Nov 18

Os governos que comandam a distribuição dos postos e das postas

Os governos que comandam a distribuição dos postos e das postas a partir da mesa do orçamento só não ficam com a melhor parte se forem burros ou não perceberem da arte. Um qualquer marechal saldanha, ou um qualquer ministro de cabral, quando se sente à rasca com a emergência de uma qualquer patuleia, costuma dizer que, se esta tem sotaque nortenho, deve ser oriunda do miguelismo e, portanto, potencialmente, populista, radical, anti-europeísta e, quiçá, fascista. Porque, encerrado o período de sangrentas lutas caseiras, entra em cena um regime centrista e nacionalizado, herdeiro conservador de um romantismo que fora revolucionário. Não passa de uma simples conciliação de sinais contrários, onde emerge, como consequência e motor, o cepticismo político que trata de conjugar o progresso em termos de melhoramentos materiais, mas onde também se agrava uma dominância banco-burocrática, assente no indiferentismo popular, bem como uma ilusão de crescimento dependente da engenharia financeira. É neste ambiente de lassidão moral que se implanta um capitalismo dependente do empréstimo estrangeiro, gerando-se uma mentalidade oficial plutocrática marcada pelo utilitarismo. O melhoramento material parece ser a única alternativa a esta decadência. Ao menos a estrada de macadame, a malaposta, o tramway e o fontanário, esses sinais da política prática servem para justificar o abandono das utopias doutrinárias. E os patuleias, depois de uma passagem pelo republicanismo de orçamento ou lunático, volvem-se em progressistas à maneira de José Luciano. Por outras palavras, quem se mete com o equilíbrio situacionista corre sempre o risco de perder o controlo sobre as adjectivações diabolizantes produzidas pelo politicamente correcto que quase sempre atinge o seu clímax quando a esquerda moderna se amanceba com a direita dos interesses. Basta anotarmos algumas das campanhas negras mais recentes da nossa história democrática, onde, aliás, o crime sempre compensou. Não falo na invasão do Iraque e das falsidades da espionite que permitiram cimeiras e ascensões a lugares cimeiros. Prefiro recordar Sá Carneiro, acusado em plena televisão de adultério de Estado por um chefe de partido e um arcebispo, depois de os comunistas o vilipendiarem como caloteiro, na linha do que patrões da CIA tinham engendrado, apoiando preferencialmente o chefe dos socialistas, para desfazerem tacticamente o perigo de uma frente popular e da consequente unicidade antifascista.

Nov 05

Reflexões heréticas em noites de olhar as estrelas com os pés nas pedras do caminho

5.11.07

Todos os anos, sempre o mesmo ritmo dos sinais do tempo, especialmente quando o tempo que vivemos não são os prometidos amanhãs que cantam e que podemos retomar a eterna humildade dos velhos humanistas que nunca foram como aqueles vanguardistas que pensam deter as alavancas daquela inteligência que pretendeu assumir o controlo do processo histórico.

Porque a tal história não é, afinal, o produto das boas ou más intenções de certos homens, mas antes o resultado da acção de todos os homens. Porque não são os abstractos caixilhos teóricos de certa luta de classes na teoria que fazem a história, mas antes os anónimos homens concretos que a fazem e refazem, mesmo saberem que história vão fazendo.

Esta co-criação de homens livres raramente segue os manuais planeamentistas do pensamento único e dos livros únicos do politicamente correcto. O normal é haver anormais, isto é, paradigmas que convergem e divergem, para que o amanhã seja um acaso procurado que nos vai surpreender. Há muitas curvas no caminho, para quem prefere as peregrinações dos carreiros do pé descalço que desde sempre trilhamos.

Mais um dia, mais um regresso, mais um rendilhar no bilro dos conceitos, depois do dia de todos os santos, que é depois do dia das bruxas e antes do dos fiéis defuntos, nesta sequência de festividades e tradições que são católicas quando antes já foram pagãs, mas que os protestantes globalizaram, com jantares de perua ou louvor dos mortos, num sincretismo típico de loja de chinês num bairro alfacinjha. Não tarda que encontremos sinais maçónicos em vestimentas sacerdotais de ortodoxos russos do século XIX, ou louvores ao grande arquitecto do universo numa sacristia jesuíta pré-iluminista, agora que o rosto de Tutankamon foi revelado, neste sincrético que fez da senhora de fátima uma continuidade de velhos cultos mediterrânicos pré-cristãos, antes de os volvermos em iemanjá, numa complexidade crescente de uma eterna procura da religação ao afago do cosmos, contra a frieza e fealdade das eternas angústias do quotidiano.

Apenas concluo que o congreganismo jesuítico gerou a insurgência anticongreganista demoliberal que, por sua vez, provocou a ressurgência antilaicista, com o habitual ciclo de persigangas que não tem permitido que todos os homens de boa vontade possam ser homens livres. E poucos reparam que não é possível inventar o que já está inventado nem descobrir o que já está descoberto.

