Lá vi o Dan Brown posto em filme, depois de o ter lido em livro, sempre à boleia das ondas da moda. Gostei mais da primeira experiência que da segunda. Repito o que aqui disse em Fevereiro de 2005: a história de Maria Madalena e do Graal fazem parte das deliciosas patranhas do nosso imaginário, como a Cinderela ou o Pinóquio. Retoma-se, quase meio século depois, o regime do “best seller” de Pauwels e Bergier, “Le matin des magiciens”, Paris, Gallimard, 1960, agora num regresso ao anticongreganismo primário, onde, em vez dos jesuítas, surge o “Opus Dei”, vulgarizando-se ridiculamente questões maçónicas, gnósticas e panteístas. Reduzir ao ritmo cinematográfico temas como os do simbolismo e do esoterismo, atacar o catolicismo e a Maçonaria, pela interpretação das lendas merovíngias, é brincar com o fogo sagrado. Especialmente neste Ocidente onde as bases esotéricas atiram a memória pré-cristã e as heresias medievais para a zona do sincrético das seitas e das macacadas das sociedades secretas, onde, afinal, algumas multinacionais livreiras espetam as garras do negocismo, explorando as nebulosas que circundam a procura da verdade, sem se ir ao fundo das coisas. Acaba por apelar-se ao vazio da procura pessoal, obrigando muitos a acolherem-se à sombra de explicações transpersonalistas e fazendo dissolver as autonomias individuais no colectivismo moral das seitas e nesse jogo entre o exotérico e o esotérico, de modo que a verdade acaba por dissolver-se. Importa salientar que quando alguém procura atingir o bem colectivo através do mal individual, em nome da Razão de Estado, da Razão de Seita ou da Razão de Igreja, está a matar-se a si mesmo, ainda que adopte aquela literatura de justificação do realismo político. Há muitas boas e higiénicas instituições que invocam fins superiores, incluindo o divino, enquanto os respectivos jagunços, inflitrados nos aparelhos do Estado de Direito, brincam ao maquiavelismo, maculando a eventual espiritualidade com que vão recrutando neófitos. E o estampido das crenças, com que muitos vão permitindo as conversões, pode levar a um processo de crescente relativismo e cepticismo, onde acaba por preponderar o mero jogo das bruxarias. Continuo a preferir Umberto Eco e “O Nome da Rosa”. Ficamos mais cavaleiros andantes, mais próximos do saber poético, mais amantes do mistério, mais cultivadores do transcendente…No filme, tornam-se manifestas as caricaturas quase racistas que os anglo-americanos pouco universais e muito hollywoodescos fazem dos franceses e que atingem o clímax do insulto quando tentam retratar o espanhol, nesse ambiente de anticolonialismo imaginário, onde o máximo de pseudo-racionalismo passa pela demonização do latino, pintado de ditador da república das bananas e vestido de cardeal, nessa inconfessada vontade de segregacionismo e de “apartheid” de certa cultura WASP- White Anglo-Saxon Protestant. E não foi por acaso que a minha visita ao filme foi precedida por uma visita a fígados de tamboril, lá para os lados de Alfarim, e deparando-me, à porta do cinema, com esse génio da escrítica que a esquerda instalada decreta como o paradigma da direita que convém à esquerda. Reparei que, apesar de novo, continuava imensamente velho, copiando os rebanhudos papas da jornalada que se assumem como as manilhas centrais da importação das ideias vanguardistas, mesmo quando reaccionárias. Por isso, quando voltei a casa e reparei nas cenas do congresso do PSD, fiquei sem saber se estava a assistir ao comentarismo do “Jogo Falado”, dado que os justamente afamados analistas da futebolítica são, além de treinadores de bancada, distintos militantes do laranjismo, assim se confirmando a superioridade da agregação de interesses do mendismo face ao estilo socrateiro, com que se disfarçam os cor-de-rosa.
Não é o hábito que faz o monge, tal como não é o órgão que gera a função
Não há meio de perceberem que não é o hábito que faz o monge, tal como não é o órgão que gera a função, quando o que interessa é ter o órgão ao serviço da função. Logo, não devemos continuara a julgar que só é público o que mede verticalmente, de cima para baixo, conforme a tradição absolutista do centralismo e do concentracionarismo. Porque, se viajarmos pelo fundamento da velha república romana, notaremos que o máximo da coisa pública estava na horizontalidade dos pactos, nomeadamente quanto à qualificação de uma lei, que só era verdadeiramente pública quando os magistrados a propunham num comício do povo. Com efeito, só é efectivamente público o que reside na horizontalidade dos consensos pactistas. Porque a comunidade é superior ao principado, dado que a república vale mais do que o aparelho de poder e a nação é superior ao Estado. Por outras palavras, não devemos trazer para a praça pública aquilo que, para ser eficaz, não deve sair do espaço da intimidade familiar e, muito menos, passar para o largo do pelourinho. Como jurista que continuo a ser, embora dessa ciência não faça modo de vida, até diria que a melhor sociedade é aquela onde todas as regras são espontaneamente cumpridas, nomeadamente aquela onde as tais questões de consciência não precisam do “casse tête” da guarda, dos manuais e códigos de processo penal e das grades prisionais… Os bons situacionistas encontram-se sempre no sindicato dos elogios mútuos. E a Razão de Estado sempre seguiu a máxima maquiavélica, segundo a qual os fins superiores da governação permitem a literatura de justificação dos homens de sucesso. Tudo depende dos exércitos disponíveis e do desespero dominante. Apenas acrescento que em encruzilhadas onde não se vê luz ao fundo do túnel, o populismo é directamente proporcional aos sucedâneos messiânicos, mesmo que usem vestidos fora de moda, mas com muitos lacinhos de tecnocracia… Entretanto, alguns generais têm feito declarações muito críticas sobre o défice de democracia e liberdade no país. Parece que vão além da mera autodefesa corporativa, tendo algo de recado dos pais fundadores do regime face à presente decadência de um sistema que vai amarfanhando o regime. Mais grave parece ser a intenção governamental de lei da rolha, num processo de compressão da liberdade de expressão que também afecta certas secções universitárias, onde alguns conselhos directivos e certas inspecções parecem reduzir instituições marcadas pela honra e pela inteligência a dependerem dos discursos oficiosos da hierarquia verticalista de certo estilo “decretino” e quase hierocrático…
Sobre o estilo decretino e quase hierocrático…
Continuo farto dos que aprenderam cultura nos bancos torquemadas de pregações e homilias contra as heresias que fogem do situacionismo politicamente correcto. Desses que continuam à espera da chegada daquele laico ofício que possa mandar queimar em efígie os dissidentes. Continuo farto destas cadaverosas persigangas vestidas de tecnocracia neopositivista, onde ebriamente se deslumbram fascistas, estalinistas e ressabiados, só porque passaram a respeitáveis donos do poder, assentes na engenharia distribuidora dos fluxos orçamentais que os Pombalizaram, especialmente quando aplicam, agora, ao sector não privado, o exercício falimentar e cogumélico da privatização dos lucros, com nacionalização dos prejuízos, métodos que os fizeram homens da esquerda baixa e prebendada, ou da direita cobarde e colaboracionista.
