Fev 06

A ortodoxia da heterodoxia, a fé da heresia criativa e o dogma do antidogmatismo

Há uma certa comunhão de coisas que se amam, nomeadamente uma certa ideia de Portugal, que impõe sujarmos as mãos no risco do combate pelos valores, sem sectarismo e sem a habitual sucessão dos congreganismos. E mesmo os ortodoxos têm a angústia de não conseguirem ser, com nome próprio, ortodoxamente heterodoxos. Por outras palavras, os sucessores da pátria de Vieira só têm a ortodoxia da heterodoxia, a fé da heresia criativa e o dogma do antidogmatismo. “Le refus de la politique militante, le privilège absolu concédé à la littérature, la liberté de l’allure, le style comme une éthique, la continuité d’une recherche” não pode ceder aos congreganismos e aos seus irmãos-inimigos anticongreganistas, meu caro “Je mantiendrai”.  E nós que, em termos de carimbo, estamos em aparentes campos inimigos, sabemos que somos irmãos naquilo que vai além das confrarias. Até porque nos cabe a missão de servir, sem procuraramos aquelas honrarias que matam a honra e aqueles academismos que matam a universidade.  Porque ainda há quem, sendo jovem, quer continuar a viver como pensa, sem pensar sequer como depois vai viver. E é para essas correntes que nos ultrapassam que temos o dever de servir as instituições que têm ideia de obra, regras de Estado de Direito e manifestações de comunhão. Claro que o meu companheiro me acusa de milenarista, tal como eu o poderia acusar de seres mais católico do que cristão, como diria Comte, nesta pátria onde os ortodoxos acabam, quase todos, como o ex-anarquista, ex-republicano e futuro monarquista autoritário, Alfredo Pimenta, a sofrerem notas pastorais do Cardeal Cerejeira, onde cada um deles vai lendo a última pé-de-página do manual daqueles inquisidores que levaram Filipe II a ter que mandar o Santo Ofício condenar o padreca, autor daquele sermão que, do púlpito, pediu mais absolutismo para o filho de Carlos V. Só que, aqui e agora, não vale a pena discutir o sexo dos anjos, quando a cidade já está sitiada nas suas entranhas. Se eu tivesse influência, nomear-te-ia para, ontem, fazeres um discurso sobre o nosso irmão Vieira, o do quinto-império, neste tempo de bebedeira dos poderes sem autoridade e dos autoritários empaturrados em salamaleques.

Fev 02

A esquerda caviar e a direita neomonárquica

A esquerda caviar e a direita neomonárquica adoram os que conseguiram sucesso negocista nos meandros da banca e do bolsismo, aqui e além enquadrados pela velha ortodoxia dos estalinistas e dos congreganistas, onde as obras e os retiros espirituais moderaram os vapores dos exaltados republicanos, ou dos extremistas revolucionários.  Entre esta esquerda triunfante e esta direita ortodoxamente vaticana, há sempre ex-ministros de Estado, ilustres advogados de negócios internacionais, ou comemorativos reitores, com fardados académicos, para que se gaste tinta de caneta romba, entre pretensos cronistas-mores do congreganismo anti-reaccionário e do reaccionarismo anti-congreganista. Fica sempre sem direito à moderação a larga planura dos cidadãos de bom senso, os tais que se sentem indiferentes perante as encenações do ódio e da teoria da conspiração, porque a realidade são ministros assinando trezentos despachos na véspera da saída do gabinete e outros tantos carregando toneladas de fotocópias submarinas. É por isso que, por estes dias, quase todos foram escrevinhadores feitos à imagem e semelhança dos sucessivos anais da revolução nacional, em espectáculos revisionistas.  Porque as facções continuaram o tiroteio da guerrilha civil fria que nos continua a enregelar. Quase todos amealharão reais expectativas de melhor sustento nesta engenharia de cunhas, entre corretores e agências de viagens, com untado acesso e água benta nos restos das aposentadorias do sistema Metternich. Por isso, prefiro revisitar e apoiar o sonho dos jovens turcos.. (2008)  ”Je ne suis pas d’accord avec ce que vous dites, mais je me battrai jusqu’au bout pour que vous puissiez le dire”…. Nosso príncipe é fracturante e não recebe lições de democracia de ninguém, nem de Voltaire. Quem se mete com malhadores, leva!

