Neste dia da Senhora da Conceição, rainha de Portugal, e de cimeira euro-africana, a maior das cumeadas políticas até hoje realizada em Portugal, apenas se confirma que a falta de justiça na distribuição da riqueza é directamente proporcional às degenerescências da política, como são, e sempre foram, as tiranias, as oligarquias e as ditaduras das maiorias, para não falarmos nas variantes da cleptocracia, do nacionalitário, do tribalismo, dos senhores da guerra e do fundamentalismo. Por isso, começo por encimar este postal com a Acta Final da Conferência de Berlim sobre a partilha de África, de 1885, onde não faltou o próprio imperador dos otomanos. Não nos incomodemos com as polémicas mugabianas ou com o espectáculo de Kadafi, com as suas tendas, amazonas e tiradas, onde não faltou conferência universitária, mas sem que um reitor lhe dissesse, olhos nos olhos, o que um reitor norte-americano disse ao presidente do Irão, em situação paralela. Ficou o pedido líbio sobre a urgente necessidade de os europeus indemnizarem os africanos por causa da colonização. Tal como os descendentes do Império Romano e dos reinos bárbaros poderiam solicitar idêntica indemnização aos invasores árabes. Ou um lusitano reclamar coisa parecida à República Italiana pela morte de Viriato. Para não falarmos nos bantos que se estabeleceram em Angola depois da chegada de Diogo Cão à foz do Congo. Por mais cuidada que tenha sida a preparação desta cimeira, não é desta que podemos assinar um projecto de reconstrução de uma comunidade de destino no universal, capaz de ultrapassar as vergonhas naturais geradas pela Conferência de Berlim, em nome de Deus todo poderoso. Apesar de nem todos lermos a cartilha de Frantz Fanon, ainda não é possível apagarmos as memórias da escravatura e o travo amargo da revolta, do sangue e da derrota, nesse África, Adeus, com muitos fantasmas e preconceitos, tanto da guerra como do ódio racial. Basta notar as muitas pequenas histórias que todos vão recontando, sobre os processos do colonialismo e da descolonização, entre as guerras coloniais e as guerras civis que todos fomos semeando. E não há missões civilizadoras, laicas ou cristãs, bem como cooperações, negócios, ONGs, acordos culturais, ou parcerias para investimentos que sejam suficientes para podermos olhar o sol de frente. Isto é, a reconstrução da necessária comunidade de significações partilhadas que faça, do Mediterrâneo e do Atlântico, os mares interiores de uma construção conjunta. Por outras palavras, há sempre consequências domésticas dos grandes actos internacionais. E nada pior do que os essencialismos, tipo homem africano ou homem europeu. Como se eu fosse otomano, ou o líbio fingir-se de bosquímano. O que não subscrevo é o recente discurso de Sarkozy em Dakar: le drame de l’Afrique, c’est que l’homme africain n’est pas assez entré dans l’histoire…jamais il ne lui vient à l’idée de sortir de la répétition pour s’inventer un destin… (26 de Julho). Em vez do hegelianismo de direita, prefiro o teilhardiano Senghor e não quero reclamar a Paris indemnizações por ter napoleónicas intervenções armadas, com provados roubos e violações. Prefiro a Europa unida e a cooperação euro-africana, mesmo que haja brumas na memória.
