Dez 10

Há quem não goste de ser tratado como gado corrupto, como mais um escravo que se pode adquirir no mercado da concorrência desleal

Não é Tereza Batista, mas José Sócrates que se diz cansado de guerra com os professores, utilizando uma metáfora pouco propícia à missão docente, enquanto o episódio da gazeta dos deputados, que apanhou em cheio o PSD, demonstra como a sala da Câmara dos Pares é menos propícia ao controlo electrónico do que o hemiciclo do Solar dos Barrigas. Não tardará que depois de casa roubada, apareçam ainda mais clamores sobre o controleirismo dos senhores representantes da nação, numa espiral que, como a evasão fiscal, levará a ainda mais gazetas, porque o problema não está em substituir os presidentes dos grupos parlamentares por policiais sargentos de milícias, mas de darmos uma função nobre ao parlamento.

Aliás, quando, em mero registo de “lapsus calami”, um jovem secretário de estadão deste governo lusitano  proclamou que quem não estivesse com as magníficas reformas socráticas seria trucidado, ele apenas cometeu um erro de pôr mais um texto fora do contexto, sem trazer a coisa nomeada ao próprio nome. Aliás, nem sequer atingiu o nível de uma piada como aquela em que, outrora, Jorge Coelho tentou mobilizar o partido clamando em comicieirês que “quem se mete com o PS leva”. Qualquer um desses lapsos, não me leva a elogiar Maria de Lurdes, mas apenas me faz admirar antigos colaboradores do velho diário anarco-sindicalista, como a genialidade do escritor Ferreira de Catsro, a autenticidade memorialista de um Alexandre Vieira ou os rasgos de paciente patriotismo do historiador Mário Domingues, santomense e tudo.

Apenas registo mais este rol de decadentismos, sem dizer teias da conspiração e estupidez vingativa da persiganga, agremiando generais solitários com alferes auxiliares, sargentos verbeteiros e uns donzéis ambiciosos e carreiristas. Já disse tudo e quero regressar assim com a razão posta em discurso. Basta notar como uma simples faúlha incendiou a muita palha do parceiro grego. Basta ter ouvido os avisos que ontem lançaram Daniel Bessa e João Salgueiro que, para leigo, disseram que não podemos continuar a viver acima daquilo que produzimos, porque o gnosticismo da integração europeia e da globalização, nestes domínios, é coisa que já era e nunca, na verdade, foi.

Porque há altos serventuários do estadão que se assumem como de primeira, especialmente quando pensam que as outras gentes do Puto são todas de segunda, esquecendo que há quem não goste de ser tratado como gado corrupto, como mais um escravo que se pode adquirir no mercado da concorrência desleal, só porque estamos sujeitos a claustrofobia. Mesmo quando me dizem que o mosquito do dengue ataca apenas a horas de meio dia, temo confundi-lo com as melgas que gostam do crepúsculo.

Por mim,  não tenho aquela potência absoluta que permita manejar a classificação do bem e do mal, onde tanto há bestas que passam a bestiais, como bestiais que passam a bestas, conforme os caprichos e a birras do déspota mimado. Eu sei que a noite desceu sobre a cidade, mas vivo, ainda assim na outra metade do mundo. E não posso esquecer, não sei esquecer. Porque algumas vezes me viajei assim por dentro, vibrando sobre as pequenas colinas que vislumbrei, além dos farrapos que me encobriam o dia. E já nem sei se o que aconteceu foi em verdade ou foi em sonho, quando olhei de mim, longe de mim, outros sinais.

E sinto. Sem  pensamento. Sinto o sabor de outros sentires que só uma vez se sentem porque foram a primeira vez, a única vez. Como as feridas que abri nos frutos da terra, as sinfonias de um estampido diante do mar, nesses sinais que foram e me deram eternidade. Porque, na memória, eles são recordações de felicidade.

Dez 10

Homem Livre! Azul e branco ou verde e amarelo…sonho, logo sou…

Herculano, Cortesão, Garrett, Burke,  Pacoaes, Kant, Agostinho, Pessoa, Churchill, Neto Paiva… bolas! Noventa por cento dos meus mestres, assinados, públicos e notórios, de há muito, de há décadas, são do profundo azul e branco e da  cruz templária que me deu pátria e liberdade. Este segredo que de mão a mão nos une em corrente livre de algemas, mas plena de união na diversidade. De direita ou de esquerda, da tradição ou do progresso, realistas ou republicanos, mas sempre contra o fanatismo, a ignorância e a intolerância, pela santa liberdade!..