Fev 01

o funéreo dos comemorativismos e o ridículo das bandas militares

Hoje, sinto-me incomodado com o funéreo dos comemorativismos e o ridículo das bandas militares, onde não tem faltado o regresso à guerra civil historiográfica. Revoltam-me, sobretudo, os facciosismos, com tipos de esquerda, que a querem confundir com os republicanos, e tipos de direita, que a querem confundir com os monárquicos. Portanto, o que me apetece desabafar põe-me de mal com os monárquicos, oficiais e oficiosos, por amor da república, e de mal com os republicanos instalados, por amor do rei. Porque, primeiro, continuo monárquico, sem precisar de pedir autorização aos candidatos a bobos da corte e aos habituais aristocretinos. Segundo, porque, para poder ser constitucional e liberalmente monárquico, tenho que ser republicano.  Por outras palavras, primeiro está o pacto de associação, ou de sociedade (“pactum unionis”) e só depois vêm os pactos de constituição e de governo, ou de sujeição. Primeiro, está a república, o Portugal dos Portugueses, e só depois vêm os acidentais regimes e as consequentes facções e partidos. D. Carlos é mais do que a comissão oficial dos neocarlistas, encabeçada por republicanos de há mais de meio século militante, papistas oficiais, grupo que é necessariamente parecido com a comissão oficial que prepara o centenário do 5 de Outubro. Aliás, grande parte dos notáveis poderia coincidir nas duas comissões, dado que muitos parecem exagerar em disputas sobre as literaturas de justificação dos respectivos situacionismos e dos subsequentes revisionismos históricos das autobiografias em prelo e prelaturas. Por mim, acho que o rei e o príncipe real mereciam que, a propósito do respectivo assassinato, não enterrassem mais uma vez a monarquia, à imagem e semelhança da primeira decisão do governo presidido por Salazar , quando determinou funerais de Estado para D. Manuel II.

