Ai das grandes instituições, quando as chefias são assaltadas para que os pequenos homens disfarcem a respectiva mesquinhez. Ai do Estado se voltar a ser tema para um improviso de “l’État c’est moi”, porque se eu pudesse dar, mais dava, com grandes propagandistas que glosam a metáfora da folha A4 e não seguem os conselhos dos sábios, entretendo-nos com as minhoquices que vão fazendo e prometendo, como a do grande mágico que nos prometeu fazer desaguar o Amazonas no Tejo, em alta velocidade. Está caduco o velho manual do como ganhar eleições, proclamando-se, com ar grave e solene, que “nós somos honestos”. Na história de Portugal, não consta o Robin dos Bosques, mas o Zé do Telhado e as consequências da Maria da Fonte e da Patuleia, contra os devoristas e os cabrais. O que ficou foi este regime mercantilista da Viradeira, já pós-revolucionariamente pós-pombalista, pós-afonsista, pós-soarista e pós-cavaquista, onde abundam as grandes companhias de economia mística, aquelas que, agora, querem privatizar os lucros e nacionalizar os prejuízos, através desses novos caminhos de ferro do fontismo que são os regeneradores investimentos em obras públicas, para gáudio dos partidos-sistema do Bloco Central, essas federações de grupos de interesse e de grupos de pressão que discutem se o matrimónio é uma fábrica de procriação, para que D. Policarpo possa optar. Porque, entre jantaradas de geopolítica e croquetes de embaixada, qualquer profano pode ascender em 24 horas ao grau supremo, em cerimónias sem ritual que traduzem em calão as procissões funerárias que comemoram a reconquista cristã de Alcagaitas à moirama. Volta, Marquês, que eles já cá estão outra vez!
Como a maioria dos factores de poder não é nacional
Como a maioria dos factores de poder não é nacional, há que nacionalizar esse bem escasso chamado polítca, através do habitual recurso dos tempos de crise que é a vontade de sermos independentes e de, através, da cidadania, evitarmos que a democracia se transforme em democratura, como o ameaçam os neofeudalismos do desespero reinante e do crescimento do indiferentismo. O principal da crise tem a ver com a falta de políticos de confiança, desses que podem ser capazes de encher a democracia de povo, tanto o que anda em protestos nas ruas, como o que está silencioso no recato do lar ou vai, apesar de tudo, conversando “face to face”, com os vizinhos, que é palavra que vem de “vicus”, aldeia, e que não pode continuar a ser traduzida por “pagus”, quando o discurso oficial e oficioso do estadão passou a chamar “pagão” ao aldeão que resiste ao rolo unidimensionalizador 8
Estou com saudades dos velhos debates republicanistas de um PS que caiu nas teias da personalização do poder e do propagandismo de ex-maoistas
Sempre que tento compreender as intervenções cívicas de um Baptista Bastos ou de um Manuel Alegre, sofro com a falta de um debate cívico enraizadamente identitário em Portugal. Sempre que noto o propagandismo dos ex-militantes da extrema-esquerda, nomeadamente os membros da redacção dos muitos jornalecos que se confundiam com nomes de partidos, reparo como eles se instalaram como “opinion makers” e directores dos grandes jornais e semanários, passando para o extremo oposto, mas mantendo o mesmo facciosismo. Pior ainda: quando se pintam de congreganistas e recebem a unção de doutrina social, tanto da igreja dominante como das suas entidades para-episcopais, acrescentando, à herança inquisitorial, a manha de monopólio da inteligência das seitas, como foi timbre daquela esquerda revolucionária que só se converteu à democracia pluralista depois do 25 de Novembro de 1975. Por mim, sem aquela limpeza de sangue que passou pelo apoio à invasão busheira do Iraque, ou pela passagem pela salsicharia ideológica das conversões anglo-americanas de antigos maoístas, confesso que continuo marcado pelas influências de certos subsolos filosóficos francesistas, pelo que andei relendo certas provocações de Alain Renaut, no sentido da restauração do que designa por republicanismo de um povo livre.