Continuo farto dos que aprenderam cultura nos bancos torquemadas
Continuo farto dos que aprenderam cultura nos bancos torquemadas de pregações e homilias contra as heresias que fogem do situacionismo politicamente correcto. Desses que continuam à espera da chegada daquele laico ofício que possa mandar queimar em efígie os dissidentes. Continuo farto destas cadaverosas persigangas vestidas de tecnocracia neopositivista, onde ebriamente se deslumbram fascistas, estalinistas e ressabiados, só porque passaram a respeitáveis donos do poder, assentes na engenharia distribuidora dos fluxos orçamentais que os Pombalizaram, especialmente quando aplicam, agora, ao sector não privado, o exercício falimentar e cogumélico da privatização dos lucros, com nacionalização dos prejuízos, métodos que os fizeram homens da esquerda baixa e prebendada, ou da direita cobarde e colaboracionista. (2008) Quase todos os que se apresentam como candidatos ao protagonismo estadual, partidário ou das pequenas quintarolas burocráticas, que permitem o micro-autoritarismo da mesa do orçamento ou da engenharia dos subsídios, utilizam a invocação, directa ou suliminar, de serem homens de esquerda. Uns, pelo oportunismo do politicamente correcto, para melhor se inserirem no situacionismo. Outros, como literatura de justificação para todos dos desmandos, esquecendo-se que Estaline e Pol Pot também eram homens ainda mais à esquerda, quando não invocavam as novas tecnologias da guilhotina positivista.
Importa um “New Deal”, para evitar que os coveiros do sistema passem a coveiros do regime
Quase todos os que se apresentam como candidatos ao protagonismo estadual, partidário ou das pequenas quintarolas burocráticas, que permitem o micro-autoritarismo da mesa do orçamento ou da engenharia dos subsídios, utilizam a invocação, directa ou suliminar, de serem homens de esquerda. Uns, pelo oportunismo do politicamente correcto, para melhor se inserirem no situacionismo. Outros, como literatura de justificação para todos dos desmandos, esquecendo-se que Estaline e Pol Pot também eram homens ainda mais à esquerda, quando não invocavam as novas tecnologias da guilhotina positivista. Feliz, ou infelizmente, a direita começa a ficar reduzida ao espaço do berro e do “soundbyte” populista, com alguma dela à espera que o PSD a repesque para a dignidade do estadão e da consequente vantagem negocista. Entretanto, os mais destacados marechais do CDS, face às duas emergências de Cavaco, o tal que os secou, parece que optaram pelo PS, que assim os reduziu à veneranda postura de senadores colaboracionistas, a nível do ministerialismo ou da prebenda elogiosa. Mais do que isso: o PSD, quando não se assume em birra populista ou caciqueira, fica-se pela memória do estadualismo paternalista a que chama neoKeynesianismo, mas que não passa de mais uma versão do salazarismo democrático, vestido de respeitabilidade tecnocrática, dita prestígio. Ainda não assumimos que importava, antes de chegar a Grande Depressão, um “New Deal” à esquerda e à direita, um baralhar e dar de novo, para que estes coveiros do sistema não sejam coveiros da morte lenta em que o regime se enreda. Como observava Fernando Pessoa em 1928, também António de Oliveira, estabeleceu imediatamente o seu prestígio quando tomou posse, através de um discurso que é tão diferente dos discursos políticos habituais que o país aderiu a ele de imediato. E o público é incompetente para apreciar uma coisa tão profundamente técnica como as suas reformas financeiras. Ao fim e ao cabo, o prestígio é sempre não-técnico.
Nem tudo o que é lícito é honesto…
Nem tudo o que é lícito é honesto…
Reparo como a pequena política se encarquilha no “fait divers”, perdendo-se em muitas pequenas cascas de árvore que nos ocultam a floresta da grande política. Daí que todos comentem a cena de Sócrates e Pinho, apanhados com cigarrito, no voo que os levava em visita oficial à Venezuela, onde Chávez invocou a protecção da Virgem de Fátima. Coisa de somenos, porque tudo pode ter sido inteiramente lícito e petroliferamente correcto, com resmas e resmas de Razão de Estado, dado que o príncipe nem sequer precisou de usar o absolutista princípio do “princeps a legibus solutus”.