Jan 31

Parábola de Saint-Simon

Imaginemos que, por estes dias, sem prévio aviso da CIA ou do SIS, um comando de extraterrestres aterrava em Lisboa e assassinava todos os conselheiros do presidente, todos os ministros e directores-gerais, todos os parlamentares, todos os membros dos órgãos directivos dos partidos parlamentares, bem como todos os bispos e presidentes de câmara. Seria bem pior do que assassinarem os primeiros cinquenta cientistas, professores, empresários, engenheiros, negociantes, operários, agricultores, artistas e banqueiros. O primeiro assassinato não fazia mal nenhum à república, porque chegaríamos à conclusão que a fachada do governo não é o governo real, dado que apenas nos interessam os que são verdadeiramente produtores, isto é, os sábios, os industriais, os banqueiros, os negociantes e os operários… A parábola que brevemente enumerei já tem barbas. Foi publicada pela primeira vez por Saint-Simon em 1819, quando ainda se acreditava numa organização social que poderia eliminar o ócio, criando-se um grande partido nacional de verdadeiros produtores, embora se admitisse um grupo restrito de padralhada, para que houvesse meia dúzia de pregadores da moral. Assim, as capacidades poderiam substituir o poder e o governo reduzir-se à dimensão de uma simples máquina “chargé d’affaires de la societé” visando a “harmonie uiniverselle”, nomeadamente com um parlamento europeu, desde que se praticasse o “a chacun selon sa capacité, à chaque capacité selon ses oeuvres”, mas também desde que houvesse o “souvenez-vous que pour faire quelque chose de grand, il faut être passioné”. Foi isto que me apeteceu lembrar, depois de assistir a nova manobra propagandista do governo remodelado e da oposição renovada. Até para recordar que o velho Marx, retomando Saint-Simon, veio proclamar o “de cada um segundo as suas possibilidades, a cada um segundo as suas necessidades”. Uma antiquísima tese, já expressa por Aristóteles e pelos juristas romanos, os quais disseram que importava o “honeste vivere” da justiça geral ou social, o “suum cuique tribuere” da justiça distributiva e sempre o “alterum non laedere” da justiça comutativa dos contratos. O problema sempre esteve na circunstância de cada homem nunca se repetir, de sermos todos iguais, mas de haver alguns que são mais iguais do que outros. Ora, sendo a justiça o mesmo que igualdade, ela tem que tratar desigualmente o desigual e medir a diferença segundo um critério constitucional oculto, o padrão que afere das desigualdades. Porque dar a cada um segundo os seus méritos é ir para a meritocracia e dar a cada um segundo as suas obras é proclamar-se que quem não trabalha não come, São Paulo “dixit”. Daí, os diferentes programas ideológicos dos social-istas e dos liberalões que também procuram a justiça, mais em nome dos contratos do que da distribuição dos bens acumulados no erário, dizendo que a intervenção da caixa geral de recolha dos impostos deve ser apenas supletiva, em nome do princípio da subsidiariedade. Como não chegámos ao fim da história, haverá ainda discussões programáticas nos próximos séculos, pelo que acho mais curiosa a parábola de Saint-Simon misturada com o “mandarim” do Eça. Proponho, portanto, que cada um dos cidadãos portugueses imagine que pode carregar num botão e fazer desaparecer quinhentos dos hierarcas inúteis que nos consomem o imposto. Façamos este exercício académico, apenas para concluirmos como seria útil extinguirmos grande parte dos aparelhos e dos ocupantes dos mesmos, os tais donos do poder que nos consomem até com discursos de música celestial. Ou então sugerir à governação e à classe política que façam greve. Descobriríamos que vivemos em governança sem governo e que a pilotagem automática nos conduziria à realidade. É perfeitamente inútil tirar este e colocar lá aquele, acolitado pelo outro. Prefiro recordar que o péssimo regime que temos é o único onde não houve assassinatos do terrorismo de Estado ou do contraterrorismo subsequente. Acho que a rainha Dona Maria Pia é que teve razão quando optou pela loucura de sempre dizer o que pensava…

