Nov 28

Eu, abrileiro, me confesso…

Um amigo, da velha esquerda liberdadeira, enviou-me a Carta aos Puros de Vinicius de Moraes, escrita na década de cinquenta do século XX. Olhei-me ao espelho da geração abrileira a que pertenço, onde uma certa esquerda lutava contra uma certa tirania, e uma certa direita contra uma indefinida tirania, ambas coincidindo no estilo. E tudo na complexidade de um processso que foi de antes e de após o 25 de Abril, mesmo quando os irmãos em disputa alinhavam em campos concorrencialmente adversários.  Hoje, essas tiranias desvaneceram-se e, consequentemente, as esquerdas e as direitas, que viviam no encantamento das causas, ficaram desempregadas, como se tivessem descoberto a Índia, sem direito a visita à Ilha dos Amores. Porque venceram os tais agentes infra-estruturais do poder banco-burocrático e do totalitarismo doce, assente na vontade de servidão. Aliás muitos dos mais ruidosos abrileiros, armados em saudosistas da revolução perdida, não percebem que os respectivos opositores, também abrileiros, mas do anti-PREC, como eu, são tão ou mais anti-tiranias do que eles.  Acresce que qualquer dos filhos e netos desses abrileiros, olhando o retrato mental dos pais, não consegue distinguir tais irmãos-adversários. Tal como eles e todos nós não percebem as oposições que marcavam os almeidistas e os afonsistas, da I República, ou os progressistas e regeneradores, do rotativismo. Obrigado, Paulo, pela lembrança! Lutemos contra o desemprego! Navegar é preciso, sobreviver não é preciso…

Nov 28

A noção de Estado Exíguo não depende do tamanho. Depende da vontade.

Acima de nós, estão cerca de quinze Estados mais pequenos, em termos de dois elementos da massa crítica (população e território). Também mais de uma dezena de entidades políticas que estão acima de nós se integram no bloco que optou por modelos de descentralização, regionalização ou federação. A maioria absoluta dos que nos superam tem tido governações que não obedecem ao gnosticismo socialista e social-democrata, demonstrando como as chamadas direitas e as chamadas esquerdas, mais liberais e mais conservadoras do que deve ser, incluindo estruturas ainda medievais, em termos constitucionais, têm produzido melhores resultados em termos de desenvolvimento humano, com mais justiça e mais felicidade. De boas intenções discursivas, está o inferno progressista cheio… Continua a não ser por acaso que a maioria dos últimos colocados na classificação do PNUD passou por experiências de partido único, de autoritarismo e de totalitarismo, muitos dos quais muito à esquerda, muito socialistas e muito estatistas, vivendo as amarguras pós-autoritárias e pós-totalitárias, em cleptocracia, bandocracia e senhores da guerra. Não será a altura de alguns “gurus” mudarem o discurso, pondo os pés na realidade? A noção de Estado Exíguo não depende do tamanho. Depende da vontade.

Nov 24

Depoimento a Visão

1 – Na sua opinião, como é que o poder político olha para as manifestações dos trabalhadores? Como «honestas» manifestações de descontentamento? Como manipulações de outros partidos? Como provas de vida dos sindicatos? Com desprezo ou com preocupação?

 

Julgo que o chamado poder político nacional, no contexto da globalização e da integração europeia, já funciona em regime de pilotagem quase automático, dado que a maioria dos factores de poder que consegue gerir já não são intra-nacionais e, mesmo no plano nacional, há uma contabilidade de orçamentações plurianuais e até inter-geracionais. Logo, um qualquer governo sabe, que acima de tudo, tem que gerir dependências ditas internacionais e interdependências globais. As ditas manifestações de trabalhadores não passam de mais uma das pressões que entram na caixa negra daquilo que alguns qualificam como governança sem governo, algo que se contabiliza friamente como mais um incêndio florestal, uma cheia ou uma pequena catástrofe natural. A não ser que dê em tsunami e provoque um curto-circuito no sistema global, coisa pouco previsível, dado que, como Jacques Delors definiu a Europa, ela consegue viver com um terço de excluídos sociais, desde que garanta uma contenção, ou uma pequena melhoria de rendimento dos dois terços do centrão sociológico, dos remediados da classe média baixa que, entre nós, sustentam os partidos do Bloco central que, aliás, também são as secções portuguesas das duas multinacionais partidárias dominantes na Europa (PPE e PSE).

