Jun 24

Prefiro peregrinar pelos impérios do espírito santo e recolher-me diante da Sociedade do Amor da Pátria

Há por aqui uma paradoxal conspiração da Europa das pequenas regiões e das muitas ilhas autónomas, donas de muitas orgulhosas identidades e de muitas autonomias históricas. Não consta que, por aqui, se brinque ao poder pelo poder e às angústias neofeudais dos senhores da guerra. Por aqui apenas circula aquela autoridade que rima com o saber. E nestas ilhas ainda há sinais de defesa de concepções do mundo e da vida que respeitam o clássico princípio da subsidiariedade, onde o número de habitantes não se mede pelos palmos do quantitativo, mas pelo sentido político do humanismo e da cidadania, incluindo a cidadania académica que certos deslumbrados continuam a comprimir. Desliguei o telemóvel para as intigas capitaleiras do universitarês, mas, ainda assim, inundam a minha caixa de correio os desvarios. Prefiro peregrinar pelos impérios do espírito santo e recolher-me diante da Sociedade do Amor da Pátria. A resistência dos homens livres continua a semear revolta contra os pretensos funcionários da revolução frustrada que nos continuam a ocupar a mesa do orçamento.

Jun 23

Também por cá há ilhas de homens livres que procuram uma universidade livre do reformismo tecnocrático

Estava perdido em descobrir meu mar interior, olhando, a partir da ilha do Faial, neste cruzar do Canal, as ilhas de S. Jorge e do Pico, quando ouvi a Drª Manuela, do alto da sua memória ministerial, em oficioso relatório, a que chamam discurso. Confesso que apeteceu esquecer e continuar a escrevinhar sobre a Europa, sem ritmo eurobeato, mesmo quando vou correndo o risco de passar para a outra margem, junto daqueles que já alinham, em revolta activa, contra os meandros desta espiral de decadência que nos vai afogando em descrença. Apenas confirmo que, também por cá, mesmo com autonomia, se vivem as delícias daquele estadão fragmentador que desertificou a sociedade civil e nos transformou numa sucessão de quintas de animais falantes, onde há sempre alguns que são mais iguais do que outros, isto é, os apoiantes dos grandes e pequenos chefes da mesa do orçamento. Mas há também alguns outros que resistem e vão continuando a avivar as sementes daqueles passeios peripatéticos que continuam na senda dos que formaram gente como António José de Ávila, Antero de Quental, Teófilo Braga, Manuel de Arriaga. Eram universidade antes de haver a universidade do Professor Enes, sempre nas portas do ser, desde o tempo dos conventos aos cidadãos que nos liberalizaram a partir da semente deixada por S.M.I. o Duque de Bragança que aqui preparou o desembarque em Pampelido. Esperemos que as universidades a que chegámos, e que agora vivem no caldeirão borbulhante das assembleias estatutárias, fabricantes de quintais burocráticos, permitam a permanência de algumas dessas ilhas de meritocracia, para que o arquipélago federativo desses homens livres, num qualquer dia radioso, sem nevoeiro de reformistas tecnocráticos, a possam regenerar, em nome das permenecentes ideias de pátria e de “universitas scientiarum”.

Os micro-autoritários e os ajudantes do papão, podem ir de vitória em vitória até ao esquecimento final, pensando que a essência do poder é procurar manter-se. Apenas perdem as instituições que eles transformaram em bonecas que escarfuncham para procurarem, por entre a palha, uma simples agulha que pensam ser a chave da arca do segredo, quando o segredo é apenas não haver segredo. Insisto: terramotos destes apenas levam ao vazio da ideia de obra, à destruição das manifestações de comunhão entre os formais detentores da cidadania e à flagrante violação do mínimo das regras que permitem a continuidade das coisas seculares. Porque deixa de haver direito quando as regras apenas são o que o príncipe diz e quando este não está sujeito às próprias regras que pode fazer, favorecendo os amigalhaços e punindo os dissidentes. E iguais em indignidade são os Pilatos que pensam poder lavar as mãos, libertando Barrabás e pensando que serão ministros na próxima legislatura. Voltemos ao mar, esse “hiper-cluster”, o dia está azul demais para vermes…