Eis minha resposta a um comentário anónimo de um blogue pleno de fascistas folclóricos e de informações à velha maneira pidesca… os tais que pensam que têm o monopólio de pátria, só porque esta foi averbetada pelos sargentos, ao mesmo tempo que confundem a sacristia com o espírito. E também um aviso para os que pensam que é por oportunismo que se proclamam convicções liberais, à antiga, da lusitana antiga liberdade, de Velasco Gouveia a Luís da Silva Mousinho de Albuquerque.  Há sangue demais, exílio demais, prisões demais, para que me possa esquecer que a liberdade é uma conquista.

E aqui o digo, cá de Dili, quando a corrente descendente dos dias de regresso começa a contabilizar-se, depois de cumprida a missão formal e de realizados os objectivos íntimos que aqui me trouxeram.  Porque consegui, com um safanão na rotina, não reprimir o livro de escritos inúteis que, há mais de dois anos, tinha encalhado nas trocas e baldrocas dos motivos pelos quais recebemos vencimento. E o projecto acabou ontem de ter uma primeira impressão em fotocópia, aqui na editora privada dita Xerox, apenas com um unico exemplar, o meu, para rever, refazer e condensar, com o provisório título que nunca o será de “carreiros de pé descalço” e o subtítulo de “onde no princípio tem de estar o fim”.

Também ontem enviei para Lisboa a revisão das últimas provas da penúltima parte do meu livro no prelo, por mais setenta e cinco USD. Tal como concluí a nova biografia do pensamento político, a ser editada em “respublica”, mas não podendo daqui ser emitida, face às insuficiências do “upload”. Tal como elaborei o rascunho final de uns densos “tópicos políticos” que, quando chegar a Lisboa, irão à procura de editora. Hoje, estou a concluir o relatório à rodriguinha e bolonhesa, a dar os últimos retoques nas notas de avalição contínua, e quase a ter a ilusão de apresentar um projecto de levantamento dos termos e ideias de direito no Timor profundo, não colonizado, não ocupado e não globalizado. Há notáveis trabalhos de alunos que gostaria de ver editados. Para que muitos doutos subsidiados pela cunha do influente não continuem a falar em Sarawak, cortadores de cabeças e fardos de um homem branco que decreta os outros como incivilizados e selvagens, só porque não tiveram Hitler, Torquemada ou o tipo da GNR que, nos anos trinta, pôs a tripas de fora a um meu avoengo. Qualquer Lord Byron, depois da carga de porrada saloia que recebeu em Sintra, disse, como a lenda dos romanos, madrilenizada, que tanto não nos governávamos como não nos deixávamos governar. Vale mais olharmo-nos ao espelho, antes de sentenciarmos sobre o outro.

Por isso, me não entusiasmei com as comemorações do 60º aniversário da declaração-decreto que se disse universal sobre direitos humanos. Preferi recordar o que sobre a matéria disseram Gandhi, Laski e Teilhard. Entusiasmei-me com artigo de Joseph Yacoub e fiquei a pensar numa frase de Teilhard sobre a matéria: Les races humaines ne sont pas égales mais différentes etcomplémentaires comme les enfants d’une même famille. C’est la complexité qui engendre les différences (ainsi que les libertés). Plus les unions complexifient le milieu, moins on peut y introduire de catégories valables, de critères de sélection et de différenciation maniables : il n’y a plus troupeau ou masse ou classes mais des personnes de plus en plus singulières, irremplaçables, indéfinissables.

E compreendi Jacques Maritain: Comme en 1789, c’est l’homme qui légifère : il ne suit pas laconception chrétienne, il n’accepte pas ce qui est en dehors de lui. Ildécrète. Il décrète à son gré ce qu’il pourra à son gré changer ; et il changera tôt ou tard parce que, en décrétant ainsi, il se trompe intrinsèquement.

