amigos e aos nossos íntimos.

Aliás, a falta de espinha de tal grupelho é directamente proporcional aos discursos morais contra a falta de espinha que costumam ser proferidos pelos seus antigos presidentes e altos dirigentes, dos quais eu quero excluir tanto um Adelino Amaro da Costa como um Francisco Lucas Pires. Dos outros, reza a história que todos, à excepção do Monteiro e do Zé Ribeiro e Castro, dele quiseram servir-se e até utilizaram o carimbo histórico de terem sido líderes de tal instituição, para subirem a relação colaboracionista com instituição adversa que, a seguir, os prebendou, chame-se PSD ou PS. Logo, se estes e eles continuarem a ser a direita, eu continuarei a ser da extrema-esquerda.

Ainda hoje me rio de certas lembranças, nomeadamente quando, um dia, jantando com os presidentes da JSD e da JP, na presença de Portas e Manuela Ferreira Leite, numa dessas universidades de Verão de uma das jotas, ter tido uma delicada altercação com Portas, dado que este se referia a um período da vida do CDS em que eu era máximo dirigente da coisa e ele, colaborador formal do cavaquismo partidário. Ele, que nada podia saber de tal história, dizia que o que estava a dizer lhe tinha sido dito pelo presidente do partido de então. Eu apenas lhe disse que o referido não passava do primeiro dos mentirosos, em nome da razão de Estado dita cristã, mas efectivamente talleyrandesca. E mais não disse. Mostrei as provas. E com Portas, nisso e depois disso, tudo correu em delicada e bem educada relação, porque o tipo é, de facto, alguém de encantadora inteligência e de finíssimo trato. Aliás, posso dizê-lo porque nunca pertenci, em simultâneo, a qualquer partido de que ele também fosse militante.

Quanto à outra estória, basta, um dia, questionarem o Vítor Constâncio e o Eanes, para que ele expliquem a razão pela qual o governo de maioria relativa de Cavaco teve pernas para andar, graças à opção de Soares.

O mal não está na partidocracia, mas na lógica neomaquiavélica que marca todo o ritmo participativo no Portugal da decadência, onde se contam votos e onde impera a lógica do homem de sucesso, do ter razão quem vence. Até um dia lhes acontecer o fim do período de ascensão e rebentar a queda, à maneira dos presidentes de clubes de futebol, ou de bancários feitos banqueiros pela engenharia da cunhocracia. Feliz ou infelizmente, fui educado para não ter que suportar patifes desse jaez, como alguns desses travestizados de padreca que, um dia, comigo, se cruzaram institucionalmente.

Um deles chegou a visitar os meandros da prisão preventiva, mas era todo poderoso enquanto mandava e acumulava sinais distintivos de riqueza. O outro ainda continua a ir de vitória em vitória, julgando que não chegará a derrota final, pelos mesmos ferros com quem tentou matar os outros. Os dois podiam ter o mesmo nome, porque são feitos da mesma massa moluscular, para quem a política se reduz a comprar os adversários e a ameaçar os dissidentes ou opositores com os “casse têtes” do neopidismo e da traição. A grande crise-macro da partidocracia deriva precisamente de ela se ter enredado no federativismo de micropatifarias. O principal problema político é, afinal, um problema moral.
Leio aqui a explicação: Aos Judeus de Villadiego foi concedido, pelo rei Fernando III da Castela, o direito de não serem perseguidos. Havia, no entanto, uma contrapartida: tinham que usar calças (os castelhanos usavam calção), calças essas que nunca abandonavam, para garantirem os seus privilégios. Os Judeus de Burgos ou de Toledo não tinham tais privilégios e, logo que perseguidos, abandonavam tudo o que tinham e fugiam para Villadiego. Nesta localidade, ofereciam-lhes umas calças para escaparem aos perseguidores, mas com um preço: eram forçados a pagar um tributo aos Judeus locais. Em suma, tinham que continuar com as calças na mão para o resto da vida. Daqui vem também a expressão que se utiliza em Espanha e em algumas regiões portuguesas junto à fronteira espanhola.

Dez 15

Uma democracia asfixiada pela endogamia partidocrática, onde a esquerda cabe na aula magna e a direita, no kim-il-sung do portismo

Alegre começa a estreitar demais, em politiquice, aquilo que apenas parecia ser um caminho de metapolítica. Corre assim o risco de tornar-se no Adriano Moreira da esquerda, mas ainda com mais idade. O que deixa uma estreita margem de manobra a José Sócrates, porque o poeta pode conseguir os cinco por cento necessários para um futuro governo de maioria absoluta do que poderia ser a união nacional situacionista. Logo, não estamos a ver Sócrates a ter que governar com o apoio de Portas ou do PSD, a ter que engolir Alegre ou a ter que transformar todo o Bloco de Esquerda num Sá Fernandes, costizado. Se Sócrates não fosse teimoso, era capaz de dar uma golpada de mestre e não ir a votos dentro do PS, obrigando Vitorino a sair da toca da fundação, com Soares, o Mário, a ter que vingar-se das presidenciais, num jogo de gerontes com muitos velhos do restolho.
Parece que tudo se apresenta como uma sucessão de estratégicos pontos de não regresso, naquilo que a política tem de melhor nestas encruzilhadas: o prazer daquele risco de mandar tudo desafiar, sempre “entre o tudo e o seu nada”. Obrigado, Manuel Alegre! Por enquanto, eu, liberal e tudo, estou condenado a ter que votar na única coisa verdadeiramente política que ameaça apresentar-se ao eleitorado, onde, neste caso, ser vencido é afinal vencer, dado que a velha contabilidade dos cenários de Marcelo Rebelo de Sousa e das análises políticas de José Miguel Júdice não consegue meter a realidade num caixilho de cenários. Porque, crescendo a dita esquerda, nunca uma eventual vitória do PSD em maioria relativa lhe daria legitimidade, um pouco à imagem e semelhança das contas formais que, por Timor, Alkatiri continua a fazer.
A sucessão de episódios decadentistas é também assinalável pelos mais de noventa por cento obtidos por Portas num universo eleitoral onde apenas houve participação de cerca de 30% dos militantes do PP, isto é de cerca de cinco mil de gatos pingados, onde haverá pouco mais de meio milhar de activistas em circuito endogâmico, mas que correm o risco de definir o essencial da vida histórica dos portugueses desta geração. Isto é, cabem quase todos no mesmo auditório onde Alegre concentrou o “forum das esquerdas”, num espaço multitudinário bem menor do que poderá ser conseguido pelo Benfica, pelo Sporting e por Futebol Clube do Pintodacosta. Não há democracia sem cidadania e ai da democracia se for esta partidocracia a marcar o ritmo do futuro. Porque basta copiar no Bairro Alto de Lisboa o que os radicais gregos da tradução em calão do Maio 68 estão a fazer a partir da Faculdade de Direito e da Politécnica de Atenas…
PS: Não aconselho Sócrates a fiar-se na análise que, ainda ontem, ouvia do meu querido José Miguel Júdice nesse espaço da rádio pública que captei em Dili, segundo o qual tudo dependeria da baixa da taxa do Euribor, com a classe média a voltar a escolher o Zé da Covilhã como o mal menor, prometendo rodriguinhas em todos os sectores, mesmo que seja pela desertificação desinstitucional dos professores. Meu caro Zé Miguel, essa de definires a classe média como aqueles a quem está garantido o emprego é uma espécie de convite a irmos todos para a Patuleia!…