Jul 24

Que Deus possa ser sempre o teu norte, teu lume e teu regaço

Sempre a esperar no cacifo os habituais ditames da burocracia, ou os decretos do senhor ministro, do senhor reitor, do senhor director, quando os pastores do rebanho, sem persuasão nem consentimento do velho QOT, nos querem submeter como funcionário públicos, à espera da aposentação, dispostos a cumprir com zelo as ordens de suas excelências, com toda a disponibilidade do corpo, mas com a alma esvoaçando para a eterna terra dos homens livres, que sempre foi a liberdade académica do humanismo, da ética e da cultura. Espero que tudo não volte a acontecer no segredo das férias do mês de Agosto, com os reformadores sem férias a cumprirem as marotices serôdias dos seus ascendentes, os homens sem sono, em ritmo de RGA arqueológica, com activistas da revolução permanente, ou da revolução ao contrário, que mudaram de cor, mas mantiveram a metodologia vérmica da velha filosofia do pau no lombo dos que não vencem. Felizmente que, sempre que somos convidados por instituições que ainda se não deceparam da “alma mater” de 1290 (na imagem), podemos respirar liberdade, revivendo uma comunidade de significações partilhadas, onde, pelos valores, podermos compreender os mestres e colegas, bem como sermos por eles compreendidos. Felizmente que ainda podemos receber de alunos, do outro lado do mundo, palavras como simpatia, incentivo, cultura, nobreza, nesse prazeiroso da descoberta. Um deles ainda ontem me dizia: quando me perguntou em dado momento de minha fala, se eu acreditava no ser humano, eu respondi que sim. Acredito, pois existem pessoas … que contribuem para que o homem possa se enxergar de outra forma e, também, que valorizam não somente um trabalho técnico, mas acima de tudo, o caráter pelo qual ele foi desenvolvido…Que Deus possa ser sempre o teu norte, teu lume e teu regaço. Felizmente que ainda há jovens caloiros lá do Amparo, de Campinas e de São Paulo que, depois de um primeiro ano nesta província dos capitaleiros lusitanos, me confessa: eu pensava ter vindo para a Europa, mas afinal encontrei aqui a mentalidade de uma cidade interior do meu Nordeste… Quem me dera que os senhores ministros e os senhores reformadores do nosso Estado a que chegámos, os tais que não sabem onde estacionam setenta e tantas mil cartas de condução, tivessem um desses restos de bom senso e de humildade no reconhecimento dos erros das reformas que não houve, mas que apenas destruíram as autonomias antigas desta comunidade, de militares a magistrados, de universidades a igrejas, liquidando instituições que já existiam antes de o Estado ter chegado pelo cacete iluminado do Marquês de Pombal e de seus filhos e bastardos, como Fontes, Afonso Costa, Salazar , Soares e Cavaco. Porque hoje, perante uma crise que nem sequer conseguem identificar, tais instituições poderiam voltar a ser resistência, sobretudo nesta época pós-estadualista, pós-decretina e pós-soberanista, porque elas já eram Europa e república universal antes de Durão Barroso ter ido para Bruxelas, Guterres, para os refugiados e Sampaio, para a tuberculose e a aliança de civilizações, com Cavaco em Belém a ver construir o museu dos coches, mesmo diante da minha varanda da Junqueira, e Soares a entrevistar Chávez para a RTP. No caso concreto da universidade, os universitários continuam à espera do confronto entre o ministro da reforma que deu à luz um rato que os gatinhos do CRUP já comeram, mas que nos fragmentou a todos em inúmeras guerrazinhas de homenzinhos, visando a conservação do emprego e o facilitismo da carreira, como se os hábitos, as condecorações e as músicas celestiais do sindicato do elogio mútuo pudessem fazer o monge, isto é, o mestre dos claustros da “universitas scientiarum”. Mas como ainda ontem confirmei, ouvindo mestres como Castanheira Neves e Gomes Canotilho, ainda há homens livres que semeiam, pelo exemplo, a força da esperança. Segui-los-ei, com a militância do aluno eterno, isto é, daquele que quer continuar a estudar e a aprender, vivendo cada um dos seus dias como se fosse o último.