Neste pobre aquém-mar, onde navegar deixou de ser preciso e o viver passou a ser sobreviver
Saiu mais um barómetro da ONG “Transparency International” sobre sinais da chamada compra de poder, ou corrupção. Continuamos a não perceber que os países onde há menos corrupção são, precisamente, os mais liberais e os mais capitalistas do mundo. Isto é, os que melhor casam a ética social da honradez com as regras do jogo do capitalismo global, onde, ao lado dos velhos protestantes, já aparecem católicos e alguns orientais. Por outras palavras, os que deram ao individualismo e ao personalismo a autonomia das morais tradicionais e que, a partir deste humanismo, enquadraram a economia de mercado com estaduais normas, mantendo as portas e as janelas abertas, sem medo dos resfriados, porque apostaram nos anticorpos identitários. Por cá, temos a corrupção que merecemos, coisa que disfarçamos com o presente “voyeurismo” mediático sobre as pontas visíveis de tal “iceberg”, as que as polícias e os magistrados conseguem processar, entre “furacões” e “apitos dourados”. Se calhar, o principal culpado pela corrupção é o próprio sistema educativo, das famílias e das escolas, quando não consegue dar formação de autonomia aos indivíduos, quando desnormativiza aquilo que deveria ser o não mal-educado. Porque não queremos assumir aquela cultura demoliberal, segundo a qual o Estado está acima do cidadão, mas o homem, acima do Estado. Porque se a política é a ciência dos actos do homem enquanto cidadão, enquanto membro da república, da “polis”, ou do Estado, e a economia, a ciência dos actos do homem enquanto membro de uma entidade económica (“oikos” em grego, “domus”, em latim), já a moral é a ciência dos actos do homem enquanto “indiviso”. Por nós, entre o beatério hipócrita e o revolucionarismo frustrado, entre a saudade passadista e a utopia dos “amanhãs que cantam”, pouco valor damos à moral do pensarmos pela nossa própria cabeça, para vivermos como pensamos, sem pensarmos, depois, como, com coerência, iremos viver. Ao enredar-nos em colectivismos de seita, entre as memórias inquisitoriais e as ilusões comunistas, não conseguimos passar das regras individuais à urgente subversão pela justiça. E desprezamos a educação pelos exemplos de vida, o respeito pela palavra dada e o tribunal do remorso. Ainda não actualizámos a velha tríade liberdadeira do liberalismo político, do liberalismo moral e do liberalismo económico. Se tivemos, outrora e agora, algum liberalismo democrático, bem como o lastro da evangélica democracia da sociedade civil, ainda não nos libertámos do absolutismo, ainda não admitimos que inventámos a política para deixarmos de ter um dono (de “dominus”, chefe da “domus”, de “despote”, chefe da “oikos”). O Estado ainda são os eles, os donos do poder e os ministros que querem tê-lo sido, bem como os outros partidocratas, dos eurocratas aos autarcas. O Estado ainda não é “polis”, ainda não é “respublica”… Falta também um núcleo duro de liberalismo moral, apenas resistente no arquipélago dos círculos do humanismo cristão e do humanismo laico, nomeadamente nas memórias maçónicas. Logo, a eficácia do liberalismo económico é quase mesa pé de galo, pois ele foi importado a retalho, continuando economia privada sem economia de mercado, com muito devorismo e feudais “gentlemen’s agreements”, para a conquista do proteccionismo do estadão, mas sem concorrência salutar e efectiva entre os agentes económicos. E o lastro de colectivismo de seita, bem demonstrado pela aliança entre os ditos progressitas cristãos e os ditos comunistas, gerou aquele vanguardismo dos que procuram monopolizar o caminho e a verdade para o além, ou assumir-se como o sol da terra deste pobre aquém-mar, onde navegar deixou de ser preciso e o viver passou a ser sobreviver.
Só a moral é alternativa ao Estado a que chegámos
Reparo que o star system da Europa em movimento está bipolarizado entre o jogging de Sócrates, a tenda do líbio que vai conferenciar ao salão nobre da Clássica de Lisboa, depois de um anúncio de página inteira que comprou ao jornais mais intelectual de Lisboa, as brilhantes palavras do petroleiro revolucionário reduzindo a oposição ao substantivo com que ele encheu a boca e, acima de tudo, a grande frase daquele que hoje mais intusiasma os conservadores e socialistas da Europa, Sarkozy: Je ne suis pas un théoricien, je ne suis pas un idéologue, je ne suis pas un intellectuel: je suis quelqu’un de concret. Por mim, homem comum, pouco me entusiasmo com esta concretude. Não quero ter que escolher entre o Chávez, o Líbio e os camelos, neste deserto de ideias. Prefiro reparar que continuo a ser liberal. Daqueles que ainda compreendem Espinosa, Adam Smith, Adam Ferguson, Montesquieu ou Fernando Pessoa. Por isso, gostaria de poder alinhar num movimento que recuse, do presente capitalismo global, a máxima, segundo a qual importa é o “tudo para nós e nada para os outros”. Para mim, “o sistema moral engloba o sistema económico, gerando as sábias virtudes do esforço, da honestidade e da habilidade, e os laços sólidos pelos quais aceitamos as nossas responsabilidades uns para com os outros, os hábitos de cooperação, o sentido moral de que depende o mercado”. Citei Smith, citado por um político actual da Europa, um professor de história, antigo reitor de uma velha universidade. Porque importa “o aperfeiçoamento da sociedade civil e o sentido moral como necessário ao progresso”. Porque “a moral é alternativa ao Welfare State”. Para que a mão invisível se case com uma mão segura. Por outras palavras, as frases são de um tal Gordon Brown. Reparo também que noutras águas da dita esquerda, para os lados de França, surgiu o movimento de “Les Gracques”, contra “os reflexos neomarxizantes” e as “bricolagens ideológicas” que enredam o PS francês. São eles que invocam Espinosa e Montesquieu, pretendendo assumir o liberalismo político. Por estas e muitas outras é que continuo liberal. Do liberalismo moral, do liberalismo político e do liberalismo económico. Se a direita a que chegámos mistura os “slogans” do liberalismo económico com o “jogging” e a “concretude”, continuarei a defender a trindade e penderei para o lado dos que invocam as duas primeiras pessoas da revolução atlântica, iniciada em 1640 e que passou pela revolução inglesa, pela revolução norte-americana e pelos demoliberalismos. A que invoca Locke, Montesquieu e Burke e que agora invoca o quadro da mão segura e da mão invisível, com pensamento e entusiasmo.