Jan 25

Partido dos becas

Dois anos depois do facto consumado, o Tribunal Constitucional veio confirmar que, à excepção de Garcia Pereira, nenhum dos candidatos presidenciais, incluindo o eleito, cumpriu a lei. Não consta que algum deles tenha sugerido aos partidos apoiantes uma simples tentativa de aproximação do direito eleitoral da vida, procurando mais autenticidade naquilo a que os mesmos agentes do principado se vincularam.  Num Estado de Direito, o príncipe está sujeito à própria lei que faz e nem tudo o que príncipe diz tem valor de lei. O povão vai ouvindo e confundindo essas irregularidades com o apito dourado, ou com a impunidade face à corrupção, hoje denunciada pelo novo bastonário da Ordem dos Advogados, onde prometeu apresentar, dentro em breve, casos concretos de pessoas em cargos de destaque nos órgãos de poder.  Vale-nos que somos definitivamente um país de escritos e escritores, sobretudo quando, também hoje se confirma que publicamos 12 500 livros por ano, mais de mil por mês, mais de três dezenas por dia, quase cinco por cada hora de trabalho, isto é, em cada quarto de hora sai um livro do prelo… Mas voltando ao bastonário, o mesmo também decidiu partir a loiça no velho partido dos becas, isto é, dos formados, licenciados ou titulados num qualquer ciclo de direito, atacando as fábricas institucionais que lhes dão canudo e que têm direito a um órgão de soberania próprio. Marinho fala em negócio que dá milhões a muita gente, insurgindo-se, em particular, contra os catedráticos e outros professores de direito, pelo exagerado número de alunos que têm nas respectivas faculdades, porque se instalam nas cátedras e criam um exército de servidores, com gastos escandalosos e vontade de controlar a Ordem. Contactado, o senhor ministro da ciência e das universidades, acusado de representante de tais corporações no governo, emitiu comunicado, onde, lavando as mãos como Pilatos, declarou que nunca recebeu reclamação do bastonário. Ficámos esclarecidos. O bastonário anarquista, porque saudoso de várias ordens perdidas, veio assim, muito corporativamente, introduzir a desordem num dos clássicos segmentos do nosso permanecente corporativismo, reclamando o regresso ao desespero do “numerus clausus”. Muito democraticamente, tratou de denunciar os lucros cessantes e os danos emergentes dademocratização do ensino, na sua vertente de reino da quantidade. Espero que os conselhos directivos, científicos e pedagógicos das escolas de direito, públicas, privadas e concordatárias, inspirados pela táctica do senhor ministro, não façam como a avestruz e metam a cabeça na poeira dos códigos, nas regras de Bolonha e nas leis que apelam para o autofinanciamento das escolas. Já agora, será que alguém, que foi convidado a sair das universidades públicas e privadas portuguesas, por manifesto plágio de dezenas e dezenas de páginas numa dissertação de doutoramento, pode agora exercer o título obtido em Espanha e aqui apenas registado, contribuindo para essas fábricas denunciadas por Marinho Pinto? Eu descobri um deles, noutro dia, ao consultar a Internet… apenas espero que não vá para secretário de Estado das universidades, até porque o partido onde milita ocupa o governo de Portugal. Se houvesse por aí uma qualquer mentalidade liberalmente pública, talvez alguém pudesse sugerir que as escolas de direito passassem mesmo a pessoas colectivas públicas, verdadeiramente corporativas. O governo largava-as das reitorias e dos ministérios e dava-lhes um estatuto equivalente ao da Ordem dos Advogados. O Estado ficava com a maioria das quotas, passando as outras para os advogados, magistrados e antigos licenciados, fazendo interferir, nos actos de avaliação dos alunos, magistrados judiciais, como outrora acontecia. Julgo que esta privatização por corporações, seria passível de revestir uma forma especial de fundação, onde as principais receitas até podiam vir da indústria dos pareceres. Para culminar o processo, também sugiro que se realize uma espécie de concordata entre o principado e estes novos clérigos do neocorporativismo…

Jan 24

Como o totalitarismo doce desta democratura vai lançando as suas teias de medo

A nossa independência é cada vez mais uma gestão de dependências, não apenas no contexto da hierarquia das potências, mas, sobretudo, na flexibilidade que temos de usar face a uma reviravolta nos investimentos de uma ou outra rede de firmas transnacionais. Quando a Autoeuropa tem a dimensão que é confirmada pelas estatísticas, podemos, sem dificuldade, compreender que quem manda em Portugal é quem sabe das reais boas intenções de certos potenciais grandes investimentos que aqui podem aterrar. Sobretudo, quando o interior está desertificado e despovoado e os aparelhos definidores da estratégia nacional não parecem ter em linha de conta essa grande vulnerabilidade. Com efeito, os grandes consultores do nosso desenvolvimentismo pós-revolucionário, entre as lições de estratégia do saudoso comandante Virgílio de Carvalho e as grandes opções dos planos e de Valente de Oliveira e Ernâni Lopes, a que chamaram integração europeia, ainda não fizeram aquele crescimento interior que nos devia recordar a política de D. Sancho I, sem que se caia no habitual folclore do ecologismo e do regionalismo, mal digeridos. Por outras palavras, a culpa está numa estratégia que teve consequências negativas para o entendimento da pátria como um todo de terra e de gente. Agora, estamos dependentes do rebentar da bolha da especulação imobiliária, na precisa altura em que a maioria das famílias se entregou às hipotecas bancárias, por causa da casita que compraram e que pensavam ser um investimento seguro. E a coisa é mais cultural do que económica, embora a prometida lei das rendas facilitasse as opções. Daí que continuemos em contraciclo mental face aos nossos parceiros que mais crescem para cima por dentro, onde os lucros da banca são directamente proporcionais ao endividamento dos indivíduos, propiciando o alastrar do negocismo e dos caloteiros.