 

 

 

2 – E os media? Dão notícias das manifestações em França, mas por cá, aquela que juntou 200 mil pessoas no Parque das Nações a propósito da cimeira europeia, pouco  mais mereceu que uma nota de rodapé. Será uma questão de credibilidade dos sindicatos portugueses? De discurso?

 

Quanto a credibilidade, basta assinalar que o líder da CGTP é mais qualificado academicamente que a maioria dos ministros e dos dirigentes das associações patronais, assim revelando que está prestes a patentear-se uma nova forma de questão social, não prevista por Karl Marx e Álvaro Cunhal, a emergência do proletariado intelectual. Com 65 000 licenciados no desemprego, talvez surjam manifestações de massas das pretensas elites, esses novos clérigos donde podem surgir novos fundamentalismos, provocados por certa ditadura da incompetência na organização do trabalho nacional, na vertente da formação e do sistema educativo. Claro que os sindicatos, agarrados à velha questão social do século XIX, no marxismo ortodoxo do cunhalismo cêgêtêpista, ou à questão social-democrata do relatório Beverigde, fundador do Welfare State do pós-guerra, na versão do Engenheiro Proença, ainda não entraram no século XXI.

 

 

 

3 –  O que precisam os sindicatos de fazer para ganhar relevância política em Portugal, como têm em França ou na Alemanha? E para mobilizar os trabalhadores?

 

A embriaguez discursiva dos aproveitadores das velhas lutas de classes não tem permitido inventariar as vítimas da novíssima questão social, esses novos marginais da globalização, da europeização e do chamado desenvolvimento situacionista, os quais são a efectiva realidade deste pretenso paraíso que, sem qualquer espécie de solidariedade, lança no desemprego essa nova forma de escravatura doce. A sociedade que estamos a gerar, para garantir os pretensos direitos adquiridos de cerca de dois terços de instalados, lança as novas gerações no precário da falta de esperança. E porque os privilegiados têm o monopólio da palavra e do reformismo, continuam a música celestial das reformas do sistema de ensino e da luta pela qualificação, pensando que todos os jovens têm que ter o futuro dos “jotas” da partidocracia, dos sete aos setenta anos, que eles empregam como assessores e adjuntos, através da velha encomendação neofeudal da cunhocracia e do clientelismo, sem vergonha. Basta notarmos como começam a surgir pequenas organizações contra o precariado,  esses que sabem o que significam palavras como “call center”, estágios, bolsas, recibos verdes e contratos a prazo e que não podem constituir família, ou comprar casa, mas até pagam imposto.