Paroquialismos, vacas sagradas e dilúvios que o não são
Todos temos uma pequena pátria, incluindo os que foram obrigados a migrar para esta cidade feita por subscrição nacional, a que chamamos Lisboa. A minha pátria é a casa onde nasci, a que está à esquerda da Sé, a encerrada maternidade Bissaya Barreto que servia de plataforma entre a cidade dos futricas e a dos doutores. Paroquialismo, por paroquialismo, prefiro as serenatas da Sé Velha. Os senhores burocratas e partidocratas, sejam chefes de segunda ordem, directores, autarcas, ministros ou eurocratas, são especialistas em eternos erros de cálculo. Porque não conseguem adaptar a prospectiva à conjuntura e vão dando, a esta, o nome de estrutura. A única certeza que podemos ter não está na futurologia das circunstâncias, mas antes em procurarmos o eixo de eternidade em torno do qual vai circular a roda da história. Porque não é a história que faz o homem, mas antes o homem que faz a história, mesmo sem saber que história vai fazendo. E não há nada de mais historicamente comprovado do que o falhanço das sucessivas “révolutions d’en haut”, programadas pelos errados “catecismos dos industriais” com que nos querem escrever antecipadamente as novas religiões da humanidade, em nome da “ordem e do progresso”. Porque a história não é o produto das boas, ou más, intenções de um, ou de alguns dos homens, mas antes o resultado da efectiva acção de todos os homens. Logo, torna-se urgente uma nova engenharia de desconstrução dos gnosticismos que nos enredam, principalmente dos neodogmatismos, ditos antidogmáticos, que ocuparam os livros de estilo do pensamento único que nos continua a adiar, embora vá engordando em aparelhismo. Quando precisávamos de mais calcificada estrutura óssea, de mais agilidade muscular, de mais flexibilidade cerebral. Para podermos regressar à razão inteira, àquela razão complexa que nunca decepou o lume da profecia.
À procura do ovo de Colombo
Infelizmente, em termos globais e de comparações europeias, as universidades portuguesas não passam de uma federação de unidades fragmentadas que não respeitam a missão que o povo lhe confiou. Seria melhor que Cristóvão Colombo trouxesse o seu ovo e o conseguisse pôr de pé através de um simples furo. Porque, entre muitos e doutos especialistas em troncos, ramos e folhas de árvore, há raros que façam a avaliação global da floresta. Prenhes de hiperinformação e metodologismos de super-especialistas, transformámos os vários ramos científicos numa renda de bilros da micro-engenharia dos conceitos, sem tronco, raiz ou cabecinha. E, na barafunda ramalhal, acabam por se reproduzir em epidemia os teólogos e cogumelos do educacionês, bem como os burocratas do sobe e desce regulamentar. Seria melhor chamarmos o elefante branco pelo próprio nome, neste cumular de reformismos sem estratégia. Antes que o dono do sistema educativo, o senhor povo que o paga, trate de se revoltar contra o misticismo dos politiqueiros disfarçados de tecnocratas e dos tecnocratas disfarçados de politiqueiros. Seria melhor ouvir os professores que professam e os alunos que querem aprender. Porque o dito cujo, de tão autofagicamente endogâmico, ao cortar as pontes que o ligavam à comunidade que devia servir, perdeu até aquele bom senso que deriva do conhecimento modesto acerca de coisas supremas. Daí que se mostre difícil dar simples cura a esta complexidade, porque, de pretensa profiláctica, está a epidemia cheia. Por outras palavras, se mantivermos as presentes regras do jogo, pedindo à caixa negra sistémica e sistemista que produza auto-reformas apenas agravaremos as degenerescências corporativas e feudalizantes de tal círculo viciosamente endogâmico.