Jul 23

Aqui, em muitas conversas nocturnas com as estrelas e a passarada

As habituais manobras politiqueiras do eleitoralismo da governança são tradicionais remedios dos curandeiros que pela magia da propaganda transformam a banha da cobra em reformas estruturais. Acontece que houve uma alteração anormal das circunstancias exigindo uma intervenção de salvação publica e de consenso de união sagrada que até já vai além de um governo Bloco Central, de inspiração presidencial. Por outras palavras, precisamos de voltar a escrever um novo contrato social que não seja um mero pacto de sujeição, ou de governo, mas antes um mais vasto pacto de união ou de associação, ou “New Deal“. Tirar o PS para entrar o PSD é apenas mudarmos de placebo… Quem anda mergulhado em jusfilosofices não pode interessar-se em demasia com as brincadeiras dos tiranos de Siracusa, mesmo que eles nos façam consultas. Qualquer dia pegarei em mim e transformarei o trabalho em formato digital, para eventual publicação com pseudónimo, só para me convencer que vale a pena continuar a dar aulas de história da administração pública, nestes tempos de regresso a formas pré-estaduais de administração dita pública, mas efectivamente privatizada no mau sentido dos sucedâneos do lucro e da endogamia, onde a anarquia ordenada do neofeudalismo é mesmo o neofeudalismo da desordem bem organizada, para recordar o título do primeiro artigo de intervenção cívica num jornal clandestino dos velhos tempos pré-abrileiros. É que ao contrário de todos os outros que agora são políticos profissionais, eu sou capaz de publicar todos, mesmo todos, os artigos que escrevi e publiquei antes dos vinte anos, porque, graças a Deus, ou a Mundo, sempre fui herético e já por duas vezes me tentaram queimar vivo, uma com expulsão da Universidade, efectivada quando era estudante, outra com assassinato moral, em efectivação e com o mesmo fim. Julgo que vou resistir, nem que seja no exílio, porque os executantes são os mesmos torquemadas de cores diversas, mas com as mesmas garras da vindicta oriundas dos mesmos corpos mumificados em éter, tirado do caixote de lixo da história com as suas lutas de invejas.