Nov 23

Não me parece que desponte uma nova luta de classes

Não me parece que desponte uma nova luta de classes. O que agora temos é uma nova questão social, misturando problemas não resolvidos da velha questão social, que Jerónimo de Sousa ainda traduz no calão da velha luta de classes, com a emergência de uma nova realidade da governança sem governo, que tanto dizemos ser integração europeia como globalização.”. O chamado “Estado Providência”, ou, em termos gerais, a intervenção dos aparelhos de Estado na sociedade e na economia, tanto pode ser a resposta bismarckiana à questão social da segunda metade do século XIX que, em Portugal, foi traduzida pelo Estado Novo salazarento, com meio século de atraso, como o “Welfare State” do pós-guerra, do relatório Beveridge, que começou a ser traduzida entre nós com o marcelismo, pintando-se de vermelho pintasilguista com o PREC e a pós-revolução do Bloco Central, dita Keynesiana.” Marx é um velho subsolo filosófico que a todos nos ilumina, mesmo a liberais como eu e nada tem a ver com as vulgatas neomarxianas do leninismo, do maoísmo. Até o velho Karl se insurgia contra as ideologias de conserva, dizendo que não era marxista. Na prática, a teoria é outra, porque, sobretudo em Estados da nossa dimensão, a maioria dos factores de poder já não são nacionais, e os governos são meras pilotagens automáticas que só podem garantir as independências nacionais se conseguirem gerir dependências e interdependências. Pena é que não reparem na velha lição segundo a qual os problemas económicos só podem resolver-se com medidas económicas, mas não apenas com medidas económicas. Isto é, só se conseguirem repolitizar os velhos Estados, libertando-se das adiposas gorduras de aparelhos que foram feitos para dar resposta à velha questão social, mas que não admitem que a nova questão social implica a meritocracia e a consequente avaliação das competências, segundo o critério da justiça e não da inveja igualitária.” Ainda bem que Jerónimo de Sousa quer manter intacto o museu do neo-realismo. De outra forma, a UNESCO, em nome da defesa da ecologia, tinha que declarar o PCP como património da humanidade. O cunha lismo ortodoxo e as festas do Avante são como o fado, as peregrinações a Fátima ou as marchas populares de Lisboa. Destruí-los seria atentar contra a nossa identidade profunda. E os comunistas portugueses até agradecem a queda do muro e a implosão da URSS. Agora podem ser mesmo comunistas de sonho.”

Nov 22

O espaço criativo daquilo que continua a ser a universidade

O espaço criativo daquilo que continua a ser a universidade, a dos alunos e dos professores que querem ensinar e aprender, uns com os outros, tem-me absorvido por estes dias, especialmente quando se consegue furar o bloqueio com que as más leis, os péssimos regulamentos e os automáticos burocratas, dia a dia, nos tramam, de forma quase kafkiana. Felizmente, tive a ocasião de poder casar a honra com a inteligência e de assim participar numa iniciativa de alunos que se pratica desde os anos oitenta do século passado, a que eles dão o pomposo nome de Jornadas de Relações Internacionais, onde, como coordenador de um departamento que continuam a proibir, fiz breve discurso de iniciação, pedindo ao regime da bolonhesa que deixe entrar esta invenção como parte das unidades de crédito, dado tratar-se de uma continuidade das velhas sessões quodlibéticas da Idade Média, quando Bolonha não nos vinha de cima para baixo, dos eurocratas para os ministros e dos ministros para os povos. Claro que a minha bolonhesa é outra. Tem mais a ver com um velho aluno da instituição, um tal João Hispano, a que, nós demos o nome de João das Regras, esse constitucionalista que elaborou, pelo discurso, a primeira constituição portuguesa, mais ou menos escrita, a das actas das Cortes de Coimbra de 1385, talvez uma das primeiras perspectivas políticas consensualistas pós-feudais que, sem esforço, podemos equiparar à ideia de democracia, baseada no princípio dito do QOT que, traduzido do tópico latinista, sempre quis dizer: o que a todos diz respeito, por todos deve ser decidido. O tal princípio, bem relatado por Fernão Lopes, assente no dever geral de conselho, que obrigou à eleição do rei, contra os pactos de Salvaterra do senhorio de honra, em nome do senhorio natural das velhas franquias nacionais que, entre nós, nunca admitiram o rei morto, rei imposto, quando os reinos não eram monarquias de tradução em calão. Claro que os pretensos bolonheses dos nossos dias têm outra genealogia. Dizem que estão contra o “magister dixit”, mas praticam coisa pior: o “burocrata dixit”. Pior: cedem ao domínio do ninguém (Hannah Arendt) de certo comunismo burocrático (J. P. Oliveira Martins) que assume o gnosticismo das reformas feitas de amanhãs que cantam e continuam essa estratégia lançada pelo veiga-simonismo, que sempre foi a de irmos de decretino reformista em decretino conservador do que está, a caminho da derrocada final da ideia criativa de universidade. Por isso me entusiasmou o pensamento essa possibilidade de uma aula medieval “de quod libet”, sem magistrais lições de sapiência, mas com o peripatético da tópica da Academia de Platão e do Liceu de Aristóteles, que sempre foi dar um passeio à volta de um problema, tirando várias perspectivas da coisa complexa, conforme as concepções do mundo e da vida dos observadores que pensam de forma racional e justa. O problema que ontem debatemos foi o do politicamente correcto e tive a honra de imoderadamente moderar os meus colegas e mestres Saldanha Sanches e Rosado Fernandes, sem que este último assumisse a postura hierarquista de antigo reitor dos outros dois. E lá se foram os fantasmas e preconceitos da direita e da esquerda e lá se destruíram as pretensas barreiras dos palanques das pretensas autoridades que o pensam ser só porque falam de cima para baixo, como actores face a uma audiência passiva. Porque os auditores também passaram a autores e tiveram intervenção.