Por mim, que subscrevo Marco Aurélio, Erasmo, Montaigne e Kant, apenas devo concluir que, por isso mesmo, só sei que nada sei. Porque pensando, apenas continuo a procura do que nunca irei achar, nesta viagem para a raiz do mais além, onde, felizmente, nunca haverá o fim da história. Fica a esperança, porque os homens são seres que nunca se repetem, vivendo acontecimentos que também nunca se repetem.

Cada um de nossos eus, perdido nas suas circunstâncias, apenas pode ligar coisa com coisa, compreendendo o todo pela intuição imediata da essência. Logo, só por dentro das coisas, pela imanência, é que as coisas realmente são a situada transcendência que nos permite a cultura humanista.

Se calhar Deus é o mundo e o cosmos vai além daquilo que solitariamente pensamos, apesar de cada um continuar a ser o único sempre centro do mundo que sempre e para sempre podemos conhecer.

Nov 01

Ainda Gomes Freire, em dia de todos os santos, incluindo os mártires da pátria…

Há dias, um companheiro blogosférico, que se refugia no anonimato, teve a galhardia de me revelar, em confidência, a respectiva identidade, depois de indirectas provocações que me têm vindo a fazer. Nem por isso abandono a minha anterior reserva de não entrar em polémica com quem não assina, mesmo que, para mim, ele já não seja anónimo. Aliás, quero aqui confessar que também nunca aqui citei, uma aventura blogueira do meu pequeno círculo de intimidade social, onde todos utilizamos heterónimos, embora todos os frequentadores e comentadores dessa forma de expressão consigam dar nome aos intervenientes.     Prefiro notar as linhas de muito alta tensão que nos continuam a sobrevoar, enquanto nos vamos dispersando pelos variados volteios palavrosos da politiqueirice, assim alimentando inúmeros cadáveres adiados que vão procriando terrorismos de alcatifa. Nem sequer merece adjectivação essa tentativa de transformação das “Novas Fronteiras” em palanque para a tradução em calão do conceito comuno-chinoca de “desenvolvimento científico”, numa altura em que a imagem de tais protagonistas parece não coincidir com a banda desenhada do Professor Pardal.     Por essa e por outras é que os nossos poderes fácticos continuam a fugir ao necessário controlo dos agentes do poder político. Não falo nas Igrejas, nos militares e nos magistrados, mas noutras coisas mais subterrâneas e sem rosto e que, ao que parece, têm dinheiro suficiente para a compra de sofisticados aparelhos de escuta, até pressionando o nosso PGR obrigando a conversas secretas junto de televisor, com o som ligado…        Também estranho que, noutro dia, ao exprimir, neste local, uma tentativa de isenta apeciação de Gomes Freire, tenham criticado a repetição que fiz da sensibilidade de Raul Brandão sobre a matéria, e que me tenha esquecido da posição maniqueísta de António Sardinha sobre tal personalidade. Não me esqueci dela, apenas a abomino. Porque não podemos peregrinar pela guerra civil de há quase dois séculos com espírito de vindicta e essa mentalidade que nos quer afogar na lógica do amigo/inimigo, sem que se estabeleçam lugares comuns mobilizadores do civismo e do patriotismo.     Chegou o tempo de perpectivarmos personalidades como Sebastião José, Gomes Freire ou D. João VI sem aqueles facciosismos historiográficos que deles fazem pretexto para interpretações retroactivas ou revisionismos que ora os deificam, ora os diabolizam. Porque todos foram intensamente amados ou odiados, segundo as concepções do mundo e da vida, ou as circunstâncias vindouras. A complexidade dos nossos egrégios avós não pode ser apenas medida pelas lentes analíticas das nossas ideologias, dos nossos medos ou das nossas esperanças.     Aqueles que dividem o mundo entre os bons e os maus, entre os patriotas e os traidores, entre os progressistas e os reaccionários, não conseguem ascender à necessária serenidade que nos pode permitir sentir a profundidade da tradição, entendida como aquelas algemas que nos podem libertar, permitindo a permanência na renovação das saudades de futuro que vão além de passados ou futuros presentes. A criatividade da história sempre exigiu vivê-la como emergência das três unidades do tempo e sempre implicou unirmos o que anda disperso.     Conheço as peças historiográficas que transformaram Gomes Freire no vazadouro dos impropérios contra o demoliberalismo e que sobre ele lançam o ferrete de traidor. São exactamente os mesmos que nem sequer reparam que Gomes Freire foi vítima de um assassinato político que, apesar de ser processualmente institucionalizado pelo ocupante, não deixa de poder qualificar-se como consequência do terrorismo de Estado.     Gomes Freire, ao liderar o processo conspiratório contra o pretenso protector inglês, semeou com a sua vida a conseguida regeneração de 1820. Uma revolta inequivocamente nacionalista e liberal que continuou as ideias e a acção do Conselho Conservador e preparou o Sinédrio. Julgo que no século XXI importa compreender as turbulência pós-revolucionária de há dois séculos. E fazer um paralelo entre homens como Gomes Freire e Fichte que, depois de cederem à pretensa “bela ordem” napoleónica, depressa aderiram à fogueira romântica das libertações nacionais e das primaveras dos povos.     Tal como os defensores das perspectivas liberais da unificação alemã e da unificação italiana, há que realçar todos os que promoveram a conciliação da ideia de nação com o sonho da casa comum europeia. E do cosmopolitismo com a o republicanismo, quando este nem sequer era antimonárquico, à maneira de Kant. Porque quem virá a ser a efectiva prisão dos povos será a Santa Aliança que estabeleceu o princípio da hierarquia das potências.     As ideias assumidas por Gomes Freire têm mais a ver com as sementes de direito das gentes que vai ser expressa pelo krausismo, como, entre nós, foi praticado por um Vicente Ferrer Neto Paiva. Por todas aquelas libertações patrióticas do dividir para unificar que geraram os posteriores federalismos de maçons e de católicos, de liberais e de socialistas que, conciliados depois da Segunda Guerra Mundial, constituem os esteios da presente unificação do projecto europeu.     Sem Gomes Freire não haveria Fernandes Tomás, D. Pedro IV, Passos Manuel, D. Maria II, Sá da Bandeira, Almeida Garrett ou Alexandre Herculano, bem como muitos outros que o ex-republicano Sardinha há-de erigir em mestres. Sem sombra de persiganga e de inquisitorialismo, Gomes Freire integra a honrosa lista dos pais-fundadores do Portugal Contemporâneo, azul e branco, que permitiu mais de um século de continuado liberdadeirismo. Denegri-lo em nome do ódio e do revisionismo histórico é removermos da nossa memória uma das fundamentais pedras vivas da tradição.     Pior ainda: não cultivar com o afecto da emoção esta comunidade das coisas que se amam, chamada nação, é extirparmos reservas morais da pátria e da liberdade. Por mim, seguidor do Conselho Conservador e do Sinédrio, que tanto alinharia no Partido da Bemposta como, por conclusão, teria que ser mindeleiro, depois de falhar a boa intenção de D. Isabel Maria, tenho de honrar Gomes Freire, porque queria evitar que o rei liberal, directo descendente de D. Maria II e de Vítor Emanuel I, D. Carlos, fosse assassinado pela cultura dos ódios terroristas que ainda nos amarfanha. Precisamos de revoluções que sejam restaurações da lusitana antiga liberdade. Precisamos de reaprender a palavra regeneração, conjugada pelos mártires da pátria, como Gomes Freire. PS: Provocatoriamente, deixo uma imagem de 24 de Agosto de 1820 e uma foto de Joshua Benoliel, de 1917, sobre as cerimónias populares de homenagem a Gomes Freire