Jul 20

Da maioria

Sua excelência a maioria parlamentar aprovou ontem tudo o que quis. Com toda a legalidade formal, mas com amplos buracões de falta de legitimidade. Imaginemos que o exemplo se propaga. Ou os tiques absolutistas dos novos pequenos PREC em curso de afundação. Imaginemos que, num dos arremedos desta democracia, aparecem uns exemplares prequianos que misturam este modelo com uma mentalidade vanguardista de democratura, usando o figurino da democracia representativa para transformarem efémeras maiorias absolutas em absolutismos listeiros, ao serviço de pequenos césares de multidões de subsidiados e empregados num arremedo de PREC e de União Nacional, onde até se podem comprar os líderes da oposição, através de um processo de assalto ao poder, num delírio de revolucionários frustrados que, misturando os métodos da FRELIMO com os da velha UDP, vão repetir as bebedeiras adolescentes, onde cangalheiros, vestidos de director-geral, serodiamente nos atiram para o abismo do falso centralismo democrático, onde não faltam comités centrais e seus descendentes? Por mim, apenas gostaria que tudo isto se tratasse de ficção e não coincidisse com sectores da realidade pagos pelo dinheiro do povo. Mas não. É efectivamente verdade e repete o verão quente das assembleias do MFA antes do V Governo Provisório, numa mistura de ritmo madeirense, importações de Samora Machel e brincadeiras de almoçaradas com pides, num triunvirato delirante de um verão quente que, pintado de socialista, não passa de um descarado social-fascismo. Apenas repito o que há anos denunciei contra os mesmos actores e líderes, quando eles eram criados de servir de um absolutismo salazarento. Estamos, neste momento, a viver a crise típica dos estados febris que se sucedem a certos vazios de poder e a sublimação das tendências recalcadas que precedem as movimentações para a conquista ou para a manutenção em certos poderes políticos, universitários ou sociais (tudo com minúscula, assinale-se). Nem sequer a crise é apenas de uma simples subunidade orgânica do estadão, dado que, sobre nós, confluem, talvez freudianamente, crises de outros círculos maiores da nossa instituição universitária, de outras instituições universitárias, onde coincidimos individualmente, e, sobretudo, de muitas carreiras e correrias pessoais, que provocam um ambiente propício à pequena demagogia dos pretensos césares de multidões, com emanações de terrorzinho de salão, de assembleia, de corredores (na expressão correspondente do inglês), de cartas anónimas e de telefonemas com grunhidos animalescos, onde já funcionam as ameaças e as interferências na própria vida privada de quem não quer ser formatado pela corrente. Não me parece que os tempos do estado febril da sociedade, sejam eles adolescentes, adultos ou serôdios, se mostrem propícios a decisões de médio e longo prazos, necessariamente harmónicas que reconheçam e dinamizem a ploiarquia de paradigmas que, neste momento, conforma a nossa instituição. Talvez não convenha cedermos aos tempos onde a raposa passa a usar as garras do lobo e a serpente a querer voar como as rapinas. Nem sequer vale a pena a linguagem das pombas a abater ou dos cordeiros a imolar. Não acredito nos animais falantes. Apenas manifesto a minha dor pelos desenvolvimentos recentes do poder infraestrutural. Pelas consequências da conquista e manutenção do poder na rede institucional em que estamos inseridos, todos poderão ver, amanhã, a constelação causal e as acções reversíveis do processo em curso. Declaro, com toda a frontalidade, em nome da normativista “moral de convicção”, que tanto não aceito o autoritário “quem não está contra mim, está a favor de mim”, como repudio activamente o totalitário “quem não está a favor de mim, está contra mim”. Os fins não justificam os meios…Concordarmos com algumas reivindicações desta mistura de vanguardismo com situacionismo, não significa concordarmos com os meios usados pelo poder organizado dominante. E só um pensamento binariamente linear pode, em seguida, concluir, que quem assim pensa e actua tem necessariamente de apoiar a intervenção dos aparelhos de repressão em vigor. Num Estado de Legalidade não me parece educativo que se utilizem tanto a via revolucionária da acção directa, de quem ousa fazer justiça pelas suas próprias mãos, em nome da primordial vindicta privada sem os limites da legítima defesa, como o vanguardismo da lei de ferro da oligarquia partidocrática. Num Estado de Direito Democrático, onde todas as pequenas instituições estaduais do mesmo se devem integrar, não considero justo que se ceda à pressão da nostalgia revolucionária ou dos candidatos a princeps que mimeticamente confundem o pretérito perfeito com o futuro aventureiro. As regras da democracia representativa e pluralista não admitem excepções para o corporacionismo universitário, estudantil, burocrático ou professoral. Prefiro o sufrágio universal (do voto secreto), a liberdade livre (dos liberdadeiros) e o respeito pelas minorias (da ploiarquia). Repudio a tirania das maiorias, o elitismo de salão, a ditadura da moda, o império do vazio e o ostracismo. Já pratiquei estes princípios de cidadania quando corriam os crepúsculos autoritaristas e os consequentes ventos da moda da tradução em calão do nosso pensée 68 ou do pretenso PREC do jacobinismo leninista à portuguesa. Continuarei a praticá-los mesmo que a degenerescência invoque sinais ideológicos contrários em nominalismo, mas iguais na metodologia, nos gestos e às vezes nos próprios figurantes da cena. E muito menos cederei se o processo for marcado pelo niilismo da vindicta. Quem tem razão a curto prazo, pode não tê-la tanto a médio prazo como a longo prazo. E só é moda aquilo que passa de moda. Não tenho medo de estar de acordo comigo mesmo, ainda que venha a estar em desacordo com todos os outros. Tanto é mau o despotismo de um, ou de poucos, como o despotismo de todos. Julgo saber analisar laboratorialmente os invocadores da pequena Razão de l’Etat c’est moi bem como os pretensamente “lúcidos” praticantes da “moral de responsabilidade”. Também percebo a vontade de poder dos que dizem querer salvar a cidade, apenas a pensar na paróquia, no quintal, na casa, na bolsa, na barriguinha, na inveja ou nas vaidades. E entendo o libidinoso de muitas ânsias dominandi, o dogmatismo de acaciana pacotilha e o indisfarçado desejo quanto à imposição de um paradigma único, de um pensamento único e de um politically correct tribalista. Prefiro, neste tempo dos tais homens “lúcidos”, ter “a lucidez de ser ingénuo”. Já fui julgado pelo tribunal da oclocracia e a sentença foi publicada no dazibao. Só falta o sanbenito e a queima da efígie. Não tenho tolerância para ser incluído na caderneta das criaturas toleradas! Ninguém me pode “doar” aquilo a que tenho direito, por concursos públicos, provas públicas, escritos públicos, conferências públicas e aulas públicas! E nem sequer peço solidariedade àqueles colegas que se prontificarão a lavar as mãos como Pilatos. Numa instituição da democracia não pode haver pulhítica. Vou continuar a viver como penso, sem pensar muito em como viverei aqui. Apenas reclamo o direito de continuar a cumprir o meu dever de professor. Não venho aqui oferecer a minha cabeça na bandeja para a vindicta dos que, por outras razões, me pretendem transformar em bode expiatório. Venho assumir a coragem de ter comigo uma ampla minoria constituída por mim mesmo”. Aqui e agora, onde, na prática, a teoria é outra, e onde a esmagadora maioria dos cidadãos está adormecida pela indiferença, apenas repito o que ainda há pouco me ensinavam: o bem comum é inércia, o mal do vanguardismo é sempre a dinâmica dos organizadores. E nem a resistência passiva, quando passa a organização política, continua os belos princípios que a geraram. Resta a subversão do pensamento que pode deixar semente e ser exemplo contra aquilo que aqui denuncio e não é metáfora ou futurismo orwelliano da utopia negativa, mas unhas cravadas no dorso e um real asfixiante que faz apelar à procura de exílio se o direito à indignação não se transformar em revolta contra a cobardia. É o meu dever. Não, não vou por aí…