Nov 22

O país real. A fronteira com Espanha recuou para Setúbal

Nestas conversas de corredor, de que é feita a universidade, discutia há pouco com o meu colega Mora Aliseda sobre as diferenças de desenvolvimento entre o interior de Portugal e o interior de Espanha. Pouco depois, ele mandou-me um mapa, elaborado pelo Professor Doutor João Ferrão que, por acaso, é secretário de Estado do actual governo. Fiquei esclarecido. A azul claro estão as freguesias regressivas, a azul mais escuro, as que estão em coma. Percebi a falta que nos faz um resto de Estado que volte ao lema do rei povoador. E voltei a admitir que deveríamos acabar com a capital, começando pela compressão dos capitaleiros, especialmente dos que continuam a estratégia desenvolvimentista do crescer a caminho do mar sem crescermos por dentro e para dentro. Confirmei que Portugal é uma ilha, sem direito a jangada de pedra. Não tarda que sejamos atirados borda fora. E não há ninguém que declare o estado de emergência? Por mim, preferia a institucionalização de regiões, por razões de salvação pública, e que se apostasse numa estratégia nacional assente em perspectivas rurbanas…  Voltei a dar razão a meu mestre Herculano, quando ele denunciava o centralismo como um fideicomisso do absolutismo, mantido no liberalismo e na democracia. Percebi Joaquim Pedro de Oliveira Martins e a sua lei de fomento rural. Entendi Ezequiel de Campos e a sua denúncia sobre a falta de organização do trabalho nacional. Procurei saber se ainda existe um partido de agrocratas, como o defendeu Rodrigo Morais Soares. Dizem-me até que a semente lançada por Gonçalo Ribeiro Teles deu em fados e guitarradas, numa espécie de produção de novas melancias de outra cor, ao serviço do PSL.  E meditei nalgumas imaginações. Mudarmos o parlamento para o Porto. A sede do poder judicial para Coimbra. Restaurarmos o reino e o rei povoador, sem o confundirmos com a monarquia. E até me apeteceu propor que minha universidade deixasse de ser UTL e passasse a ser Universidade Técnica de Portugal, com todos os mestres e instalações lá para as bandas de Elvas, mas sem que se repetissem competidores em Lisboa. Cheguei à conclusão que me chamariam louco, por ousar uma espécie de um arquipélago de novas Portugálias, assim à maneira de Brasília, plurais e com diminutivos. Concluí apenas que estou a querer grandeza, incompatível com este Portugalório de bonzos, canhotos e endireitas. Mas não decidi calar.

Nov 21

Ditadores. Negócios Entre Chávez e Hitler, venha o diabo e escolha o fornecedor de gás natural!

