Jan 20

Quando a coragem da polémica, do duelo de argumentos e do bom combate de ideias, cedem lugar ao cinzentismo da cobardia

Depois de séculos de pretenso santo ofício, remodelado sucessivamente pelos juízos de inconfidência, pelos moscas dos intendentes, pelos agentes do maneta, num modelo perpetuado pelos formigas brancas, pelos polícias de defesa do Estado e pelos comités de vigilância revolucionária, parece continuar em vigor entre nós aquele princípio do regimento da dita santa Inquisição, segundo o qual a denúncia é um dos meios principais, mesmo com escritos não assignados e denunciações de ouvida.  Se já não há mesas do santo ofício, com as suas sessões de genealogia e in specie; se o denunciado não tem que temer os cárceres do dito, a morte civil ou outras afrontas, continua a bastar uma carta anónima remetida a duas ou três instituições públicas (incluindo o DIAP), desde que se encene uma fuga ao segredo de justiça, para certos órgãos de comunicação social tratarem de lançar alguém para o pelourinho da suspeita. O terrorismo nihilista que percorre os meandros de certa opinião publicada, se pode não afectar a opinião pública nem beliscar a opinião crítica, nem por isso deixa de arrastar alguns nomes para o pelourinho da suspeita, numa política de camartelo que vai unidimensionalizando quem ousa sair da fileira das modas estabelecidas e sabe que só é moda aquilo que passa de moda, que só é novo aquilo que se esqueceu. Vem isto a propósito de uma parangona pseudo-jornalística que acusa de … dois catedráticos da … . Se os especialistas na matéria não estranharão tal processo, os incautos ledores das prosas publicada, onde a imaginação criadora do transmissor da notícia já vislumbra agentes da Polícia Judiciária na consulta de incunábulos e na denúncia dos novos piratas de autores medievos, poderão considerar que não há fumo sem fogo e, certamente, não terão paciência para aturar a resposta técnico-científica que os dois mestres já deram. Porque, como dizia Voltaire, menti, menti, que da mentira alguma coisa fica. Por outras palavras, o objectivo dos denunciantes já compensou a denúncia, porque o efeito do golpe, nunca pode ser remediado pela letra miúda da defesa da honra. De qualquer modo, como seria estimulante sentir os nossos agentes de investigação penal correrem lestos pelos glosadores e comentadores e pedindo peritagem técnica aos eruditos mundiais na matéria, numa acção digna de um romance de Umberto Eco e quase tão estimulante como foi a cena da polícia política salazarista a interrogar os desvios filosóficos de Abel Salazar , recorrendo a Leonardo Coimbra, que saiu da polícia insultando os pobres agentes que o tentaram usar como mero intérprete. Tudo seria ridículo, se não fosse trágico e se, nos meandros do processo, não tivesse havido mentira e intenção de ofender a honra de quem por não dever, não deve temer. Tristes são estes nossos tempos quando a coragem da polémica, do duelo de argumentos e do bom combate de ideias, cedem lugar ao cinzentismo da cobardia, escondida sob o anonimato. Tristes de nós se continuarmos amarrados àqueles pretensos analisadores de notas de pé de página que preferem arrazoar sobre o sexo dos anjos de uma pequena folha ou de um pedaço de ramo, esquecendo a árvore e perdendo o sentido da floresta. Tristes são os tempos se dermos o nome de autores àqueles que não têm autoridade e se qualificamos como autoridades aqueles que não são autores. Quanto apetece plagiar Camilo Castelo Branco, quando este, em 1852, falava numa época essencialmente analisadora, onde o nosso público é zelosamente empenhado em julgar os grandes e pequenos acontecimentos, desde a revoltosa queda de uma dinastia de quinze séculos até à demissão imprevista de um cabo de polícia. Também julga os grandes e pequenos homens, desde o heróis de cem batalhas até bagageiros inofensivos: desde César a João Fernandes.  O defeito continua quando se fotografa um homem de Estado em trajes menores, ao mesmo tempo que se conjectura sobre a moeda única, se elabora uma teoria sobre o erro crasso de um determinado árbitro num jogo de futebol ou se disserta sobre um qualquer jurista medieval. Não quero entrar na polémica … a propósito dos fragmentos de casca árvore que a motivaram, nem sequer imaginar quem serão os inspiradores da falsa denúncia, certamente alguns mais alfarrabistas-historiadores do que historiadores de histórias de alfarrábios, mas não posso deixar de lastimar a lama que foi atirada a dois autores, a uma escola e a uma profunda tradição universitária portuguesa. … O nihilismo inquisitorial, adepto da terra queimada pela intriga, instrumentalizando a liberdade de expressão e, sobretudo, a liberdade de imprensa, não pode ser compensado pelo rigor da protecção coactiva de uma qualquer lei, nem pelos meios de defesa do poder judicial. Para além do direito, há a moral, aquele valer a pena estar de acordo consigo mesmo, mesmo que pareça estar-se em desacordo com todos os outros.  O velho provérbio de que os cães ladram, mas a caravana passa, não é reconfortante e pode não ser verdade, porque implica deserto, caravana, camelos e cães disponíveis para ladrar. Há quem não ande em caravanas, há sítios que não gostam de ser deserto e há os cães que obedecem sempre à voz do dono ou daqueles que os assanham. Talvez não valha a pena termos de escolher, do mal, o menos, isto é, entre o canino e o camélico, quando se prefere a terra dos homens, quando apetece caminhar e há tanto que fazer neste nosso tempo que já não é de vésperas, mas de insensível caminhada para um vazio de poder cultural, para onde correm lestos os iconoclastas dos novos camartelos colonizadores. Neste tempo de globalização, de diluição das diferenças nos todos unidimensionais das modas culturais, só aqueles espaços culturais que estão cansados de autonomia se autoflagelam derribando as pedras vivas dos homens livres que vão plantando as macieiras do amanhã. Esses que no silêncio dos claustros semeiam, no longo prazo, o valer a pena continuarmos a autonomia cultural portuguesa”.