Jul 17

Esta mentalidade de conspiração de avós e netos, onde os netos até podem ser os avós, porque a idade é um estado de espírito

Ai do nosso querido país se entra em vigor, a nível da universidade, o modelo de gestão da conspiração de avós e netos que certos gestores do regime lançaram, com elogios públicos, noutras secções estadualizadas da pracificação socrática. Um deles, bastante elogiado, ele que já anda pelos setenta ou oitenta, não sei se com resolução especial do conselho de ministros para o cúmulo remunerativo, tratou de despedir pela reforma todos os que tinham mais de cinquenta, para mostrar como se rejuvenesceu o campo estatístico que passou a ser capítulo do respectivo currículo, assim se livrando dessa cedência ao velho conceito do dever geral de conselho, só porque entende que a majestade não se coaduna com o pré-absolutismo de ser um mero “primus inter pares”. E lá tive que passear entre wahaabitas, lembrando que também houve almóhadas, almorávidas, sufis de Mértola em revolta, Averróis, Avicena, Ibn Khaldun, Maimónides e a cristianização de Aristóteles por São Tomás de Aquino, trazida pelos mesmos mouros, quando o Mediterrâneo ainda era mar interior onde navegavam as ideias das gentes das religiões do mesmo livro. Infelizmente, quando alguns ainda pensam, muito gnosticamente, que vivemos na modernidade do deicídio, esquecemo-nos de ler Roger Garaudy e não reparamos na proposta que, há tempos, Habermas lançou sobre a necessidade de uma nova era pós-secular.

Jul 16

Quando se inventou o príncipe para que deixasse de haver um dono, para que deixasse de haver confusão entre propriedade e poder…