Apenas se confirmou o bem pregas Frei Tomás da falta de autenticidade de certos políticos profissionais, coisa que apenas se situa no plano moral. Porque não leram Cícero, o tal que bem nos avisou: nem tudo o que é lícito é honesto…
Reparo na intervenção presidencial sobre a matéria, dizendo que, no tempo dele, nos aviões fretados para viagens do primeiro-ministro, ele nunca fumava, embora não pudesse saber o que se passava por trás das cortinas, quando ainda não havia a lei proibicionista que nem sequer o Presidente tem poderes para a mudar…
Emociona-me a resposta Sócrates, pedindo desculpa por desconhecer as normas que ele próprio propôs, mas prometendo que, a partir de agora, vai mesmo deixar de fumar. Infelizmente, quando quis defender-se, revelou um velho fantasma, ao denunciar como “calvinistas”, os denunciantes da liberdade de fumaça. Podia ter usado outros nomes diabólicos, como os de “fascista”, de “puritano”, de “inquisitorial”, ou de “fundamentalista”. Mas preferiu confessar, à boa maneira socialista, que está contra a ética protestante, fundadora do capitalismo, deste ar que todos respiramos na globalização, cometendo um pequeno deslize anticonstitucional, quando ofendeu as concepções do mundo e da vida nascidas na pátria de Jean Jacques Rousseau.
Vale-nos que a ministra que nos trata da saúde já arranjou meios para nos operarem às cataratas, sem recurso a Cuba, apenas com a mobilização dos meios do sector público da saúde, depois de ter criticado um acordo da ADSE com um hospital privado. Por outras palavras, certos preconceitos de esquerda que marcam os nossos socialistas acabam por dizer que as coisas só são públicas se o patrão for o Estado, não reparando que o título pode não corresponder ao conteúdo.
Não há meio de perceberem que não é o hábito que faz o monge, tal como não é o órgão que gera a função, quando o que interessa é ter o órgão ao serviço da função. Logo, não devemos continuara a julgar que só é público o que mede verticalmente, de cima para baixo, conforme a tradição absolutista do centralismo e do concentracionarismo.
Porque, se viajarmos pelo fundamento da velha república romana, notaremos que o máximo da coisa pública estava na horizontalidade dos pactos, nomeadamente quanto à qualificação de uma lei, que só era verdadeiramente pública quando os magistrados a propunham num comício do povo. Com efeito, só é efectivamente público o que reside na horizontalidade dos consensos pactistas. Porque a comunidade é superior ao principado, dado que a república vale mais do que o aparelho de poder e a nação é superior ao Estado.
Por outras palavras, não devemos trazer para a praça pública aquilo que, para ser eficaz, não deve sair do espaço da intimidade familiar e, muito menos, passar para o largo do pelourinho. Como jurista que continuo a ser, embora dessa ciência não faça modo de vida, até diria que a melhor sociedade é aquela onde todas as regras são espontaneamente cumpridas, nomeadamente aquela onde as tais questões de consciência não precisam do “casse tête” da guarda, dos manuais e códigos de processo penal e das grades prisionais…
neste funil situacionista que continua a proibir a imaginação
Continuaremos a mirrar asfixiados neste funil situacionista que continua a proibir a imaginação Muitos, como eu, estiveram até às tantas da madrugada, agarrados à futebolítica do “prós e contras”, esquecendo a campanha eleitoral do PSD, dado que o major tem mais piada que o alberto joão e ninguém tem pachorra para as meditações macheteiras do nosso bloqueio centralão, onde notáveis treinadores de bancada correm o risco de levar o maior partido político português à disfunção, se os circuitos da decisão ficarem entupidos entre aqueles que foram ministros, desejando deixar de o ser, e os que, querendo ser como os primeiros, sonham apenas em ser ministros, apenas para que, depressa, deixem de o ser. O PSD, como espelho da nação, assiste a este regresso da fauna dos barões assinalados, permitindo-nos concluir que se aproxima cada vez mais dos apitos finais e doiradinhos de um regime que entrou no sistema das habituais decadências, dado que preponderam as habituais brigadas do reumático mental, esses que sabem, de ciência por fazer e subsídio absoluto, a impossibilidade emergente de um qualquer movimento de capitães. Logo, sobre o PSD, apenas fico triste em ver como milhares e milhares de esforçados militantes correm o risco de servir de carne para almoço comemorativo desses caldo de interesses que põe os cotas e os jotas a servir de campo de manobras para a gentalha de alcatifa que usurpou os restos de autenticidade do partido de Francisco Sá Carneiro. Esta última epifania de certo cavaquismo do “a posteriori” talvez constitua mais um dos cantos de cisne de certa direita lusitana que, envergonhadamente, pede à respectiva sociologia que se dilua sob o bordão de uma tecnocracia descrente que já perdeu direito ao sonho e o sentido do risco. Ainda não percebeu que foi o exagero dos preconceitos de esquerda ocupantes do aparelhos ideológicos que produziu o desespero do populismo direitista. O poder continua a medir-se pelo esquema do homem de sucesso, e prefiro não mais comentar nominativamente as candidaturas laranjas, até porque posso cair involuntariamente no pecado do óbvio divisionismo. Logo, não me apetece continuar a alimentar esta dialéctica dos preconceitos de esquerda contra os fantasmas de direita, desses que vivem de uma omnisciência assente nos tradicionais pés de barro, onde os “pré-captos” (preceitos) dos respectivos óculos ideológicos não os deixam ver um boi à frente dos palácios onde estacionam as respectivas viaturas oficiais. Tal como os seus adversários dogmáticos do antigamente, os presentes neodogmáticos são como os macacos orientais, que já não querem ler, que já não querem ver e que já não querem ouvir. Circulam de preconceito em preconceito e querem transformar o resto de conceitos do respectivo marxismo imaginário num preceito salazarento e lá vão indo, de decreto em decreto, até ao esquecimento final, enquanto, resfolegando de soberba, tentam limpar, com a lixívia da literatura de justificação, a que chamam memórias, as velhacarias inquisitoriais que vão, dia a dia, produzindo, enquanto tomam chá com os ministros de Salazar , prebendados pela cobardia. Vivam os pezinhos de esquerda da cavaqueira situação. Assim continuaremos a mirrar asfixiados neste funil situacionista que continua a proibir a imaginação.