Jan 20

Uma república mestiça, feita por subscrição universal!

Lá assisti ao discurso de Obama. E, confesso, entusiasmei-me. Exactamente por aquilo que alguns imediatos críticos denunciaram: não trouxe nada de novo. Podia ser um discurso de há duzentos anos, repetindo palavras dos pais-fundadores da república norte-americana. Porque assim se confirma o que disse Hannah Arendt, repetindo Burke, sobre a revolução desse outro lado do Atlântico: foi uma revolução evitada, à boa maneira liberal. Logo, tanto não gerou uma contra-revolução, como não precisa de uma pós-revolução. Só é novo aquilo que se esqueceu. Só é moda aquilo que passa de moda. Só há o verdadeiro fora do tempo, como diria Vieira. As palavras básicas foram as de “nós, o povo”, confiança, felicidade, esperança, homens livres, imaginação, contra o poder sem convicções, contra a política sem princípios. Estava ali Montesquieu, estava ali Cícero, estava ali Péricles. E, ao fundo, uma arquitectura de edifícios neo-clássica, tentando imitar as formas da velha República Romana, diante de uma multidão simbolizando a praça pública, o “forum”, o “ágora”. Felizmente, a democracia norte-americana não tem a palavra Estado, herdeira do absolutismo, porque a respectiva modernidade sempre assentou nos fundamentos do velho consensualismo pré-absolutista e tudo se mobiliza pelas ideias de Comunidade e de Nação. Por isso, o Professor Obama voltou a dizer que a América vai continuar a querer iluminar o mundo, em nome de uma ideia de Deus, entendida à maneira de Bento Espinosa. A América como uma república feita por subscrição universal e, portanto, mestiça, à imagem e semelhança do respectivo presidente de hoje. Uma espécie de regresso à terra prometida, cujo sonho gerou a comunidade política mais plural e mais liberal do mundo, naquele paradoxo criativo que a fez ser também a mais cristã e a mais maçónica de todas. Por outras palavras, foi o discurso de um velho liberal idealista, contra o pretenso realismo de neoconservadores e neoliberais. Por isso, também eu quero continuar a ter esperança e todos os que assim pensam e acreditam precisam de uma democracia norte-americana que abandone a treta dos neomaquiavélicos, pretensos defensores da liberdade, para quem eventuais bons fins justificariam os maus meios. Nenhum dos grandes problemas do mundo pode ser resolvido em solidão por uma eventual república imperial. Mas nenhum desses grandes problemas tem solução sem a cooperação norte-americana, ou com um qualquer regresso ao isolacionismo. A luta contra os interesses, contra a corrupção, contra o poder sem convicções, precisa de aliados. O Ocidente precisa desta renovação do sonho norte-americano. E eu apenas recordo que, quando ele foi eleito, estava em Timor, no meio de mestiços, recordando que o embaixador norte-americano em Jakarta, no tempo da invasão autorizada por Kissinger, era um dos altos hierarcas de Bush. Não o esqueço. Nem deixarei de recordar que a libertação de Timor só foi possível com a presidência do marido da actual “secretária de Estado” de Washington. Que não me engane. A esperança volta a ser discurso e a imaginação pode acontecer, pela Santa Liberdade!