Leiam, senhores, esse pequeno artigo. Espreitem o que diz um islâmico como Humayun Kabir (1906-1969): Quels que soient ces droits, en théorie, ils ne sont bien souvent reconnus, en pratique, qu’aux seuls Européens, et parfois même à certains Européens seulement. Notem o conselho dado pelo indiano S. V. Puntambekar: Il n’existe plus d’êtres humains dans le monde : rien que des hommes soumis aux préjugés de religion et de race, de caste ou de groupe. [...] Le monde est aujourd’hui en proie à la folie ; il se précipite vers la destruction et le despotisme, il aspire à tout conquérir et à tout dominer, à tout piller et à tout dépouiller.

E tudo me foi provocado, quando ontem, ao sair da universidade, mesmo diante do Parlamento Nacional, a rua estar cortada, cheia de polícias, num dos raros espectáculos de securitário que aqui me foi dado assistir. Logo me deram a explicação: o Presidente José Ramos Horta estava no plenário a comemorar o sexagésimo aniversário da declaração. Vim para casa, acabei de ler e anotar o Luna de Oliveira, o René Pélissier e o Geoffrey C. Gunn e a perceber a razão da SAPT ainda ter permanecido na família do governador Celestino. Alguns desses livros jaziam na minha biblioteca em Lisboa, mas só os consegui compreender, sentindo, aqui, o ambiente de ir comprar café nos pátios do complexo agrofabril do BNU, onde hoje se situa a Ensul e que bem podia ser um belo museu do nosso bancoburocrático do rotativismo, do republicanismo e do estadonovismo, com os dentes e os lábios vermelhos de betel.

Porque só sentindo o pensamento se atinge a razão inteira que é a razão complexa. Continuo convicto na minha identidade do só sei que nada sei, do penso, logo existo, e do “in God we trust”, onde Deus podem ser deuses e Deus é o mesmo do que o mundo, à boa maneira de Espinosa e de todos os heréticos não agnósticos que dele descendem. Como eu. Que também cito São Tomás de Aquino, Francisco Suárez, Jacques Maritain e Teilhard de Chardin. Vou continuar a pensar o sentimento, sobretudo quando tenho o privilégio de ser despertado pelo sentir do pensamento. Sonho, logo sou.

Dez 10

homem livre! Azul e branco ou verde e amarelo…sonho, logo sou…

Herculano, Cortesão, Garrett, Burke,  Pacoaes, Kant, Agostinho, Pessoa, Churchill, Neto Paiva… bolas! Noventa por cento dos meus mestres, assinados, públicos e notórios, de há muito, de há décadas, são do profundo azul e branco e da  cruz templária que me deu pátria e liberdade. Este segredo que de mão a mão nos une em corrente livre de algemas, mas plena de união na diversidade. De direita ou de esquerda, da tradição ou do progresso, realistas ou republicanos, mas sempre contra o fanatismo, a ignorância e a intolerância, pela santa liberdade!.. Eis minha resposta a um comentário anónimo de um blogue pleno de fascistas folclóricos e de informações à velha maneira pidesca… os tais que pensam que têm o monopólio de pátria, só porque esta foi averbetada pelos sargentos, ao mesmo tempo que confundem a sacristia com o espírito. E também um aviso para os que pensam que é por oportunismo que se proclamam convicções liberais, à antiga, da lusitana antiga liberdade, de Velasco Gouveia a Luís da Silva Mousinho de Albuquerque.  Há sangue demais, exílio demais, prisões demais, para que me possa esquecer que a liberdade é uma conquista. Apenas registo mais este rol de decadentismos, sem dizer teias da conspiração e estupidez vingativa da persiganga, agremiando generais solitários com alferes auxiliares, sargentos verbeteiros e uns donzéis ambiciosos e carreiristas. Já disse tudo e quero regressar assim com a razão posta em discurso. Basta notar como uma simples faúlha incendiou a muita palha do parceiro grego. Basta ter ouvido os avisos que ontem lançaram ilustres economistas que, para leigo, disseram que não podemos continuar a viver acima daquilo que produzimos, porque o gnosticismo da integração europeia e da globalização, nestes domínios, é coisa que já era e nunca, na verdade, foi. Porque há altos serventuários do estadão que se assumem como de primeira, especialmente quando pensam que as outras gentes do Puto são todas de segunda, esquecendo que há quem não goste de ser tratado como gado corrupto, como mais um escravo que se pode adquirir no mercado da concorrência desleal, só porque estamos sujeitos a claustrofobia. Mesmo quando me dizem que o mosquito do dengue ataca apenas a horas de meio dia, temo confundi-lo com as melgas que gostam do crepúsculo. Por mim,  não tenho aquela potência absoluta que permita manejar a classificação do bem e do mal, onde tanto há bestas que passam a bestiais, como bestiais que passam a bestas, conforme os caprichos e a birras do déspota mimado. Eu sei que a noite desceu sobre a cidade, mas vivo, ainda assim na outra metade do mundo. E não posso esquecer, não sei esquecer. Porque algumas vezes me viajei assim por dentro, vibrando sobre as pequenas colinas que vislumbrei, além dos farrapos que me encobriam o dia. E já nem sei se o que aconteceu foi em verdade ou foi em sonho, quando olhei de mim, longe de mim, outros sinais.