Jan 22

De boas intenções higienistas, está o inferno da nossa história cheio..

Julgo que os nossos bem intencionados inquisidores do tal Estado Higienista devem compreender que os bons fins não conseguem remendar os péssimos meios de legiferação que têm de utilizar. Porque a lei proibitiva vigente não obedece aos mínimos de generalidade e abstracção e até parece admitir a analogia em matéria penal, gerando, ao mesmo tempo, uma espécie de direito de segunda ordem, onde as dúvidas e casos omissos parecem poder ser resolvidos por circulares de directores-gerais e inspectores-superiores, eventualmente acordados por pactos e protocolos neofeudais, estabelecidos com associações ditas representativas das chamadas forças vivas, como tal reconhecidas por um burocrata-mor. O espectáculo deu uma péssima imagem tanto dos defensores do Estado de Direito como até de alguns liberais, só porque uma carunchosa legiferação até permite que possa florescer a indústria privada da parecerística, levada a cabo por servidores públicos, em regime de acumulação, coisa que apenas é escandalosa quando se trata de engenheiros autárquicos. Assim se confirmou como, apesar de sermos todos iguais, há alguns que são mais iguais do que outros. Porque a justiça deixou de corresponder ao clássico tratar desigualmente o desigual, ao tal exigir de cada um conforme as suas possibilidades, para que a república possa dar a cada um conforme os seus méritos e, subsidiariamente, conforme as suas necessidades. Por outras palavras, estou a traduzir palavras de Aristóteles e São Tomás de Aquino, repetidas por Karl Marx e que um qualquer Adam Smith subscreveria. Nenhum deles admitiria que uma lei urgente caísse na ratoeira de dar a imagem de estar ao serviço da justa reivindicação tecnocrática dos engenheiros do ar condicionado, isto é, aos únicos que podem refazer todos os sistemas de extracção do ar de todos os prédios existentes em Portugal. Tal como um simples director-geral não pode cair na tentação de ter o privilégio da interpretação autêntica da letra e do espírito de uma lei da República, invocando leis de outros país ou directivas comunitárias, para mandar a ASAE proibir ou permitir o mais comum dos actos dos viciados em tabaco, que podem ser vinte por cento dos cidadãos. De boas intenções está o inferno da nossa história cheio, quando se diz que os meios justificam os fins, desde o enterramento em cemitérios, com Costa Cabral a promover a Maria da Fonte, a Ricardo Jorge a ser expulso do Porto, por causa da peste bubónica. Só ganhou a guerra à Cola Cola, porque estávamos em Ditadura… Por outras palavras, refaçam a lei, senhores deputados! Não permitam que o nosso DGS continue a passar as presentes passas do Algarve, só porque quer cumprir o seu dever. Porque não tardará que muitos tratem de reler as memórias de Zita Seabra para compararem métodos celulares de militância com modelos de serviço público, assumidos pelo mesmo estilo e o mesmo actor…