Jan 18

Foi um fim de semana de palanques, altifalantes e “soundbytes”

Foi um fim de semana de palanques, altifalantes e “soundbytes”, anunciando o começo de três campanhas eleitorais, para gáudio da velha partidocracia e das empresas de eventos e porta-chaves. E o mais verbalmente moderado de todos foi Portas que, em plenas Caldas, nada disse sobre o encerramento da fábrica de loiça do velho Bordalo, talvez porque o Zé Povinho e as gestuais palavras tenham andado pelas ilhas, onde, nos Açores, Manela qualificou Sócrates como o coveiro da Pátria, e mais a Sul, na Madeira, Jardim clamou contra o novo gonçalvismo. Sem deixar ocupar o espaço comunicacional pelas oposições, Sócrates foi ao fim da tarde de domingo ao CCB apresentar a sua moção ao próximo Congresso do PS, misturando pinceladas de ideologia com anúncio da causa fracturante do casamento dos homossexuais, sem meias tintas. Ao seu lado, não estava o ministro Silva Pereira.

Sócrates, do alto do situacionismo, autoqualificou-se como a força da mudança, quando, afinal, não passa do principal dos conservadores do que está, do tal estadão do Estado a que chegámos que vai lançando dinheiro em cima de cada foco de crise que dê votos. Vamos gastar dinheiro que tínhamos previsto não gastar, queremos ir para a Europa em alta velocidade e quem estiver contra isto quer a exclusão do país. E, numa linguagem bíblica, acrescentou estar contra os fariseus que se armam em arautos da verdade. Porque ele é o Estado que nos vai proteger da crise, onde ser pelo Estado é ser pelas agendas inaugurativas de Mário Lino, contra uma direita institucional que, neste ponto, é tão estadualista como o PS, entre sociais-democratas e democratas-cristãos, dado que nenhuma das alternativas se assume como liberal…

Fiquei farto deste estilo banha da cobra, com a sala cheia de pouco entusiastas militantes, que mais se assemelhavam aos figurantes contratados pelo programa dos prós e contras. Ao menos, Portas, Jardim e Manela tinham entusiastas congressistas ou comensais.

E volto a Portas, dono de um discurso eficaz e trabalhador notável da palavra e da metáfora que, gasto pelo uso, já não consegue marcar a agenda e vê o PSD ultrapassá-lo em soundbytes, correndo o risco de deixar de ser o indisciplinador colectivo vindo da partidocracia. Mesmo quando é o único chefe de facção que a consegue confundir com o alvará de um partido, alavanca que o projectou como ministro de fato azul às riscas e devorando sucessivamente os seus companheiros de protagonismo, atirados, um a um, para o cemitério dos substituíveis, de Manuel Monteiro a Nobre Guedes.

Julgo que partido que não se vislumbre como um potencial partido maioritário está condenado a ser mero mobilizador de causas e federador de “clusters”, mas podendo ter decisiva influência na governação, por causa da crise de confiança no sistema, a fragmentação partidária e as inevitáveis coligações pós-eleitorais. O ilustre líder desta força charneira está gerindo a sua coutada eleitoral de personalização do poder. Aliás, sem Portas talvez nenhum dos respectivos seis vice-presidentes pudesse ter vida própria e futuro político.

Jan 18

Foi um fim de semana de palanques, altifalantes e “soundbytes”

Foi um fim de semana de palanques, altifalantes e “soundbytes”, anunciando o começo de três campanhas eleitorais, para gáudio da velha partidocracia e das empresas de eventos e porta-chaves.  O nosso primeiro, do alto do situacionismo, autoqualificou-se como a força da mudança, quando, afinal, não passa do principal dos conservadores do que está, do tal estadão do Estado a que chegámos que vai lançando dinheiro em cima de cada foco de crise que dê votos. Vamos gastar dinheiro que tínhamos previsto não gastar, queremos ir para a Europa em alta velocidade e quem estiver contra isto quer a exclusão do país. E, numa linguagem bíblica, acrescentou estar contra os fariseus que se armam em arautos da verdade. Porque ele é o Estado que nos vai proteger da crise, onde ser pelo Estado é ser pelas agendas, contra uma direita institucional que, neste ponto, é tão estadualista como o PS, entre sociais-democratas e democratas-cristãos, dado que nenhuma das alternativas se assume como liberal… Fiquei farto deste estilo banha da cobra, com a sala cheia de pouco entusiastas militantes, que mais se assemelhavam aos figurantes contratados pelo programa dos prós e contras.