Jun 21

As tácticas do enquanto o pau vai e vem, folgam as costas

Julgo que os portugueses puderam confirmar que a pomposa governança deste Estadão se assemelha cada vez mais a um sistema de pilotagem automática, programada para outras circunstâncias que entra em curto-circuito quando acontecem daquelas circunstâncias que não estavam no manual de programação do “porreiro, pá”. Também percebemos que a maioria dos factores de poder já não são meramente domésticos, dado que esta praia ocidental está aberta demais a certas nortadas da globalização predadora, sobretudo quando arrancámos os canaviais que nos protegiam e deixámos que os patos bravos limpassem a areia das dunas que nos davam alguma suavidade. Indo à outra face da moeda, direi que os primeiros sinais da crise demonstraram que a oposição social não teve adequados canais sistémicos no sistema político, à excepção do PCP que teve a agilidade de se assumir como voz tribunícia de vários grupos sociais em fúria, levando a que, nos mais recentes estudos de opinião, Portugal se tenha tornado no único país da Europa onde, à esquerda dos socialistas, há vinte por cento de preferências. O que também é um atestado de incompetência das direitas e dos centros que, enredados nas sereias de um populismo de personalizações do poder, não estiveram à altura das exigências de resposta à nova questão social. Mesmo forças morais como as Igrejas, perdidas nos enredos dos grupos de pressão e das barganhas dos passos perdidos, não deram voz ao poder dos sem poder, quando estamos perante causas que se configuram como novas patuleias da baixa classe média. Como diziam os clássicos, para haver diálogo, tem que haver lugares comuns entre adversários. Não podemos chamar diálogo às tácticas do enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. E temos que dar tempo ao nosso chefe do governo, para que ele se recompunha deste desafiante fim do estado de graça que ainda há meses parecia só ser possível analisar pelo verso épico do encómio e daquelas magníficas sessões inaugurativas, com filmes de ficção sobre o futuro do TGV e do aeroporto de Alcochete.

Jun 18

A um opositor não se bate nem com uma flor, mas apenas com um ferro embrulhado em papel vegetal, para que as marcas do poder não deixem rasto

Os pequenos micro-autoritarismos lusitanos, sobretudo os subestatais, não batem nem prendem, mas não deixam de ser mugabes ao ritmo de hugo chávez. Perseguem, usam o ostracismo e transformaram os instrumentos do Estado de Direito no princípio da legalidade do velho Estado Novo, nas suas extensões coloniais de governo dos espertos, onde a lei é permissiva para os amigalhaços e apoiantes da lista, mas implacável para os que dizem não ou decidem “dissidir”. Não lêem o que se diz nos órgãos próprios, não ouvem o que se denuncia às autoridades e só falam em literatura de justificação do poder pelo poder, porque consideram que a política é a técnica hobbesiana do homem de sucesso, ao ritmo da “Wille zur Macht”, com variantes freudianas. Até mandam fazer contrablogues, com as mais sórdidas campanhas de assassinato de carácter, porque pensam que, enquanto o pau vai e vem folgam as costas…

Jun 17

As quotas, os jotas e os cotas…ou de como o complex carreirista papa o simplex do cidadão incauto