Out 31

fragmentos da eterna literatura de justificação

Porque a recuperação dos mitos do processo histórico e das utopias pretensamente anti-utópicas de um fim da história não passam de meros fragmentos da eterna literatura de justificação que sustenta aqueles situacionismos que negam a força subversiva da justiça, proibindo a procura das energias libertadoras dos ideais históricos concretos, daquele direito racional de conteúdo variável que reconhece os realismos idealistas, segundo os quais as essências só se realizam na existência dos homens concretos, de carne, sangue e sonhos. Isto é, daqueles indivíduos sem os quais não há pessoas, as tais máscaras de teatro da vida, onde o nós precede o eu. Confesso que me mantenho firme no humanismo cosmopolita de Kant, nas concepções do “Verstehen” neokantiano e nas sementes lançadas por Woodrow Wilson, para quem o direito é superior à paz dos soberanismos e dos Estados em Movimento, cuja dinâmica é susceptível de provocar a paz dos cemitérios, incluindo daqueles pós-totalitarismos e pós-autoritarismos que não põem a lei acima do regulamento, o direito acima da lei e a justiça como chave da abóbada que deve mobilizar tanto o direito como a política. Porque sem essa estrela do Norte, as ordens estabelecidas podem ser meras desordens instaladas, sem que se permita a necessária mobilização pela justiça, sem a qual não há civismo nem sequer coisa pública. Sem essa “Grundnorm” que propicias a necessária “peace through law”, para utilizar palavras de Kelsen, podemos ter Estados, mas não teremos Direito nem poderemos atingir a complexidade do Estado de Direito. Por isso, considero que a Europa tem de rimar com liberdades nacionais, pelo que um federalista também pode ser nacionalista e um defensor da unidade da república assumir a necessidade da regionalização política. Para que se mantenha a tensão criadora da unidade e da diversidade e para que a liberdade como libertação exija o estádio de uma emergência que permita novas divergências e novas convergências. Porque é urgente que se retome a dialéctica clássica onde não se procure aquela superação sintética onde um dos termos não tem que aniquilar o outro, quando um deles se configura como silogística tese, destinada a combater o irmão-inimigo de uma endeusada, ou diabolizada, antítese. Por isso é que fui apanhar azeitona. Num intervalo filosofante, como a fotografia demonstra.