Jan 17

Os novos alves dos reis e a impossibilidade técnica do 28 de Maio

Com os semanários de sábado anunciando o fim da autonomia de Alegre (num, já é o candidato presidencial do PS, noutro, mero presidente do parlamento), notamos como a credibilidade de Manela já consegue matraquear um discurso eficaz de propagandismos (fim do TGV, subserviência do PS face aos socialistas espanhóis), enquanto toda a classe política pronuncia palavras como BPN, BCP, Apito Dourado e Freeport, num toma lá dá cá que prepara outros desvelamentos. Por acaso, poucos se preocupam com o congresso caldense do CDS, já que parece mais importante saber se Portas e Santana conseguiram acordo para a coligação em Lisboa. Isto é, ao contrário dos conselhos de Cavaco, vivemos, em plenitude, o tempo das tricas, das intrigas e da teoria da conspiração, onde nem sequer faltam amuletos, pulseirinhas e bruxedos.

Apenas acrescento que, por muito menos, caiu a pobre I República, quando o ministro das finanças de António Maria da Silva, o moderadíssimo Armando Marques Guedes (na imagem), pai e avô de outros homónimos das nossas classes universitárias e políticas, começara a driblar o fantasma do défice, numa política que o 28 de Maio de Sinel de Cordes iria destruir, para que a síntese da dialéctica se chamasse Salazar, quando a sacristia, aliada às forças vivas, esmagou a cavalariça, mais próxima dos partidos, através de manobras de bastidores. Entretanto, entre 1925 e 1928, a sombra escandalosa do caso Alves dos Reis e do seu banco fantasma, para onde conseguiu recrutar uma ilustre figura de deputado do Centro Católico Português, ia confirmando que, entre bonzos, endireitas e canhotos, o que efectivamente vivíamos era numa ditadura da incompetência, onde as classes médias, estavam a ser entaladas pelo martelo da Legião Vermelha e a bigorna das forças vivas, para citarmos expressões jornalísticas de então. Porque também então Salazar e Cerejeira tiveram de ir ao processo, em contidos e paradoxais depoimentos, para safarem o seu velho companheiro do partido eclesiástico. Alves dos Reis foi para a cadeia e converteu-se ao protestantismo…

Teixeira dos Santos, apesar de também vir do Porto, não é o tradutor para português do Plano Beveridge. Sócrates não tem a história carbonária de António Maria, deste engenheiro com prática de engenheiro e também de comando dos batalhões de rua em épocas revolucionárias. E as oposições não podem ser desmanteladas pelas jogadas de Francisco da Cunha Leal, personalidadede que Pedro Santanha Lopes deveria estudar a biografia, antes de Paulo Portas a espreitar.

Claro que um golpe de Estado no Portugal do século XXI é uma impossibilidade técnica, dado que o comando das telecomunicações já não passa pela torre do telégrafo nos Correios do Terreiro do Paço; o poder instalado já não cabe numa Chaimite que se tire do Quartel do Carmo e se remeta de avião para a ilha da Madeira; e não se consegue decretar a mudança do regime através de um simples comunicado lido na RTP. Portugal já não tem Império e a metrópole capitaleira que resta já não é uma ilha, apesar de Manela ser neta de José Eugénio Dias Ferreira e de ter, como principal colaborador, um dos netos do ministro das finanças de António Maria. Passámos a periferia da grande Europa da moeda única e dependência dos restos da globalização. Temos os banqueiros, os governantes, o presidente e os partidocratas que merecemos. Todos vamos gerindo as dependências e navegando na incerteza da interdependência, onde o bater de asas de uma andorinha de dez despedimentos nos States, ao abrigo da Primavera do Plano Obama, pode produzir uma tempestade invernosa de falências no Portugal profundo das PMEs…