Maio 68
1963
●O Tempo e o Modo – A revista tem como primeiro director António Alçada Baptista (29 de Janeiro), estando ligada à Editora Moraes e à colecção do Círculo do Humanismo Cristão. Mobiliza, na sua primeira fase, uma série de intelectuais católicos, críticos do salazarismo, não desdenhando do próprio empenhamento do ex-deputado salazarista Manuel José Homem de Melo, especialista nos meandros de todas as transições políticas, incluindo a que levou à ascensão de José Manuel Durão Barroso a primeiro-ministro. Alarga-se, depois, a outros sectores da esquerda, como a Mário Soares e a Salgado Zenha, vindos do MUD, ao então comunista Mário Sottomayor Cardia, e à jovem geração de líderes estudantis, como Manuel Lucena, Vítor Wengorovius e Medeiros Ferreira, acabando por preponderar esta última.
●Análise Social – Surge também a revista Análise Social, fundada no âmbito do Gabinete de Investigações Sociais do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras da Universidade Técnica de Lisboa, organismo que resulta do ideológico Gabinete de Estudos Corporativos, onde se pretendia dar ciência sociológica e militância católica à única revolução corporativa vigente na Europa. Tem como primeiro director J. Pires Cardoso, até 1973. Entre 1973 e 1990, surge a direcção de Adérito Sedas Nunes, a quem há-de suceder Manuel Braga da Cruz.
1964
●Da emergência dos Beatles ao começo da era Brejnev – O grupo de música britânico The Beatles torna-se um sucesso internacional, Martin Luther King é galardoado com o Nobel da paz, realizam-se os Jogos Olímpicos de Tóquio e ascende ao comando soviético Leonid Brejnev, enquanto Lindon B. Johnson é eleito presidente norte-americano. A França gaullista, em clara rebeldia, trata de reconhecer o regime de Mao Tse Tung (27 de Janeiro), os norte-americanos reforçam o seu dispositivo militar no Vietname e o Papa visita a Terra Santa e Bombaim (2 a 5 de Dezembro), enquanto nasce a OLP e Nelson Mandella é condenado a prisão perpétua. Na Índia, morre Nehru, para, dois anos depois, a sua filha Indira Gandhi, lhe suceder. Entretanto, reúne em Genebra a I Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD), a partir da qual se forma o Grupo dos 77 que elabora a reivindicação sobre a necessidade de uma nova ordem económica internacional que vai marcar o ritmo das chamadas relações Norte-Sul.
●A cisão delgadista contra o PCP – Em Abril, é aprovado no PCP o relatório de Álvaro Cunhal Rumo à Vitória. As Tarefas do Partido na Revolução Democrática e Nacional. Terceira Terceira Conferência da Frente Patriótica de Libertação Nacional, reunindo o PCP, a Resistência Republicana e o MAR, onde Humberto Delgado é afastado da organização. Delgado chega a Argel (27 de Junho) ainda convalescente, de uma intervenção cirúrgica a que é submetido em Praga (27 de Maio) e, pouco depois, cria uma Frente Portuguesa de Libertação Nacional, entrando em ruptura com as estruturas integrantes da FPLN, principalmente o PCP. É então que passa a ser apoiado por Henrique Cerqueira, a partir de Rabat. Acusa os membros do grupo de Argel de politiqueiros palavrosos. O delírio conspirativo de Delgado leva-o a conceber vários planos para o derrube do regime, nomeadamente uma chamada operação laranjas, com a instalação de um governo provisório em Macau, para o que pensa contar com o apoio da China. O isolamento do general propicia que este caia numa cilada armada pela polícia política que o atrai a Espanha em Fevereiro de 1965, onde viria a ser assassinado.
●A cisão maoísta no PCP – Surge a Frente de Acção Patriótica, dissidência do PCP criada em Janeiro de 1964 por Francisco Martins Rodrigues, depois de divergências na reunião do comité central de Agosto de 1963. Segue-se o CMLP, Comité Marxista-Leninista Português, onde é apoiado por Rui d’Espiney e João Pulido Valente, dissidentes do PCP. Em Junho, emitem o primeiro número do periódico Acção Popular e em Outubro o Revolução Popular. Em Novembro, o jornal Avante! denuncia dois membros da FAP, entrados clandestinamente em Portugal. Idênticas denúncias surgirão em O Militante de Fevereiro de 1965 e em o Avante! de Março de 1965.
●Caso Luandino Vieira na Sociedade Portuguesa de Escritores, com protestos pela atribuição de um prémio a este militante do MPLA, de origem europeia. Sociedade será encerrada.