Jan 17

Do ministro da justiça

A ministerial figura que pousa na pasta da justiça veio dizer que Portugal não é uma república de procuradores-gerais adjuntos. Tal como a que se chama da economia poderá, depois, declarar que não somos uma república de mercadores. A que nos trata da saúde, que não somos uma república de boticários. A que gere as finanças, que também não somos uma república de banqueiros. Acresce que o primeiro-ministro gostaria que o governo não fosse uma confederação de ministérios, onde cada ministério fosse mais do que uma federação de direcções-gerais, assentes em partidos, feitos ajuntamentos de boys à procura de jobs através de cunhas, pressões e grupos de interesse. Talvez fosse melhor que voltássemos a ser uma simples república, à maneira de Cícero, isto é, uma harmonia entre a liberdade, a autoridade e o poder, onde a libertas  deve estar na participação directa do povo na decisão política, a auctoritas, nos órgãos que conservam a memória da fundação da cidade e detêm o poder legislativo, e a potestas, no poder executivo da governança. Seria mais sensato recordarmos os primeiros escritos sobre política, pensados e escritos em português, os do Infante D. Pedro, quando este já considerava que o dominium politicum não tem a mesma natureza dodominium servile. O primeiro tem a ver com a república, o segundo com o dono. Porque nós inventámos a política para deixarmos de ter um dono. Aliás, ele já visionava a comunidade política como uma espécie de concelho em ponto grande, proclamando deverem os príncipes promover o bem comum, dado que por esto lhe outorgou deos o regimento, e os homees conssentiron que sobrelles fossem senhores.  Salientava que, então, já não se vivia no soingamento  do dominium servile, tendo algo da liberdade do dominium politicum, daquele que institui o aliquod regitivum, que não nasce do pecado original, mas é outorgado ao rei pelo consentimento dos homens. Porque já éramos república antes de haver republicanos e monárquicos, e de os monárquicos, feitos bobos de uma corte que não há, fazerem política de imagem com adesivos republicanos e viracasacas monárquicos, esses ecléticos que variam conforme as conveniências e detestam todos os monárquicos que, antes de o serem, já eram republicanos, só porque aqueles caquéticos do costume confundem a monarquia com a tirania, ou o mais doméstico despotismo, mesmo que seja o da teocrática mistura do trono e do altar, ou da mesa do orçamento e do mecenato, benzida pela sacristia do mais do mesmo.

Dez 31

Escrevendo num teclado Ataturk, por uma Europa sem fronteiras

Estou na Rua Pera de Istambul, que tambem e Bızancıo e Constantınopla, escrevendo num cıbercafe com teclado turco, onde foi difıcil encontrar os iii e onde nao consigo ate meter acentos. Apenas noto que, neste porto que e porta do ser, vale a pena a encruzılhada que podemos viver entre o velho e o novo mundo, entre chegadas e partıdas para muitas rotas. Apenas confirmo que sera um erro hıstorico nao permitir que a bandeira das doze estrelas possa flutuar na torre de Galata, assım encerrando episodios como os das cruzadas, ou da conquısta otomana de 1453. A Europa da Uniao Europeia se nao der esperança de adesao a estas massas humanas deixa de reconhecer que foi da mıstura de Bızancıo com as escolas de filosofia arabes que surgiu o seculo XIII que fundou o chamado Ocıdente, graças a reaprendizagem que fızemos do dıreıto romano e da fılosofıa grega, bem sıntetizada na triade da força, sabedoria, beleza, os nomes todos de Deus, como podemos ler na ıgreja de Hagia Sophia que Ataturk teve a grandeza de passar de mesquita a museu. Foi neste cruzamento de poder e pensamento que se estruturaram os prıncıpaıs pılares das nossas concepçoes do mundo e da vıda. Sem esta porta aberta ao mar ınterıor que e encruzılhada de cıvılızaçoes, nao poderıa ter sido semeado o projecto de abraço armılar, sımbolızado pela porta de Lısboa. E se nao soubermos dar carınho selectıvo a estas memorıas de comunıdade de destıno no unıversal, atraves desta bela mestıçagem do complexo, nao saberemos tırar liçoes das belas experıencıas de ımperios que aquı se guardam. Aquı penso em Alexandre, em Atenas, em Roma e em todas as civilizaçoes unıversaiıs que se lıbertaram da lei do poder. Istambul, como Lısboa, tambem e uma cıdade feita por subscriçao planetarıa. E com esta Turquıa, a Europa sera maıs Europa. Porque sera maıs um pedaço da Europa que vai alem dos acidentes geografiıcos a que chamamos continentes. A Europa sera maıs Europa porque tera maiıs um pedaço da Europa que vai alem da Europa. E podera retomar a Terceira Roma ou o Quiınto Imperıo, pela diluiçao de todos os iımperıos em todos os outros, nesse projecto de republıca universal, ou de super-naçao futura. A Europa sera definitivamente uma Europa sem fronteiıras. Um bom ano!