Os vapores maníaco-depressivos, que nos revolvem as entranhas, as massas encefálicas e, sobretudo, a própria alma, anunciam que, hoje, é mais um desses dias adormecentes do interregno, por mais que o buzinão tente acordar-nos para o mais do mesmo e o vira o disco e faz “zapping” na procura do que não há.  Daqui a uns tempos, o Estado são mesmo eles e eu me liberto de mais um fardo. Apenas espero que os senhores reformadores do Estadão não se lembrem desse magnífico sistema classificativo dos funcionários com tantos por cento de quota para os que podem receber muito bom e onde se fazem contabilidades na engenharia das promoções não dando muito bom aos muitos e bons que já não podem ser promovidos, para que se possam beneficiar os que ainda esperam uma subidazita na carreira. Apenas espero que este reino cadaveroso da Dona Maria da Cunha , da Arte de Furtar e dos gestores pracizados pelos choques tecnológicos, aplique a regra das elites quotadas aos governos e aos parlamentos, classificando com muito bom apenas dez ou vinte por cento dos ministros e deputados, mandando os outros para campos de readequação educativos. Por outras palavras, este estilo de nivelar pela média das estatísticas, impede qualquer tentativa de meritocracia, obrigando toda a gente que tem vontade de criar e de inventar a cair na rotina cinzentista de um regime que não nos permite avaliar os avaliadores, escolhidos sempre por golpada de assalto aos lugares donde se distribuem autoritariamente os valores e a literatura de justificação. Basta passar os olhos por muitos desses painéis de avaliadores que por aí andam e sabendo de ciência certa que aí funcionam os golpes de secretaria, baixando os fins da república, dado que os julgadores são eles os que se julgam os seus dependentes, segundo a velha técnica feudal da defesa despudorada dos próprios interesses. Entretanto, as velhas autonomias das universidades, das igrejas, das forças armadas e das magistraturas vão sendo sucessivamente eliminadas, através de uma santa aliança dos velhos métodos salazarentos e dos jotas à procura de carreira. Nada parece escapar a este rolo unidimensionalizador da estupidez. Ainda noutro dia espreitava o enlevo burocrático de um destes novos pretensos donos do poder, que se diz inscrito no PS, com um seu colaborador, antigo mentor intelectual da União Nacional (sic) e consabido mobilizador dos mais rascas pides que ainda resistem, pretando serviços de espionagem privada a quem tem massa para o pagamento. Sorri. Mas revoltei-me…

Jun 16

Gosto desse modo de ser português que nos dá raiva e revolta e que, palavra a palavra, nos pode conduzir para a esperança dos desesperados

Helveticamente derrotados, agora que Scolari nos abandonou por falta de patrocínios, apenas recordo que, de nada, valeu ao povo argentino ter o maradona e o título do mundial. Valia mais ensaiarmos esta amargura, eventualmente passageira, para prepararmos o “day after”, o tal que pode agravar a nossa depressão e mostrar, sem disfarce, o fim das ilusões, quando já mais ninguém estiver disposto a passar um cheque em branco aos que nos continuam a cantarolar este permanente inferno de boas intenções. Porque quando os comentaristas das noites da má língua e do eixo do mal se tornam realistas e a acção dos governantes, presidentes e deputados atinge o nível do anedótico, apenas se confirma que vivemos no país do faz de conta, marcado por uma governança em regime de pilotagem automática, programada para outros modelos e outras circunstâncias, mas onde permanece o beneficiário de sempre, esse conjunto das forças vivas que conseguem controlar os donos do poder, onde não há moralidade nem comem todos. É por isso, que eu, liberalão e monárquico, gostei da entrevista do Saramago, porque gosto mesmo do Saramago, esse velho senhor que continua acidamente lusitano nas suas mais íntimas fibras identitárias, ao mesmo tempo que se proclama comuna, para manter a coerência. Ele, pelo menos, sabe que, neste situacionismo, um qualquer pode ser decretado “persona non grata” pela presente coligação negativa de cobardes e oportunistas que vai gerindo as cunhas  e os encómios aos chefezinhos deste arquipélago de carreiristas dos micro-autoritarismos subestatais. Todos estes representantes da pilotagem automática, que nos está conduzindo ao naufrágio, pensam ter encontros imediatos com a “vox dei” da modernização, mas as pontes que projectam, mesmo que nos iludam com alta velocidade, assentam em pilares de muito tédio, sempre daqui para o nevoeiro da outra banda, enquanto vão mergulhando as cabecinhas nos preconceitos de esquerda e nos fantasmas de direita. Gosto do Saramago e desse modo de ser português que nos dá raiva e revolta e que, palavra a palavra, nos pode conduzir para a esperança dos desesperados, essa antiga, mas não antiquada, forma de servirmos a comunidade, ou república, através de certa acidez iconoclasta, que é uma das polarizações do nosso modo de ser, mesmo quando se disfarça de maria da fonte ou de anticlericalismo. Apenas não caio na esparrela de procurar uma espécie de D. Sebastião científico, daquela pretensa esquerda que pensa ter ideias só porque soletra uma ideologia de amanhãs que cantam. Por isso não gosto desse exagero de bom senso que aconselharam à pretensa líder da oposição, a tal que nos quer cavaquistanizar, encarquilhando a pátria em gráficos, curvas e listagens do deve e haver, mui orçamentalistas. Porque não quero que todos, e cada um, se reduzam a meros elementos fungíveis de fluxos e refluxos de adjectivações sem verbos em voz activa e sem substantivos que nos dêem corpo. Não é assim que nos vemos livres desta mentalidade inquisitorial, dos que, para os respectivos microfones, reclamam o monopólio do caminho e da verdade, fazendo apologética de demonização dos dissidentes e dos meros não louvaminheiros. Basta notarmos esse exagero de comentaristas que agora condenam os irlandeses, só porque estes praticaram a liberdade efectiva dos povos e disseram não aos caminhos gnósticos dos eurocratas, revoltando-se contra as abstracções que nos decretaram como salvíficas. De nada vale dispersarmo-nos em lamentações, só porque o mais recente D. Sebastião científico de uma falsa Europa sem ideia de Europa se confundiu com os falsos timoneiros que a muitos davam ilusão de sustento e aposentadorias. Deixem os povos livres para a democracia real, que eles, se calhar, estão mesmo fartos daqueles patrões e patroas que estão conduzindo as pátrias e a Europa a becos sem saída. Continuemos a dizer não aos fidalgotes e seus feitores, cujos chicotes apenas estão guardados, mas que continuam a ameaçar os nossos dorsos… A única salvação está em continuarmos com razão e paixão, na procura do eterno, aqui e agora, como transpira da imagem.