●Emitido, em Brazzaville, o manifesto Amangola por um grupo de dissidentes da UPA, base da futura UNITA (11 de Dezembro).
●Contra-subversão doméstica – Distúrbios no Rossio e na Avenida da Liberdade (1 de Maio). Um morto, Almeida Reis. Em Junho, o jornal O Militante do PCP há-de criticar os organizadores desta contestação, por terem realizado sabotagens e reunido armas.
●Cristãos progressistas e socialistas. Surge a Cooperativa de Difusão Cultural e Acção Comunitária, visando os princípios da Pacem in Terris (11 de Abril). Será encerrada pela PIDE em 1967. No Porto, aparece a cooperativa Confronto, liderada por Francisco Sá Carneiro (1934-1980), Leite de Castro e Mário Brochado Coelho. Criada a Acção Socialista Portuguesa, em Genebra, por Mário Soares, Tito de Morais e Ramos da Costa em Abril.
1965
Do assassinato de Delgado ao fim da unidade nacional na defesa do ultramar
●Os marxistas entre o diálogo a nova teologia – Se alguns confirmam o crepúsculo de lás ideologias (Fernandez de la Mora), outros continuam a lire le Capital (Althusser e Balibar), e a ser pour Marx (Althusser), tanto para a procura de um socialismo humanista (Fromm), como para que se passe, entre cristãos e marxistas, do anátema ao diálogo (Garaudy). Procura-se a essência da política (Freund) e faz-se o confronto entre a democracia e o totalitarismo (Aron), enquanto os católicos reflectem sobre o Concílio do Vaticano II (Maritain) e se fazem inventários sobre a ideia de Europa (Duroselle e Ameal).
. Entretanto, Manuel Alegre, já no exílio, edita Praça da Canção e Fernando Ribeiro de Melo lança a Antologia da Poesia Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia, com a colaboração de Mário Cesariny, Luís Pacheco, José Carlos Ary dos Santos e Ernesto Melo e Castro, todos processados por abuso de liberdade de imprensa.
●Em 21 de Maio a Sociedade Portuguesa de Escritores, presidida por Jacinto Prado Coelho, atribui um prémio literário a Luandino Vieira, nome literário do independentista angolano, José Vieira Mateus Graça, pelo seu livro Luuanda. Há vários protestos de grupos ligados ao regime e a defesa militar do património africano, um assalto à instituição e a consequente dissolução da mesma por despacho do ministro da educação nacional, Inocêncio Galvão Teles. Os escritores Joaquim Paço d’Arcos e Luís Forjaz Trigueiros, em protesto, chegaram a pedir a demissão da sociedade.
Cristãos progressistas – Na campanha eleitoral de Outubro, aparecem vários cristãos que alinham com a oposição democrática, pondo acento tónico na defesa dos direitos do homem e utilizando como bandeira a pastoral de João XXIII.
●Surge também um Movimento Cristão de Acção Democrática, depois da emissão de um manifesto Cristianismo e Política Social. Por seu lado, o Opus Dei lança a revista universitária Tempo, tendo como editor Adelino Amaro da Costa e contando, entre os colaboradores, João Morais Barbosa, Raul Junqueiro e José António Lamas.
●Já o tradicional reviralhismo continua a romagem ao jazigo de António José de Almeida em Lisboa (5 de Outubro) e promove no Porto uma reunião magna dos candidatos da oposição (10 de Outubro). Já
●Nuno Bragança lança o manifesto de uma chamada Resistência Cristã
●Manifesto da oposição defende autodeterminação do Ultramar (14 de Outubro). Subscrevem-na por Lisboa Acácio Gouveia, Adão e Silva, Zenha, Medeiros Ferreira, Sottomayor Cardia, Mário Soares, Raúl Rego, Nuno Rodrigues dos Santos. Pelo porto, António Macedo, Armando Bacelar, Artur Santos Silva, Cal Brandão, Hélder Ribeiro, Olívio França. Por Leiria, Vasco da Gama Fernandes e José Ferreira Júnior. A mensagem é comunicada através de conferência de imprensa realizada no Centro Escolar Republicano Fernão Boto Machado, em Lisboa.
●Comunistas – Realiza-se na URSS, nos arredores de Kiev, o VI Congresso do PCP, que elege um secretariado do Comité Central, com Álvaro Cunhal, Sérgio Vilarigues e Manuel Rodrigues da Silva. Mobilizam-se três dezenas de militantes, cerca de 75% dos quais são funcionários do partido. Participam Silva Marques e outros altos hierarcas de então, como Pedro Ramos de Almeida, destacado em Argel, Francisco Miguel, Pedro Soares, Joaquim Gomes
1966
Magriços, Código Civil e Ponte Salazar, nos quarenta anos do 28 de Maio
1967
Da visita de Paulo VI ao nascimento da LUAR
●Hippies, morte de Che Guevara e transplante do coração – Há dois vetos gaullistas à adesão britânica à CEE (16 de Maio e 27 de Novembro) e dá-se o fim do Kennedy Round, por acordo com os Estados Unidos para
●A desconstrução pós-moderna. É então que emerge Jacques Derrida (1930), com L´Écriture et la Différence, base de certa leitura pós-moderna, quando teoriza a desconstrução, invocando a fenomenologia de Husserl e a hermenêutica de Heidegger. Porque o entendimento apenas é provisório, dado que há um infinito processo de reinterpretação, baseado na interacção entre o leitor e o texto. Entre nós, destaque para Manuel Alegre que lança O Canto e as Armas.