Dez 08

A liberdade é muito difícil: temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores…

Seis da tarde de Lisboa, dia 8, três da madrugada de Dili, dia 9. Os galos já cantam esparsos. Há internet e aproveito. Perdi o sono, ao ter que estar em contacto com Lisboa, nas tarefas, não de academia, não de cidadania, mas de mera defesa de direitos, liberdades e garantias. Como não me aconteceu em 1975, quando fui um dos estudantes expulsos da Universidade. Como aconteceu noutros combates, incluindo os de sindicalista e de activista de comissões de trabalhadores, contra o situacionismo de um dos governos de um dos partidos do Bloco Central. Hoje, é maior a solidão do indivíduo diante da máquina do Estado, mas um professor de história das ideias, de filosofia do direito e de ciência política tem o dever de praticar aquilo que teoriza sobre o poder e os micropoderes, nomeadamente a hierarquia do direito da razão que põe o regulamento como inferior à lei, a lei, inferior ao direito e o direito, inferior à justiça. Apenas assinalo o que Alçada Baptista escreveu em 1970, numa carta ao então chefe do governo: em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.

Dez 08

Os galos já cantam esparsos

Seis da tarde de Lisboa, dia 8, três da madrugada de Dili, dia 9. Os galos já cantam esparsos. Há Internet e aproveito. Perdi o sono, ao ter que estar em contacto com Lisboa, nas tarefas, não de academia, não de cidadania, mas de mera defesa de direitos, liberdades e garantias. Como não me aconteceu em 1975, quando fui um dos estudantes expulsos da Universidade. Como aconteceu noutros combates, incluindo os de sindicalista e de activista de comissões de trabalhadores, contra o situacionismo de um dos governos de um dos partidos do Bloco Central. Hoje, é maior a solidão do indivíduo diante da máquina do Estado, mas um professor de história das ideias, de filosofia do direito e de ciência política tem o dever de praticar aquilo que teoriza sobre o poder e os micropoderes, nomeadamente a hierarquia do direito da razão que põe o regulamento como inferior à lei, a lei, inferior ao direito e o direito, inferior à justiça. Apenas assinalo o que Alçada Baptista escreveu em 1970, numa carta ao então chefe do governo: em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.

Dez 06

Contra o tédio, continuarei a ler e a viver Camões, Pessoa e Agostinho.

Uma a uma, as raízes da alegria, o entusiasmo que sustentava o pensamento, vão definhando e apetece guardar-me, resguardar-me, resistir, mesmo que sitiado. Porque todo o céu que sonhámos e que ainda há pouco brilhava, de sol e de azul, se desfez em borrasca que agrediu quem, diante dele, se apresentava de mãos livres e corpo sem armadura. Apenas trazia a pena de um sonho já rescrito, muitos papéis de procura, e um pedaço de mar.

Confesso meu atraso, a minha não cedência perante o altar dos chamados estudos pós-coloniais, os tais que consideram que todos os outros que os não seguem, em cartilha, não passam de miserandos neocoloniais que devem imediatamente aceder ao patíbulo de todas as novas inquisições, nestas garras lobísticas de uma canalha doirada, assente numa formidável rede de financiamento e colocação de amigalhaços.

