Noto que ano novo, mas vida velha, porque voltam os velhos cavaleiros do Apocalipse. Não por causa da crise de gripe, mas pela Guerra e pela Fome, mesmo que, por agora, se chame pobreza, sem abrigo e desemprego. Primeiro, a guerra, uma guerra que os judeus dizem total, um pouco à maneira do fantasma hitleriano, que pensava a total como mais curta. Uma guerra dos diabos identitários numa terra triplamente santa para judeus, cristãos e muçulmanos, onde o argumento mobilizador tanto é um bom árabe ser um árabe morto, como vice-versa. Curiosamente, as bombas vão destruindo grande parte da ajuda europeia à Palestina, saída dos nossos bolsos, do mesmo bolo que pretende servir para a sustentação do chamado Estado de Bem Estar. O mal-estar do dito cujo, aqui e agora, são dois milhões de pobres, como revela Isabel Jonet. Os mesmos de há quinze anos, apesar de tantos governos de esquerda, socialistas, sociais-democratas e democratas-cristãos. Com efeito, a Europa de Delors, que este definia como dois terços de remediados da classe média com um terço de excluídos, com desemprego, subsídio de desemprego, reformas, aposentações e caridadezinha contra a exclusão, aqui, em Portugal, caminha para a sul-americanização, numa espécie de jangada de pedra ao contrário. Daí o crescendo do indiferentismo e da não-cidadania, face a ricos que são cada vez menos, mas cada vez mais ricos, pedindo nacionalização dos prejuízos, enquanto nos vamos divertindo como circo da futebol-ítica e o pão ainda não sobe de preço. O sistema é uma grande panela de água a ferver, cujas válvulas de escape parecem ficar entupidas pelo lixo do indiferentismo e da corrupção. O sistema tende a asfixiar o regime e o povo pode colocar-se contra a partidocracia que, para si mesma, reclama o monopólio da democracia. Aliás, os comentadores instalados, apesar de anti-socráticos, apenas servem a águia bicéfala do situacionismo, a que chamamos coabitação de maiorias e falta de cooperação estratégica. Contudo, nenhuma das cabeças de tal águia denuncia a usurpação das forças vivas e da casta banco-burocrática, onde não é importante ser ministro ou partidocrata, mas tê-lo sido. Poucos reparam que, apesar de não haver descamisados, com o perigo real do chamado populismo, pode ser que os jovens desempregados e os velhos sem abrigo continuem a promover uma silenciosa conspiração de avós e netos. Não parece que o apelo ao instinto do estatismo centralista, hoje contra as regiões autónomas, amanhã contra as restantes autarquias, seja mobilizador. Apenas disfarça o essencial e revela como os supremos mandadores são herdeiros do Marquês de Pombal, de Afonso Costa e de Salazar . Espero que não seja pecado alguém poder ser regionalista e federalista a nível interno, assumindo-se frontalmente contra o capitaleirismo, a pior das chantagens que estão a fazer contra a democracia. Deixei uma última palavra de esperança para o futuro, em nome da mãe-terra, dessa mátria que descobriu em Timor um santuário de baleias e golfinhos. Infelizmente, em Portugal, terra de enjoados, dominada por um défice de sonhadores activos, poucos compreendem que só haverá boa política quando voltar o sonho, a criatividade e a imaginação.