●Grandes inundações em Lisboa (25 de Novembro). Mais de duzentos mortos. Vários estudantes, mobilizados para o apoio às vítimas, começam a publicar um boletim intitulado Solidariedade Estudantil.
●A saga dos papéis da extrema-esquerda: Lançado o boletim O Proletário, órgão do Comité Marxista-Leninista Português, editado em Paris (Maio). Surge em Lovaina o primeiro número dos Cadernos Socialistas com Manuel Sertório e Manuel Lucena, (Julho). Emitem-se, em Paris, os Cadernos de Circunstância com Alfredo Margarido, Fernando Medeiros e Manuel Vilaverde Cabral (Novembro).
●Comunistas: Vaga de prisões de dirigentes comunistas na margem Sul do Tejo (Maio) Agitação entre os bancários, por causa de um novo contrato colectivo (Agosto). Álvaro Cunhal publica em O Militante, de Novembro, um artigo ortodoxamente leninista, A Questão do Estado, Questão Central de cada Revolução, onde considera que a parte do aparelho de Estado que não for destruída no decurso do processo insurreccional deve ser destruída urgentemente, sem perda de tempo, logo após. Se isso não for feito, não só não poderá ser realizada uma política democrática, como a contra-revolução não tardará.
1968
A queda de Salazar e a Primavera de Marcello Caetano, ou a impossível renovação na continuidade
●Homens em tempos sombrios e teologia da libertação – A chamada doença da prosperidade da sociedade de consumo manifesta através de sucessivas revoltas estudantis, com destaque para o processo da universidade de Nanterre em Paris (22-03-1968), que vai desencadear o chamado Maio 1968, num tempo de men in dark time (Arendt, 1968), quando Amitai Etzioni publica The Active Society, Arend Lijphart, analisando o pluralismo holandês, reflecte sobre The Politics of Accomodation, e Leo Strauss reflecte sobre Liberalism Ancient and Modern, quando em França, Jean-William Lapierre editava Essai sur les Fondements du Pouvoir Politique. Nesse mesmo ano realiza-se a Conferência de Medellin do episcopado sul-americano, onde, invocando-se a libertação, a promoção do homem e o desenvolvimento integral, se criticam os pecados sociais da violência institucionalizada e da dependência. É então que o padre Gustavo Gutierrez inventa a fórmula teologia da libertação. Este movimento teológico católico tem paralelo com o movimento protestante da teologia da esperança e dele deriva o processo da teologia da revolução, de carácter marxista, marcante nos anos setenta. A teologia da revolução defendia a conciliação entre o catolicismo e o marxismo e que levou alguns a considerar o guerrilheiro como um jesuíta da guerra ou um Frei Beto a declarar que um cristão é um comunista, mesmo que o não queira e que um comunista é um cristão, mesmo que não creia. Mas a teologia da libertação é um movimento bem mais amplo que passa pelas obras de Jürgen Moltmann, Metz, Harvey Cox. Acontece que a teologia da libertação foi incrementada a partir do Maio de 68 como uma teologia para a revolução, onde o reino de Deus passou a ser considerado como a revolução de todas as revoluções (Helmut Gollwitzer) ou como a salvação da revolução (Jürgen Moltmann), opondo-se à teologia do desenvolvimento e superando a teologia dita da impugnação. Ela transformou-se numa teologia da violência, em oposição aos que defendiam uma ética da não violência
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●Salazar socialista – Nacionalização dos TLP, a companhia Telefones de Lisboa e do Porto (1 de Janeiro). Greve da Carris termina com agradecimento formal e público dos trabalhadores a Salazar, sendo a cerimónia transmitida pela televisão (Julho)
●A nova extrema-esquerda – Surge O Comunista, órgão de uma dissidência do Comité Marxista-Leninista Português, depois da chamada segunda conferência da organização (Dezembro). O jornal é dirigido por um grupo onde milita Hélder Costa, publicando-se até Julho de 1972. Tem ligações aos maoístas do Porto, liderados por Pedro Baptista e José Pacheco Pereira.
●José Pacheco Pereira assume-se, então, como agitador cultural, tentando mesmo boicotar cursos realizados pela Cooperativa Confronto de Francisco Sá Carneiro, onde participa César Oliveira (1941-1997), acusado de tentar difundir o ideário anarco-sindicalista. O futuro defensor e propagandista do cavaquismo quer, então, criar um verdadeiro partido comunista, fielmente marxista-leninista. Há-de qualificar tal atitude como luta pela liberdade, sendo aplaudido unanimemente por toda a grande burguesia devorista que sempre adorou este jogo de fingimentos e cambalhotas que, apesar de radicalmente verboso, não afecta os respectivos interesses, dado que até lhe pede subsídios e avenças.