Chávez, Putine, Marinho e o banqueiro anarquista
O dezembrismo, a nível da política global, parece enredado na antiquíssima degenerescência da democracia, o cesarismo. Se na Rússia, que vai até a Vladivostoque (em russo, a dominadora do Oriente), Putine deixará a presidência, mas com uma esmagadora maioria parlamentar que o fará aceder a primeiro-ministro, já nos calores do Petro-Estado venezuelano deu-se mal com os referendos e não conseguiu, pela via do voto, entrar no vitalício dos césares de multidões. Por cá, com águias e leões sem muita tranquilidade, por causa das ressacas tripeiras e leirienses, apenas nos orgulha mais uma sessão de “jogging” do nosso primeiro, agora interrompendo a principal rua da capital da Índia. A única novidade está em quase três quartos de hora de entrevista em directo de um banqueiro anarquista, onde, sem Papas na língua e sem pesar as palavras, se emitiram palavras como roubo, garotada e pouca vergonha, relatando coisas que nem em África já existiriam. A vítima foi gente do Opus Dei e de uma ilustre e cimeira instituição do capitalismo financeiro do Portugal que resta. Tal como um elefante num armazém de porcelana, a imagem de banqueiros e de políticos, que estes recrutam para a fiscalização e a assessoria, ficou sujeita aos vicentinos plebeísmos. O situacionismo, entre as águas chocas e o pantanal, já não pode tapar com a habitual peneira da retórica oficiosa este foco de instabilidade. Já não há discursos de música celestial que aguentem este ensurdecedor ruído que tratou de chamar os bois pelos nomes. Por outras palavras, chegou o neopopulismo entre as manifestações para as massas do capitalismo financeiro. Resta saber se estes movimentos de mudança retórica pretendem mudar alguma coisa para que fique tudo na mesma. Com efeito, os dados que se vão conhecendo sobre os meandros banqueirais, se não têm o picante das velhas histórias de Alves dos Reis, apenas mostram a urgência de um qualquer novo romance de costumes que retrate este ambiente de apodrecimento do Bloco Central de interesses, onde os apadrinhamentos não têm o dramatismo mafioso, mas os brandos costumes do amiguismo, à empregomania e ao salve-se quem puder da moral do sapateiro de Braga. Por outras palavras, apenas confirmam a velha lei do Portugalório das minúsculas com a mania das grandezas, onde o importante não é ser ministro, mas tê-lo sido. Os banqueiros e gestores de conta, em cumplicidade com a classe partidocrática, costumam sempre compensar os bons alunos do sistema, ao mesmo tempo que vão semeando influências e patrocínios junto dos jornais e dos intelectuais. A engenharia de influências, neocorporativa e neofeudal, conseguiu transformar aquilo que eram os tradicionais conceitos de serviço público, resistência cultural e independência académica numa massa invertebrada, sem princípios, crenças e valores. Apenas domina o clássico utilitarismo do homem de sucesso, segundo o qual o que importa é o máximo de prazer com um mínimo de dor, onde sempre tem razão quem vence. Assim, segundo este pensamento único, a moral deixou de ter a ver com a autonomia dos indivíduos e já não consegue identificar-se com concepções do mundo e da vida daquela moral social a que alguns chamam ética republicana. Refiro-me à de Kant e do Estado de Direito e não à de Afonso Costa e de Mário Soares, dado que esta padece de alguns desvios bolivarianos. Por outras palavras, abrimos as portas a certas interpretações que levam alguns a convencer-se que não há moral cívica terrena, permitindo que seitas, religiosas, ideológicas ou fundamentalistas, a pretendam assumir como monopólio do além. E, raspado o verniz, tornam-se patentes os mecanismos de subterrâneo controlo do poder infra-estrutural do situacionismo: o neocorporativismo que o não parecia; o neofeudalismo que se ocultava. A estátua da hipocrisia social parece ceder pelos respectivos pés de barro. Um quarto de hora antes de morrer o situacionismo pós-revolucionário continua a conjugar a velha esquerda politiqueira com a mais velha direita dos interesses, onde líderes socialistas, sociais-democratas e democratas-cristãos disputam o pódio dos feitores dos ricos. Resta saber se resistem à destruição criadora