PS: Por causa das declarações do Cardeal, dei um salto navegador a um “site” católico francês e confirmei que cerca de 16% dos casamentos gauleses já são mistos. D. José Policarpo teve, pelo menos, um mérito: revelou como a intolerância xenófoba cresceu, como o fanatismo se exacerbou e como a ignorância marca as elites. Ainda ontem, no telejornal da TVI, um dos melhores comentadores lusitanos, ex-professor da Católica, parecia desconhecer como, desde a primeira hora, a Igreja de São Pedro e São Paulo admitiu os casamentos mistos de crist(ão)s com gentio(a)s, tal como, aliás, o próprio Islão. Como se entre as três grandes religiões do Livro, nascidas em redor do mesmo mar interior, não fosse mais o que as unisse do que aquilo que as continua a dividir. Aliás, D. Policarpo, no seu comício de Casino, também produziu injustas declarações que irritaram a comunidade judaica, a propósito do conflito de Gaza. Se calhar, como patrão-mor da Universidade Católica, ele estava era irritado com a classificação dada pela FCT ao seu Instituto de Estudos Políticos. Felizmente que uma universidade norte-americana já reconheceu o mérito da instituição, coisa que, sem ironia, também subscrevemos, até por causa do casamento misto de ideias protestantes e católicas que está na sua base ecuménica liberal, mesmo que os teóricos católicos não o notem, depois dos sucessivos afastamentos a que foram sujeitos os melhores pensadores políticos lusitanos e neotomistas que ainda pensam pela própria cabeça e de acordo com a autonomia do pensamento português sobre a matéria.

Jan 09

Como não é possível mudar os portugueses que temos

Como não é possível mudar os portugueses que temos, através da engenharia totalitária, que tinha a ilusão de construir um homem novo, talvez seja melhor mudar a classe política através de uma profunda reforma que venha da sociedade para o Estado, com mais política e menos partidocracia.  O nosso problema não estar em repetirmos o velho “slogan” do “menos Estado, mais sociedade”, mas antes em termos um melhor Estado, em repolitizarmos o Estado, diminuindo a gordura muscular dos aparelhos, calcificando as respectivas estruturas ósseas e fazendo com que, nas articulações com a sociedade, seja eliminado o método da corrupção, ou compra de poder, e que, no plano da mobilização para o bem comum, se restaure a cidadania activa contra o indiferentismo, reinventando os laços tradicionais da vizinhança, do municipalismo, do regionalismo, do sindicalismo e do patriotismo, bem como apoiando a autonomia da sociedade civil, através da esquecida educação cívica e de uma autêntica revolução do sistema de ensino, liquidando a herança de Veiga Simão e dos compadres educacionólogos e avaliólogos, esses profissionais do reformismo burocrático que, com ele, andam a ser pagos vitaliciamente para nos continuarmos a derrotar em ministerialices pseudo-educativas que deveriam ser liminarmente extintas.  Para um cidadão que perfilha a democracia quase como uma religião secular, orgulho-me de viver politicamente como penso, para que os meus descendentes possam dizer que, na hora certa, não desisti de lutar pelas minhas crenças, mesmo que corra o risco de ter razão antes do tempo. Por enquanto, com uma teledemocracia, onde a tríade dominante é a “imagem, sondagem e sacanagem”, para citar Manuel Alegre, temos uma autêntica ditadura da incompetência dos poderes fácticos e do neocorporativismo, onde dominam as cabalas dos “pios brothers” e o deboche das “quintas das celebridades” que nos envergonham. Com este videopoder ao ritmo pimba, é natural que as estrelas politiqueiras desçam ao nível dos maus actores de tragicomédia que não sabem ser os autores da necessária regeneração nacional que nos liberte de séculos de colectivismo moral, entre o inquisitorialismo de má memória e o autoritarismo pidesco, ambos marcados pela mesma bufaria moral que, agora, posta ao serviço de ocultos “lobbies”, quer destruir a forma humana de vivermos, porque não parece que a natureza humana, marcada pelos laços da família, da vizinhança, da pátria e da humanidade, possa ser reinventada por certas idiossincrasias que, só por serem adoptadas por alguns líderes partidários e por certos ministros, não deixam de ser um normal anormal. Por outras palavras, não sendo um fiel catolaico, à maneira do Professor Rocco Buttiglione, mas antes um mero homem de boa vontade pouco dado à sacristia, comungo com alguns dos gritos de alma de certa postura conservadora, expressa pelo combate pelos valores, desencadeado por João Paulo II e em que coincidem muitos dos militantes do humanismo laico. A estupidez do nosso tempo está em logo qualificar esta sensibilidade, sociologicamente maioritária, como ultra-reaccionária, dado que o “politicamente correcto” impõe a cobardia de termos medo dos “lobbies gays”, onde actualmente se integram muitos destacados direitistas que só gostam de se dizer de direita quando invocam as ridicularias patriotorrecas e a defesa dos privilégios negocistas do capitalismo de faca na liga, mas que admitem chamar casamento às uniões entre homossexuais, que devem ser lícitas e estadualmente protegidas, e permitem que as mesmas possam praticar a adopção.