1969
Da crise de Coimbra às eleições marcelistas
●Da chegada do homem à Lua ao festival de Woodstock. O ano é marcado por esse one small step for a man, one giant leap for mankind, com um ser humano, Neil Amstrong, a locomover-se na Lua (às 22 horas de 21 de Julho), na sequência da viagem da nave Apollo 11. No plano da
●Marxismos imaginários e sociedade imperfeita. No plano das ideias, no ano em que desapareciam Theodor Adorno e António Sérgio, eis que Raymond Aron, na ressaca do Mai 68, contra o qual se ergueu, teoriza as desilusões do progresso e denuncia os marxismos imaginários (Aron), enquanto Milovan Djilas se resigna com a sociedade imperfeita (Djilas) e Carl Schmitt (1888-1986) revê e reedita Politische Theologie, com uma primeira edição de 1922. Na mesma onda, Jules Monnerot, procurando fazer um inventário das mitologias políticas do século, lança Sociologie de la Révolution. Nos Estados Unidos
1970
●Eurocomunismo e subida de Allende ao poder – O ano é internacionalmente assinalado pelas mortes de Charles De Gaulle (9 de Novembro), de Nasser (28 de Setembro) e de Bertrand Russell (2 de Novembro), enquanto sobem ao poder Sadat, Hafez Assad e Allende (24 de Outubro) e se dá a vitória dos conservadores de Edward Heath nas eleições britânicas (18 de Junho). É tempo dos muitos projectos de reforma da CEE, desde a aprovação
●Entre o acaso e a necessidade – No ano em que Paul Samuelson recebe o Nobel da economia, refira-se que o prémio Nobel da medicina de 1965, o francês Jacques Monod publica um ensaio sobre a filosofia natural da biologia moderna, Le Hasard et la Necessité, enquanto Jean-Marie Bénoist proclama que Marx est Mort, enquanto o jesuíta belga, que, no Brasil, é colaborador de D. Helder da Câmara, bispo da Olinda e Recife, Joseph Comblin, teoriza a Théologie de la Révolution. No ano da inauguração da barragem de Assuão e da fundação do movimento Greenpeace, em Amsterdão, o britânico Norman Cohn, inventaria os milenaristas revolucionários e os anarquistas místicos da Idade Média, em The Pursuit of the Millenium e Albert O. Hirschman consagra-se com Exit, Voice and Loyalty. Já o romancista francês Michel Déon publica o grande fresco de Les Poneys Sauvages e o bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes edita uma recolha dos respectivos escritos de 1952 a 1959, Endireitai
●MRPP Fundado o Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado por Arnaldo Matos, secretário-geral, Fernando Rosas e João Machado (18 de Setembro). Surge o
1971
●Da teoria da justiça à poliarquia – No plano das ideias, no ano da morte de Toynbee, se John Rawls elabora o primeiro esboço da sua Theory of Justice, um dos livros mais glosados do último quartel do século XX, onde, criticando-se a perspectiva utilitarista de certo neoliberalismo se retomam as teses kantianas do contrato social, e Robert Dahl teoriza Poliarchy. Surge também a denúncia do positivismo behaviorista, no manifesto Beyond Reductionism, liderado por Arthur Koestler, com Hayek, Piaget e Bertanlaffy e, a partir de Cuernavaca, no México, Ivan Illich vê traduzir-se em França o seu manifesto por uma sociedade sem escola. Neste mesmo ano, morre, em 3 de Março, o actor António Silva, nascido em 1886, que se destacou nas fitas A Canção de Lisboa (1933), O Pai Tirano (1941), O Pátio das Cantigas (1942), O Costa do Castelo (1943) e O leão da Estrela (1947).
●Marxistas, elitistas e integracionistas – Ãlguns intelectuais portugueses ainda navegam na ortodoxia marxista-leninista, analisando o capitalismo (Avelãs Nunes, Gomes Canotilho e Vital Moreira) e Franco Nogueira, que havia abandonado o governo em Outubro de 1969, retoma a tarefa das letras, ensaiando uma teoria geral sobre a traição das elites ao longo da história portuguesa, em As Crises e os Homens. Mário Soares escreve em Roma Portugal Amordaçado e Henrique Barrilaro Ruas lança A Liberdade e o Rei, enquanto o salazarista Pedro
Direitas e esquerdas. Preconceitos de esquerda. Fantasmas de direita.
A esquerda real depende sempre da direita a partir da qual ela se define, e vice-versa. Até porque, para haver esquerdas ou direitas, tem que haver a mitificação de um adversário, onde aquilo que se fantasia ou demoniza no outro leva à definição de cada uma dessas posições relativas. Por outras palavras, a esquerda e a direita não são posições ontológicas nem podem ter uma definição ideológica, válida para qualquer tempo e lugar. E em Portugal, o que temos são preconceitos de esquerda e fantasmas de direita. Aliás, se partíssemos da classificação clássica das direitas e esquerdas, oriunda do galicismo pós-revolucionário, teríamos de dizer que as direitas são os conservadores do que está e as esquerdas, os que querem mudar, pelo que teríamos de concluir que, aqui e agora, as esquerdas são efectivamente a direita, onde não faltam governos ditos de esquerda com programas de direita, depois de governos de direita com estilos de esquerda. Com efeito, coube à França ter caracterizado as opiniões políticas a partir da topografia da Assembleia Constituinte. De um lado a direita, dita dos aristocratas ou dos noirs; do outro, a esquerda dita dos patriotes. E não tardou que se distinguissem os reacteurs ou reactionnaires dos progressistes, para logo a seguir chegasse o termo conservateur, para qualificar todo e qualquer adversário do changement. Era a consagração da visão geométrica da política, onde todas as opiniões teriam de caber num semi-círculo, com largo espaço para outro semi-círculo oculto. Os nossos situacionistas, de esquerda ou de direita, são um símbolo mole daquele situacionismo que ora se revolucionariza com os ditirambos serôdios, ora se fica pelas meditações seraficamente puritanas, marcando os limites de um certo paúl mental, em que continuam a pantanizar-se os intelectuais que dizem servir as ideologias daquelas esquerdas e