desta revolução sem PREC que passa pelo mercado ibérico, pela integração europeia e pela globalização, realidades que estilhaçaram as antiquadas políticas proteccionistas do nacionalismo económico e do condicionamento industrial. Isto é, o nosso velho capitalismo pouco liberal, ao deixar de ser doméstico, não parece aguentar o anterior quadrado banco-burocrático do rotativismo. As velhas costuras que resguardavam esta estufa das ventanias da liberdade de circulação de pessoas, bens e capitais ameçam rebentar, assim se demonstrando como a nossa economia privada, bem longe de ser uma economia de mercado, foi afinal feita sem as burguesas virtudes burguesas dos míticos cavalheiros da indústria, antes de haver financiamento partidário. Nasceram daquelas pós-revoluções situacionistas que sempre praticaram a privatização dos lucros e a nacionalização dos prejuízos.
A única coisa que não passa é o que passa sem cessar
A única coisa que não passa é o que passa sem cessar, o tempo A melhor forma de procurarmos a felicidade está em vivermos como pensamos, sem pensarmos como assim vamos vivendo. Isto é, sem conjugarmos utópicos ou ucrónicos amanhãs que afinal não cantam. Porque talvez seja mais fecundante vivermos cada um dos dias que nos restam como se cada um deles fosse o último. E lá vai crescendo esta minha arca de escritos inúteis, estas palavras que, dia a dia, vou semeando, estas quotidianas peregrinações “ad loca infecta”. Tout s’anéantit, tout périt, tout passe : il n’y a que le monde qui reste, il n’y a que le temps qui dure. [Denis Diderot] Pessoa a pessoa, a sociedade é uma complexa pluralidade de comunitárias pertenças, com muitos vizinhos em sucessivos círculos dialécticos. Aliás, dialogar é pôr em comunicação o logos, o discurso, enquanto sinónimo de razão. Le temps est le rivage de l’esprit ; tout passe devant lui, et nous croyons que c’est lui qui passe [Rivarol] É preciso descobrir que é o “outro” que nos faz “eu”. É o “nós” que nos permite descobrir que é por dentro de cada um que as coisas realmente são. Que só dentro de cada um, no situado trasncendente, há o dever-ser que é. Le temps est une invention du mouvement. Celui qui ne bouge pas ne voit pas le temps passer [Amélie Nothomb]. O tempo é espera, esperança, esfera. A tal espera que nos dá esperança, a eternidade que nos permite aceder a esse armilar a que chamamos cosmos e que todos os dias temos de imitar, para crescermos por dentro. L’espace change, l’univers se dilate, et la seule chose qui ne passe pas, c’est ce qui passe sans cesse, le temps [Jean d'Ormesson]
Esta coisa de ser vertebrado atrapalha muito num mundo de esqueletos no armário e consciências reduzidas a escória…
Por estas tascas e cafés de bairro, por onde passava o Eduardo Prado Coelho e ainda vagueia António Lobo Antunes, restam dois ou três peregrinos da intelectualidade castífera e capitaleira, com que, de vez em quando, deparo na solidão das mesas, todos lendo pausadamente o jornal “Público”, todos carregando o último livrinho encomendado a Londres ou a Paris, todos olhando o povo que vai aos balcões tomar a biquinha como uma multidão alienígena. Se alguns foram meus conhecidos dos bancos e bares das faculdades, com todos esses fazedores de vanguardas progressistas e reaccionárias, não me apetece conversar nem sequer saudar, até porque não estou minimamente interessado em aceder ao respectivo sindicato das citações mútuas, com os consequentes subsídios em circuito fechado, nomeadamente nos júris clandestinos das selecções avaliadoras. Não faltam sequer os ilustres angariadores de patrocínios para seminários, “workshops” e conferências que, de uísque em punho, vão engenheirando a respectiva caça ao favor, trocando telemóveis da fauna bancária e empresarial que ainda acredita que assim se faz o marketing e a política de imagem. E tal como no anterior sindicato das citações mútuas são os ditos que emitem adjectivações sobre peritos que podem mobilizar para a procissão, sobretudo os que não requerem “cachet”, mas apenas prendinhas da loja dos trezentos. Por mim, prefiro gerir meus pareceres sem cedência a esse grupo de amigos que cordialmente se odeiam, apoiando os que têm mérito, apenas em nome da justiça.