Ontem, o grande notário da geofinança do regime, o senhor governador com nome de imperador romano, veio confirmar que a crise que ainda não é crise por uma questão de semântica, mas que, segundo as suas canónicas palavras, pode vir a ser a maior desde a Segunda Guerra Mundial, porque já chegou e veio para agravar-se e para que os trabalhadores e classe média a paguem com impostos e inflação. O senhor Primeiro-Ministro preferiu ir comemorar o primeiro aniversário de Costa em Lisboa, onde, em jantarada à União Nacional, mas já sem zona ribeirinha, se comemorou o fim de metade dos calotes da autarquia capitaleira, assim transformando uma obrigação na rara heroicidade dos tempos que correm, a que corresponde ao antiquado lema do paga o que deves, para o senhor Estado deixar de ser um Estado Ladrão, apesar de os impostos já terem o nível lendário do Robin dos Bosques. Entretanto, o Presidente Cavaco, especialista em remédios para a conjuntura económica e certificado pai deste modelo banco-burocrático e rotativista, continua a gerir o silêncio, tal como a sua discípula Manela. Apenas falou António Borges que foi melhor no improviso comentarista que no papel escrito. Por outras palavras, chegámos à tal hora da verdade, obviamente sem demissões. E o culpado de todos os males da conjuntura é o bastonário Marinho Pinto, em risco de ostracismo, cujas palavras foram superiormente qualificadas pelo conselho superior magistral como coisas “sem dignidade institucional”, apesar de provirem do representante de uma instituição não sindical e de terem a dignidade de quem quer viver como pensa, mesmo que alguns pensem que pensa mal. Espera-se que o Primeiro Ministro não participe no jantar comemorativo do primeiro aniversário da tomada de posse do bastonário que assim se arrisca a ser um dos principais candidatos à presidência da república.  O Estado tem de voltar a ser um instituição, que, segundo as palavras de Georges Burdeau, é uma empresa ao serviço de uma ideia, organizada de tal modo que, achando-se a ideia incorporada na empresa, esta dispõe de uma duração e de um poder superiores aos dos indivíduos por intermédio dos quais actua, permitindo ao grupo que continue, segundo uma técnica mais aperfeiçoada, a procura do bem comum; assegura uma coesaão mais estreita entre a actividade dos governantes e o esforço pedido aos governados; torna mais flexível a influência da ideia de direito sobre os comportamentos sociais e, com isso, constitui  Logo, há uma clara distinção entre a respublica ou comunidade e o principado ou governança da comunidade, como lhe chamava o Infante D. Pedro. Onde o Estado aparece como a ligação entre o príncipe e toda a comunidade da sua terra, entre o rei e o povo comum (Infante D. Pedro), onde a governança da comunidade tanto tem um imperium ou senhorio, como magistratus com regimentos. Quando se dá a separação entre o doméstico e o político. Quando se inventou o príncipe para que deixasse de haver um dono, para que deixasse de haver confusão entre propriedade e poder, para que os homens deixassem de ser coisas. A poesia é o melhor remédio para a crise política, onde os tecnocratas e os politiqueiros chamam adivinhação à política, a tal arte que sempre misturou o lume da razão com o lume da profecia, coisas sem as quais não existiria Portugal, nem Banco de Portugal.