daquelas direitas que, de vez em quando, reagem contra as obras “The End of Ideologies”, publicada por Daniel Bell em 1960, e “L’Oppium des Intelectuels”, de Raymond Aron, saída cinco anos antes. Por outras palavras, muitas das nossas esquerdas dinossáuricas já se aliaram àquelas direitas de velas de cera e feijões verdes, porque ambas, como dizia o antigo, mas não antiquado, liberal Ortega y Gasset, continuam a ser uma estupidificação típica dos que sofrem de hemiplegia mental e que nos querem binarizar, de forma maniqueísta, conforme a aprendizagem juvenil dos amanhãs que cunha lizam ou Salazar izam. Porque a direita a que chegámos resulta da esquerda que temos, principalmente quando a direita a quem concedem o direito à palavra é a direita que convém à esquerda, onde os que emergem são sempre os que representam as caricaturas do autoritarismo, do capitalismo de faca na liga, com chapéus de coco e almas de corsário, do anti-ecologismo e do colonialismo mais serôdio. Como sou liberal, de cepa burkiana e hayekiana, com pitadas pessoanas, apenas não posso é negar que foi o direitista e conservadoríssimo Churchill o principal bastião da luta da liberdade contra o totalitarismo, quando os comunistas, incluindo os ex-, apoiavam o pacto germano-soviético, e outros mesmos se esqueciam do massacre de Katyn. Eu que sou liberal e que, quase por conclusão, por causa da mentalidade suicida de certa esquerda deste “reino cadaveroso”, tenho que ser, excentricamente, de direita, prefiro até notar que alguns marechais da velha direita têm preferido a falsa síntese salazarista-soarista e continuam silenciados sobre este debate entre a esquerda e a direita, só porque pela esquerda e pela direita governamentais foram, e são, teúdos, prebendados, manteúdos e medalhados. E porque não gosto da “servitude volontaire” dos aduladores de príncipes, nem do falso consenso onde navegam muitos dos nossos “cadáveres adiados que procriam” epitáfios, memórias, discursos que fazem chorar as pedras da calçada e outra literatura de justificação, sempre direi que prefiro os perturbadores do mundo que se angustiam com o futuro e recolhem, à esquerda e à direita, o que, amanhã, perante novas circunstâncias, será das novas esquerdas e das novas direitas. Percebam, pois, os refundadores da esquerda que o dogmatismo não deixa de o ser só porque se pinta de antidogmático e que a Inquisição não deixa de continuar, mesmo quando passa a juntas Pombalistas de reforma de estudos ou a essa forma de policiamento político-cultural, herdeira dos el-rei Junots que nos continuam a invadir. Percebam que, em liberdade, as esquerdas serão feitas com o que muitas direitas semearam e vice-versa. Não se fiem nesses que, mal chegaram às delícias do poder, logo “puseram na gaveta” as ideologias que os levaram ao tal lugar de distribuição autoritária de valores. O PS sempre disputou o espaço que o PSD pensa dele. Sócrates que veio da JSD, quando assumiu o poder disse exactamente mesmo do que Cavaco, nas mesmas circunstâncias. Que eram da esquerda moderna e que tinham como ideólogo Bernstein, o revisionista marxista, quase contemporâneo dos pais de Salazar . Por outras palavras, entre o socialismo democrático do PS e a social-democracia do PSD, há as duas faces do mesmo Bloco Central, onde costuma desempatar a chamada direita dos interesses.Contudo, o tribalismo PS, marcado pelos discursos do “pai ausente”, mas sempre presente, que, enquanto governou pôs o socialismo na gaveta, tem procurado manter o paradigma de certo esquerdismo político-cultural, enquanto os marechais e os organizadores da chamada direita nunca dizem que são de direita e preferem elogiar o situacionismo ou assumir a prebendas senatoriais, pelo que se gera uma espécie de direita que convém à esquerda. Podemos dizer que os preconceitos de esquerda têm sido mais fortes do que os fantasmas de direita e têm conseguido assumir-se como vozes tribunícias de uma certa oposição social, dado que sempre que a direita desce à sociedade civil, sem ser para o negocismo ou o clericalismo, logo o discurso dominante do politicamente correcto a demoniza como populista.
Com fátimas, futebóis e fados, entre tias de cascais na caridadezinha, loureiros no olhão que joga no boavista e ermelindas do gaivota voava, voava
Porque quem é filho de algo consegue sempre que haja um desses normais anormais, das excepções às regras desta amoralidade maquiavélica do neofeudal Bloco Central do situacionismo e lá consegue ascender ao olimpo dos instalados, mesmo que os controleiros desçam aos meandros das burocracias e não consigam ver os bois diante dos palácios, dado que todos eles fazem parte da raça dos macacos cegos, surdos e mudos, apesar de terem lido os versos de Sophia. Depois, lá tenho que aturar o pai do cunha do, a fazer discursos televisivos em comemorações oficiais, clamando contra a presente degenerescência do regime, que terá perdido a utopia. Por isso, ainda ontem, nas aulas, a pretexto do século XVI, lá eu distribuía pela sala, o original de John Gray, Black Mass, do século XXI, onde um teórico da LSE, que não dá cursos práticos de ciências sociais, nos alerta para esta encruzilhada de gnosticismo, incompreensível para toda uma geração que nada sabe de teologia e confunde sucedâneos religiosos com ideologias politiqueiras, quando, na prática, as teorias são outras, dado que, aqui e agora, só funciona a literatura de justificação dos eternos donos do poder, mesmo que as investigações alienígenas nos demonstrem a total falta de difusão da Kantiana ética republicana e a vitória da golpada fidalgueira, bem demonstrada pela fuga ao fisco e pela bandalheira da empregomania, porque nos continuamos a drogar com fátimas, futebóis e fados, entre tias de cascais na caridadezinha, loureiros no olhão que joga no boavista e ermelindas duartes no gaivota voava, voava.