Jan 08

Com um pedacinho de metafísica, olhando uma nesga da barra das partidas sem regresso….

Depois de alguns meses de metafísica na Ribeira de Timor, entre a Ásia e a Oceania, lá vou voltando à rotina e ao ritmo biológico de novas horas de acordar e dormir. Regresso a um estar sem ser e confirmo como permanecem os fantasmas e preconceitos, em plena crise, mesmo que uns sejam autênticos e escorreitos e outros não passem de falsários e fundibulários que apenas atingem o clímax pelas técnicas da velha pirataria, a que alguns chamam défice ou claustrofobia. Não me fazem perder o sono e reforçam esta minha missão de uma escritura por ter de escrever, mesmo quando o escrever-me implique que desvende algumas das nebulosidades do desassossego da liberdade e da criação. Infelizmente, o tempo e o lugar não me dão esse espaço de asa chamado paz dos homens de boa vontade, quando apetece largar quem estou e voltar a sorver o próprio mistério da procura. Não gosto da estreiteza murada dos quintais geridos e gerados pelo maquiavelismo do dividir para reinar, típicos da endogamia, a que faltam princípios, mesmo que os pequeninos, com a mania das grandezas, fiquem todos do tamanho de algumas quezílias politiqueiras, das pequenas vinganças, em diatribes sacristas. Os homens livres, que vivem como pensam e não temem ser carimbados como heréticos, ainda resistem. Agora não há fogueira, estrela amarela e maus tratos do polé, porque a mentalidade inquisitorial da persiganga se adoçou pela tecnocracia e pelo regulamentarismo, mas continuam alguns com a vontade da unidimensionalização pelo medo. Vou acordando e regressando.

Jan 07

O regresso à economia privada das forças vivas, mas sem economia de mercado

Ainda ontem, em dia pleno de frio, se podia olhar a plenitude solar do Tejo, em fim de tarde, e ler, com calma, o magnífico artigo de André Glucksman no “El Pais” que, a propósito da questão de Gaza, se inspirava no meu querido Pascal, antes de espreitar o belo livro de Sheila Jasanoff, Designs on Nature. Science and Democracy in Europe and the United States, Princeton University, 2005, sobre os sonhos da república dos cientistas, nesta viragem do milénio, quando a mesma se fica pelo mero esclarecimento da procura das pretensas causas e não está preparada para a compreensão (Verstehen). Porque também aqui caímos na esparrela de um cientificismo de economistas e financeiros, a quem dão o diabólico nome de neoliberalismo, mas que muitos liberais denunciaram antes dos socialistas. Aliás, só os macacos cegos, surdos e mudos do “mainstream” é que não notaram o desastre, que, para eles, é o fim do oásis de um paradigma criado e gerido por socialistas democráticos, sociais-democratas e democratas-cristãos. Os tais que aceitaram a governança sem governo da pilotagem automática do gnosticismo da integração europeia e da globalização, metendo na gaveta o socialismo, a social-democracia e a democracia-cristã, e que, perante a casa arrombada, logo clamam pelo mesmo São Keynes que, através do velho ISCEF, delineou o nosso modelo salazarento de forças vivas em “gentlesman’s agreement” com o centro do Estado, com uma economia privada, mas sem uma economia de mercado. Hoje, já não há o velho Estado, do já enterrado soberanismo, com o consequente proteccionismo do liberalismo a retalho,  o da nacionalização dos prejuízos e da privatização dos riscos, de um pretenso empreendorismo de patrões sem risco, e nem sequer pode aterrar em Lisboa um avião cheio de marcos, para nos ajudarem na ameaça de bancarrota. Aliás, esta governança sem governo reduz o futuro às fichas avaliativas da ministra rodiguinha, corrigidas pelo simplex albicastrense de um secretário de estadão, quase igual ao chefe dos sindicatos educativos, com saudades da correia de transmissão. E o sonho não pode reduzir-se às andanças de um chefe de governo fingindo ser o Oliveira de Figueira nas cimeiras ibero-americanas. Porque o Fernão do outro Magalhães também morreu a meio da viagem que agora andam a fazer ao contrário.