Europa, Sistema Eleitoral e Greve: Faz falta ouvir a malta
Estranhei, ontem e hoje, certos “mails” e mensagens que me davam em directo na RTP2, ontem, e na RTÁfrica e na RTPInternacional, hoje, quando eu continuo em quarentena. Depressa me foi dado concluir que se tratou da transmissão do programa “Entre Nós” da Universidade Aberta, gravado na semana passada. Aqui fica o esclarecimento. Em directo, sobre o tema, apenas estarei no Café Europa da Universidade Fernando Pessoa, no Porto, mas no dia 6 do próximo mês, assim recupere desta Viradeira. Para continuar certos registos, noto que a Rádio Renascença, do passado dia 27, transmitiu o meu comentário à recente manifestação inequívoca do Bloco Central de interesses, que visa a bipolarização partidária. Também hoje a revista Visão traz comentários meus sobre o ambiente social-sindical, nas vésperas de uma Greve, onde Faz falta ouvir a malta. Registando a comunicação, aqui deixamos a versão integral do nosso depoimento: Na sua opinião, como é que o poder político olha para as manifestações dos trabalhadores? Como «honestas» manifestações de descontentamento? Como manipulações de outros partidos? Como provas de vida dos sindicatos? Com desprezo ou com preocupação? Julgo que o chamado poder político nacional, no contexto da globalização e da integração europeia, já funciona em regime de pilotagem quase automático, dado que a maioria dos factores de poder que consegue gerir já não são intra-nacionais e, mesmo no plano nacional, há uma contabilidade de orçamentações plurianuais e até inter-geracionais. Logo, um qualquer governo sabe, que acima de tudo, tem que gerir dependências ditas internacionais e interdependências globais. As ditas manifestações de trabalhadores não passam de mais uma das pressões que entram na caixa negra daquilo que alguns qualificam como governança sem governo, algo que se contabiliza friamente como mais um incêndio florestal, uma cheia ou uma pequena catástrofe natural. A não ser que dê em tsunami e provoque um curto-circuito no sistema global, coisa pouco previsível, dado que, como Jacques Delors definiu a Europa, ela consegue viver com um terço de excluídos sociais, desde que garanta uma contenção, ou uma pequena melhoria de rendimento dos dois terços do centrão sociológico, dos remediados da classe média baixa que, entre nós, sustentam os partidos do Bloco central que, aliás, também são as secções portuguesas das duas multinacionais partidárias dominantes na Europa (PPE e PSE). – E os media? Dão notícias das manifestações em França, mas por cá, aquela que juntou 200 mil pessoas no Parque das Nações a propósito da cimeira europeia, pouco mais mereceu que uma nota de rodapé. Será uma questão de credibilidade dos sindicatos portugueses? De discurso? Quanto a credibilidade, basta assinalar que o líder da CGTP é mais qualificado academicamente que a maioria dos ministros e dos dirigentes das associações patronais, assim revelando que está prestes a patentear-se uma nova forma de questão social, não prevista por Karl Marx e Álvaro Cunhal, a emergência do proletariado intelectual. Com 65 000 licenciados no desemprego, talvez surjam manifestações de massas das pretensas elites, esses novos clérigos donde podem surgir novos fundamentalismos, provocados por certa ditadura da incompetência na organização do trabalho nacional, na vertente da formação e do sistema educativo. Claro que os sindicatos, agarrados à velha questão social do século XIX, no marxismo ortodoxo do cunha lismo cêgêtêpista, ou à questão social-democrata do relatório Beverigde, fundador do Welfare State do pós-guerra, na versão do Engenheiro Proença, ainda não entraram no século XXI. – O que precisam os sindicatos de fazer para ganhar relevância política em Portugal, como têm em França ou na Alemanha? E para mobilizar os trabalhadores? A embriaguez discursiva dos aproveitadores das velhas lutas de classes não tem permitido inventariar as vítimas da novíssima questão social, esses novos marginais da globalização, da europeização e do chamado desenvolvimento