Se eu tivesse que dar um conselho aos chefes da república dos portugueses, dir-lhes-ia que um diplomata até deve conversar com o diabo. Logo, acho normalíssimo que eles recebam o semi-índio venezuelano e que encene, com pompa e circunstância, um contrato de fornecimento de produtos petrolíferos, com eventuais garantias de não-perseguição a mais de meio milhão de portugueses e luso-descendentes. Ai da diplomacia de uma democracia pluralista que corte os canais de comunicação e de negócio com bem mais de metade da humanidade que não obedece aos nossos conceitos de poliarquia e de Estado de Direito. Dizer isto não significa que goste de ver um avozinho da democracia transformado em caixeiro viajante de uma companhia petrolífera, mesmo quando subscreve o velho ditado, segundo o qual o que é bom para a Galp é bom para a República Portuguesa. Porque o terei de comparar às incoerências do regime salazarento que tanto decretou luto nacional pela morte de Hitler, o tal que mandou assassinar o salazarista austríaco Dolfuss, como sempre manteve relações diplomáticas com o regime de Fidel de Castro. Não por causa daquilo que Sócrates também fez com Chávez, mas pelo discurso para consumo interno que produzia.  Aliás, não consta que o ministro e primeiro-ministro Mário Soares tenha alguma vez proposto o corte de relações diplomáticas com o regime de Augusto Pinochet. Ou que não tenha continuado a admirar Salvador Allende, ou a ser amigo do seu camarada socialista venezuelano Carlos Andréz Perez. Sempre gostei do Oliveira de Figueira e dos caixeiros viajantes da política, mas prefiro a liberdade de expressão das minorias.  Se eu fosse venezuelano também detestava Chávez. E não o justificava com a chegada ao poder pela via eleitoral, quase nas mesmas circunstâncias em que Hitler conquistou os aparelhos de repressão. Sou mais poliárquico do que democratista, pelo que só quero democracias que não sejam absolutistas, mas antes pluralistas e poliárquicas. Porque tanto pode haver absolutismos monárquicos de um só, como absolutismos democráticos, quando se tira o rei absoluto e se põe, em lugar do dito, o povo absoluto, produtor de terror. Por mim, só sou democrata se a democracia for liberal, conforme as tradições pluralistas que nos foram legados pela revolução inglesa, pela revolução norte-americana e pelas pós-revoluções demoliberais da história europeia e americana, ao Norte e ao Sul. Continuo malhadamente cartista e liberdadeiro. De outra maneira teria que subscrever o conceito de democracia de certos totalitarismos contemporâneos, marcados pelos sovietistas, pelos maoístas ou pela instrumentalização que os nazis fizeram do povo em movimento. Logo teria que admitir a hipótese de uma ditadura de uma vanguarda, de um Estado, de um partido único ou de uma maioria eleitoral conjuntural. Prefiro dizer democracia à Robert Dahl ou à Karl Popper: o problema fundamental das actuais democracias pluralistas e de Estado de Direito não é medir quem manda, mas controlar o poder daqueles que mandam, salvaguardando as minorias, isto é, permitindo que a liberdade as transforme, eventualmente, em futuras maiorias, isto é, admitindo os golpes de Estado sem sangue que resultam das alterações por via eleitoral.

Nov 21

Entrevista a O Diabo

Questões:

 

1 — Em 1 de Dezembro de 1640 foi declarada e restabelecida a independência de Portugal face a 60 anos de domínio espanhol. Considera que podemos continuar a aspirar pela sua continuidade ou estará a nossa independência ameaçada?

 