Out 30

os referendos a tratados europeus não são democráticos

Um altíssimo dignitário da eurocracia, ex-comissão, ex-MNE de um pequeno Estado, o nosso, donde também foi ilustre ministro educativo e reitor de universidades, uma pública e outra privada, utilizando os axiomas da ciência exacta de que é especialista, veio decretar, do alto da suas circulações e tacadas cortesãs, que os referendos a tratados europeus não são democráticos, insinuando que quem está contra o acordo do Mar da Palha quer que Portugal abandone a União Europeia. Recordo-me de uma conversa com ele tive, em grupo, quando ele nos comissionava em Bruxelas e não gostou das minhas provocações federalistas e nacionalistas, quase me alcunha ndo como tolinho que não conhecia as leis da Razão de Estado, isto é, do pensamento único e das modas que passam de moda, de que ele era, e é, um dos máximos representantes situacionistas. Na altura ainda não era do PPE, cavaquistava… É verdade que qualquer constituição é tão complexa que sempre precisa de constitucionalistas e tribunais que possam decretar inconstitucionalidades, emitidas pelo poder. Tal como a democracia é tão complexa que há séculos a vamos teorizando, sem nunca chegarmos ao fim da história. Daí que também o seja o Estado de Direito, onde não vigora a regra segundo a qual “in claris non fiat interpretatio”. Todas estas entidades, com efeito, não conseguem ser captadas pelos conceitos operacionais da ciência química. Porque esse objecto material chamado povo apenas se deixa compreender por uma complexa alquimia de conceitos empíricos e de conceitos abstractos, apenas nos deixando espaço para meros indicadores. Para a democracia, sempre foi má conselheira a tolice da sofocracia, especialmente quando os pretensos sábios se decretam a si mesmos como aderentes a um clube de reservado direito de admissão. A democracia implica a complexidade crescente da cidadania e as repúblicas são melhores quando permitem um regime onde um mais um são mais do que a mera soma quantitativa das respectivas parcelas. Porque a mobilização da unidade e da diversidade pode fazer aumentar as forças, pela técnica do “e pluribus unum”. Quando um ministerial e reitoral catedrático de laboratoriais provetas nos quer dar música sobre o tratado do Mar da Palha, apenas podemos concluir que a respectiva palha propagandística é típica desses intermediários representativos que, ao assumirem-se como os monopolistas da voz da Europa e do nosso próprio futuro, deveriam ser despedidos por justa causa, porque o representado sempre foi superior ao representante. Os erros filhos da pauta podem dar origem a desagradáveis fífias. Especialmente quando o representante procura, com silogismos, transformar os cidadãos em inferiores homens comuns, os tais que não podem aceder ao que qualifica como complexidade, mas que não passa de mero segredo da Razão de Estado, só porque alguns supranacionais políticos dizem deter os mecanismos da “inside information”, nomeadamente por conversas e telefonemas que dizem manter com chefes de governo. Porque nunca de forma tão despudoradamente antidemocrática tinha sido emitida esta opinião que decreta a “vox populi” como inimiga da “vox dei”, prenunciando um projecto de governação de um rolo compressor, pelas pretensas elites que como tal se assumem só porque circulam provincianamente pelas corredores dos grandes deste mundo. Porque não parece que só alguns donos do poder invisível possam decretar como passíveis de punição herética todos os que duvidem da justeza da respectiva iluminação. Porque o povo, como um todo, institucionalmente posto em referendo, não pode ser algo de inferior aos representantes do todo, quando eles, depois de serem escolhidos para o cumprimento de um determinado programa, viram o bico ao prego. Pelo menos, nosso primeiro ainda não disse tudo. Apenas argumentou que o respectivo compromisso eleitoral se baseou noutras circunstâncias. Resta saber se o “sic rebus, sic stantibus” o levará a concluir pelo habitual “lixem-se os dedos dos princípios, para que salvemos os anéis das negociações diplomáticas”. Os habituais adversários da democracia são precisamente os que consideram o povo incapaz de decidir altos assuntos do estadão, especialmente quando o mesmo povo pode não aceitar as regras do jogo da ditadura dos perguntadores de um referendo. Como se não estivesse em causa o destino da nossa casa comum, uma questão vital que não pode ficar dependente do clube de reservado direito de admissão, onde se sentaram certos tecnocratas disfarçados de políticos. Não me parece que o antigo sucessor do Professor José Júlio Gonçalves na reitoria da Universidade Moderna tenha pergaminhos de formação académica que o habilitem para a condição técnica de internacionalista ou de constitucionalista. Ele apenas acedeu à tal complexidade do tratado do Mar da Palha como profissional da política, esse especialista de assuntos gerais que percebe de tudo um pouco, embora não tenha que perceber nada de nada. Não passa de mero homem comum elevado a representante de um povo pouco apto para questões complexas, mesmo que tenha passado a beber do fino, mas que não o exime de poder ouvir do grosso, dos tais homens comuns que, se têm o poder de sufrágio, não podem receber do eleito o arrogante do desprezo.