Dez 28

Sabe tão bem sentir o silêncio de estar vivo Sabe tão bem sentir o silêncio de estar vivo

Mais um magnicídio, agora no Paquistão, na fronteira dos impérios, numa potência nuclear, no choque dito das civilizações, na luta pela democracia. Por cá, PS, PSD, CDS e outros discutem varas, não recordam cardonas, brincam a catrogas, a loureiros, a cadilhes e a pinhos, nessa barganha do Estado e dos oligopólios, com advogados dos grandes escritórios a comentarem. O estado a que chegámos são eles, as novas famílias que sucederam às anteriores famílias, dos tradicionais donos do poder. Todos atiram pedradas às vidraças dos outros e nem reparam que, quando chegam a casa, também têm as suas quebradas pelo Pedro da Silva Pereira e pelo Rui Gomes da Silva em glosas sobre a cunhocracia. O Estado não somos nós. Por isso prefiro recordar o eterno, repetindo o que escrevi há dois anos. É tempo de Natal, quando a chegada do solstício nos dá sinal da mudança do tempo, do novo ano que nos poderá trazer viragens de esperança na procura do tempo que apetece, quando efectivamente apetece olhar dentro de mim e continuar a viver assim, na felicidade de viver, diante de um tempo que devo sentir e aprisionar sem que as teias da devassa me sufoquem e angustiem. Porque sabe tão bem sentir o silêncio de estar vivo, sabe tão bem suster a respiração e viver o estar feliz, com tanta gente à minha beira. Assim, olhando os olhos do sol e sentindo o azul da distância, para me poder navegar em verso. Que os outros dias e outros anos possam chegar assim dentro de mim. Porque há períodos em que devo fazer uma pausa na análise comportamental da politiqueirice lusitana, quando, cumprindo o ritual de começar a escrever, de escrever por ter mesmo de escrever, por ter o prazer de escrever-me, sentir a maneira como a caneta vai levando letras ao papel, comparando-as com outras letras da mesma caneta, noutros dias sentidas e desenhadas. Que assim compreendeo porque, sendo o mesmo, através das mesmas mãos, vou variando dentro de mim, perante novas circunstâncias. Porque todos os dias procuro na palavra aquela voz interior que preciso para poder expressar quem sempre fui, diante das novas circunstâncias que os novos tempos me trazem. Porque todos os dias também os dias variam de nuvens, de sol, de calor e frio. Porque a mesma janela aberta para a mesma rua me vai trazendos momentos diferentes da mesma cidade, pedaços de um movimento que, dia a dia, se não repete. Na gente que passa, no miúdo que grita sua alegria, na música que se vai ouvindo na vizinhança, nas novas flores que a gente que passa vai trazendo em suas roupas. Até voltei a sentir o prazer de voltar a olhar, do miradouro, o rio que nos dá mar, o sabor da raia redonda, do gelado de azeite, da sopa de abóbora, da sala de almoçar no alto da colina. Sobretudo, uma cidade a que posso chamar nossa, plena de um sol seco de inverno, e de um frio que dá às casas as dimensões da imaginação vivida. Sobretudo, nesta Lisboa inteira, descendo para a distância, nesta cidade plena de calor e luz, ao fim da tarde.