Nestes amanhãs que cantam do século XXI
Nestes amanhãs que cantam do século XXI, apenas continua a ser novo aquilo que se esqueceu. Porque todas as revoluções são mesmo pós-revolucionárias, o nossso 25 de Abril nunca foi Otelo nem Salgueiro Maia, mas Soares e Cavaco, essas personificações do transcendente do nosso regime bem poderiam contratar, no mercado das consultadorias empresariais da globalização, um novo chefe do governo desta pilotagem automática sem futuro, um novo líder dos progressistas do PS e um novo líder dos regeneradores do PSD. Por isso, tenho de reconhecer que tudo poderia ser captado pela magia de um desses romances de costumes com que um novo Camilo Castelo Branco poderia rescrever “A Ascensão de um Anjo”. Infelizmente, neste tempo de comendas, já não há, no armazém das honorabilidades, a possibilidade de o fazermos conde de Tomar ou duque de Ávila e Bolama, pelo que lhe resta o caminho habitual do sistema banco-burocrático do rotativismo, um desses lugares corporativos no Crédito Predial, entre Hintze Ribeiro e José Luciano. Os elogios que, entre eles, se vão tecendo apenas confirmam como a esquerda moderna, a tal que, ideologicamente, invocava Eduard Bernstein, para se chamar Pinto Balsemão, Cavaco Silva ou José Sócrates, gosta de praticar a fecunda união de facto com a direita dos interesses. Por isso, as disputas entre as actuais lideranças do PS e do PSD e os jogos florais politiqueiros que ocuparam os horários nobres das nossas televisões podem começar a equiparar-se a umas primárias do Bloco Central, preparando a sucessão do Pai Bush, quando os vascos já não são santanas… Por isso, prefiro continuar a ler a biografia de Talleyrand, nomeadamente o capítulo sobre a conspiração de avós e netos, onde os primeiros são os ausentes-presentes quase nonagenários e os segundos, os ex-jotas meninos de ouro, para esta era da lei de bronze dos filhos de algo, que marca a nossa decadência. Do mesmo modo, gosto imenso de recordar o processo político de um tal Guizot, que tinha como programa a banha da cobra do “enrichez vous”, para uso da eterna sociedade de casino, onde se misturavam os politiqueiros honestos que escolhiam adjuntos corruptos, lado a lado com líderes inversos, os tais desonestos que tinham olho para a escolha de adjuntos honestíssimos. Julgo que o processo já está inventariado desde Victor Hugo, mas, em Portugal, nestes amanhãs que cantam do século XXI, apenas continua a ser novo aquilo que se esqueceu, dado que abundam as modas que passam de moda, só porque não reparamos que não vale a pena inventar o que já está inventado, nem descobrir o que já está descoberto. Vale mais recuperarmos a Dona Branca e o Alves dos Reis e brincarmos ao jogo da bolha, antes que a mesma rebente e nos encha de dejectos…
Nosso primeiro
Nosso primeiro, com o estadão do Terreiro do Paço como cenário de fundo, foi todo ele muito marquês, num exercício de politiqueirice, criticando verbalmente a politiqueirice, sic rebus, sic stantibus. Sem qualquer acaso psicanalítico, substituiu Portugal pelo país, assumiu que tem encontros imediatos com o bem comum, situando-o na respectiva consciência e repetiu o “soundbyte” do ritmo reformista de modernização do país, mas ajudando quem precisa de ajuda, usando esse novo bacalhau a pataco que é não gastarmos nadas em obras, porque elas serão feitas por privados, os quais ficam com esse insignificante das concessões. Por enquanto, ainda não anunciou a privatização das praias do domínio público marítimo, para transformarmos as areias em abonos e família e em incentivos à gravidez. Apenas se confirma que, depois das vacas gordas de um estado de graça feito de “porreiro, pá!”, lá nos vamos enredando nas vacas magras, onde o “pá” é o inspirador do novo discurso maneleiro do “país de tanga”. O que o líder da situaçãoo não conseguiu disfarçar foi o tom de monólogo, feito de muitas vacas sagradas, dado que a conversa parecia um ditado, levado a cabo através de uma operação de conversão de muitos “tracks” de um “mini-disk”, cuja versão de fotonovela já conhecíamos nos palanques inaugurativos, feitos para propaganda de telejornal. De qualquer maneira, para além da ausência da palavra e da ideia de Portugal, também desapareceram coisas como os cidadãos e os indivíduos, dado que se restauraram apenas as células do velho corporativismo das “famílias e das empresas” e das “empresas e das famílias”, entidades que, afinal, voltam a participar estruturalmente na vida da nação. Por outras palavras, em tempo de vacas magras, apenas a abstracção das vacas sagradas, para que o contribuinte e o eleitor não reparem que são eles que pagam estes pilares da concessão da ponte do tédio, ainda sem buzinão..