Tédio. Apenas tédio. Porque o subchefe, fingindo que não discursa, apenas tem a caneta afiada para subsidiar os enviados do grande chefe. Porque todos os outros, os da metapolítica, do patriotismo, do nacionalismo, não passam de míseros serviçais do complexo militar-industrial, de busheiros que hão-de ser obameiros, só porque não leram as sagradas escrituras dos gurus de serviço, com que devemos terminar todos os discursos de homenagem aos poderes estabelecidos.

E assim compreendo como, em Timor, se vai seguindo a rede unidimensionalizadora deste gnosticismo, onde se ridicularizam todos os que não usam o pronto-a-vestir do neodogmatismo pretensamente antidogmático, os tais vermes antinacionais que algumas nações subsidiam, para que só elas sejam nação, e que, pouco a pouco, ocuparam algumas das cidadelas fundamentais desta globalização apátrida que nos amargura. Por mim, continuarei a ler e a viver Camões, Pessoa e Agostinho.

Hoje, estou farto e apenas me consola o que leio em Combustões: De súbito, a grande banda da marinha executa o hino monárquico e a multidão que até aí estivera em silêncio transforma-se num coro em que cada um tenta sobrepor-se à voz do parceiro. Uma liturgia impressionante. As pessoas cantam e os olhos brilham de orgulho. Cada um acende a sua vela e a noite faz-se dia. Nunca assisti a tal coisa na minha vida. Um alto dignitário escolhido para o efeito lê uma longa declaração em louvor do Rei, posto que pede aos presentes que reiterem um juramento de fidelidade ao Rei. É o velho juramento que vem desde os tempos do Rei Trailok (século XV) e que obriga cada um a purificar o coração, oferecendo-o ao trono através de um comovente movimento de entrega da vida ao interesse colectivo consubstanciado na figura do Rei…

Dez 06

Contra o tédio, continuarei a ler e a viver Camões, Pessoa e Agostinho.

Uma a uma, as raízes da alegria, o entusiasmo que sustentava o pensamento, vão definhando e apetece guardar-me, resguardar-me, resistir, mesmo que sitiado. Porque todo o céu que sonhámos e que ainda há pouco brilhava, de sol e de azul, se desfez em borrasca que agrediu quem, diante dele, se apresentava de mãos livres e corpo sem armadura. Apenas trazia a pena de um sonho já rescrito, muitos papéis de procura, e um pedaço de mar. Confesso meu atraso, a minha não cedência perante o altar dos chamados estudos pós-coloniais, os tais que consideram que todos os outros que os não seguem, em cartilha, não passam de miserandos neocoloniais que devem imediatamente aceder ao patíbulo de todas as novas inquisições, nestas garras lobísticas de uma canalha doirada, assente numa formidável rede de financiamento e colocação de amigalhaços. Tédio. Apenas tédio. Porque o subchefe, fingindo que não discursa, apenas tem a caneta afiada para subsidiar os enviados do grande chefe. Porque todos os outros, os da metapolítica, do patriotismo, do nacionalismo, não passam de míseros serviçais do complexo militar-industrial, de busheiros que hão-de ser obameiros, só porque não leram as sagradas escrituras dos gurus de serviço, com que devemos terminar todos os discursos de homenagem aos poderes estabelecidos. E assim compreendo como, em Timor, se vai seguindo a rede unidimensionalizadora deste gnosticismo, onde se ridicularizam todos os que não usam o pronto-a-vestir do neodogmatismo pretensamente antidogmático, os tais vermes antinacionais que algumas nações subsidiam, para que só elas sejam nação, e que, pouco a pouco, ocuparam algumas das cidadelas fundamentais desta globalização apátrida que nos amargura. Por mim, continuarei a ler e a viver Camões, Pessoa e Agostinho.