 

Jun 14

O situacionismo prestes a trocar o mundo da realidade virtual das cruzadas contra as heresias, pelas notícias reais, vindas da Irlanda

Encontro um velho companheiro de trabalho, numa das esquinas da vida. Comecei a labutar com ele, praticamente na mesma semana, na mesmíssima carreira da função pública e em idêntica universidade. Eu lá fiz o “cursus honorum”, degrau a degrau, enquanto ele decidiu gerir as amizades e viajou nos aviões da cunha  até à burocracia europeia, apenas aterrando há pouco tempo nestes restos de pátria madrasta, mas ornado de reforma antecipada e com muito mais salário para não fazer nada do que aquele que recebe um catedático lusitano no activo. Está à espera de entrar num desses cartórios de tráfico de influências e consultadoria, como o fizeram os respectivos patrocinadores que dizem mal de Medina Carreira. E eu a ter que aturar os gestores de administração escolar, os doutorados em educacionês e os controladores das verbas a que chamam investigação científica que só publicam os “papers” dos amigalhaços, censurando jovens geniais que não se submetam aos ditadores do carreirismo.

 

Jun 14

O situacionismo prestes a trocar o mundo da realidade virtual das cruzadas contra as heresias, pelas notícias reais, vindas da Irlanda

Encontro um velho companheiro de trabalho, numa das esquinas da vida. Comecei a labutar com ele, praticamente na mesma semana, na mesmíssima carreira da função pública e em idêntica universidade. Eu lá fiz o “cursus honorum”, degrau a degrau, enquanto ele decidiu gerir as amizades e viajou nos aviões da cunha até à burocracia europeia, apenas aterrando há pouco tempo nestes restos de pátria madrasta, mas ornado de reforma antecipada e com muito mais salário para não fazer nada do que aquele que recebe um catedático lusitano no activo. Está à espera de entrar num desses cartórios de tráfico de influências e consultadoria, como o fizeram os respectivos patrocinadores que dizem mal de Medina Carreira. E eu a ter que aturar os gestores de administração escolar, os doutorados em educacionês e os controladores das verbas a que chamam investigação científica que só publicam os “papers” dos amigalhaços, censurando jovens geniais que não se submetam aos ditadores do carreirismo.

Jun 13

Desgraçado daquele cuja prédica é resplandecente de glória, ao passo que é imoral nos seus actos.