Out 29

Quase todos vivem em desencanto

Todos invocam uma moralidade, a que qualquer homem de boa vontade adere, seja comunista, direitista, maçon, católico, socialista, social-democrata ou liberal. Quase todos vivem em desencanto, quando reconhecem que os mecanismos policiais e judiciais do Estado a que chegámos não consegue escrever justiça por linhas tortas. Porque nem sequer ainda conseguiu vislumbrar com recortes de eficácia as pontas visíveis do “iceberg” da pedofilia. Por mim, apenas reparo que seria bem melhor não inventarmos o que já está inventado nem descobrirmos o que já está descoberto. Seria mais prudente passarmos os olhos por processos paralelos, ocorridos no nosso tempo, por outros universos político-culturais um pedacinho mais pluralistas e mais liberais. Por exemplo, a atitude tomada por certos segmentos da Igreja Católica norte-americana, onde a resposta moral da sociedade e o reconhecimento institucional da Igreja foram bem além da resposta judicial, sem contabilizarem tantas manobras dilatórias, habituais nos processualismos, e sem deixarem de enfrentar os casos formalmente prescritos. Também por lá, os grupos de pressão denunciantes exageraram em teorias da conspiração. Só que, nessas paragens, a sociedade civil não esperou que a culpa morresse solteira. Indignou-se e utilizou a moral social para colmatar as lacunas do juridicismo, do policiesco e do judiciesco, não deixando que tais atentados contra a dignidade concreta das pessoas concretas caíssem neste ambiente de hipocrisia e de “voyeurismo”, onde muitos se excitam com os “vícios privados” dos que ostentam “virtudes públicas”. Por outras palavras, temos os polícias e os magistrados que merecemos, tal como temos um governo adequado ao povo que o elegeu. Porque pedimos ao direito que faça moral e aos políticos profissionais que monopolizem a opinião pública. A culpa não morre solteira. O culpado somos nós, o tal povo que não se indigna. Nem sequer exige a alguns políticos, eleitos metapoliticamente, como o Presidente da República, que, federando homens de boa vontade, impulsione a sociedade dos homens livres, para a criação de uma espécie de comissão de honra, verdade e inteligência que exercesse missão idêntica às que, outrora, emitiram relatórios sobre as sevícias, abrangendo todas as instituições afectadas pelas redes pedófilas, laicas ou eclesiásticas, da direita ou da esquerda. Para voltarmos a ser povo, com coluna vertebral.