Este nosso “contenente” continua mesmo a pensar que é metrópole, dona e soberana de todas as ilhas adjacentes, incluindo as da interioridade…
Depois de uma semana de limpeza de alma, lá volto ao centro do poder dos consórcios de obras públicas, ao toma-lá-dá-cá deste bloqueio central de um pretenso keynesianismo, dito “Welfare State”, feito de “pantouflage” de um liberalismo a retalho que prometeu socialismo de consumo, onde os feitores dos ricos apenas lêem as entrelinhas da cartilha da social-democracia e do socialismo democrático de antes da crise petrolífera, porque têm muitas preocupações com os pobrezinhos e os reformados, mas onde o ser ministro lhes dá pergaminhos de agendas contactos que lhes fornecem a chave das aposentadorias de gestores de construtoras e de patos bravos da banca, ávidos do comunismo burocrático onde a culpa morre sempre solteira. Nem sequer reparam que não passam de meros agentes de uma governança de pilotagem automática, marcada pelo ritmo do mais do mesmo, a tal que continua a colocar-nos na cauda da Europa das disparidades sociais, dado que somos campeões daquele modelo, onde os pobres, incluindo os novos pobres, são cada vez mais e também cada vez mais pobres, para que os ricos, sobretudo os novos-ricos, sejam cada vez menos, mas cada vez mais ricos. Porque nesta terra de macacos cegos, surdos e mudos, em ritmo de sociedade de casino, quem tem olho para a barganha negocista joga na teoria daquele homem de sucesso, segundo a qual o importante não é ser ministro, mas tê-lo sido. Aliás, com esta expedita administrança da justiça, sempre em nome do povo, onde o burlão vai vivendo de aposentadorias, durante um longo trânsito em julgado, passível de ser manobrado pelo expediente dilatório dos colarinhos brancos, que pode durar um quarto de século e milhões de páginas de processos cosidos à mão, podemos concluir que, em terra de pobres de espírito, quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é burro ou já não percebe da arte. Entretanto, lá vamos tendo de aturar os discursos e os improvisos de suas excelências da governança, botando arrotos de pescada sobre serem da esquerda mais ou da esquerda menos, para que os direitistas anedóticos teorizem sobre as relações da justiça com a Senhora de Fátima, não faltando os gatos magistrais a dizerem que caçam os ratos que apitam dourado, neste grande armazém de queijo esburacado, onde os tecnocratas da engenharia financeira dos “off shores” nos continuam a meter as mão na bolsa e nos actos de branqueamento de imagem. Não faltam sequer outros belos discursos de música celestial dos universitários e magistrados que nos processualizaram, fazendo chorar as pedras da calçada. Desses ilustres e notáveis que têm prestígio entre o respectivo grupo corporativo, por se mexerem bem na classe política, mas que, ao mesmo tempo, assumem o transcendente do metapolítico entre os políticos, só porque se recobrem do etéreo da missão magistral, quando não passam de vacas sagradas que continuam magras de ideias. Este nosso “contenente” capitaleiro continua mesmo a pensar que é metrópole e “mainland”, dona de todas as ilhas adjacentes, incluindo as da interioridade, para onde mandam os governadores civis do Rodrigo da Fonseca e do Costa Cabral, em missões de soberania… Que tal remetê-los para o Piquinho sem direito ao verdelho do Czar, que é boa pinga?