Portugal nunca perdeu a independência durante os 60 anos de reinado dos Filipes, onde os Habsburgos, descendentes de Carlos V, legalmente eleitos reis de Portugal, por deliberação das Cortes de Tomar, nos integraram num império europeu que também abrangia parte fundamental daquilo que é hoje a União Europeia, incluindo Bruxelas. Em 1640 apenas houve uma rescisão por justa causa e a criação de um movimento que nos fez eleger um novo rei, num processo paralelo ao que ocorreu naquilo a que hoje chamamos Holanda. A nossa independência estará sempre ameaçada se a não fizermos radicar naquilo que Alexandre Herculano qualificava como a vontade de sermos independentes. Isto é, a independência deriva mais de factores internos que de ameaças externas. Seria estúpido que continuássemos a antiquada perspectiva que coloca o independentismo português como mera consequência da ameaça espanholista, fazendo revisionismos históricos. A Espanha voltou a ser uma pluralidade de Espanhas e a melhor forma de as compreendermos está em reconhecermos que se está a dar uma espécie de portugalização do Estado Espanhol, como antevia Miguel de Unamuno, dado que se estão a libertar as energias das nações proibidas pelo absolutismo de Madrid, marcado pela política de Olivares. Eu que me considero um europeísta, adepto do divisão dos imperialismos frustrados que nos geraram a Europa da hierarquia das potências, para que se possa atingir a unidade na diversidade da Europa das libertações nacionais, não posso deixar de ser um adepto da união ibérica, sob a forma de uma aliança peninsular que passe por Madrid, Barcelona, Bilbau, Sevilha, Santiago de Castela e Valência, embora sem vontade de destruir séculos de Estado Espanhol. E até acredito que no espaço europeu é possível semear essa velha ideia através da Espanha juancarlista, plural e autonómica.

 

 

2 — A data histórica que assinala a restauração da independência tem sido dignamente recordada? Que significado tem ainda esta data para os portugueses?

 

Julgo que não. Seria interessante que num próximo dia 1 de Dezembro, a poderíamos comemorar reeditando os tratados dos grandes juristas da Restauração, como Francisco Velasco Gouveia e João Pinto Ribeiro, mas demonstrando como esses textos justificadores da revogação do título de rei de Portugal à casa de Áustria se basearam em autores espanhóis da neo-escolástica, como Francisco de Vitória e Francisco Suárez, criadores de uma teoria hispânica da democracia e das liberdades nacionais. Porque o 1º de Dezembro de 1640 foi a base da actual perspectiva moderna, precursora da Regeneração de 1820. Sem 1640 não teríamos reinventado a identidade nacional, no contexto da Europa dos Estados Modernos, consagrada em Vestefália, não passando hoje de mera saudade sem presente, perdidos nas brumas de uma memória de autonomia nacional. Contudo, se perspectivarmos o Portugal universal, poderíamos dizer, como ensinava Agostinho da Silva, que 1640 teve outra mais importante consequência: permitiu a criação do Brasil, permitiu que as principais energias do independentismo lusíada assentassem no lado de baixo do Equador e que se preparasse a mudança da capital do reino para o Rio de Janeiro, conforme uma estratégia nacional que estava amplamente delineada por D. Pedro II, bem antes de D. João VI. E foi do Brasil que saiu Salvador Correia de Sá para fundar outra cidade de São Paulo, a de Luanda, assim se dando corpo ao novo triângulo estratégico atlântico do oceano lusíada, entre o Rio, Luanda e Lisboa.

 

 

3 — Na sua opinião de e para que serve hoje a invocação da soberania nacional?

 

Para muitos continuarem a não perceber que a independência nacional não se identifica com os conceitos de Estado e de Soberania. O primeiro apenas surgiu em 1531, com Maquiavel. O segundo em 1576, com Bodin. O nosso D. João II e o respectivo sucessor, a quem o primeiro deu a armilar, preferiam os velhos mas não antiquados conceitos de república e de autonomia nacional, conforme foram consagrados na primeira constituição portuguesa, aprovada nas Cortes de Coimbra de 1385. E estas ideias políticas sempre conceberam as comunidades políticas como repúblicas que se poderiam integrar numa república maior. Na altura era a bela “respublica christiana” que permitiu a “cosmopolis” do Euromundo, hoje uma Nação-Estado é algo que pode e deve integrar-se num outro grande espaço, que pode ser a Europa e a própria república universal, com respeito pelo princípio da subsidiariedade e a consequente libertação nacional, assim a Europa e o Mundo possam ser nações de nações e democracias de democracias. Tem sido esta a reivindicação dos tradicionais humanismos europeus, desde o humanismo cristão ao humanismo laico, incluindo o maçónico, com a sua república de irmãos, como homens livres ou homens de boa vontade. Por mim, não vejo grande diferença entre Kant e João Paulo II quanto aos objectivos essenciais da vontade de independência nacional e de criação de uma república universal. Todo o nosso plural humanismo subscreve as teses de São Paulo, Marco Aurélio e Erasmo que se conjugaram em 1640.