Out 26

Grão a grão, a galinha da alternância vai enchendo o papo da revolta

Grão a grão, a galinha da alternância vai enchendo o papo da revolta, apesar dos êxitos da política externa e do esquecimento do complexo de Churchill. Ainda ontem, senti esse ambiente na sessão do Sindicato dos Quadros Técnicos do Estado, para a qual fui convidado a proferir uma comunicação, onde versei o problema do micro-autoritarismo subestatal e onde tive a honra de recordar que fiz parte da geração fundadora da mesma entidade. Tal como esta semana, nas andanças da reforma da Universidade Técnica de Lisboa, voltei a notar como cresce a reacção contra as intenções reformadoras de Mariano Gago. Lá assumi a minha função discursiva de senador eleito, por entre a floresta dos inerentes e foi-me dado concluir que as boas intenções da lei, porque não foram recebidas, em confiança, pela comunidade dos académicos, vão cair nas teias reaccionárias do neocorporativismo e do neofeudalismo. Darei mais pormenores quando a procissão sair do adro das jogadas politiqueiras e das manobras de RGA, mas, desde já, se nota que Gago não vai conseguir o estatuto de Veiga Simão e não conseguirá a “révolution d’en haut”, pelo menos na sua universidade que, por acaso, também é a minha. De facto, na minha casa, a única universidade que veio da sociedade civil para o Estado e que antes de receber o decreto estadual criador já existia no terreno, nalguns casos há quase cem anos, como a Escola de Veterinária, verifica-se como o célebre RJIES se mostra totalmente incompatível com instituições não pombalinas, onde deveria cultivar-se a atitude federalista e o efectivo pluralismo. Governar entidades complexas com ditaduras maioritárias de grandes eleitores, marcados pela hierarquia das potências, onde nem sequer há equilíbrio das relações em eixo, pode ser transformar as pequenas e médias escolas em mera margem que sofre os efeitos das lutas de facções da que replica a ideia de república imperial, porque é efectivamente a superpotência que resta. Entre a unidade e a diversidade, entre a convergência a divergência, um dos termos não tem que eliminar o outro, se assumirmos a complexidade crescente das emergências criativas. Sempre desconfiei dos decretos estaduais, incluindo os despachos e os regulamentos assentes em deliberações de febris RGAs, aliás idênticos aos baseados na peritagem de uma eventual junta de pensadores de regime, dado que as escolas livres sempre se mostraram rebeldes face aos modelos pombalinos e napoleónicos. Porque é boa a escola que nasce de uma experiência da sociedade civil, para responder a desafios da realidade que afecta a própria existência da entidade política portuguesa. Desafio a que a universidade clássica às vezes não dá resposta, porque as circunstâncias correm mais depressa que os conceitos captados pelas enciclopédias do saber oficial ou oficioso, de matriz essencialmente juridicista. Uma escola livre é marcada por esta ideia fundacional, desde que assum um reformismo gradualista, mais baseado nas circunstâncias do que nas iluminações de um centralismo oficiosamente reformador. E se a escola livre quiser ser uma escola portuguesa, tem de ser fiel ao velho programa dos portugueses de Quinhentos, sempre procurou nacionalizar as tendências importadas. Isto é, se não quis inventar o que já estava inventado nem descobrir o que já estava descoberto, recorrendo aos estrangeirados, sempre os procurou integrar numa estratégia portuguesa, onde o crescimento tem de ser feito não só para o adiante, em termos quantitativos, mas também para cima e para dentro, em termos qualitativos, conforme o lema teilhardiano. Por outras palavras, uma escola livre é a que sempre se praticou um reformismo gradualista e um crescimento a partir das circunstâncias, visando dar resposta aos desafios da realidade, principalmente do emprego. Mas crescendo a partir da base, isto é dos doutores disponíveis, da investigação praticada, do corpo docente gerado maioritariamente a partir da cultura organizacional da escola, de maneira a que a identidade própria da instituição fosse capaz de adequar-se à mudança. Uma escola tem que ser uma efectiva instituição, dotada de uma ideia de obra, de regras próprias de processo e contando com uma efectiva adesão dos próprios membros. Vive-se uma comunhão de crenças, acredita-se numa identidade. Isto é, no âmbito de uma universidade, entendida como efectiva universitas scientiarum, procura-se o interdisciplinar e aquela aliança metodológica, que vai além da tradicional disputa entre as chamadas ciências da natureza e as chamadas ciências da cultura, naquilo que alguns qualificam como aliança metodológica meta-departamental. Aliás, Portugal perderia se desaparecesse a concorrencialidade entre modelos de ensino, caso se optasse pela uniformização dos curricula, eliminando as diferenças, pelo recurso ao livro único de um modelo Pombalista ou napoleónico. Uma boa instituição, tal como ideia de obra que lhe dá alma, tem de transformar-se numa criatura que se desenvolve através de uma lógica própria, adaptada às circunstâncias, num modelo de autonomia, com memória e com identidade, que a fez libertar dos próprios criadores. É a partir desta experiência, do núcleo básico de desenvolvimento com autonomia, que a reforma tem de ser desencadeada, a fim de se garantir autonomia na própria área científica das relações internacionais. Isto é, um dos objectivos fundamentais da necessária reforma passa pelo reforço deste núcleo, sem que se exclua o recurso ao sociológico, ao antropológico, ao jurídico e ao económico. É o que tem sido feito. É o que pode ser incrementado. O modelo português de universidade tem a ver com a estrutura e conjuntura do Estado e da Sociedade dos portugueses, no contexto da integração europeia, da globalização e da sociedade civil internacional. Somos um pequeno Estado e não podemos copiar os modelos dos médias e grandes potências. Aliás, se fizermos uma análise comparativa curricular, com entidades políticas próximas da nossa dimensão, encontraremos curiosas coincidências, da Áustria à Irlanda, da Finlândia à Catalunha e de muitas prestigiadas universidades norte-americanas. O estilo das escolas universitárias que não se assumem como escolas de regime e que atendem essencialmente aos nichos de mercado não pode ser igual à das que pensam seguir a perfeição modélica. O Estado e a Sociedade dos portugueses são atípicos e os respectivos desafios só podem ser assumidos pela diferença. A Sociedade portuguesa, isto é, a vida concreta dos homens concretos, talvez não admita um profissional de relações internacionais idêntico ao que é produzido pelas grandes escolas das médias e grandes potências e das sociedades civis liderantes do processo da globalização. Outras são as circunstâncias portuguesas. Outras terão de ser as respostas curriculares. A necessária reforma universitária, sem esquecer os princípios, também deve reconhecer que toda a racionalidade é complexa, que as essências só se realizam na existência e que os princípios só têm sentido quando são capazes de diálogo com as circunstâncias do tempo e do lugar.