Alguns dos tratantes que queriam construir uma Europa contra a Europa parece que continuam a morrer à vista da costa. Logo, como militante europeísta, proclamo que a Europa vai nascer de novo, contra os usurpadores do nome e da ideia de Europa. E tudo proclamo no dia em que nasceu Fernando Pessoa (há cento e vinte anos) e em que morreu Vasco Santana (há cinquenta anos). Convém reparar que quem nos (des)governa é o mesmo portugalório patriotorreca que atirou o Padre António Vieira para a Inquisição e que agora o tenta amarrar nos discursos oficiosos. Quem nos (des)governa é o mesmo partido dos fidalgos que perseguiu e silenciou Fernando Pessoa e que agora o tenta encerrar no museológico do sistema dos burocratas que administram e encunha  os concursos das bolsas para investigação científca. Tanto em Portugal como na Europa os povos e as suas almas são mais importantes do que os aparelhos partidários e corporativos que aprisionam a ideia, o projecto e o processo de construção europeia e de reconstrução nacional. Como ainda hoje nos nos desafiam as palavras António, o Santo de Lisboa e de Pádua, desgraçado daquele cuja prédica é resplandecente de glória, ao passo que é imoral nos seus actos. Apenas me apetece voltar a escrever o que denunciei face a Maastricht. Nos bastidores do projecto europeu já não estão as nobres figuras dos pais-fundadores, mas os eurocratas. Toda uma fauna de pretensos filhos de algo pela via da contiguidade burocrática e partidocrática. Todos eles exímios na metodologia, mas parcos no sonho, que, pouco a pouco, foram usurpando as decisões fundamentais, tanto através dos euroburocratas de Bruxelas, como dos europarlamentocratas de Estrasburgo. Uns viciados nas burocratices e outros na politiqueirice e todos com vencimentos de luxo, ambos se enredaram nos ares condicionados das respectivas torres de marfim supranacionais, perdendo-se nos corredores dos grupos de pressão e das partidocracias. Assim, o grande sonho europeu dessangrou-se. E a eurocracia burocrática e parlamentocrática, afastando a Comunidade do homem comum, deixou de entender a função de governar e de representar. A Europa é uma democracia de muitas democracias. Não é uma super-estrutura comissária, directamente irresponsável perante os povos – uma espécie de sacro-império burocrático em regime de despotismo iluminado, mesmo que com boas intenções construtivistas -, nem um super-congresso multitudinário sem respeito pelas democracias vivas e directas dos vários cantões nacionais. A democracia, para além dos democratas, precisa dos povos e que os povos só confiam em políticos. A Europa não pode nascer de cima para baixo, com émulos de Bonaparte, Metternich ou Bismarck. A Europa que temos, bem pelo contrário, foi criada pela multiplicidade unitária do dividir para unificar. Além disso, por melhores que sejam os euroburocratas e os europarlamentocratas, nenhum deles, por mais genial que seja, ou todos eles juntos, por muitos e bons que sejam, conseguem pôr os homens concretos e as realidades dos povos ao serviço daquilo que eles decretam como processo histórico. Hoje, quem ganhou foi a Europa, que assim teve a oportunidade de perceber que o europês não serve, porque a Europa só pode realizar-se através dos homens comuns. Aliás, a democracia é precisamente a decisão dos povos, através da voz autêntica dos homens concretos que os integram, nos momentos excepcionais. Só nos intervalos é que os governantes e os representantes podem falar em nome deles, mas dentro do mandato global que lhes foi atribuído. Ai dos políticos que julgam que em vez de um pacto de associação com os governos e os parlamentos, os povos constituíram pactos de sujeição, susceptíveis de levarem à edificação de Leviathans, sempre desejosos de homens novos e de povos novos. Quem manda, devem ser os são os que cá estão. Como cidadão de uma polis que, por acaso é a mais permanecente de todas as unidades políticas da Europa a que chegámos, aceito participar nas oscilações da balança da Europa porque o modelo de organização política dos textos fundamentais da União Europeia me garante a conservação daquelas liberdades nacionais que nos deram direito a república através da concretização do reino, no século XII. A Europa em que eu acredito, a Europa que leio nas entrelinhas dos pais- fundadores, é uma Europa que foi feita contra os erros políticos que levaram ao permanente confronto de impérios europeus. Daqueles impérios europeus que sempre foram uma degenerescência das poleis, daqueles impérios que, com o absolutismo, em nome da soberania una, inalienável, imprescritível e indivisível e do leviatânico Estado Moderno expropriaram os tais reinos, os únicos legítimos herdeiros da civitas da República Romana e da polis ateniense. A minha república, herdeira do regresso à política que ocorreu nos séculos XII e XIII, inspirada em Aristóteles e Cícero, se revoltou contra a dominância do Papado e do Imperium e proclamou que rex est Imperator in regno suo. O reino de São Tomás e do nosso Infante D. Pedro, o reino dos comuns, feito de um príncipe com toda a comunidade da sua terra. O tal reino que o mesmo Duque de Coimbra visionava indutivamente, como um concelho em ponto grande. Este reino tinha um Príncipe, tinha um poder supremo, uma vontade de independência. Mas o poder supremo era da mesma natureza dos poderes que lhe estavam abaixo, onde o vértice era apenas uma parte da pirâmide do poder da polis, uma parte que, sendo parcela do todo, era, não obstante, representante do próprio todo. Acontece que este reino foi, a partir do absolutismo teocrático, expropriado pelo renascimento do império, num processo que passou da república teocrática dos luteranos, calvinistas ou cromwellianos, os primeiros ensaios do terrorismo totalitário do estadualismo, ao L’État c’est moi dos despotismos esclarecidos, continuando a mesma natureza despótica, quando se substituiu o rei absoluto pelo povo absoluto, da Revolução francesa à