Jan 05

Mateus Álvares ou a vontade de sermos independentes

Quem conhece a longa história das nossas sucessivas frustrações colectivas, sabe como é doloroso confirmarmos que a presente democracia deixou de ser dos nobres pais-fundadores e caiu nas teias dos “filhos de algo”. A culpa talvez esteja em certo modo-de-ser daqueles portugueses que não são sonhadores activos, esses que procuraram o paraíso na expansão ou na emigração e que resistem no não retorno. Agora domina o enjoado inactivo e subsidiodependente, acirrado por certa lisonja encantatória de algumas facetas do PREC. Os mesmos que tanto repudiam o universalismo da nossa tradição de tolerância e temem que as chamadas minorias étnicas entrem, com eles, em concorrência face ao assistencialismo de um Estado que pretendia ser de bem-estar e que tende a ser, cada vez mais, de mal-estar. É do alto destas falésias, entre ventos e marés, que normalmente me escrevo e rescrevo. E tendo sempre na memória uma das primeiras guerrilhas de libertação nacional da história do mundo. Aqui a Oeste da Europa, no Centro da memória de um Portugal que, para se libertar no plural, exige a libertação de cada um dos singulares portugueses que somos. Para aqueles que entendem o sebastianismo como uma tolice utópica e passadista, aqui se recordam os efeitos práticos de um mito activista que sempre serviu de pretexto para uma efectiva movimentação para a mudança. Sou dos que acreditam que D. Sebastião ainda não morreu. Venha para sempre o necessário Quinto Império. O do Espírito Santo, Mateus açoriano, e do poder dos sem poder. Se hoje, não, amanhã será.  Eu sei que Mateus Álvares não vai vencer e que ele até é, conscientemente, um falso D. Sebastião. Também sei que somos apenas oitocentos guerrilheiros encurralados nas falésias de São Julião. Até reconheço que os nossos discursos terão o destino que levou à inevitável derrota do Manuelinho de Évora. A rede estadual-fradesca do invasor e a magnífica pleiâde dos colaboracionistas, aquilo que vossas premiáveis comendas chamam a “bela ordem”, já comanda todos os interstícios do formidável vazio de poder gerado pelas muitas homílias hipócritas e pelas imensas sacristias controladas pela prebenda. Mas também sei que somos o sinal do que há-de ser, as mãos livres que, um dia, hão-de vencer e retomar a lusitana antiga liberdade.  Há frades livres que vão escrevendo novas e apócrifas actas das Cortes de Lamego, por mais que os hutus organizem os planos de genocídio contra os tutsis, com os doces e higiénicos subsídios das internacionais sentadas em Estrasburgo ou Bruxelas, as tais que aqui vêm retratar o nosso progresso turístico, visando transformar-nos em reserva ecológica mundial, esquecendo que há portugueses que querem ser independentes, que querem a efectiva continuidade da independência política de há oitocentos e tal anos e não apenas o reconhecimento e inventário das ONGs que registam selvagens e primitivos actuais.  Termino assim: Quase três décadas e meia depois do fim do “antigo regime”, onde a ilusão revolucionária dos cadetes do 28 de Maio virou uma Viradeira, mais fradesca do que caceteira, apenas temos de concluir que também este sistema virou situacionista, recuperando fantasmas e preconceitos da Viradeira de sempre, sobretudo nas suas facetas de inquisitorialismo e de centralismo, as mesmas que promovem a sucessão de micro-autoritarismos sub-estatais. Pior do que isso: com uma democracia deslumbrada pela eficácia da governabilidade, reforçaram-se as nossas facetas anti-societárias e anti-pluralistas, para gáudio do negocismo dos chamados homens de sucesso. Porque, sempre que penso neste país resignado ao rotativismo do mais do mesmo, onde os tiques da persiganga recrudescem, apenas tenho que reconhecer que são altos os custos individuais dos que querem praticar a independência dos homens livres. Porque voltámos àquele autoritarismo de rebanho que vive na tristeza do temor reverencial do “yes, minister” ou do “sim, senhor director”. Daí que os detentores do poder não consigam compreender como se vai acumulando a explosividade da revolta que, numa qualquer encruzilhada, pode ser rastilhada por um qualquer acaso procurado, como se traduzem as nossas habituais crises. Só que a próxima será importada dado que a maioria dos factores de poder já não são nacionais… Presos à pilotagem automática de uma governança sem governo, que se desculpa com a integração europeia e a globalização, deixámo-nos enrodilhar por todos quantos detestam o empreendedorismo e o sentido do risco. Há uma massa cada vez mais inerte e desorganizada que não consegue ser mobilizada para o bem comum, entregando-se alienadamente ao chicote e à cenoura do verticalismo hierarquista do estadão que continua a táctica do enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. Porque há um Estado, filho do Marquês de Pombal, de Fontes Pereira de Melo, Afonso Costa e Oliveira Salazar que teve em Soares e Cavaco os principais restauradores. Geraram estes conservadores do que está, mas não do que deve ser, os tais que até se dizem de esquerda, confundindo esta com o estatismo. Não reparam que o Estado absolutista, seja autoritário ou sectário, pode transformar a democracia no desepero de um partido-sistema que, mesmo quando se transfigura no rotativismo bipartidário, não deixa de manter a mentalidade do partido único ou a cair na tentação usurpadora da personalização do poder Não há esquerdas nem direitas que sejam secularmente políticas, dado que as chamadas “causas” foram usurpadas por certo confessionalismo político-religioso, quase congreganista, do novo politicamente correcto, como se os valores morais fossem monopólio dos fracturantes do esquerdismo, do partido arco-iris, ou da velha sacristia. Daí que quem quiser ser fiel ao velho mas não antiquado humanismo, estóico, renascentista, ou iluminista, corra o risco de ter que passar para o exílio interno, só porque não alinha com o colectivismo sectário de certas congregações, como avisava Orwell.