Out 25

Putin

A tal Europa a que chegámos não passa de mera política internacional, onde os diplomatas são mais importantes do que os políticos e onde os tecnoburocratas controlam os próprios diplomatas. Melhor: é política internacional higienicamente afastada dos povos, talvez porque os chefes sabem que os povos já não confiam nos políticos, para que os políticos desesperem dos diplomatas, os quais, por seu lado, se pensam os únicos políticos profissionais, mas para que todos temam o excesso de poder dos funcionários. A Europa deixou de ser um sonho, convertendo-se numa espécie de circuito integrado de alguns tratadores e tratantes, numa espécie de modo de vida neomaquiavélico, entre eurocratas, grupos de pressão e subsidiados, todos esquecidos da política como religião secular. É portanto natural que Putine chegue hoje a Lisboa e venha ao Palácio da Ajuda inaugurar a bela exposição dos czares no nosso Palácio da Ajuda, entre Pedro, o Grande, e Nicolau II. Política internacional também seria José Sócrates oferecer a Putine uma biografia de Gomes Pereira Freire de Andrade e Castro (1752-1817), com textos de Raul Brandão. O tal que tendo alcançado licença para servir no exército de Catarina II, em guerra contra a Turquia, partiu para a Rússia. Em São Petersburgo conquistou as maiores simpatias na corte e da própria imperatriz. Na campanha de 1788-1789, comandada pelo príncipe Potemkin, distinguiu-se nas planícies do Danúbio, na Crimeia e sobretudo no cerco de Oczakow, sendo o primeiro a entrar na frente do regimento quando a praça se rendeu em 17 de Outubro de 1788, depois de cerco prolongado. Praticou muitos actos de bravura, sendo aos 26 anos recompensado com o posto de Coronel do exército da imperatriz, que em 1790 lhe foi confirmado no exército português, mesmo ausente. Política internacional seria Sócrates dizer ao novo czar que o mesmo Gomes Freire, foi um dos principais líderes da célebre “Légion Portugaise” de Napoleão e que esta também esteve na malograda entrada do usurpador na Rússia. E contar-lhe que, em 1816, o mesmo Gomes Freire, a quem chamávamos o general russo, foi eleito Grão-Mestre da Maçonaria portuguesa e tornou-se a «alma» de uma conspiração contra o Marechal Beresford, oficial que administrava Portugal sob mão de ferro e com a ajuda de um primo do grão-mestre, Miguel Pereira Forjaz , como se tratasse uma colónia inglesa, despertando grande descontentamento junto dos oficiais e intelectuais portugueses. A 25 de Maio de 1817, em estado avançado dos preparativos da insurreição contra Beresford, Gomes Freire foi preso conjuntamente com outros 11 conspiradores, por denúncia de três maçons (três traidores, como na Lenda do 3.º grau…), José Andrade Corvo de Camões, Morais de Sarmento e João de Sequeira Ferreira Soares. Gomes Freire de Andrade foi enforcado por ordem do Marechal Beresford no cadafalso na Torre de S. Julião da Barra e os demais no Campo de Santana, hoje denominado, em sua memória, Campo dos Mártires da Pátria. Segundo narra Borges Grainha, um dia antes da execução um coronel inglês, Robert Haddock, visitou o Grão-Mestre na cadeia e ofereceu-lhe como irmão a oportunidade para a fuga. Gomes Freire recusou a oportunidade!