Sobre Portugal, pode-se afirmar que é o menos europeu e, ao mesmo tempo, o mais europeu dos países europeus
Depois de 48 horas de info-exclusão, só porque o Kanguru ainda não conseguiu dar o salto para as Flores e o Corvo, apenas uma frase de uma jovem açoriana de 25 anos, durante uma visita aos Estados Unidos: “sobre Portugal, pode-se afirmar que é o menos europeu e, ao mesmo tempo, o mais europeu dos países europeus” (Natália Correia). Apenas digo que ainda ontem vivi essa observação fisicamente, sobretudo quando, depois de uma travessia num frágil semi-rígido, desembarquei naquela ilha do Corvo que Mercator escolheu para meridiano anterior ao de Greenwich, porque, no seu tempo, a agulha de marear não sofria nenhuma declinação. E mais emocionadamente o pensei, quando a pátria, das malhas que o império teceu, construiu um recente monumento, em Vila Nova do Corvo, em memória de dois soldados corvinos falecidos em combate, lá mais longe, em Moçambique. Daí ter lido, neste mais Portugal do grande mar-oceano, a “Relação breve da grande e maravilhosa vitória dos moradores da ilha do Corvo, contra dez poderosas naus de Turcos. Anno MDCXXXII”. Porque, eu, português coimbrinha, também sei de Isabel de Aragão, a rainha santa que nos introduziu o quase herético culto do Espírito Santo e que, também perto da minha terra, na serra do Açor, há uma Santa Maria dos Açores, invocação que deu nome ao arquipélago, por causa da primeira ilha descoberta, tal como as doze estrelas da Europa vêm de um vitral da mesma invocação mariana, que ainda está na catedral de Estrasburgo, símbolo que o próprio Padre António Vieira usou para bandeira do quinto-império do poder dos sem poder que aqui foi comunitariamente assumido, neste paradoxo da pátria amada, azul de mar, com lágrimas de sal. E não foi um acaso, tudo ter sido cumprido pelo grão-mestre daquela Ordem dos Templário que o consorte de Isabel de Aragão, el-rei D. Dinis, transformou em Ordem de Cristo, nestas encruzilhadas de um espírito que nos continua a dar alma atlântica. ele <��n<h’�Xs�le=’font-size:10.0pt;mso-bidi-font-size:11.0pt;line-height:115%;font-family: “Sylfaen”,”serif”;mso-fareast-font-family:Calibri;mso-bidi-font-family:”Times New Roman”; color:red;mso-ansi-language:PT;mso-fareast-language:EN-US;mso-bidi-language: AR-SA’>provincianismo caciqueiro que costuma subsidiar as bandas filarmónicas ditas unânimes do montículo. Bem me referia, há dias, um meu amigo russo, quando salientava que o sub-sistema de medo dos modelos pós-autoritários radicava na falta de institucionalização dos conflitos, assentando em rebanhos educados para ninguém ter opinião crítica. Por isso, noto como, nalgumas ilhas, certas plantas exóticas de origem tibetana se tornaram numa praga, ameaçando os próprios muros feitos de hortênsias e a beleza dos dragoeiros. Porque mesmo um Estado de Direito pode viver segundo o ritmo dos unanimismos micro-autoritários, tal como acontece em muitas das zonas pós-comunistas da Europa, onde vinga a cultura da corrupção e da bandocracia. Quando, importa “espremer gota a gota o escravo que cada tem dentro de si”. As autonomias infra-estaduais já tiveram o seu estado de graça libertador. Agora, muitas enredaram-se no partidarismo e nas personalizações do poder, caindo nas teias dos velhos donos do poder que as podem manobrar para um regresso ao passado e ao poder perdido. As autonomias só têm sentido quando as comunidades vivas as conquistaram e não deixam que elas se transformem em concessões da revolução, do Estados, das constituições ou dos decretos regulamentares e homologações administrativas. As autonomias só são reais se resultarem do direito natural e dos pactos de união pelas coisas que comunitariamente se amam.