 

4 — Depois da independência do domínio espanhol, só conseguida em 1640, o que é que foi mais importante para a História: a revolta ou a efectiva independência?

 

O chamado domínio espanhol é um conceito equívoco, como já o procurei demonstrar. Tem a ver com preconceitos e fantasmas que até esquecem que o nosso Filipe I, o Filipe II de Espanha, era mais português do espanhol, filho de uma princesa lusitana e de um belga, Carlos V. E talvez seja necessário recordar que quando chegaram a Madrid notícias do ocorrido em Lisboa no 1º de Dezembro, os madrilenos até ficaram satisfeitos e aprenderam, a partir de então, a ter que admitir, pelo menos, dois Estado na península. Basta recordar que entre 1640 e 1668 vivemos em estado de guerra com um vizinho que era uma das principais potências militares da Europa e que não perdemos a guerra. Isto é, os vizinhos perderam a vontade de se mobilizarem para esmagarem a nossa vontade. E não constam que tenham feito expedições militares para esmagarem a América Portuguesa que era, já na altura, a principal reserva das saudades de futuro do Portugal Universal. Isto é, 1640 revela que houve uma estratégia nacional de independência, misturando a massa crítica (população, mais território, mais economia, mais força militar) com a vontade de sermos independentes, o tal factor intangível que pode fazer das fraquezas, forças e que evita que as potencialidades se tornem vulnerabilidades. Se chamarmos a isso revolta com pensamento, óptimo.

 

5 — Temos perdido ou não elementos importantes da soberania nacional?

 

Já disse que não sou soberanista nem estadualista. A soberania pode ser entendida conforme a perspectiva de um teórico bodinista desse século XVII, um tal Miguel de Vasconcelos, que era simultaneamente soberanista e filipista, adepto de Olivares. Tal como hoje pode haver soberanistas que coloquem essa abstracção em Bruxelas, no Vaticano ou em Washington. Por mim, que sou federalista e nacionalista, prefiro a soberania divisível, para cima e para baixo. Isto é, tanto admito a transferência de parcelas dessa soberania para entidades maiores do que o Estado (p.e. para o projecto europeu ou para um Tribunal Penal Internacional), como para entidades infra-estatais (p.e. para regiões políticas). O conceito clássico de república não pode ter medo de repúblicas maiores e menores e muito menos de coisas políticas que se passam entre os povos e as sociedades civis, naquilo a que chamamos relações transnacionais, ou trans-estaduais, assentes na autonomia das sociedades civis. Continuo mais nacionalista do que soberanista e mais federalista do que estadualista, especialmente quando não admito Estados que proíbam nações ou até Estados que construam nações. Prefiro nações que dividam Estados, para permitirem repúblicas que resultem de nações, desde que possam integrar-se noutras repúblicas maiores. Como dizia Fernando Pessoa, cada nação é sempre um ponto de passagem para a super-nação futura.

 

6 — Há quem diga que a Espanha está a conquistas pela via económica o que não conseguiu pela via das armas. Concorda?