Dez 04

Porque a esquerda governante perdeu o lume da profecia, resta-lhe o eucalipto socrático e a teoria neocavaquista dos homens de sucesso

Ainda me pedem, muito de vez em quando, mesmo aqui em Timor, que comente aspectos da vida politiqueira desses descendentes de bonzos, canhotos e endireitas, onde predominam os gerontes embalsamados, os reformados, os aposentados, e todas as correias de transmissão de ocultas manobras de pretensas teorias da conspiração. Com efeito, ninguém que conheça as pessoas e os meandros da luta pelo poder acredita que Manuel Alegre possa ser o chefe da ala esquerda do PS, ou que esteja disponível para a criação de um novo partido. Ele é um pedaço vivo de uma história e faz parte de uma outra dimensão, a da metapolítica, aquela que acredita, como Aristóteles, que a poesia é mais verdadeira do que que a história. Ele, pelo menos, tem consciência que uma esquerda que perca o lume da profecia não mais poderá ter sonho, passando a ser medida pelo ritmo utilitário dos homens de sucesso. Por outras palavras, Alegre compreende que Sócrates pode estar para a esquerda como Cavaco esteve para a direita, assumindo a lógica desertificadora do eucalipto, onde tem razão quem vence, chame-se Dias Loureiro ou Oliveira e Costa.

Também disse não acreditar que Sócrates queira calar a ala esquerda do PS. Só manda, ou quer mandar calar, quem tem alguma coisa para dizer e o socratismo é a demonstração exacta das teses de McLuhan sobre importar mais o continente do que o conteúdo, assim se confirmando como, nesta política de “imagem, sondagem e sacanagem”, o que aparece é o que é… E o PS a que eles chegaram é definitivamente um partido “catch all”, “attrappe tout” ou “pigliatuti”, onde todos não são demais para a grande união nacional situacionista, que vai do que representa o ministro Silva Pereira a Sá Fernandes, e assenta na aliança dos grandes escritórios de advogados com os contratadores de “outsourcing”, onde não foi anedota o livro de propaganda do “Menino d’oiro” ter sido apresentado pos Manuel Dias Loureiro. Mesmo um António José Seguro, que eventualmente representa 30% a 40% do aparelho PS, sabe que Sócrates nunca será afrontado por aquela lógica do Bloco Central que vai de vitória em vitória até a uma derrota final, vestida de tabu cavaquense ou de pantanosa disputa autárquica à António Guterres.

É por esta e por muitas outras que Sócrates ainda pode continuar a ser chefe do governo depois das próximas eleições. O povo costuma ter sempre o governo que merece e nem sempre tem razão quem vence. Ora, Sócrates tem um discurso extremamente eficaz e uma máquina de unidimensional porpaganda que até conseguiu que Manuela Ferreira Leite parecesse aquilo que ela nunca foi. Logo, se este governo Valter Lemos fosse a esquerda, eu que sempre fui de direita, teria de me qualificar como um tipo de extrema-esquerda…

Isto não passa de neocabralismo, com umas cerejas neofontistas, e, se outras fossem as circunstâncias já há muito que estaríamos em processo de criação de uma adequada Patuleia. Por mim, alinharei sempre pela Santa Liberdade, mas sem pistola na mão, preferindo a revolta urneira, dado que reconheço a necessidade democrática daquele golpe de Estado sem efusão de sangue, como Karl Popper chamava às eleições do pluralismo democrático. Contudo, como me desinteressei dos ilusionismos de certos sucedâneos da metapolítica, porque muitos dos impulsionadores e gestores de causas caíram na tentação da procura do patrocínio junto dos mecenas que agora estão na pildra ou na falência, resta-me navegar, porque navegar é preciso e sobreviver com tansos não vale a pena. A ministra rodriguinha, que acabou de rebentar com os últimos restos de prestígio da ideia comunitária de professor, em nome de uma qualquer ficha avaliativa, tão estúpida como as da bolonhesa tecnocrática, ainda não percebeu só é vencido aquele que entrou no jogo do dizer em comunicado, nota de imprensa ou direito de resposta que já venceu o opositor, o dissidente ou quem lhe fez o gesto do Zé Povinho. Por mim, apenas continuo a ser daqueles que ficaram desempregados desde que alguns disseram que chegaram à Índia, não percebendo que os sonhadores activos, que são os verdadeiros navegantes, nunca andaram à procura da Índia que vem nos mapas.