As autonomias só são reais se resultarem do direito natural e dos pactos de união pelas coisas que comunitariamente se amam
Continuo a sorver este azul do grande mar-oceano, onde vou meditando sobre a interpretação de um princípio da subsidiariedade que esteja de acordo com o sonho dos modelos pós-totalitários, pós-autoritários e pós-soberanistas, libertando as autonomias da barganha negocial dos grupos de pressão e dos grupos de interesse. Porque até as universidades podem cair na teia de certas personalizações do poder, marcadas por um ridículo majestático, pretensamente omnisciente e omnigestionário, que, a si mesmo, se decrete como a via única para o bom senso, lançando todos os opositores e dissidentes para o ostracismo, só porque padecem da grave doença social de não submissão à unidimensionalização predadora, típica daquele provincianismo caciqueiro que costuma subsidiar as bandas filarmónicas ditas unânimes do montículo. Bem me referia, há dias, um meu amigo russo, quando salientava que o sub-sistema de medo dos modelos pós-autoritários radicava na falta de institucionalização dos conflitos, assentando em rebanhos educados para ninguém ter opinião crítica. Por isso, noto como, nalgumas ilhas, certas plantas exóticas de origem tibetana se tornaram numa praga, ameaçando os próprios muros feitos de hortênsias e a beleza dos dragoeiros. Porque mesmo um Estado de Direito pode viver segundo o ritmo dos unanimismos micro-autoritários, tal como acontece em muitas das zonas pós-comunistas da Europa, onde vinga a cultura da corrupção e da bandocracia. Quando, importa “espremer gota a gota o escravo que cada tem dentro de si”. As autonomias infra-estaduais já tiveram o seu estado de graça libertador. Agora, muitas enredaram-se no partidarismo e nas personalizações do poder, caindo nas teias dos velhos donos do poder que as podem manobrar para um regresso ao passado e ao poder perdido. As autonomias só têm sentido quando as comunidades vivas as conquistaram e não deixam que elas se transformem em concessões da revolução, do Estados, das constituições ou dos decretos regulamentares e homologações administrativas. As autonomias só são reais se resultarem do direito natural e dos pactos de união pelas coisas que comunitariamente se amam.