Jan 04

Do regresso da guerra e da fome, ao santuário das baleias, em nome do sonho que falta

Noto que ano novo, mas vida velha, porque voltam os velhos cavaleiros do Apocalipse. Não por causa da crise de gripe, mas pela Guerra e pela Fome, mesmo que, por agora, se chame pobreza, sem abrigo e desemprego. Primeiro, a guerra, uma guerra que os judeus dizem total, um pouco à maneira do fantasma hitleriano, que pensava a total como mais curta. Uma guerra dos diabos identitários numa terra triplamente santa para judeus, cristãos e muçulmanos, onde o argumento mobilizador tanto é um bom árabe ser um árabe morto, como vice-versa. Curiosamente, as bombas vão destruindo grande parte da ajuda europeia à Palestina, saída dos nossos bolsos, do mesmo bolo que pretende servir para a sustentação do chamado Estado de Bem Estar. O mal-estar do dito cujo, aqui e agora, são dois milhões de pobres, como revela Isabel Jonet. Os mesmos de há quinze anos, apesar de tantos governos de esquerda, socialistas, sociais-democratas e democratas-cristãos. Com efeito, a Europa de Delors, que este definia como dois terços de remediados da classe média com um terço de excluídos, com desemprego, subsídio de desemprego, reformas, aposentações e caridadezinha contra a exclusão, aqui, em Portugal, caminha para a sul-americanização, numa espécie de jangada de pedra ao contrário. Daí o crescendo do indiferentismo e da não-cidadania, face a ricos que são cada vez menos, mas cada vez mais ricos, pedindo nacionalização dos prejuízos, enquanto nos vamos divertindo como circo da futebol-ítica e o pão ainda não sobe de preço. O sistema é uma grande panela de água a ferver, cujas válvulas de escape parecem ficar entupidas pelo lixo do indiferentismo e da corrupção. O sistema tende a asfixiar o regime e o povo pode colocar-se contra a partidocracia que, para si mesma, reclama o monopólio da democracia. Aliás, os comentadores instalados, apesar de anti-socráticos, apenas servem a águia bicéfala do situacionismo, a que chamamos coabitação de maiorias e falta de cooperação estratégica. Contudo, nenhuma das cabeças de tal águia denuncia a usurpação das forças vivas e da casta banco-burocrática, onde não é importante ser ministro ou partidocrata, mas tê-lo sido. Poucos reparam que, apesar de não haver descamisados, com o perigo real do chamado populismo, pode ser que os jovens desempregados e os velhos sem abrigo continuem a promover uma silenciosa conspiração de avós e netos. Não parece que o apelo ao instinto do estatismo centralista, hoje contra as regiões autónomas, amanhã contra as restantes autarquias, seja mobilizador. Apenas disfarça o essencial e revela como os supremos mandadores são herdeiros do Marquês de Pombal, de Afonso Costa e de Salazar . Espero que não seja pecado alguém poder ser regionalista e federalista a nível interno, assumindo-se frontalmente contra o capitaleirismo, a pior das chantagens que estão a fazer contra a democracia. Deixei uma última palavra de esperança para o futuro, em nome da mãe-terra, dessa mátria que descobriu em Timor um santuário de baleias e golfinhos. Infelizmente, em Portugal, terra de enjoados, dominada por um défice de sonhadores activos, poucos compreendem que só haverá boa política quando voltar o sonho, a criatividade e a imaginação.