PS: Peço desculpa pelo tédio que aqui manifesto. Mas ontem, ao fim da tarde de Dili, tive que honrosamente participar numa recepção que um senhor Secretário de Estado ofereceu à colónia docente lusitana, sita em Timor. O senhor foi simpatiquíssimo, sempre rodeado de adidos e longe dessa manifestação de massa das elites, mas não houve diálogo nenhum, nem estava programado que houvesse. Aliás, como a maioria esmagadora dos docentes era do ensino pré-universitário, quase todos se lamentavam por não terem sido grevistas lá no reino. Tenho a impressão que ele discursou, porque ouvi tudo, porque concordei com tudo, mas não me lembro agora de nada, de tão diplomático que teve de ser. Logo, decidi andar sempre pelas margens da manif e nunca me aproximei do palanque, nem sequer tendo a honra de lhe estender um cumprimento. Continuo a preferir a verdadeira metapolítica, que, afinal, é a verdade da política, e estou mais interessado em rever trabalhos sobre “topasses” e “larantuqueiros”…

Dez 04

Porque a esquerda governante perdeu o lume da profecia, resta-lhe o eucalipto socrático e a teoria neocavaquista dos homens de sucesso

Isto não passa de neocabralismo, com umas cerejas neofontistas, e, se outras fossem as circunstâncias já há muito que estaríamos em processo de criação de uma adequada Patuleia. Por mim, alinharei sempre pela Santa Liberdade, mas sem pistola na mão, preferindo a revolta urneira, dado que reconheço a necessidade democrática daquele golpe de Estado sem efusão de sangue, como Karl Popper chamava às eleições do pluralismo democrático. Contudo, como me desinteressei dos ilusionismos de certos sucedâneos da metapolítica, porque muitos dos impulsionadores e gestores de causas caíram na tentação da procura do patrocínio junto dos mecenas que agora estão na pildra ou na falência, resta-me navegar, porque navegar é preciso e sobreviver com tansos não vale a pena. A ministra rodriguinha, que acabou de rebentar com os últimos restos de prestígio da ideia comunitária de professor, em nome de uma qualquer ficha avaliativa, tão estúpida como as da bolonhesa tecnocrática, ainda não percebeu só é vencido aquele que entrou no jogo do dizer em comunicado, nota de imprensa ou direito de resposta que já venceu o opositor, o dissidente ou quem lhe fez o gesto do Zé Povinho. Por mim, apenas continuo a ser daqueles que ficaram desempregados desde que alguns disseram que chegaram à Índia, não percebendo que os sonhadores activos, que são os verdadeiros navegantes, nunca andaram à procura da Índia que vem nos mapas.

Dez 03

Recordando os gloriosos tempos dos tribunais plenários e daqueles ilustres servidores magistrais do marquês, das alçadas antipedristas e da lei nº1/35

Longe de poder avaliar no terreno, os efeitos da grande greve dos professores pré-universitários reinóis, quanto ao esclarecimento reformista de sua excelência ministerial, instrumentalizando a eventual ira anticorporativa da populaça, contra uns profissionais desautorizados pela aliança dos manufactureiros com o novoriquismo, por cá vou notando a chegada das ordenações lisbonenses sobre as aparências das massas bolonhesas temperadas com molho de avaliacionice, apesar de estar, hoje, marcado por uma enorme satisfação motivacional, face à visita de sua excelência ministerial o Professor Doutor Cravinho Jr., que a todos os membros da colónia lusitana convidou para uma dessas habituais sessões de diplomacia de croquete e à qual, naturalmente, corresponderei, para poder cumprir, aqui, sem greve de zelo, a ordem do “mail” convocatório.

Nada tenho que saber dos altos desígnios negociais da visita, embora tenha lido todos os telegramas emitidos sobre a matéria e que os blogues lisboeteiros pró-fretilin se encarregaram de divulgar, antes de os jornais lhes darem guarida. Mas não sei se alguém teve a delicadeza de sugerir ao Professor Doutor uma visitinha de cortesia a um dos nomes sagrados desta terra, o Manel Carrascalão, que continua a sofrer no Hospital Guido Valadares. Timor e Portugal talvez exigissem este pequeno grande gesto de respeito pelo sagrado. Quanto ao fundo da questão, não posso, nem devo, pronunciar-me, porque as notícias que, por cá, e para cá, nos filtram, são equivalentes às que tinham os antigos funcionários coloniais, sujeitos aos ritmos de pastilha e “briefing”, que, para eles, eram remetidos, em cifra, pelas excelências directoriais e sargentais que estavam sentadas nos gabinetes do ministério do arranha-céus da avenida não sei quê lá do restelo, onde ainda hoje se senta sua excelência o ministro da defesa e do pagamento dos soldos aos militares no activo e aos antigos combatentes. Como português de segunda, me assumo, reverente e obrigado, para receber o cheque e ir para a fila do BNU.