Revolução soviética. Os Estados a que chegámos na Europa das potências e dos Estados em movimento, ainda continuam inconscientemente feudalizados por projectos imperiais frustrados. Da Espanha de Carlos V, à França de Napoleão. Da Alemanha de Hitler à Inglaterra de outras procuras de Império no além mar. Da Rússia sonhando-se polícia da Europa a outros impérios espirituais ou económicos. Estes modelos talvez contrariem aquilo que a Europa do pós-guerra tentou ser. Essa outra coisa que ousou procurar a esquecida unidade da respublica christiana na diversidade dos reinos, dos povos e das nações. Essa tentativa de escrituração de um novo capítulo para além da dinâmica da vontade de poder dos Estados Directores em confronto, instrumentalizando uma multidão de Estados secundários. Esse sonho que tentou refazer os Estados à maneira do chamado regresso da política, do dividir para unificar. Promovendo uma descolonização interna da Europa, para reconstruir a casa comum, em torno do que era efectivamente comum. Como português, fiel às Cortes de Coimbra de 1385, às promessas traídas das Cortes de Tomar e à solução de autodeterminação pela vontade nacional concretizada no dia 1 de Dezembro de 1640, acredito na Europa como a república universal a que temos direito. Acredito na Europa da respublica christiana – como o defendeu o humanismo cristão – acredito na Europa dos ius gentium – como o defenderam os estóicos e o humanismo laico dos projectistas da paz. Acredito na Europa que os democratas-cristãos, os sociais-democratas, os conservadores reformistas e os liberais éticos começaram a reconstruir face às últimas tragédias do Leviathan e do Behemot, como as conhecemos na Segunda Guerra Mundial. Não tenho, portanto, medo da Europa. Não tenho o receio atávico de certo conservadorismo britânico, com medo da Invencível Armada. Não tenho complexos do cordão sanitário luterano, como certos nórdicos da Europa enriquecida continuam a alimentar, para não falar nalguns descendentes dos huguenotes franceses que por aí circulam com outros nomes. O reino e a república são deste mundo, onde o homem deve voltar a ser a medida de todas as coisas e onde nada do que é humano pode ser alheio ao político. O Império é que é do outro. É daquilo que só Deus tem. Por isso, importa proclamar que devemos expurgar do Estado a que chegámos tudo o que não é do homem, todas aquelas religiões seculares dos Impérios e Leviathans que, em nome de essências e nominalismos, tanto desumanizam o Estado como ofendem o divino, quando transformam as ideologias em sucedâneos do transcendente. Temos de ter os pés assentes na terra e o coração no mais além. Não podemos ficar a meio caminho, servindo coisas etéreas que são o produto dos nossos fantasmas. Assim foram os impérios que ofenderam aquele verdadeiro Império que só Deus tem. Assim continuam a ser certas concepções de Estado moderno, filhas do despotismo esclarecido e das teocráticas razões de Estado. Pretendo apenas sublinhar que andam para aí, muitas concepções de uma certa Europa desumana que, em nome de um sacro-império tecnoburocrático, muito iluminista e desejoso de despotismo, pretende continuar na senda dos senhores da guerra, a destruir as repúblicas, as civitates e os reinos, imitando as formas do Estado moderno primitivo. Contra essa degenerescência estatolátrica, mesmo que revestida com as peles do cordeiro federativo, têm que estar contra os autênticos europeístas. Mas não confundamos a nuvem com Juno, não caiamos no engodo do Leviathan; não balbuciemos, sob o nome de nacionalismo, as teses dos irmãos inimigos imperialistas, desses que pretendem restaurar sistemas Metternich, embrulhando o cacete do czar entre o pietismo de falsas Santas Alianças e de falsas teologias de mercado. Quem me dera poder vir a dizer ser a vez uma República Portuguesa, num qualquer dos anos que me restam. Tem de ser uma vez a vez de um das nações-Estados mais permanecentes da Europa. Quando tivermos a liberdade de poder por dizer sim à autêntica liberdade europeia, mesmo dizendo não a anteprojectos de gabinetes eurocráticos. Quando deixarmos de nos sentir uma periferia a caminho da integração e voltarmos a assumir-nos como o próprio centro, tão europeus como qualquer outra parte da Europa. Quem me dera poder dizer ser a vez duma Europa mais livre que, abandonando a tentação dos Estados Directores, proclame que a unidade não exclui a diversidade e, muito menos, o orgulho das seculares franquias nacionais. Uma nova espécie de organização política de um grande espaço inter-estadual e inter-nacional. Uma realidade nova capaz de quebrar as estafadas classificações das federações e das confederações, ultrapassando o ius intercivitates procedente do modelo da Paz de Vestefália, esse cuius regio eius religio destruidor da unidade da respublica christiana, e do regime da hierarquia das potências consagrado na Conferência de Viena. Porque, na democracia, o que a todos diz respeito, por todos deve ser decidido. Porque na democracia não há reis-sóis, individuais ou gabinetais que possam dizer L’État c’est moi. Na democracia, L’État c’est tout le monde, L’État c’est nous. A Europa somos nós. Os dinamarqueses, os portugueses, os irlandeses, os gregos e os muitos outros povos das Franças, das Alemanhas, das Espanhas, das Britânias, das Itálias e dos Benelux. A Europa não são apenas eles, os eurocratas, os parlamentocratas, e todos os cratas que temem as vozes irreverentes dos que não são moldáveis pelos unidimensionais partidos, sindicatos e patronatos, cada vez mais neocorporativamente enquistados no statu quo, esses estados que condicionam os Estados. Quem me der poder dizer que chegou a hora de uma Europa mais livre e mais unida, enraizada no direito à pátria e já descolonizada de algumas tentações imperiais, capaz de dizer a todas as nações sem Estado deste nosso tempo que a exigência dos grandes espaços não tem que ofender os princípios da autodeterminação nacional.