situacionista, os quais são a efectiva realidade deste pretenso paraíso que, sem qualquer espécie de solidariedade, lança no desemprego essa nova forma de escravatura doce. A sociedade que estamos a gerar, para garantir os pretensos direitos adquiridos de cerca de dois terços de instalados, lança as novas gerações no precário da falta de esperança. E porque os privilegiados têm o monopólio da palavra e do reformismo, continuam a música celestial das reformas do sistema de ensino e da luta pela qualificação, pensando que todos os jovens têm que ter o futuro dos “jotas” da partidocracia, dos sete aos setenta anos, que eles empregam como assessores e adjuntos, através da velha encomendação neofeudal da cunhocracia e do clientelismo, sem vergonha. Basta notarmos como começam a surgir pequenas organizações contra o precariado, esses que sabem o que significam palavras como “call center”, estágios, bolsas, recibos verdes e contratos a prazo e que não podem constituir família, ou comprar casa, mas até pagam imposto.
A partidocracia corre o risco de se tornar numa federação entre caciques, locais e regionais, e uma casta de políticos profissionais
Para além do folclore das reivindicações e do apoios, um redivivo rotativismo decidiu entrar em ditadura sistémica, procurando feudalizar, em bipartidarismo, mas sem bipolarização, o monopólio da representação política, numa altura até em que o PS e o PSD são secções nacionais das principais multinacionais partidárias da Europa. Por outras palavras, já não serão precisos mais golpes violentistas de chapelada para que, no futuro, tudo continue como dantes. O anunciado “gentleman’s agreement” do vira o disco e toca o mesmo vem, assim, garantir, através da lei, que todas as futuras mudanças eleitorais serão alternâncias sem possibilidade de alternativa. Belém, naturalmente, lavará as mãos como Pilatos, dado que seria feio aplaudir. Desta forma, os tradicionais “inputs” do sistema político ficam cada vez mais reduzidos ao situacionismo oficial e ao oposicionismo oficioso das duas faces do Bloco Central. As outras forças políticas estão condenadas à residual dimensão de “vozes tribunícias”, cada vez mais prenhes de demagogia, para forçarem o “agenda setting”. Todos vão deixar o campo do dinamismo interventivo aos grupos de pressão das velhas forças vivas, dado que se desiste da mobilização cívica de uma maioria de indiferentes e de abstencionistas. Corremos assim o risco de a chamada sociedade civil perder as pontes de ligação à “black box” do sistema político, onde passa a circular, quase impune, uma classe política bipartidocratizada. E esta ameaça tornar-se numa federação entre caciques, locais e regionais, e uma casta de políticos profissionais, face à qual apenas temos que referendar e plebiscitar as respectivas propostas. Logo, as “eleições”, assim rigorosamente vigiadas, poderão ser limitadas às canalizações representativas de um sistema que parece temer a voz directa dos povos. O ambiente é propício à criação de um “mainstream” que retome os vícios do rotativismo dos monárquicos liberais e da ditadura sistémica do afonsismo durante a Primeira República. Não tardará que o mesmo caia na tentação de condicionar ou punir o dissidente ou de procurar estigmatizar a heresia. Até pode acontecer que os serviços oficiais de espionagem comecem a comunicar, a grupos políticos, a lista dos infiltrados, ou que os partidos dominantes abram uma secção de renovação com blocos de bons desinscritos dos partidos marginais. Aliás, se consultarmos um desses engenheiros de sistemas políticos e eleitorais, ele dir-nos-á, em termos técnicos, que o bipartidarismo é mau para os pequenos e médios partidos, mas que é bom para o sistema, até porque um parlamento ou uma assembleia municipal que fosse uma fotocópia do país, ou da autarquia, conduziria à ingovernabilidade. Por mim, preferiria que os engenheiros sistémicos cedessem lugar aos repúblicos que se preocupam com a crescente falta de participação cívica, para todos tratarmos de reinventar a cidadania. Por isso, continuo do contra!