 

Seria melhor descodificarmos cada um desses investimentos estrangeiros, dando o nome real às coisas conquistadoras e percebendo que o Estado não é o mercado. Num mundo de geofinança e de geo-economia, os capitais não têm pátria. Apenas reparo que muito do que dizem capital espanhol é capital das multinacionais e transnacionais que puseram a sede em Madrid, por falta de estímulos das leis e dos burocratas portugueses. Até noto que alguns dos agentes de certas promessas lusitanas de fusão vêm de capitais oriundos da Catalunha. Acresce até que face a problemas internos do Estado espanhol, muitas das vontades madrilenas de investimento são apenas consequência da autonomia financeira catalã e basca, gerando-se um excedente que desliza para ocidente, dado que a boa moeda costuma expulsar a má moeda ou, dito de outra forma, por falta de bons capitalistas portugueses, muitos destes organizam campanhas anti-espanholas, para disfarçarem a respectiva falta de qualidade face aos congéneres ditos “hermanos”. Como sou liberal, julgo que não devemos gastar energias nacionais com proteccionismos assentes em fantasmas e preconceitos. O meu nacionalismo é político e nunca económico, até porque os problemas económicos se resolvem apenas com medidas económicas, embora não apenas com medidas económicas. Precisam também de estratégia nacional, assente na autonomia das repúblicas, isto é, de um poder político mobilizador e de uma governação que saiba gerir dependências e navegar na interdependência, com mais política e mais sociedade.

 

Nov 20

Todas as liturgias são ridículas fora dos templos em que se dá a comunhão e a religação

20.11.07
Todas as liturgias são ridículas fora dos templos em que se dá a comunhão e a religação
Os chineses do século XVI diziam que os portugueses eram bárbaros, isto é, diabos vermelhos, porque comiam pedras (pão) e bebiam sangue (vinho), tal como outros povos diziam que os cristãos eram antropófagos porque, em seus cerimoniais, comiam o corpo de um deus feito homem. É o que fazem todos os que são marcados pela incompreensão face aos símbolos decepados da unidade espiritual de que os rituais são simples parcela.

É por esta e por outras que detesto todo o sectarismo que pretende monopolizar o sagrado para a respectiva liturgia e que, fradescamente, semeia a intolerância, insinuando o ridículo face as alfaias que os outros usam para os mesmos fins. Afinal, todas as liturgias são ridículas fora dos templos em que se dá a comunhão e a religação. Contudo, mais ridículos ainda são os que não têm liturgia sentida por dentro, ou os que se ficam pelos sucedâneos e pelas vulgatas de certo dogmatismo pretensamente antidogmático.

Por mim, que, sobre as verdades eternas, apenas sei que nada sei, resta-me continuar a procura da verdade, pelos variados caminhos que segue aquele que apenas pretende ter a boa vontade daqueles que querem conquistar a glória do homem livre. Porque ninguém pode deter o monopólio do “imprimatur” e do “nihil obstat” para a edição desses manuais de metodologia, com os consequentes livros únicos dos inquisidores, vanguardistas, vigilantes da revolução, ou contínuos e sargentos do senhor director.

Nov 20

O hábito, se não faz o monge, sempre consegue disfarçá-lo

Sempre às voltas com McLuhan e a aldeia global. Porque tanto na Galáxia de Gutenberg como na Galáxia de Marconi o “medium” é mais importante do que a “mensagem”. Porque, afinal, o hábito, se não faz o monge, sempre consegue disfarçá-lo, embora nem só a vestimenta faça o corpo que a sustenta. Claro que Gutenberg permitiu traduzir a bíblia com que Lutero desfez a “respublica christiana” e o império restaurado pelos papas na constelação de poderes que sustentava os Habsburgos. Da mesma maneira, as tipografias e os tipógrafos fizeram as democracias liberais e os nacionalismos das primaveras dos povos do século XIX. Tal como a electricidade promoveu o comunismo e o transístor e a electrónica tiveram como consequência a queda do muro e o fim do sovietismo, que acabou por não ser o fim da história. Porque graças à dita Guerra Fria surgiu a Internet e graças à teledemocracia surgiram os Sócrates, os Sarkosy, os Berlusconi e os Blair. Porque, em política, se o que parece foi, agora só o que aparece é que pode ser, desde que haja adequado investimento em agências de comunicação. McLuhan tem mesmo razão, a propaganda para ser eficaz não pode parecer que é propaganda.