Out 23

a hiperinformação gera o vício da super-procura

Quase todas as parangonas apenas esperam que as remetam para o armazém dos desperdícios. Porque a hiperinformação gera o vício da super-procura, entre a criação artificial de pretensos factos históricos e o consumismo deste império do efémero que é um império do vazio. Enquanto alguns produtores da informação criam as tais necessidades artificiais, muitos outros preferem ocultar a inside information, desviando as fontes vitais da dita para os rios subterrâneos, cuja rota controlam, ou ocultam, encenando soundbytes, com que se vai deleitando o Estado-Espectáculo. Apenas noto como os donos do europês começam a decretar que os defensores do referendo são uns perigosos anti-europeístas, só porque os engenheiros e arquitectos da super-estrutura institucional do OPNI (objecto político não identificado, na definição de Jacques Delors) querem que as regras processuais do mesmo sejam superiores às manifestações de comunhão dos cidadãos e à própria ideia de Europa como instituição. Por outras palavras: querem tapar com a peneira das cimeiras de chefes de Estado e de governo, precedidas pelas reuniões do PPE e do PSE, o sol das liberdades nacionais e a voz directa dos cidadãos. Querem que os conceitos se transformem em preceitos, nesta super-democracia sem povo que visa remediar as péssimas soluções da defunta convenção. Desta forma, os grandes eurocratas correm o risco de lançar, para as garras do populismo anti-europeísta e para os manipuladores do descontentamento, segmentos fundamentais do eleitorado. O paradigma bismarckiano vencedor na cimeira do Mar da Palha, intrumentalizando a revolta gaullista do oui par le non, contra a Europa confidencial, gerou esta partidocracia global que corre o risco de levar os intermediários cimeiros das representações nacionais a perderem a legitimidade, embora mantenham a legalidade, nesse palco de abstracções, suceptível de se reduzir a mera teatrocracia de um império oculto. Qualquer sondagem demonstra que a maioria dos povos europeus gostaria de pôr a funcionar a voz da Europa dos cidadãos, referendando os seus próprios destinos. A maioria dos seus governantes e comissários apenas quer conservar o poder pelo poder e chama a isso pôr a Europa a funcionar segundo o modelo dos Estados em Movimento. Para que os povos não venham a colocar inesperadas areias nas engrenagens, porque assim o murganheira poderia não fluir nas gargantas ao som de um restrito hino da alegria…

Out 22

O portuguesíssimo gajo porreiro

O portuguesíssimo gajo porreiro que nos governa e trata o presidente da comissão europeia pelo portuguesíssimo pá, tem que voltar a enfrentar as chatices domésticas, as tais que metem financiamentos partidários enevoados por irregularidades, fatinhas de felgueiras e toda uma federação de micro-autoritarismos subestatais que vão difundindo essa cultura de medo que sitia o Estado de Direito, o qual deixa de ser a necessária religião secular, passando a mera bola de bilhar que vai sendo arremessada pelo acaso dos poderes fácticos dos sempiternos donos do poder. Hoje, depois dos vapores da murganheira, já voltámos ao “day after” da falta de mobilização comunitária que não aguenta a liderança tricéfala do PSD (não esquecer as homílias semanais de Marcelo) nem entende a vitória dos meus irmãos liberais na Polónia. Acontece que a unidade do Estado, em vez de federar a diversidade, fragmenta-se em neofeudalismos e neocorporativismos, directamente proporcionais à própria despolitização do Estado de uma democracia sem povo e de um direito sem justiça. Fica a pirâmide verticalista da máquina do poder pelo poder que não respeita os espaços de autonomia das sociedades imperfeitas que perdem a plenitude das matérias que dizem respeito à respectiva natureza, da família à universidade, passando pelos espaços associativos daquilo que se designa por sociedade civil. Mais do que isso, os vários grupos se, pelo lado superior, caem nas teias do concentracionarismo, também se deixam enredar, pelo lado das bases, no antipolítico do regresso ao doméstico. Logo, é inevitável que se confunda autoridade com autoritarismo e superioridade hierárquica cm centralismo arrogante, assim se liquidando as necessárias autonomias das sociedades complexas. Veja-se esta multiplicação de políticas (policies), sem que assentem numa pensada macropolítica, geradoras de uma desconexão fragmentadora, impossível de ser curada por celestiais planos construtivistas de um livro único de reforma estadual, como pretendeu configurar-se o PRACE. Porque não pode reformar-se o Estado sem uma ideia de Estado. Porque não pode pensar-se o Estado sem uma ideia de sociedade. A mera aritmética quantitativista do menos ou mais Estado, ou do menos ou mais Sociedade, com que confundem liberalismos e socialismos, é péssima conselheira. Nenhuma destas caricaturas se compadece com a necessidade de, em primeiro lugar, se repolitizar o Estado, retirando-o da inércia moluscular em que se encontra. Porque o corpo político, pleno de gorduras, bem precisava de um tratamento intensivo que lhe aumentasse a agilidade dos nervos, sustentando-o numa arquitectura flexivelmente óssea, principalmente pela estruturação da coluna vertebral. Com efeito, a política quantitativa do menos Estado não pode transformar-se numa receita dos que atiram pela janela fora algumas missões do dito, para, depois, as deixarem entrar, de forma pouco transparente, pelos sótãos e alfurjas da avençologia, da consultadoria e da subsidiocracia, com muito “outsourcing” de clientelismo e barganha. Mesmo um liberal empedernido não pode negar o intervencionismo do Estado como cérebro social nos domínios da economia e da sociedade. Só que não podemos ser conservadores face às antiquadas respostas dadas à velha questão social. Especialmente quando importa aplicar o fim da justiça a novas circunstâncias, muito principalmente quando somos desafiados pela nova questão social.