Jul 15

O devoto bulhetim de boto

Depois da azáfama campanheira, os alfacinhas foram à urna em tempo de couve de Bruxelas. Mostraram cartão de eleitor, cartão de identidade e deram-lhe o boletim pró folhetim da pescada, do antes de o ser já o ser, de acordo com as sondagens. Abriram o dito cujo, o tal que acima se reproduz, pegaram na esferógrafica, foram para trás do conglomerado de madeira, tipo tabopan, e procuraram sua excelência o seu candidato, de acordo com a lei processual vigente. Não vale a pena esperar pelos resultados. São os que constam de todas as sondagens. Salve-se quem puder… nomear mais assessores. Quando portugueses com a dimensão universal de um José Saramago dão, ao jornal de que foram directores, entrevistas como a de hoje, todos os que não querem continuar a pensar baixinho, deveriam parar, escutar e ler e não entrar na rápida manipulação de argumentos endeusantes ou diabolizantes. O patriota Saramago (não é ironia o qualificativo que usei) retoma a clássica posição de Frei Bartolomeu dos Mártires, de D. Jerónimo Osório ou de Frei Luís de Sousa, profetizando uma das possíveis vias do europeísmo. Isto é, rejeita as teses de Febo Moniz e não quer inscrever-se no partido de D. António Prior do Crato. Espero que a comissão de sábios do PCP (continuo a não usar de ironia) possa transmitir ao resto do país, a resposta que, certamente, será dada pela facção não iberista dos cunhalistas, nomeadamente a que é representada por Miguel Urbano Rodrigues. E mais não digo. Espero. Por mim, continuo ainda com o sentimento de Antero, o iberista que acabou militante da Liga Patriótica do Norte, antes de aderir ao povo dos suicidas, no banco do jardim do Convento da Esperança, olhando uma nesga do Atlântico, por entre as brumas da ilha natal. Apenas recordo a lição histórica de Agostinho da Silva que, não deixando de ser iberista, apenas dizia que a profunda razão de 1640 foi o projecto Brasil. Por mim, tanto não quero Aljubarrota, como não me apetece Alcácer-Quibir. Prefiro a regeneração de 182o, mesmo que tenha de sustentar-se no tratado de 1834, com que o regente D. Pedro conseguiu garantir a nossa independência na Europa da Santa Aliança. Desde que lhe juntemos um pouco da manha dos nossos agentes diplomáticos de 1648 que preferiram a aliança com os pequenos reinos protestantes da Europa, em cujas tendas observámos o acordo de Vestefália, quando a ONU da altura, representada pelo Vaticano, ainda era instrumento dos Habsburgos. Julgo que, por enquanto, talvez não seja necessário pedir a adesão ao federal Reino Unido da armilar, incluindo os futuros cem milhões de africanos que, daqui a poucas décadas, falarão a língua de Saramago. Continuarei a lutar para que não se perca a herculana vontade de sermos portugueses com independência política e não apenas cultural, para regenerarmos esta pátria que tem de continuar a ser liberdadeira.

Jul 15

Da esquerda

A esquerda real depende sempre da direita a partir da qual ela se define e vice-versa. Até porque, para haver esquerdas ou direitas, tem que haver a mitificação de um adversário, onde aquilo que se fantasia ou demoniza no outro leva à definição de cada uma dessas posições relativas. Por outras palavras, a esquerda e a direita não são posições ontológicas nem podem ter uma definição ideológica, válida para qualquer tempo e lugar. E em Portugal, o que temos são preconceitos de esquerda e fantasmas de direita. Aliás, se partíssemos da classificação clássica das direitas e esquerdas, oriunda do galicismo pós-revolucionário, teríamos de dizer que as direitas são os conservadores do que está e as esquerdas, os que querem mudar, pelo que teríamos de concluir que, aqui e agora, as esquerdas são efectivamente a direita, onde não faltam governos ditos de esquerda com programas de direita, depois de governos de direita com estilos de esquerda. Com efeito, coube à França ter caracterizado as opiniões políticas a partir da topografia da Assembleia Constituinte. De um lado a direita, dita dos aristocratas ou dos noirs; do outro, a esquerda dita dos patriotes. E não tardou que se distinguissem os reacteurs ou reactionnaires dos progressistes, para logo a seguir chegasse o termo conservateur, para qualificar todo e qualquer adversário do changement. Era a consagração da visão geométrica da política, onde todas as opiniões teriam de caber num semi-círculo, com largo espaço para outro semi-círculo oculto. Por outras palavras, muitas das nossas esquerdas dinossáuricas já se aliaram àquelas direitas de velas de cera e feijões verdes, porque ambas, como dizia o antigo, mas não antiquado, liberal Ortega y Gasset, continuam a ser uma estupidificação típica dos que sofrem de hemiplegia mental e que nos querem binarizar, de forma maniqueísta, conforme a aprendizagem juvenil dos amanhãs que cunhalizam ou Salazar izam. Porque a direita a que chegámos resulta da esquerda que temos, principalmente quando a direita a quem concedem o direito à palavra é a direita que convém à esquerda, onde os que emergem são sempre os que representam as caricaturas do autoritarismo, do capitalismo de faca na liga, com chapéus de coco e almas de corsário, do anti-ecologismo e do colonialismo mais serôdio. Como sou liberal, de cepa burkiana e hayekiana, com pitadas pessoanas, apenas não posso é negar que foi o direitista e conservadoríssimo Churchill o principal bastião da luta da liberdade contra o totalitarismo, quando os comunistas, incluindo os ex-, apoiavam o pacto germano-soviético, e outros mesmos se esqueciam do massacre de Katyn. Eu que sou liberal e que, quase por conclusão, por causa da mentalidade suicida de certa esquerda deste “reino cadaveroso”, tenho que ser, excentricamente, de direita, prefiro até notar que alguns marechais da velha direita têm preferido a falsa síntese salazarista-soarista e continuam silenciados sobre este debate entre a esquerda e a direita, só porque pela esquerda e pela direita governamentais foram, e são, teúdos, prebendados, manteúdos e medalhados. E porque não gosto da “servitude volontaire” dos aduladores de príncipes, nem do falso consenso onde navegam muitos dos nossos “cadáveres adiados que procriam” epitáfios, memórias, discursos que fazem chorar as pedras da calçada e outra literatura de justificação, sempre direi que prefiro os perturbadores do mundo que se angustiam com o futuro e recolhem, à esquerda e à direita, o que, amanhã, perante novas circunstâncias, será das novas esquerdas e das novas direitas. Percebam, pois, os refundadores da esquerda que o dogmatismo não deixa de o ser só porque se pinta de antidogmático e que a Inquisição não deixa de continuar, mesmo quando passa a juntas pombalistas de reforma de estudos ou a essa forma de policiamento político-cultural, herdeira dos el-rei Junots que nos continuam a invadir. Percebam que, em liberdade, as esquerdas serão feitas com o que muitas direitas semearam e vice-versa. Não se fiem nesses que, mal chegaram às delícias do poder, logo “puseram na gaveta” as ideologias que os levaram ao tal lugar de distribuição autoritária de valores. Por outras palavras, entre o socialismo democrático do PS e a social-democracia do PSD, há as duas faces do mesmo Bloco Central, onde costuma desempatar a chamada direita dos interesses.Contudo, o tribalismo PS, marcado pelos discursos do “pai ausente”, mas sempre presente, que, enquanto governou pôs o socialismo na gaveta, tem procurado manter o paradigma de certo esquerdismo político-cultural, enquanto os marechais e os organizadores da chamada direita nunca dizem que são de direita e preferem elogiar o situacionismo ou assumir a prebendas senatoriais, pelo que se gera uma espécie de direita que convém à esquerda. Podemos dizer que os preconceitos de esquerda têm sido mais fortes do que os fantasmas de direita e têm conseguido assumir-se como vozes tribunícias de uma certa oposição social, dado que sempre que a direita desce à sociedade civil, sem ser para o negocismo ou o clericalismo, logo o discurso dominante do politicamente correcto a demoniza como populista.