Algumas notas, retiradas da cartilha de Sá de Miranda, segundo a qual vencer é ser vencido
O poder, encasulado na sua formal maioria absoluta, continua a julgar que é possível gerir o poder pelo poder, distribuindo migalhas por todos os esfomeados que se aproximam da mesa do orçamento. O poder do estado a que chegámos retoma as lições do velho “raposa” Rodrigo da Fonseca, esse técnico da politiquice que aconselhava os governantes a tornarem os opositores de ontem em comensais, para que todos se banqueteassem com os devoristas. Não tarda que chegue aos desespero ético de um José Luciano e que proclame: não é o meu partido que me leva ao poder, sou eu que levo o meu partido ao poder. Mais: o poder sabe de ciência certa que as patuleias apenas são ocasionais e que se estiver aflito sempre pode dizer, como Saldanha, que a Europa tem de intervir para nos livrar de uma manobra miguelista, mesmo que o grosso da coluna dos revoltados venha a ser capitaneada por Sá da Bandeira, mobilizando todos os setembristas que não seguiram o viracasaquismo dos Cabrais. Haverá sempre uma divisão militar comandada por Concha e uma esquadra britânica que, manobrada pelo Paço, nos obrigará à vergonha da convenção do Gramido. Aliás, Cristóvão de Moura continua a prosperar na alta burocracia dos Habsburgos e o Miguel Vasconcelos, que ainda não foi adequadamente defenestrado, vai elaborando todos os pareceres jurídicos que sejam necessários para que Filipe II possa dizer, no fim do passeio, que nos herdou, comprou e invadiu. Não há nada de novo debaixo do tal sol que continua a não deixar que o olhemos de frente. Esta continuidade pós-autoritária e pós-totalitária, ao não educar para a cidadania dos homens livres, preferindo a estatística dos exames facilitados, impediu que cada um espremesse gota a gota o escravo que permanece dentro de nós. Logo, poderemos concluir, que a culpa de conservarmos esta escravatura doce, apenas está na circunstância de não haver a necessária revolta de escravos, só para parafrasearmos Tchekov e Beaumarchais, os tais que não tiveram que tecer loas à existência a ministros de inequívoco perfil de esquerda que, ipso facto, se julgam detentores do monopólio de uma ética antifascista, um pouco à imagem e semelhança dos tais Cabrais e das respectivas “restaurations” dos “anciens régimes”. Apenas esquecem que, do mesmo mal, padeceram antigos ministros de Salazar que lavavam as mãos como Pilatos, só porque, aos dezoito anos, tinham o carimbo de esquerdistas. Porque eles atingiram o despudor da total ausência da verdadeira ética republicana, aquela que Kant identificou como o imperativo categórico, quando praticando descaradas ilegalidades, injustiças e persigangas, típicas do despotismo ministerial, conseguiam, pela emissão de adequada literatura de justificação, assumir a dimensão de música celestial, que a jagunçada dos servos ia propagandeando. Aliás, tinham cuidado de deixar as cacetadas para os serviçais e feitores e sempre podiam mostrar que as respectivas mãos de macho de cabra estavam dotadas da necessária limpeza de sangue. Basta ver como em certas esquinas do nosso micro-autoritarismo sub-estatal continua a mesma música celestial, cantarolada pelos mesmos sacristães que perderam o sentido dos gestos, mas que têm o mérito dessa moral de sucesso, do poder pelo poder, congregando numa grande união nacional, estalinistas que se pintaram de democratas, fascistas cobardes que nem ao pós-fascismo aderem e outros tantos deste neocabralismo, a quem pedem serviços de neopidismo denunciante, com muita água benta e dobragem da espinhela. Ai dos que seguem o velho partido de Sá de Miranda, do antes quebrar que torcer, que homens da Corte não podem nem querem ser… só porque consideram que as leis universais só podem ser emitidas pelo exemplo das condutas de cada um, quando cada um ousa viver como pensa, mesmo quando se assume do contra e quer dar o exemplo do risco de viver cada uma das suas horas como se fosse a última. Os tais doidinhos que, neste tempo de homens lúcidos e situacionistas, têm a lucidez daquela ingenuidade que os obriga a ser do contra, mesmo quando foram os primeiros convidados para a tal mesa do orçamento… Só que leram Fernando Pessoa e sabem que vencer é ser vencido…
Os jogos florais da reforma do sistema político e da alteração da lei eleitoral…