Jun 11

Portugal é… a procura do exílio…

Reparemos como, no “day after”, apenas somos a lista dos condecorados do dia de ontem, bem simbolizados pelo título de uma entrevista dada por um deles: “os empreendedores são os novos heróis”. Porque Portugal são eles, os homens ditos de sucesso, escolhidos pelos escolhidos para escolherem, onde os escolhedores, ou a elite, não são o escolhidos nem os eleitos, mas os que empreendem a adeuada intermediação que se esconde atrás do escol e dos eleitos. Portugal é ….um congresso de combatentes batendo palmas a um banqueiro feito “combatente” pela cidadania. Portugal é…medalhar e ser medalhado, transformar um catedrático de direito em comentador de jogos de futebol e esperar que surja um nova edição dos Anais da Restauração Nacional, onde se demonstre que os melhores ex-militares no activo estão com Cavaco ou que os mais premiados escritores estão com Cavaco. Portugal é… lermos editoriais de antigos militantes da extrema-esquerda aconselhando os actuais poderes à liquidação da extrema-direita, nesta sucessiva vomitadela de arrotos de uma longa ressaca, onde as fanfarronices racistas são usadas como pretexto para a esquizofrenia gongórica, confundindo-se simples casos de polícia com efectivas questões políticas. Portugal é … lermos que cerca de oitenta por cento dos anúncios dos grandes semanários de referência são propaganda de universidades públicas e privadas que dizem estar com Bolonha.