Jul 15

Uma partidocracia que começa a ser adversária da própria democracia

As primeiras novas das autárquicas da cabeça do reino mostram que a senhora dona indiferença, no balanço dos “inputs” que fazem entrar o povo na “blackbox” do sistema político, pode ser superior à soma dos apoios e das reivindicações. Assim se confirma como este modelo de democracia, dominado por uma partidocracia claustrofóbica, pantanosa e plena de tabus, está a tornar-se a principal adversária da própria democracia. Pior ainda, quando à abstenção somarmos os votos dos candidatos ditos independentes, porque parece tornar-se inevitável a axistência de uma maioria absoluta de povo contra a oligarquia rotativista que marca o ritmo do situacionismo. Ao meu lado, alguém que tem a sabedoria da intuição e dispõe alguma ciência experimentada sobre a matéria vai dizendo: “a ditadura é sempre má, a democracia pode ser boa ou má, esta democracia é má…”. Um comentador meu amigo vai proclamando na televisão: “o panorama não é tão dramaticamente grave”. Isto é, ou é grave sem ser dramático ou é dramático sem ser grave, o que vem a dar no mesmo, assim se confirmando que tudo é mesmo mau. Por outras palavras, se isto fosse um referendo, o dito não seria vinculativo. Se os partidos dominantes não virem o cartão amarelo com que o povo os puniu, não vale a pena que um dos jogadores trate de roubar o cartão ao árbitro. Pior ainda se o roubo for levado a cabo pela equipa que organizou excursões de povo de Mirandela para uma excursão da terceira idade socialista a Lisboa, face à falta de entusiasmo dos alfacinhas. Não lancem sobre o povo o que fez Guterres ao não retribuir a gentil saudação que o dono do hotel Altis o recebia há pouco. Quem está lá nas alturas convém que desça, de vez em quando, ao inferno do quotidiano.