Por mim, enquanto for funcionário, cumprirei com lealdade e mérito, as funções que me foram confiadas, de acordo com os princípios constitucionais, mas também com toda a constitucionalíssima falta de respeito, a do direito de resistência, do direito originário, natural e racional, registado num artigo da nossa constituição, diante das distorções do politicamente correcto, com que certos altos serviçais do Estadão me querem condicionar, nomeadamente alguns desses militantes do partido dos becas que parece ter saudades da fórmula de aceitação das funções públicas que ornava tomada de posse dos tempos do salazarismo. Onde também éramos obrigados a ser servos voluntários dos valores da Constituição de 1933 e a comprometer-nos a não participarmos em associações secretas que a quisessem derrubar. Coisa que o meu mestre Agostinho gostava de contar, sobre o quando se recusou a assumir o juramento, por não conseguir poder limitar o respectivo futuro, dado não saber se poderia optar por essa “capitis deminutio”.

Se o socratismo cair na esparrela de atingir o nível da lei salazarenta de 1935, a de Alberto dos Reis, mesmo que um Fernando Pessoa não seja capaz de escrever um desses eternos manifestos contra a intolerância, o fanatismo e a ignorância, o Portugal do século XXI cumprirá a sua função adequadamente torquemada, e poderá até pedir à Sá Couto que inclua, no “Magalhães”, uma espécie de tecla de controlo parental para a detecção das viroses de associativismo que marquem um qualquer funcionário, nomeadamente as preferências pelo clubismo futebolístico, as crendices religiosas ou as opções sexuais.

Como cidadão e homem livre, habitual vítima deste tipo de controlo policiesco e de persiganga, visualizo a onda de redes e redes de informadores e denunciantes, bem como as resmas de apreensões de discos duros com que esta utópica republiqueta de becas se transformaria em retroactivo “tsunami”, porque os candidatos a caceteiros já os vejo prevenidos e acicatados por muitos e venerandos sermões, nomeadamente aqui na blogosfera. Ainda ontem, nuns comentarismos anónimos, o novo presidente do intervencionado BPP, meu antigo camarada de combates liberais no Grupo de Ofir de Francisco Lucas Pires, e devotíssimo e dilecto filho da universidade concordatária, era por aí acusado de pertencer à esotérica seita de Kant e Montesquieu, apesar de não se lhe terem visto as marcas simbólicas nas fraldas da camisa. Será que queremos dar emprego aos vinte mil informadores e denunciantes da velha PIDE-DGS que por aí ainda vão desempregados?

Apenas me tenho que recordar dos gloriosos tempos dos tribunais plenários e daqueles ilustres servidores magistrais do marquês e das alçadas antipedristas, para quase lhes sugerir que retomem antiquíssima legislação que transformou o conceito legal de aparência de limpeza de sangue numa estrela amarela, distintiva, com que deveriam ser ornados, nas suas aparições públicas, todos os politicamente incorrectos que vivem noutra dimensão de metapolítica. Já agora, seria interessante que exportassem essa luminosa ideia de repressão interior para tudo o que é república ainda livre, dos Estados Unidos ao Brasil, da França à Bélgica, etc. , e que por todo o mundo livre se abatesse a habitual escuridão que levou à tortura de Jacques Mollay e à própria entrada nos processo inquisitorial de Francisco Velasco Gouveia e do Padre António Vieira. Odeia essa república de becas. E não tenho medo de requerer o usso imediato do símbolo público da não limpeza de sangue. Obrigado, Manuel Alegre, por ainda resistires, isto é, por considerares que a metapolítica é bem superior à pulhítica da imagem, sondagem e sacanagem!