Os partidocratas dominantes continuam a sua antiquada táctica dos jogos florais, fingindo que chamam a sociedade civil a debater o que apenas está dependente de um acordo neofeudal entre os dois partidos-sistema. Basta, aliás, recordar que as próprias revisões constitucionais vieram de acordos de salão entre o PS e o PSD, como o poderão atestar Marcelo Rebelo de Sousa, Fernando Nogueira ou António Vitorino, quando funcionaram como notários do regime. Trata-se do habitual bailado da oligarquia dona do poder, desse clube fechado, de rigoroso direito de admissão, e seria tolo pedirmos aos que usam e abusam dessa posição dominante para se auto-subverterem, através das habituais reformas vindas de cima para baixo, onde quem está em cima nunca deixará que se gere uma subversão vinda de baixo, ou do lado. Porque, tal como na União Europeia, também no plano doméstico vigora o princípio da hierarquia das potências, com dois partidos directores, o PS e o PSD, e vários poderes secundários, onde os primários não querem a subida dos secundários e os secundários se unem aos primários, na exclusão dos marginais que se colocam à porta do sistema. Basta recordar que a lei eleitoral vigente ainda vem de um grupo de trabalho criado pelo I Governo Provisório, da era pré-PREC, assim confirmando como, em Portugal, duram especialmente as reformas emitidas em ditaduras revolucionárias e reformistas. Como as que foram lançadas pela ditadura das finanças salazarista, com o 28 de Maio; pelo laicismo afonsista do governo provisório da república, em 1910-1911; pela liquidação das alcavalas do “ancien régime” semeadas por Mouzinho da Silveira na regência do Duque de Bragança, ex-rei D. Pedro IV; ou pela arquitectura de Estado do despotismo ministerial do Carvalhão. Talvez seja melhor notarmos que o actual sistema político, com a sua partidocracia controleira, não passa, hoje, de um simples subsistema, onde a maioria dos factores de poder já não são nacionais. E onde até o próprio poder político está fortemente condicionado pela união dos interesses económicos. Aliás, tanto a integração europeia como a globalização transformaram o PS e o PSD em meras secções de multinacionais europeias que nem sequer têm autonomia programática, principalmente em matérias de projecto europeu, porque partido integrado, deles, se pisar o risco leva expulsão. Pior do que isso: face a este concentracionarismo capitaleiro e castífero, a partidocracia nem sequer tem força para fingir que não é dominada pelos grupos de pressão patronais, como é bem patente na saga aeroportuária. A CIP, que nem sequer vai a votos, como a sua antecessora da I República, até se permite patentear guerras de patrões como os seus colegas nortenhos. Mesmo velhas heranças da democracia da sociedade civil, como eram os liberais clubes de futebol, acabam por poder ser comprados por singulares capitalistas, através de uma simples OPA. Até poderiam chegar à conclusão que a melhor solução para Portugal passa pela extinção do governo e da governação, pondo a concurso público internacional a gestão da coisa por uma qualquer firma de consultadoria da Patagónia. Eu até já vi um estudo estratégico-económico de um ilustre cipense pondo a hipótese de encerramento da Ilha do Corvo, tal como poderei ver outro, vindo dos vizinhos de Harvard, confirmando a inviabilidade da autonomia portuguesa, com esta classe política a que chegámos. Entretanto, seria bem mais aconselhável que os lusitanos que restam tivessem um reforço da autonomia das suas autarquias locais e regionais, entre zonas livres e zonas estipendiárias, que se federariam numa segunda câmara, a instalar no Porto, enquanto se continuariam a realizar eleições directas por sufrágio universal apenas para um parlamento partidocrático de listas nacionais e para um presidente que bem poderia ser um rei eleito. Julgo que o dinheiro dos portugueses poderia ser melhor gerido, evitando assim a nossa provável expulsão da zona euro, caso se mantenha esta confusão entre o mundo dos negócios, do futebol e da política, com lobistas, que são mais ratos do que lobos do homem, a não terem que se refugiar sob os honrados nomes de advogado e de deputado. Até não teríamos que levar outros lobísticos dirigentes partidários, a acumularem direcções de clubes de futebol e de associações patronais, com intervalos deputáveis cheios de muita barganha e requerimentos, em nome do realismo económico e ao serviço de quem lhe paga. Lobi há, oligarquia o põe. Em choco. Com gripe das aves a ameaçar, para que volte a Passarola.