Jul 15

Abaixo a política pimba!

Infelizmente, sofrem sempre dos imprevistos de uma qualquer Quinta da Fonte, que eles não provocaram, mas que lhes pode cair em cima, quando, raspado o verniz, há um Portugalório de sempre, o do desleixo, o da moral do sapateiro de Braga, o do enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. Afinal, a questão da Apelação, nesses traseiros da magnífica Expo, onde nasceu o Tratado de Lisboa, começa a delinear-se, como uma questão de “gangs”, esses cogumelos venenosos que não têm etnia, que levaram a comunidade cigana a dar uma imagem péssima de si mesma, ocultando os importantes esforços que tanto a República como os próprios ciganos têm levado a cabo, para todos vencermos a vergonha da tradicional marginalidade a qyue estava condenada. Esperemos que o episódio não sirva para continuarmos a lavar as mãos como Pilatos. Mais de cinco séculos de ciganos em Portugal são uma razão suficiente para termos direito a um Portugal cigano, desde que os responsáveis políticos não caiam no “lapsus calami” de notarem que tudo se passou entre ciganos e africanos, sem intervenção directa dos “portugueses”, quando as três comunidades são hoje radicalmente portuguesas. Acho que o alto comissariado para as minorias étnicas tem que rapidamente dar um curso de pluralismo a certos responsáveis autárquicos, tal como os especialistas em minorias têm que aprender com os autarcas que estes são as principais vítimas de uma falta de política de reidentificação deste novo Portugal Plural.

Jul 13

Quinta da Fonte: que tal ensinar a pescar, em vez de continuarmos a lavar as mãos como Pilatos, distribuindo migalhas de peixe? Quinta da Fonte: que tal ensinar a pescar, em vez de continuarmos a lavar as mãos como Pilatos, distribuindo migalhas de peixe?

 

Vale-me a velha observação de Daniel Bell sobre um Estado que é, ao mesmo tempo, grande demais e pequeno demais. Apenas me foi dado concluir o óbvio: com tal quantidade de informação escrita e televisionada por dia, com bem mais caracteres do que os d’ “Os Lusíadas” e até que a Suma de São Tomás de Aquino, vão alguns dizendo que a Quinta da Fonte é pior do que Beirute, enquanto outros concluem que temos guerrilha urbana às portas de Lisboa. Valia mais dizermos, muito modestamente que quando entra em crise o Estado-Segurança se gera, inevitavelmente, a vingança privada. Que quando entra em crise o Estado-Imposto, se dá o fim do segredo de justiça na Operação Furacão. Que quando o Estado-Justiça é cercado por apitos e mádis, até o cidadão Murat está há 13 meses arguido por nada. Que quando entra em crise o Estado-Legislação, até o provedor de justiça qualifica o regime socratino como uma espécie de Estado Lenga Lenga. Logo, para furar o esquema, até o representantes dos grandes corpos do Estado usam da demagogia e do populismo, enquanto a governação assenta no palanque propagandístico do Estado-Espectáculo, caindo na gafaria do carro eléctrico… A hiperinformação pode ser a melhor forma de desinformação. Satura e inunda-nos de innformação secundária. Vale-nos que um ex-ministro do império continua a falar no Estado Exíguo e na necessidade de assimilação das etnias, para refazermos a confiança. Daí que poucos consigam ver bois que passeiam diante dos palácios, até porque noventa por cento da população da Quinta da Fonte vive de subsídios mensais do Estado que lhes vão dando migalhas de peixe, mas continuam a não os ajudar a aprender a pescar. Por mim, como liberal, pegava nesses fundos e atribuía-os às mesmas comunidades, auto-organizadas ou apoiadas por organizações da sociedade civil, desde as associações de defesa dos respectivos interesses a igrejas. Ou abria um concurso público internacional para acabar com a marginalização social, deixando de dar prémios aos arquitectos e urbanistas que desenharam tais enormidades. Para tanto é que poderia servir um fluxo de fundos numa folha A4…